"O Avô Que Ela Nunca Conheceu" Capítulo 1
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O dono do depósito devolveu o currículo sem olhar a segunda página.
—A vaga exige esforço físico. O senhor entende.
Antônio Salgado entendeu o movimento dos olhos: cabelos brancos, mãos com veias altas, casaco gasto. Dobrou as folhas, guardou-as na pasta plástica e saiu antes que o rapaz repetisse a palavra "senhor" com aquela delicadeza de quem fecha uma porta.
Às onze da manhã, ele já tinha ouvido quatro recusas. Na quinta tentativa, o encarregado de um hortifrúti em São Paulo apontou para um caminhão carregado.
—Duas horas. Oitenta reais.
Antônio descarregou caixas de laranja, batata e cebola. A coluna travou na última pilha, mas ele apoiou as mãos nos joelhos apenas quando o caminhão virou a esquina. Separou sessenta reais para o aluguel do quarto. Com vinte, comprou um sanduíche de omelete num carrinho próximo à praça.
O cheiro subiu com o vapor. Ele não comia desde a noite anterior.
Escolheu um banco perto de uma livraria. Abriu o papel devagar, como se a lentidão aumentasse a refeição. Antes da primeira mordida, viu a roda pequena parada junto ao carrinho.
A menina usava uma cadeira leve, preta, com aros prateados. Tinha dois rabos de cavalo baixos e um suéter rosa sobre a camisa branca. Não estendia a mão. Observava o pão tostado na chapa e desviava os olhos sempre que o vendedor se virava.
Antônio esperou. Nenhum adulto se aproximou.
Levantou-se com o sanduíche intacto.
—Está com fome?
A menina segurou os aros.
—Minha mãe disse que eu não posso pedir nada.
—Você não pediu.
Ela o examinou dos sapatos rachados ao cabelo grisalho.
—Mas o senhor perguntou.
—Perguntei porque preciso de uma resposta.
A menina olhou de novo para o sanduíche e assentiu uma única vez.
Antônio estendeu o papel.
—É o meu único. Fica com ele.
—Inteiro?
—Inteiro.
—E o senhor?
O estômago respondeu antes dele. A menina ouviu. Antônio passou a mão pela barriga e sorriu.
—Já fiz muitas refeições na vida.
—Essa conta não vale.
—Foi a melhor que consegui fazer hoje.
Ela não pegou o pão.
—Não posso aceitar comida de desconhecido.
—Sua mãe está certa.
—Então por que está me dando?
Antônio apontou para o vendedor.
—Peça para ele trocar o papel. Espere sua mãe voltar. Assim você não precisa confiar em mim.
A menina chamou o homem do carrinho. Ele confirmou que tinha visto Antônio comprar o sanduíche e o embrulhou de novo. Só então ela o acomodou no colo.
—Obrigada. Eu sou a Sofia.
O sorriso de Antônio parou.
Aos vinte e dois anos, Helena desenhara um quarto infantil no verso de uma planta. Havia escrito SOFIA sobre uma porta minúscula.
"Se eu tiver uma menina, esse vai ser o nome."
Ele havia perguntado o que aconteceria se o marido dela não gostasse. Helena atirara uma borracha nele e respondera que o homem aprenderia.
Quinze anos tinham passado desde a última vez que Antônio ouvira a filha rir.
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—O senhor está passando mal? —perguntou a menina.
Ele puxou o ar.
—Só lembrei de alguém.
—Outra Sofia?
—Uma moça que queria ter uma filha com esse nome.
Um SUV preto freou junto à calçada. Uma mulher desceu antes que o motorista completasse a manobra.
—Sofia!
A menina ergueu a mão.
—Mãe! Estou aqui.
A mulher correu, agachou-se e verificou os freios da cadeira, os braços da filha, o rosto.
—Eu pedi para esperar junto à livraria.
—O segurança entrou para procurar meu livro. Eu vim só até o carrinho.
—Você não sai do lugar combinado.
—Desculpa.
Sofia ergueu o embrulho.
—Ele me deu o sanduíche dele.
A mulher se virou.
Antônio reconheceu primeiro a ruga curta entre as sobrancelhas. Helena fazia a mesma marca quando encontrava um erro numa planta. O cabelo estava mais curto. O rosto carregava quinze anos que ele não vira. O modo de apertar a alça da bolsa continuava igual.
—Helena.
Ela perdeu a cor.
—Não.
Antônio deu meio passo. Parou quando ela recuou.
—Filha.
Helena abriu a bolsa com mãos desajeitadas. Tirou uma carteira, afastou cartões e puxou uma fotografia antiga. Na imagem, Antônio, com trinta e poucos anos, carregava Helena criança nos ombros numa praia de Ubatuba.
—Onde conseguiu isso? —ele perguntou.
—Eu carreguei esta foto por quinze anos.
—Disseram que você jogou tudo fora.
Helena apertou a fotografia.
—Quem disse?
O barulho dos ônibus voltou de uma vez. Antônio olhou para o carro, para a filha, para a menina com o pão no colo.
—Ricardo.
Helena fechou os olhos. Quando os abriu, havia medo onde antes estava a pressa.
—Ele disse que você vendeu a oficina, pegou o dinheiro e fugiu.
—Eu perdi a oficina. Fui à sua casa três vezes.
—Você nunca apareceu.
—Escrevi mais de vinte cartas.
—Eu não recebi nenhuma.
Sofia acompanhava cada rosto. Puxou a manga da mãe.
—Ele é seu pai?
Helena se agachou ao lado da cadeira. Tentou responder, mas a voz falhou. Assentiu.
A menina virou-se para Antônio.
—Então você é meu avô?
As pernas dele cederam. Antônio sentou no banco e cobriu a boca. Helena guardou a foto no bolso, aproximou-se e parou diante dele.
Nenhum dos dois sabia quem tinha direito ao primeiro abraço.
Sofia resolveu. Colocou o sanduíche sobre o banco, segurou a mão da mãe e a mão do velho, puxando as duas para o centro.
Helena abraçou o pai com o corpo ainda duro. Antônio demorou um segundo. Depois envolveu a filha e apertou os olhos.
—Eu pensei que você não me queria —ele disse.
—Eu pensei que você tinha ido embora.
O segurança saiu da livraria chamando por Sofia. Viu a cena, diminuiu o passo e ficou longe.
O vendedor do carrinho se aproximou com um copo de água. Antônio bebeu dois goles e devolveu. Helena notou o curativo improvisado no indicador dele, feito com fita de embalagem.
—Onde você mora?
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Ele informou o bairro e o nome da pensão. Helena conhecia a distância. Levava quase duas horas de ônibus até aquela praça.
—Por que veio procurar trabalho aqui?
—Disseram que reformariam lojas na região. Achei que precisariam de marceneiro.
—Você ainda trabalha com madeira?
Antônio mostrou as palmas.
—A mão lembra. O mercado prefere outra data de nascimento.
Helena quis perguntar como ele chegara àquele casaco, àquela pasta, à fome que tentou disfarçar. As perguntas se amontoaram. Escolheu uma que podia receber resposta naquele instante.
—Você comeu alguma coisa hoje?
—Metade de uma banana no depósito.
Sofia franziu o nariz.
—Isso também não conta.
O vendedor preparou outro sanduíche sem ser chamado e colocou-o diante de Antônio. Ele procurou moedas. O homem cobriu a bandeja com a mão.
—A menina pagou.
Sofia abriu a bolsa presa à cadeira e exibiu uma nota amassada.
—Era para um livro. O livro pode esperar.
Antônio recusou uma vez. Na segunda, pegou o pão e dividiu ao meio. Entregou uma parte à menina. Sofia colocou a metade junto ao sanduíche ainda fechado.
—Agora os dois têm comida.
Helena assistiu ao pai comer em pequenas mordidas. Ele mantinha o papel sob o queixo para não derrubar migalhas no casaco. Aquele cuidado doméstico, perdido durante quinze anos, foi mais reconhecível que a fotografia.
Helena afastou-se apenas o necessário para olhar o rosto do pai.
—Tem como provar que escreveu?
Antônio abriu o bolso interno do casaco. Ali guardava a última carta devolvida, a única que não queimara numa noite de inverno para aquecer o quarto. O envelope tinha o nome de Helena e três carimbos de retorno.
Ela pegou o papel. No verso, abaixo da etiqueta de destinatário ausente, havia um carimbo azul quase apagado:
RECEBIDO — VALENÇA EMPREENDIMENTOS.
Helena levantou os olhos.
—A empresa de Ricardo recebeu isto.
Antônio encarou o carimbo que nunca havia notado.
Sofia deixou o sanduíche fechado entre os três.
—Mãe… foi o papai que escondeu o vovô?
Helena não respondeu. Fotografou o envelope, guardou-o dentro da bolsa e destravou o carro.
—Nós vamos para casa.
Antônio balançou a cabeça.
—Não posso entrar assim na sua vida.
Helena abriu a porta traseira para Sofia.
—Você já ficou quinze anos do lado de fora.
Ela se virou para ele.
—Hoje, não.
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