"O Avô Que Ela Nunca Conheceu" Capítulo 4
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Martim não aceitou falar por telefone.
—Venham amanhã. E não tragam ninguém da família Valença.
Lúcia marcou o encontro para as dez. Antes de desligar, pediu que ele não movesse, limpasse ou descartasse qualquer papel antigo. Martim respondeu com uma risada curta.
—Esperei quinze anos. Aguento uma noite.
Antônio dormiu no quarto de hóspedes. Helena deixou roupas novas sobre uma cadeira, mas ele vestiu a própria camisa limpa pela manhã. Dobrou o pijama emprestado e colocou-o sobre a cama.
Na cozinha, Sofia dividira um pão ao meio.
—Este é seu.
—Você precisa comer.
—Tem outro.
Ela mostrou o saco cheio. Antônio aceitou a metade e a comeu sem fazer piada. Helena observou de longe, o celular preso entre o ombro e a orelha enquanto cancelava compromissos.
O apartamento de Martim ficava no terceiro andar de um prédio sem elevador. Antônio subiu devagar. Martim abriu antes que batessem e o abraçou com força.
—Onde você se meteu, desgraçado?
—Aqui perto.
—Ricardo disse que você fugiu para Portugal.
—Para Helena, disse que fugi com outra mulher.
Martim soltou Antônio e olhou para ela.
—Você é a menina da oficina.
—Tenho quarenta e dois anos.
—Na minha cabeça, ainda derruba serragem dentro do sapato.
A sala cheirava a café forte e madeira encerada. Martim ouviu o relato sem interromper. Quando Lúcia mostrou a cessão com a assinatura de Antônio, ele bateu dois dedos na folha.
—Eu sabia que essa porcaria voltaria.
Foi ao quarto e trouxe uma pasta com elástico ressecado. Dentro havia folhas de pagamento, ordens de compra e recibos. Algumas linhas tinham pequenas marcas a lápis.
—Damião mandava deixar estes papéis na mesa dele. Dizia que Antônio assinaria depois.
—Eu nunca recebia —disse Antônio.
Martim abriu outra divisória.
—Uma noite vi Ricardo praticando sua assinatura. Ele cobriu a folha quando entrei.
—Por que não me contou?
Martim esfregou os nós dos dedos.
—Duas semanas depois, Damião disse que eu roubava material. Tinha prestação do apartamento e dois filhos. Eles ofereceram silêncio ou polícia.
Antônio olhou para o velho amigo. Martim esperou a cobrança.
—Você vai declarar? —Antônio perguntou.
—Vou.
—Então chega.
Martim levantou o rosto.
—Você devia me xingar.
—Ricardo já usou sua vergonha por quinze anos. Não vou trabalhar para ele de graça.
Lúcia guardou as folhas em envelopes separados. Fotografou a ordem original e ligou para um perito. Helena ficou junto à janela, olhando a oficina mecânica do outro lado da rua.
—Quantas pessoas ele calou assim?
—Vamos perguntar uma por uma —disse Lúcia.
A antiga caixa do banco ficava aposentada em Osasco. Lembrava de Ricardo levar documentos em pastas e insistir que Antônio não podia comparecer por doença. Aceitou dar declaração. Um fornecedor conservava comprovantes de pagamentos que haviam sido cobrados duas vezes. Outro lembrava que Damião mudara subitamente de carro no mês da falência.
Ao final do dia, Lúcia tinha uma linha do tempo. Ainda faltava o caminho do dinheiro.
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Ela levou todos para uma copiadora jurídica, onde cada folha recebeu número e registro. Martim observou o funcionário manusear a pasta como se ela contivesse vidro.
—Guardei isso dentro de uma caixa de sapato —disse.
—E foi melhor que entregar a alguém errado —respondeu Lúcia.
O perito pediu documentos autênticos de Antônio anteriores e posteriores à fraude. Ele possuía poucos. Helena lembrou dos cartões de aniversário guardados pela mãe. Voltaram à casa e abriram a caixa de Teresa.
Havia bilhetes assinados, recibos de condomínio e uma autorização escolar escrita à mão. Antônio reconheceu a letra da esposa no verso de uma fotografia: "Não deixe Helena convencer você de que onze anos é idade para usar serra."
—Eu tinha doze —disse Helena.
—E tentou mentir na época também.
Sofia ouviu da porta.
—Minha mãe mente?
—Sobre a idade para usar ferramentas, sim.
—Isso é hereditário?
Helena entregou os documentos a Lúcia antes que a conversa virasse interrogatório.
O perito comparou pressão, inclinação e ligações entre letras. Mostrou numa tela onde a assinatura falsa hesitava antes do "S" e levantava a caneta no meio do sobrenome.
—Quem assina o próprio nome não precisa desenhá-lo —explicou.
Antônio escreveu três vezes numa folha. A mão correu mesmo com os dedos doloridos.
Helena viu a diferença e fotografou a tela. A mentira que parecera perfeita quinze anos atrás agora tinha pausas visíveis.
O laudo preliminar chegou na manhã seguinte. As assinaturas dos contratos apresentavam pausas, tremores de imitação e pontos de partida diferentes dos documentos autênticos.
Helena leu duas vezes.
—Pode ser usado?
—Depois de perícia oficial, sim.
—Então protocole.
—Isso abre uma investigação que vai atingir suas empresas e seu patrimônio.
—Meu patrimônio já foi usado sem eu saber.
Antônio colocou a xícara na pia.
—Você pode perder muito.
—Já perdi você.
Ele ficou parado com a mão sobre a torneira.
Helena não retirou a frase nem a tornou mais bonita. Entregou a Lúcia procuração para preservar registros e pedir cópias bancárias.
Ricardo enviou flores naquela tarde. O cartão dizia: "Podemos resolver como família." Helena fotografou, guardou o cartão e mandou as flores para a recepção do hospital infantil onde Sofia fazia fisioterapia.
À noite, Ricardo ligou.
—Você colocou uma advogada no meio do nosso casamento.
—Você colocou empresas entre mim e meu pai.
—Antônio está usando sua culpa.
—Responda uma pergunta: você interceptou as cartas?
—Não discuto acusação por telefone.
—Então venha com seu advogado.
Ele desligou.
Dois dias depois, Lúcia recebeu os primeiros registros ampliados. A Ponte Norte comprara a fábrica por valor inferior a um terço da avaliação. O capital inicial viera de uma empresa criada por Ricardo seis meses antes da insolvência. Parte do dinheiro passara pela própria linha de crédito aberta em nome da oficina.
Lúcia desenhou setas numa folha.
—Se confirmarmos os lançamentos, ele ajudou a criar a dívida, derrubou o valor dos ativos e usou dinheiro desviado para comprá-los.
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Antônio passou a mão pelo rosto.
—Ele comprou a oficina com a ruína da oficina.
Helena fotografou o diagrama.
—E construiu a primeira empresa lá.
Sofia entrou empurrando a cadeira com força.
—Meu pai quer falar comigo.
Helena levantou-se.
—Ele ligou para você?
—No tablet. Disse que o vovô quer nosso dinheiro.
Antônio se abaixou ao lado dela.
—Eu não quero seu dinheiro.
—O que você quer?
—Conhecer você.
—Só?
—E talvez aprender os nomes das pedras.
Sofia o encarou, satisfeita com a resposta.
—Então meu pai mentiu.
Helena puxou uma cadeira.
—Seu pai está tentando controlar o que você sabe. Eu vou explicar os fatos, sem pedir que escolha um lado.
O interfone interrompeu. Um entregador deixara uma caixa sem remetente. Lúcia mandou o segurança fotografá-la antes de abrir. Dentro havia cópias de dívidas pessoais de Antônio e uma mensagem impressa:
Ele sempre precisou de dinheiro. Pergunte por que apareceu agora.
Antônio reconheceu documentos que só poderiam estar em arquivos bancários antigos.
Lúcia pegou o telefone.
—Isso é intimidação de testemunha.
Antes que completasse a ligação, chegou um e-mail de endereço desconhecido. O assunto tinha duas palavras:
DAMIÃO GUARDOU.
No corpo, apenas um número de telefone e uma frase:
Perguntem à mãe de Ricardo.
Lúcia imprimiu o e-mail, registrou o cabeçalho e recusou-se a ligar do telefone de Helena. Usou uma linha do escritório e gravou a tentativa. Beatriz atendeu, ouviu o nome da nora e pediu dez minutos.
Durante a espera, Antônio colocou os documentos da caixa anônima em ordem. Uma dívida médica estava quitada havia oito anos, mas aparecia destacada como se fosse atual. Outra folha trazia um despejo sem mostrar que ele entregara o quarto antes do prazo.
—Ele escolheu pedaços verdadeiros —disse Helena.
—Mentira boa usa recibo —respondeu Antônio.
Beatriz retornou. A voz saiu baixa.
—Não falem disso por telefone. Amanhã, sete horas, na cafeteria da Avenida Europa.
—O que a senhora guardou? —perguntou Lúcia.
—A razão pela qual meu filho não dorme há uma semana.
A chamada terminou. Lúcia salvou a gravação e fez duas cópias.
Naquela noite, Helena trancou os envelopes num cofre que Ricardo instalara para joias. Pela primeira vez, o equipamento protegeu algo dele.
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