"Seguros de Oito Milhões" Capítulo 6
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Os fotógrafos baixaram as câmeras quando Helena pisou no cais.
Ricardo continuou ajoelhado. Lavínia soltou seus ombros e deu um passo para trás. A manta prateada de Helena estalava ao vento. Clara segurava sua mão esquerda; Bento, a direita.
— Você ensaiou o luto cedo demais — disse Helena.
Joana veio logo atrás. Dois agentes cercaram Ricardo, revistaram seus bolsos e fecharam uma algema em seu pulso. Lavínia tentou se afastar entre os repórteres, mas Beatriz apontou para ela.
— Aquela também.
Nunes não estava no cais. O bote fora encontrado vazio num canal próximo.
Ricardo recuperou a voz.
— Minha esposa está em choque. Ela caiu durante uma falha mecânica.
— E por que declarou que seus filhos caíram? — perguntou uma repórter.
Ele olhou para Clara e Bento como se os visse pela primeira vez.
— Foi o que me disseram.
— Quem?
Ricardo não respondeu.
Na ambulância, os paramédicos examinaram Helena e as crianças. Clara não largava a câmera. Bento repetia que o pai tinha soltado a mãe. Joana pediu que ninguém os interrogasse ali.
O promotor de plantão autorizou a condução dos suspeitos, mas a defesa de Ricardo chegou antes do fim dos exames. A advogada Lígia Prado usava um tailleur preto e carregava uma liminar no telefone.
— Não há flagrante de homicídio consumado, não há vítima fatal e a embarcação apresenta possível defeito — disse. — Meu cliente prestará esclarecimentos acompanhado.
Joana mostrou o broche molhado dentro de um saco de evidência.
— Temos áudio.
— Veremos a integridade.
Lavínia apontou para Ricardo.
— Eu estava trabalhando. Ele me mandou seguir o plano da festa.
— Você disse "acaba logo" — respondeu Helena.
— Acabar a discussão.
Lígia pediu que todos parassem de falar. Ricardo encarou Helena por cima do ombro da advogada.
— Sem cadáver, não existe crime.
Joana aproximou-se até que apenas ele ouvisse:
— Tentativa também dá cadeia.
Mesmo assim, os dois saíram da delegacia naquela noite com medidas restritivas, proibição de contato e passaportes apreendidos. A ordem de prisão preventiva dependia da perícia no iate, da gravação original e da demonstração de que a falha fora provocada.
Helena levou os filhos para a casa de Beatriz. As janelas tinham película de segurança, os portões eram vigiados e dois agentes permaneceram na rua. Clara recusou o quarto de hóspedes porque a porta fechava sozinha. Bento perguntou três vezes se o pai sabia onde eles estavam.
— Ele não entra aqui — garantiu Beatriz.
— A vovó manda nele? — perguntou Bento.
— Agora, a Justiça manda.
Clara colocou a câmera sobre a mesa.
— Eu devia ter avisado antes.
Helena se ajoelhou.
— Você tirou fotos. Contou o que viu. Fez mais do que muita gente adulta conseguiria.
— Eu gostei do colete quando ele trouxe.
— Confiar no pai não foi erro seu.
A menina encostou a testa no ombro da mãe. Bento abraçou as duas por fora, apertando com os braços curtos.
Na madrugada, Helena encontrou Beatriz na biblioteca, diante de três telas. A equipe de auditoria examinava acessos de Ricardo. Transferências para uma empresa chamada LM Estratégia somavam dois milhões e quatrocentos mil reais em dezoito meses.
— Lavínia Moura — disse Helena.
— Ou lavagem de dinheiro com as iniciais dela.
Havia também pagamentos ao comandante Nunes, classificados como consultoria náutica. O último saíra na véspera do aniversário.
— Posso demiti-lo amanhã — disse Beatriz. — E revogar todos os poderes.
— Espere.
— Por quê?
— Se ele acreditar que ainda controla a empresa, vai tentar usar o sistema. Cada acesso deixa rastro.
Beatriz observou a filha por alguns segundos.
— Você está aprendendo a caçar.
— Estou fechando as saídas.
No domingo, peritos examinaram o Atlântica. O engenheiro Raul Menezes encontrou o mecanismo do piso ligado a um controle portátil, a divisória alterada e resíduos de cola nos coletes. O sistema de câmeras, porém, fora formatado às 23h47 de sábado.
— O iate estava sob custódia — disse Joana.
— O comando veio da nuvem — respondeu Raul. — Uma credencial administrativa externa.
O registro apontava para a diretoria de comunicação. Quando tentaram preservar o backup, os arquivos começaram a desaparecer em sequência.
Joana ligou para a equipe que vigiava Lavínia. Ela estava em casa, sentada diante de um notebook. Os agentes entraram com mandado enquanto uma barra de exclusão avançava na tela.
Lavínia arrancou o cabo de energia. Tarde demais para impedir a cópia parcial, cedo demais para revelar o conteúdo completo.
Na última pasta recuperada havia um documento chamado "PÓS-SINISTRO". A primeira página trazia a fotografia de Helena, o número da apólice e uma instrução escrita por Ricardo:
"Protocolar o pedido antes da localização dos corpos."
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