"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 10
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A pergunta atravessou os meses seguintes em manchetes, audiências e corredores de tribunal.
Helena recusou entrevistas exclusivas. O Grupo Alencar publicou apenas comunicados jurídicos. Beatriz contratou uma equipe independente para revisar seguros, trustes e protocolos de proteção infantil de todas as fundações ligadas à empresa.
Clara e Bento voltaram à escola em horários diferentes durante as primeiras semanas. A câmera instantânea ficou numa gaveta. Clara dizia que não queria mais registrar pessoas sem saber o que faziam depois da foto.
A psicóloga trouxe outra câmera, simples, e propôs fotografar apenas lugares seguros. Clara começou pela janela aberta do quarto. Depois fotografou a mão de Bento segurando um biscoito, a avó no jardim e a mãe trabalhando com a porta entreaberta.
O julgamento começou onze meses após o passeio. Ricardo entrou de terno escuro, escoltado. Lavínia usava roupa bege e mantinha os olhos no chão. Nunes compareceu separado, beneficiado apenas pela confissão e pela entrega do disco.
Mauro depôs sobre as perguntas da cotação. Leu os horários e confirmou que Ricardo queria saber o prazo de pagamento em morte simultânea. A defesa tentou apresentar as dúvidas como zelo financeiro.
— Zelo costuma começar pela prevenção — respondeu Mauro. — Ele começou pela indenização.
Raul demonstrou o mecanismo do piso e a alteração dos coletes. Joana descreveu a operação, a retirada das crianças e a queda de Helena. Os agentes que estavam atrás da divisória confirmaram que Ricardo segurou a esposa e abriu a mão.
Lavínia tentou reduzir sua participação. Disse que obedecia por medo e dependência emocional. O Ministério Público exibiu mensagens nas quais ela pressionava Ricardo, cobrava datas e ameaçava contar os desvios caso ele recuasse.
— "As crianças primeiro" — leu a promotora. — Foi escrito por quem?
Lavínia encostou a língua no lábio seco.
— Por mim.
— "Acaba logo"?
— Por mim.
— Os pesos nos coletes?
— Eu comprei.
Ricardo fechou os olhos. O acordo de silêncio entre os dois terminou diante do júri.
Clara não entrou no plenário. Seu depoimento foi gravado numa sala protegida, com perguntas filtradas pela juíza e a psicóloga ao lado. Contou sobre a tesoura, a cola e a ameaça de que a mãe seria presa. Quando perguntaram por que tirara as fotografias, ela olhou para a câmera.
— Era meu aniversário. Eu queria lembrar.
Helena ouviu do lado de fora. Manteve as mãos abertas sobre o colo até a gravação terminar. Ao sair, Clara pediu sorvete e não perguntou pelo resultado.
Ricardo decidiu depor. Disse que amava os filhos, que a abertura do piso fazia parte de uma demonstração, que soltara Helena após perder equilíbrio e que Lavínia conduzira a fraude.
A promotora colocou a apólice diante dele.
— Por que declarou seus filhos mortos depois de vê-los na lancha?
— Eu estava em choque.
— Por que protocolou o pedido no dia seguinte?
— Minha advogada orientou a preservar direitos.
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Lígia, chamada como testemunha apenas sobre a reunião da seguradora, negara essa orientação. Ricardo ficou em silêncio.
— Oito milhões comprariam o quê? — perguntou a promotora.
— Nada substitui meus filhos.
— Mesmo assim, o senhor tentou receber.
Na última sessão, Helena falou por menos de vinte minutos. Descreveu a mão do marido soltando a sua, o colete de chumbo e a frase dita no conselho.
O advogado de Ricardo perguntou se a disputa pelo controle do grupo poderia ter motivado uma armação.
— Eu já controlava minhas ações, meu patrimônio e meu voto — respondeu. — Ele precisava que eu desaparecesse.
— A senhora ainda o considera pai das crianças?
— Biologicamente.
— E como homem?
A juíza sustentou a objeção antes que Helena respondesse.
O júri condenou Ricardo e Lavínia por tentativa de homicídio qualificado contra Helena e as duas crianças, fraude securitária tentada, associação criminosa e delitos financeiros. Nunes recebeu pena menor, ainda longa, pela cooperação tardia. O divórcio já estava concluído. Ricardo perdeu direitos de administração sobre qualquer bem dos filhos e só poderia solicitar contato futuro após avaliação judicial e terapêutica.
Do lado de fora, repórteres gritavam perguntas. Helena atravessou uma saída reservada com Clara e Bento. Beatriz aguardava no carro.
— Acabou? — perguntou Bento.
— A parte do tribunal, sim.
— E a parte da nossa casa?
Helena fechou a porta do carro.
— Essa a gente constrói todo dia.
Um ano depois, o Grupo Alencar inaugurou um núcleo gratuito de assistência jurídica e psicológica para vítimas de violência patrimonial e familiar. Mauro assumiu o conselho técnico do programa. Joana recusou qualquer homenagem pública, mas compareceu à abertura e aceitou um café longe das câmeras.
Clara escolheu o nome do núcleo infantil: Lugar Seguro. Bento desenhou o símbolo, uma casa com tantas janelas que quase não havia paredes.
No aniversário de onze anos, Clara não quis iate. Pediu um piquenique numa praia rasa do litoral norte, com seis amigos, bolo de limão e nenhuma imprensa. Helena chegou cedo para verificar a equipe de salva-vidas. Beatriz fingiu não notar a inspeção dupla.
Antes de entrar na água, Bento encontrou uma cópia sem validade da antiga apólice dentro de uma caixa que Helena levara para destruir. Reconheceu os nomes e perguntou se aquele papel ainda dizia quanto ele valia.
— Papel nenhum decide isso — disse Helena.
Ele rasgou a folha uma vez, depois outra. Clara ajudou. Os pedaços foram guardados para reciclagem, longe do vento.
Bento correu até o mar raso. Clara levantou a câmera e esperou o irmão olhar. Helena ficou atrás dos dois, os pés na água clara.
O obturador disparou.
Na fotografia, não havia coletes, contratos ou homens calculando prazos. Havia duas crianças correndo sob o sol e a mão da mãe estendida ao alcance delas.
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