"O Chefe da Máfia Descobriu os Trigêmeos" Capítulo 1
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A taça escapou dos dedos de Gabriel Cruz e explodiu no mármore do Palácio Tangará.
O som atravessou o quarteto de cordas, as conversas e o tilintar dos talheres. Fotógrafos se viraram. Dois seguranças levaram a mão ao paletó. Serena Valença ergueu o braço antes que eles avançassem.
— É o homem da foto — disse Olavo.
Clara Montenegro apertou a mão do filho. Cinco anos de ensaio não haviam incluído o barulho do cristal quebrando nem a forma como Gabriel ficaria imóvel sob os lustres.
Ele parecia mais velho. As linhas ao redor dos olhos haviam se aprofundado. O cabelo preto continuava rebelde junto à testa, e a camisa escura aberta no pescoço ainda deixava à mostra a ponta da tatuagem que os jornais adoravam associar ao apelido Chefe.
Serena estava ao lado dele num vestido prateado.
A mulher escolhida em seu lugar.
Enzo se colocou meio passo à frente dos irmãos. Lucas agarrou a saia vermelha da mãe. Olavo manteve o avião de papel apontado para Gabriel.
— Que foto? — perguntou o menino.
Gabriel ouviu. Seu olhar encontrou Clara e perdeu a frieza com que enfrentara investigações federais, greves portuárias e homens armados diante dos próprios armazéns.
Depois viu os três.
Cabelos escuros. Olhos cinza-esverdeados. O mesmo vinco entre as sobrancelhas quando tentavam entender algo.
Ele pisou sobre um fragmento de vidro sem notar.
— Quantos anos eles têm?
— Cinco.
A mão direita de Gabriel começou a tremer. Ele a fechou em punho junto ao corpo.
— Clara.
Ela conhecia aquela voz. Havia uma pergunta inteira dentro do nome.
— Os três são seus.
Um murmúrio correu entre as mesas. Um fotógrafo levantou a câmera. Serena atravessou a linha de visão e ordenou aos seguranças que fechassem o corredor leste.
Olavo soltou o avião. O papel bateu no peito de Gabriel e caiu perto do sapato dele.
Gabriel se abaixou. Por um segundo, Clara preparou o corpo para puxar os filhos para trás. Ele apenas recolheu o avião, ajoelhou a uma distância segura e o colocou no chão entre eles.
— Você é o nosso pai? — perguntou Olavo.
Gabriel olhou para Clara antes de responder.
— Se a sua mãe diz que sou… então sou.
Enzo cruzou os braços.
— Você não sabia?
— Não.
Lucas encostou o rosto no quadril da mãe. Clara passou a mão por seu cabelo.
— Este lugar não serve para essa conversa.
Gabriel se levantou devagar.
— Tem uma sala para famílias atrás da galeria. Sem imprensa.
Serena já falava com a presidente da fundação. Não havia carinho secreto entre ela e Gabriel, nenhum olhar de casal. Ela assumiu o conselho da noite com uma eficiência que Clara não esperava.
— Eu cuido daqui — disse Serena.
— Obrigado.
Gabriel não desviou os olhos dos meninos.
Clara pediu a opinião deles. Enzo deu de ombros. Lucas assentiu contra o vestido. Olavo perguntou se a sala tinha comida.
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O sorriso que apareceu no rosto de Gabriel foi pequeno e desajeitado.
— Consigo arrumar alguma coisa.
Foi assim que o homem mais temido do setor de logística conheceu os filhos: seguindo três meninos em direção a uma sala azul, enquanto funcionários retiravam os cacos da primeira coisa que ele deixara cair em público.
A sala tinha livros, quebra-cabeças e um trem de madeira. Uma voluntária trouxe suco de maçã, biscoitos e frutas. Gabriel tirou o paletó, dobrou-o sobre uma cadeira e sentou-se no sofá oposto.
Não tocou nas crianças. Não reivindicou nada. Manteve as mãos abertas sobre os joelhos.
Enzo o observava.
— Qual é o seu nome?
Gabriel demorou um instante.
— Gabriel.
— A gente sabe — disse Olavo. — Mamãe tem uma foto.
Clara fechou os olhos. Gabriel voltou-se para ela.
— Você guardou uma fotografia?
— Do casamento. Um dia eles perguntariam.
— O que contou?
— Que fomos casados. Que você não sabia que eles existiam.
Gabriel baixou os olhos para as próprias mãos.
— Quando você descobriu?
— Doze dias depois que saí da sua casa.
Ele levantou a cabeça.
— Doze?
— Quase oito semanas. Três médicos confirmaram.
A matemática atravessou o rosto dele. O último fim de semana em Campos do Jordão. A manhã em que nenhum telefone tocou. Clara reconheceu a lembrança sem precisar ouvi-la.
— Por que não me ligou?
Ela olhou para Lucas, que empurrava o trem pela pista.
— Não aqui.
O antigo Gabriel teria exigido resposta. Aquele homem assentiu.
Uma voluntária surgiu à porta avisando que jornalistas perguntavam pelo anfitrião. Gabriel se levantou.
— Diga que fui embora. Clara e os meninos saem por outro acesso. Ninguém publica endereço, escola ou imagem deles.
Quando Clara reuniu os casacos, Gabriel estendeu a mão para o de Olavo e parou no meio do movimento.
— Posso?
Ela entregou a peça. Ele se agachou e ajudou o menino a vestir. Olavo o examinou.
— Você é muito alto.
— Já me disseram.
— Mamãe diz que ser alto não põe ninguém no comando.
Lucas riu. Gabriel olhou para Clara e soltou uma risada que ela não ouvia desde os primeiros anos do casamento.
— Sua mãe está certa.
No estacionamento, os seguranças abriram rotas separadas. Antes de entrar no carro, Clara viu Gabriel parado sob a marquise, o avião de papel ainda na mão.
Olavo baixou o vidro.
— A gente vai ver você de novo?
Gabriel não respondeu por Clara. Esperou.
— Os adultos vão conversar — disse ela.
— Parece justo — respondeu ele.
O carro partiu. No retrovisor, Gabriel permaneceu imóvel até os filhos desaparecerem na curva.
Dentro do sedã, os três falaram ao mesmo tempo. Enzo queria saber por que um pai não conhecia os próprios filhos. Lucas perguntou se o homem perigoso dos jornais também sabia montar trens. Olavo só lamentava ter deixado seu melhor avião nas mãos de um desconhecido que, de repente, não era desconhecido.
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Clara respondeu apenas o que conseguia responder sem mentir. Disse que Gabriel não soubera da gravidez. Disse que adultos podiam cometer erros grandes e ainda assim tentar fazer a coisa certa depois. Não prometeu que ele estaria no café da manhã seguinte, nem que seria chamado de pai. Protegeu os meninos da esperança rápida com a mesma firmeza com que os protegera da imprensa.
No palácio, Gabriel continuou sob a marquise até Serena se aproximar. Ela recolheu do chão uma metade da taça quebrada que um funcionário não vira.
— Três — ele disse.
— Eu contei.
— Eles nasceram sem que eu soubesse.
Serena não ofereceu consolo. Conhecia o homem diante dela e sabia que qualquer frase suave poderia virar uma ordem, uma investigação ou um comboio seguindo Clara pela cidade.
— Não transforme o susto deles numa operação sua.
Gabriel abriu a mão. O pequeno avião estava amassado entre os dedos. Ele o alisou com uma delicadeza incompatível com sua fama.
— Mande a segurança apagar as imagens internas.
— Já mandei preservar, não apagar. Se alguém publicar, precisamos saber de onde saiu.
Ele assentiu. Era a primeira decisão daquela noite que outra pessoa tomava por ele. No carro, recusou o telefone que o assessor lhe estendeu. Havia mensagens de ministros, investidores e homens que lhe deviam favores. Nenhuma parecia importante.
Quando chegou ao apartamento vazio, pousou o avião sobre a mesa. Pesquisou quanto uma criança de cinco anos dormia, o que comia e se trigêmeos costumavam nascer prematuros. Fechou cada página sentindo que roubava informações que deveria ter aprendido ao lado deles.
Às duas da manhã, escreveu para Clara. Apagou sete versões. A mensagem final tinha apenas uma linha: "Não vou procurar a escola nem o endereço. Espero você me dizer como proceder."
Clara leu sem responder. Mesmo assim, pela primeira vez desde o som da taça se partindo, conseguiu soltar o ar.
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