"Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim" Parte 5
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Henrique leu a frase uma segunda vez.
Depois uma terceira.
As palavras continuavam iguais.
"Pai, agora você pode viajar com a sua família."
O papel começou a tremer entre os dedos dele.
"Gabriel!"
O rapaz apareceu na porta.
"Pai?"
"Ela foi embora."
Gabriel empalideceu.
"Como assim?"
Henrique mostrou o bilhete.
"Ela foi embora."
Gabriel arrancou o celular do bolso.
"Eu vou ligar."
Ligou uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
"Está chamando?"
"Não."
"Desligado?"
"Está indo direto pra caixa postal."
Henrique sentiu o coração disparar.
"Mariana!"
A governanta subiu correndo.
"Senhor Henrique?"
"Ela saiu que horas?"
"Eu não vi."
"Quem abriu o portão?"
"Não sei."
Henrique desceu as escadas quase correndo.
Foi até a guarita.
O segurança da manhã ainda estava chegando para a troca de turno.
"Quem estava aqui de madrugada?"
"Seu Cláudio."
"Liga para ele."
"Agora?"
"Agora!"
Em menos de cinco minutos, Henrique já sabia que Vitória havia saído pouco depois das seis.
Sozinha.
Mochila nas costas.
Sem chamar motorista.
Sem avisar ninguém.
"Ele deixou uma criança de doze anos sair sozinha?"
O supervisor tentou explicar.
"Senhor Henrique, ela disse que a dona Lúcia estava esperando na esquina."
"Minha mãe nem sabia!"
Henrique bateu a mão sobre a bancada.
"Meu Deus."
Gabriel surgiu atrás dele.
"Pai, eu liguei pra vó. Ela não viu a Vitória."
Henrique fechou os olhos.
O medo virou desespero.
"Liga para todo mundo."
"Quem?"
"Amigas. Escola. Professoras. Mães de colegas. Quem for."
Gabriel assentiu.
Henrique já estava no telefone.
Primeiro, Dona Lúcia.
Depois, Rafael.
Depois, o motorista.
Depois, o segurança da noite.
Patrícia apareceu no alto da escada ainda de robe.
"O que está acontecendo?"
Ninguém respondeu.
Ela desceu.
"Henrique."
Ele virou-se.
"Vitória sumiu."
Patrícia parou.
"O quê?"
"Ela saiu de casa."
"Pra onde?"
"Se eu soubesse, ela não estaria sumida."
Patrícia empalideceu.
Gabriel olhou para a mãe com raiva.
"Ela ouviu vocês ontem."
Patrícia virou o rosto.
"Como você sabe?"
"Porque eu achei o copo no corredor."
Henrique respondeu antes do filho.
"Ela ouviu."
Patrícia passou a mão pela testa.
"Meu Deus."
Gabriel explodiu.
"Agora você percebe?"
"Gabriel, não começa."
"Não começa?"
Ele deu uma risada sem humor.
"Você tirou ela da viagem, cortou ela das fotos, disse que nunca quis ser mãe dela e agora ela foi embora!"
Patrícia ergueu a voz.
"Eu não falei aquilo para ela!"
"Mas falou!"
"Isso era uma conversa entre adultos."
"E daí?"
Gabriel deu um passo à frente.
"Fica menos cruel porque você achou que ela não estava ouvindo?"
Patrícia ficou sem resposta.
Henrique já não queria discutir.
"Chega."
Ele pegou as chaves.
"Vou procurar."
"Eu vou com você", Gabriel disse.
Patrícia também avançou.
"Eu também."
Henrique olhou para ela.
"Não."
Ela ficou imóvel.
"Henrique."
"Não."
"Ela é minha filha também."
A frase quase fez Gabriel rir de tão absurda.
Henrique apenas respondeu:
"Hoje não tenta usar essa frase comigo."
Saiu.
Nas duas horas seguintes, São Paulo pareceu grande demais.
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Henrique passou por padarias, praças, pontos de ônibus, farmácias.
Mostrou a foto de Vitória para porteiros.
Para seguranças.
Para taxistas.
Para vendedores.
Nada.
Gabriel foi em outro carro.
Dona Lúcia procurou perto da casa.
Mariana ligava sem parar para mães de colegas.
Quase às nove, Henrique recebeu uma chamada.
Era Mariana.
"Senhor Henrique."
"O quê?"
"A mãe da Clara respondeu."
Henrique freou o carro.
"Quem?"
"Clara. Colega da Vitória."
"Ela sabe de alguma coisa?"
"Disse que Vitória mandou mensagem ontem à noite."
Henrique sentiu a garganta secar.
"Que mensagem?"
"Perguntou se poderia conversar com a mãe dela hoje."
"Por quê?"
"Ela não explicou."
"Elas moram onde?"
"Não moram perto. Mas Clara estuda no Santa Helena."
Henrique entendeu imediatamente.
Vitória podia estar indo até a escola.
Ele virou o carro.
Chegou ao bairro em menos de vinte minutos.
O Colégio Santa Helena ainda estava fechado para o recesso.
Mesmo assim, havia movimento na rua.
Uma padaria.
Uma banca.
Um ponto de ônibus.
Henrique estacionou de qualquer jeito.
Saiu correndo.
Olhou para os dois lados.
Nada.
Então viu.
Do outro lado da rua.
Sentada num banco perto de uma pequena praça.
Mochila nos pés.
Cabeça baixa.
Vitória.
Henrique parou.
Por alguns segundos, não conseguiu respirar.
Depois atravessou a rua correndo.
"Vitória!"
Ela levantou a cabeça.
O rosto mudou imediatamente.
Henrique foi até ela.
"Meu Deus."
Ele abriu os braços.
Mas Vitória recuou.
Henrique parou no mesmo instante.
Foi a primeira vez na vida que ela recusou um abraço dele.
Aquilo doeu mais do que qualquer coisa.
"Filha..."
"Eu estou bem."
"Você saiu sozinha."
"Eu sei."
"Você desligou o celular."
"Acabou a bateria."
Henrique agachou na frente dela.
"Você quase me matou."
Vitória baixou os olhos.
"Desculpa."
"Não."
Ele respirou fundo.
"Não pede desculpa."
Ela ficou em silêncio.
Henrique olhou para a mochila.
"Pra onde você ia?"
Vitória demorou.
"Eu ia falar com a mãe da Clara."
"Por quê?"
"Pra perguntar se eu podia ficar lá um pouco."
Henrique sentiu o rosto perder a cor.
"Ficar lá?"
"Até você resolver."
"Resolver o quê?"
Ela olhou para ele.
"Quem é sua família."
Henrique ficou sem ar.
"Vitória..."
"Eu não queria ir pra rua."
A menina falou rápido, como se precisasse provar que tinha pensado.
"Eu também não ia sumir."
"Eu só queria ficar num lugar onde ninguém precisasse brigar por minha causa."
Henrique fechou os olhos.
"Você não é o motivo das brigas."
"Sou."
"Não."
"Desde a viagem, tudo é por minha causa."
Henrique segurou os próprios joelhos para não agarrá-la e abraçá-la à força.
"Olha pra mim."
Vitória olhou.
"Você não causou nada."
"Mas a mãe não queria me adotar."
Henrique sentiu o golpe.
Ela continuou.
"Ela falou."
"Eu sei."
"Então talvez eu esteja ocupando um lugar que não é meu."
"Não fala isso."
"Por quê?"
"Porque é mentira."
Vitória apertou os lábios.
"Pai..."
"Oi."
"Eu não quero obrigar ninguém a ser minha família."
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Henrique abaixou a cabeça.
Por alguns segundos, chorou em silêncio.
Quando levantou o rosto, os olhos estavam vermelhos.
"Você nunca me obrigou a nada."
Vitória ficou parada.
"Eu escolhi você."
"Mas a mãe não."
Henrique respirou fundo.
"Isso é uma coisa que ela vai ter que responder."
"E se ela não me quiser?"
Henrique olhou para a filha.
"Eu quero."
"Gabriel quer."
"Dona Lúcia quer."
"Você tem uma família."
Vitória ficou em silêncio.
Dessa vez, quando Henrique abriu os braços lentamente, ela hesitou.
Depois foi.
Ele a abraçou com força.
Quando voltaram para casa, Gabriel estava na porta.
Assim que viu a irmã, correu.
"Vitória."
Ela deixou que ele a abraçasse.
Gabriel chorou.
"Desculpa."
Vitória não respondeu.
Só apertou o irmão de volta.
Patrícia apareceu na sala.
Os olhos dela estavam inchados.
"Vitória."
A menina parou.
Patrícia tentou se aproximar.
Henrique entrou no meio.
"Agora não."
"Henrique."
"Agora não."
Patrícia ficou pálida.
"Você vai me impedir de falar com ela?"
"Ela acabou de sair de casa porque ouviu você dizer que nunca quis ser mãe dela."
"Eu preciso explicar."
"Você precisa ir embora."
Silêncio.
Patrícia arregalou os olhos.
"O quê?"
"Vai para um hotel."
"Essa casa também é minha."
"Então vai para o apartamento da sua mãe."
"Você está me expulsando da minha própria casa?"
"Temporariamente."
"Por causa dela?"
Gabriel explodiu.
"Não fala assim!"
Patrícia virou-se.
"Você cala a boca."
"Não."
Foi a primeira vez que Gabriel respondeu daquela forma.
"Não vou calar."
Patrícia ficou chocada.
Gabriel continuou.
"Você fez ela achar que não era nossa irmã."
"Eu nunca disse isso."
"Você nem precisava."
Gabriel apontou para a mala amarela ainda perto da escada.
"Você fez ela arrumar aquilo sabendo que não tinha passagem."
Patrícia engoliu em seco.
"Você também sabia."
Gabriel ficou imóvel.
"Eu sei."
A culpa apareceu no rosto dele.
"Por isso eu tenho vergonha."
Ele respirou fundo.
"Mas pelo menos eu estou admitindo."
Patrícia virou-se para Henrique.
"Então é isso?"
"Ninguém me ouve."
"Ninguém tenta entender o meu lado."
Henrique respondeu:
"Seu lado quase fez uma menina de doze anos procurar outra casa."
Patrícia ficou sem reação.
Duas horas depois, ela saiu.
Levou duas malas.
Não olhou para Vitória.
Não se despediu de Gabriel.
Foi direto para a casa do pai.
Eduardo Montenegro morava numa cobertura nos Jardins.
Quando Patrícia entrou, ele estava no escritório lendo documentos.
"Pai."
Eduardo nem levantou os olhos.
"Você fez o que eu disse para não fazer?"
Patrícia ficou parada.
"Henrique me expulsou."
Eduardo fechou a pasta.
"Claro que expulsou."
"Você não vai perguntar como eu estou?"
"Eu sei como você está."
Ele se levantou.
"Com medo."
Patrícia sentiu raiva.
"Vitória sumiu de casa."
Eduardo não pareceu surpreso.
"Foi encontrada?"
"Foi."
"Então pronto."
Patrícia o encarou.
"Você não sente nada?"
Eduardo respondeu frio:
"Eu te avisei do que aconteceria quando vocês trouxessem aquela menina para dentro de casa."
Patrícia ficou em silêncio.
No mesmo instante, a vários quilômetros dali, Henrique estava no escritório da mansão.
Revia as imagens das câmeras para entender exatamente quando Vitória havia saído.
Ao avançar os registros da noite anterior, percebeu que o sistema também havia captado uma ligação feita por Patrícia na varanda, pouco antes de sair de casa pela manhã.
O áudio estava baixo.
Henrique aumentou.
Reconheceu a voz de Eduardo.
Depois ouviu a frase.
"Eu te avisei do que aconteceria quando vocês trouxessem aquela menina para dentro de casa."
Henrique congelou.
Voltou o áudio.
Ouviu outra vez.
"Quando vocês trouxessem aquela menina."
Não quando adotassem.
Não quando conhecessem.
Trouxessem.
Henrique ficou olhando para a tela.
Então ouviu Patrícia responder, num tom que fez seu sangue gelar.
"Você disse que ninguém jamais descobriria o que aconteceu naquela época."
Henrique parou de respirar.
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