"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 9
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O vídeo começou a circular entre os advogados às seis e quinze da manhã, protegido por uma cadeia de custódia que registrava cada abertura.
Às oito, a liminar ainda impedia a demissão de Ricardo. Às oito e dez, Joana entregou o novo material ao Ministério Público. Às oito e quarenta, o juiz marcou audiência urgente para analisar a prisão preventiva.
Às nove, Ricardo entrou na sede do Grupo Alencar pela porta principal.
Lígia caminhava ao lado dele. Dois seguranças tentaram barrá-lo, mas a advogada mostrou a liminar. Funcionários acompanharam sua passagem em silêncio. Ricardo ajeitou o paletó e sorriu como se voltasse de férias.
A reunião extraordinária ocupava a maior sala do quadragésimo andar. Beatriz presidia. Helena estava à direita, com o broche de rastreamento restaurado sobre a lapela. Mauro, Raul, auditores e o secretário do conselho aguardavam ao fundo.
Ricardo sentou em sua cadeira habitual.
— Finalmente alguém nesta empresa respeita o devido processo.
Beatriz fez sinal para o secretário.
— Registre a presença do diretor afastado e da advogada.
— Afastado sem fundamento — corrigiu Ricardo.
Helena ligou a tela. O vídeo do galpão apareceu sem som no primeiro quadro: os coletes sobre uma bancada, a tesoura, o controle do piso.
Lígia pediu cinco minutos para verificar a autenticidade. Raul entregou o laudo preliminar. Mauro apresentou os registros de voz. O auditor mostrou os desvios. Cada documento ocupava uma pasta separada, numerada.
— Vocês montaram um espetáculo — disse Ricardo.
— Você marcou a data — respondeu Helena.
O vídeo reproduziu sua frase sobre os filhos e o sobrenome. Pela primeira vez, Ricardo não tocou a gravata. Agarrou os braços da cadeira.
— Isso foi tirado de contexto.
— Qual contexto torna aceitável cortar colete de criança? — perguntou Beatriz.
— Era um teste de segurança.
— Com peso de chumbo?
— Nunes fez isso.
— E a sua mão aplicou a cola — disse Raul.
Ricardo virou-se para Helena.
— Você vai destruir o pai dos seus filhos por uma interpretação?
— Você tentou destruir os nossos filhos por oito milhões.
— Sou seu marido.
Helena retirou a aliança. Colocou-a sobre a cópia anulada da apólice.
— Marido protege. Você colocou preço neles.
O secretário anunciou a votação. Por unanimidade, o conselho revogou os poderes executivos de Ricardo, cancelou procurações, bloqueou cartões corporativos, suspendeu benefícios e iniciou ação para recuperar valores desviados. Beatriz rasgou a cópia física da procuração diante dele.
— Você entrou nesta família pelo casamento. Vai sair algemado.
Ricardo bateu na mesa.
— Esta empresa cresceu comigo!
— Cresceu apesar de você — disse Beatriz.
Lígia tocou o braço do cliente e pediu silêncio. A porta abriu. Joana entrou com dois agentes e uma ordem judicial.
— Ricardo Bastos, prisão preventiva por tentativa de homicídio qualificado, fraude, associação criminosa e crimes patrimoniais.
Ele recuou da mesa.
— Helena, escuta. Lavínia planejou tudo. Eu queria assustar sua mãe, pressionar o conselho. As crianças nunca correram risco.
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Mauro empurrou a fotografia da tesoura até o centro.
— A tira do colete de Bento rompeu com quatro quilos de força.
Ricardo olhou para a porta lateral, calculando distância. O chefe de segurança já a bloqueava. Joana aproximou-se com a algema.
— Coloque as mãos para trás.
— Meus filhos precisam de mim.
Helena não se moveu.
— Eles precisavam do pai no barco.
Os agentes o levaram pelo corredor. Funcionários viram quando o elevador fechou sobre seu rosto. Nenhuma câmera de imprensa estava dentro do prédio; Beatriz proibira a transformação do momento em espetáculo público.
Lavínia foi presa no mesmo horário ao deixar a audiência de colaboração. A polícia encontrou no apartamento dela passagens compradas para Lisboa, joias pagas pelas empresas de fachada e uma certidão de casamento de Helena impressa com anotações nas margens. Em vermelho, ela marcara possíveis prazos para divórcio, viuvez e inventário.
Nunes aceitou confessar a alteração do iate. Confirmou que Ricardo pagara metade antes e prometera o restante depois da liberação do seguro. Disse que acreditava que as crianças seriam retiradas no último momento.
Joana colocou diante dele a fotografia dos coletes.
— E por que colocou chumbo?
Nunes baixou a cabeça.
— Foi ordem dela.
— Você executou.
Na casa de Beatriz, Clara acompanhou uma notícia curta no tablet. O rosto do pai aparecia entre policiais, pixelado por uma janela do carro. Ela desligou antes do fim.
— Ele vai voltar?
Helena sentou ao lado.
— Um juiz vai decidir quanto tempo ele fica preso. Eu pedi o divórcio e a guarda de vocês.
— Ele ainda é meu pai?
Helena respirou antes de responder.
— É. E o que ele fez continua errado.
Bento entrou carregando o colete vermelho que a perícia já devolvera como peça sem valor probatório. A tira estava marcada com tinta e lacre rompido.
— Posso jogar fora?
— Pode.
Ele colocou a peça numa caixa. Clara acrescentou as fotografias duplicadas que não queria guardar. Helena manteve os originais com a polícia; as crianças poderiam decidir depois o que fazer com suas memórias.
À noite, uma oficial entregou a citação do divórcio a Ricardo no centro de detenção. Ele leu a primeira página e pediu para ligar à esposa. O pedido foi negado pela medida protetiva.
Lígia recebeu uma autorização para negociar. Antes de sair, disse:
— O vídeo acabou com a tese de acidente.
— Então ataque a cadeia de custódia.
— Há três cópias, dois agentes e a confissão de Nunes.
— Faça seu trabalho.
Ela guardou os papéis.
— Meu trabalho não inclui fabricar inocência.
No gabinete do juiz, a decisão de prisão foi anexada ao processo. A última página citava risco concreto às vítimas e capacidade de interferir nas provas.
Quando a porta da cela fechou, Ricardo ouviu outro preso perguntar quanto valia a vida dos filhos de um homem rico.
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