"O Menino Que Quebrou o Farol do Milionário" Capítulo 4
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Renata bloqueou a porta antes que Adriano saísse.
— Exposição pública pode destruir a cadeia de prova.
— A ligação está gravada.
— Chantagem ligada à cirurgia. Ainda precisamos ligar Camila ao acidente, à certidão falsa e às cartas.
— Quanto tempo?
— Dê-me a noite.
Adriano voltou ao quarto. Olívia tinha adormecido. Caio desenhava sobre a mesa de refeições, e Heloísa assinava os documentos de guarda com a assistente social.
— O que é? — perguntou Adriano.
Caio cobriu a folha.
— Nada.
— Tudo bem.
O menino esperou uma ordem. Como ela não veio, mostrou o desenho: um carro preto com o farol amarelo de um lado e branco do outro. Três pessoas estavam na calçada. A figura masculina não tinha rosto.
— Vai mandar consertar?
— Talvez eu guarde quebrado.
— Carro feio.
— Lembra o dia em que você me encontrou.
— Eu não estava procurando você. Estava procurando ajuda.
— Certo.
Caio voltou ao desenho. Adriano sentou na poltrona sem abrir o notebook. Pela primeira vez em anos, uma reunião do conselho começou sem ele. Três diretores telefonaram. Ele desligou o aparelho.
À meia-noite, Renata trouxe uma linha do tempo. O investigador que identificara o veículo queimado recebera quatro depósitos de uma consultoria ligada a Camila. A certidão de óbito usava o número de prontuário de outra mulher. O protocolo das cartas indicava o mesmo funcionário, demitido havia dois anos.
— Encontramos o caminhoneiro — disse Renata. — José Nunes, sessenta e um. Lembra de tirar uma mulher e um bebê do carro. Quando voltou ao hospital para saber deles, disseram que tinham sido transferidos.
— E o hospital?
— A admissão de Olívia foi apagada do sistema principal, mas uma enfermeira guardou cópias.
— Nome.
— Miriam Costa.
Renata mostrou uma fotografia recente. Mulher negra, cabelos grisalhos em tranças curtas, óculos finos.
— Ela denunciou Camila depois de vê-la retirar Caio do berçário sem autorização. O relatório sumiu. Miriam levou cópias para casa e se aposentou seis meses depois.
— Ela falará?
— Já está vindo.
Adriano olhou para Olívia.
— Camila tentou levar Caio?
— Segundo Miriam, ficou quarenta minutos com ele. Pode ter coletado a pulseira de identificação e dados suficientes para produzir documentos.
Heloísa entrou na sala reservada trazendo uma caixa de metal.
— Estava no arquivo da família, atrás dos livros de atas.
Renata colocou luvas e abriu. Havia os documentos originais do fundo de Caio, fotografias e cópias de cartas enviadas por Olívia.
— Por que Camila guardaria isto? — perguntou Adriano.
— Seguro — respondeu Renata. — Se você tentasse retirá-la do conselho, ela provaria que o grupo administrou ações de um herdeiro vivo durante anos. Escândalo, bloqueio patrimonial, investigação.
Adriano encontrou uma foto do primeiro aniversário. Caio tinha bolo azul no rosto. No verso, Olívia escrevera: "Ele bate palmas quando ouve seu nome."
A seguinte mostrava o menino em pé, segurando a lateral de um sofá.
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— Ela mandou tudo.
— E nós arquivamos a ausência — disse Heloísa.
Adriano fechou a caixa.
— Renata, convoque dois investigadores e um representante do Ministério Público. Quero cada prova duplicada antes do almoço.
— E você?
— Vou ficar até Olívia entrar na cirurgia.
Perto das quatro, ela acordou e encontrou Adriano na poltrona.
— Ainda aqui?
— Caio me contou que você odeia tempestade.
— Eu não odeio.
— Ele odeia. Finge que é você para não admitir.
Olívia virou o rosto para o filho adormecido no sofá. Heloísa o cobrira com o próprio casaco.
— Ele aprendeu a proteger adulto cedo demais.
— Quero ajudar a desfazer isso.
— Querer nunca foi seu problema.
Adriano aceitou a frase.
— Eu trouxe as cartas.
— Leu?
— Apenas os versos e as fotos necessárias para a prova. O restante é seu.
Ela o estudou por alguns segundos.
— O que vai fazer com Camila?
— Entregá-la à polícia.
— E depois?
— Voltar para cá, se você permitir.
Olívia ajeitou o lençol.
— A cirurgia acontece às seis. O almoço dela é ao meio-dia.
— Eu sei.
— Se eu morrer...
— Não.
— Não me interrompa. Se eu morrer, não crie Caio achando que dinheiro torna alguém importante. Ensine a ouvir quando uma pessoa está com medo.
Adriano baixou os olhos.
— Vou ensinar.
— E não conte que chegou a tempo.
Ele ergueu o rosto.
— Cheguei sete anos tarde.
Olívia apertou o botão da cama. A cabeceira desceu lentamente.
— Pelo menos uma verdade sobreviveu à noite.
No corredor, Renata recebeu uma nova mensagem. Mostrou a tela a Adriano: Miriam chegara à cidade com os prontuários originais.
Abaixo, havia outra informação.
Camila acabara de ordenar a destruição do arquivo morto da empresa.
Adriano ligou pessoalmente para o chefe de segurança. Pediu transmissão ao vivo das câmeras do subsolo e uma relação de todos os acessos nas últimas vinte e quatro horas.
— A ordem veio assinada pela vice-presidência — informou o homem. — Uma empresa de descarte já está na doca.
— Feche o portão. Preserve o caminhão e identifique a equipe. Não confronte ninguém.
— E se tentarem sair?
— Chame a polícia.
Renata levantou uma sobrancelha quando ele encerrou.
— Nenhum arrombamento. Estou impressionada.
— Guarde para depois.
O chefe de segurança enviou imagens. Dois homens empilhavam caixas marcadas como correspondência pessoal e fundos sucessórios. Um deles fotografava etiquetas antes de colocá-las no carrinho.
— Amplie a identificação da empresa — pediu Renata.
O logotipo pertencia a uma firma criada oito meses antes por um primo de Camila. A ordem de descarte fora emitida horas depois da ligação ao hospital.
— Agora temos tentativa de obstrução — disse Renata.
Adriano assistiu ao vídeo sem som. Durante anos, assinara relatórios que elogiavam a eficiência de Camila em reduzir arquivos físicos. Cada elogio lhe voltou como uma porta fechada.
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— Quantas pessoas sabiam?
— Saber e cumprir ordem são coisas diferentes. Vamos descobrir.
Heloísa levou Caio à cafeteria. Olívia chamou Adriano antes que ele saísse.
— Mostre a gravação.
Ele entregou o telefone. Ela viu os homens retirando caixas e reconheceu uma etiqueta.
— Essa era a pasta do fundo de Caio. Camila levou uma cópia ao hospital.
— Tem certeza?
— Passei doze dias olhando para o logotipo enquanto ela dizia que você não nos queria.
Renata registrou a identificação em vídeo. Olívia descreveu a cor da pasta, a posição do selo e a página em que aparecia a falsa assinatura.
— Não pressione mais — disse Adriano quando a voz dela falhou.
— Eu consigo.
— O monitor está acelerando.
Olívia olhou para a tela. A linha confirmava o que ele dissera.
— Odeio quando você tem razão.
— Eu costumava gostar.
— Eu lembro.
Ele chamou a enfermeira e recuou. Olívia controlou a respiração. Quando o ritmo baixou, Adriano pediu permissão para pegar o telefone.
— Pode.
Era uma palavra pequena. Ainda assim, ele esperara ouvi-la.
Renata recebeu a confirmação de que a polícia apreendera o caminhão. Entre as caixas havia o livro de protocolo original, com quarenta e três entradas de correspondência enviada por Olívia.
— Amanhã não será apenas a palavra dela contra Camila — disse.
— Nunca foi — respondeu Adriano. — Só faltava alguém decidir escutar.
Renata fotografou cada página antes que o material seguisse para a perícia. Havia carimbos, datas e assinaturas de funcionários que Camila jurara nunca ter conhecido.
Adriano reconheceu dois nomes: um motorista demitido depois do acidente e uma funcionária do arquivo transferida sem explicação. Pediu que ambos fossem localizados, mas não ofereceu dinheiro nem imunidade.
Renata deixou claro que qualquer acordo passaria pela polícia. Do quarto, Olívia ouviu a conversa e corrigiu uma data sem levantar a voz.
Pela primeira vez, a investigação avançava com ela no centro, não como objeto de uma disputa entre pessoas poderosas.
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