"Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim" Parte 4
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Henrique continuou segurando a fotografia entre os dedos.
A frase escrita atrás dela parecia pior a cada vez que ele lia.
"Minha família inteira."
Dois anos antes.
Quatro pessoas.
Ele, Patrícia, Gabriel e Vitória.
Henrique levantou os olhos para Mariana.
"Que conversa ela teve com o pai?"
Mariana respirou fundo.
"Eu não ouvi tudo."
"Mas ouviu alguma coisa."
"Ouvi."
Henrique esperou.
Mariana apertou as mãos.
"Seu Eduardo veio aqui numa tarde. Eles ficaram no escritório por quase duas horas."
"E depois?"
"Depois disso, dona Patrícia mudou."
Henrique franziu a testa.
"Como?"
"Começou com coisa pequena."
Mariana olhou para a caixa de fotografias.
"Primeiro foram as fotos."
Henrique baixou os olhos.
"Depois os almoços."
"Depois as festas."
"Depois..."
Mariana não terminou.
Henrique percebeu.
"Depois a Vitória."
Mariana assentiu.
Ele fechou a caixa.
"Patrícia tem algum perfil que eu não conheço?"
Mariana hesitou.
"Tem."
Henrique virou o rosto.
"Como assim?"
"Uma conta privada."
"Privada para quem?"
"Família Montenegro, amigas, gente da sociedade."
Henrique sentiu um novo desconforto.
"Eu sigo essa conta?"
"Não."
"Por quê?"
"Porque ela nunca adicionou o senhor."
Henrique ficou olhando para Mariana.
"Você sabe o nome?"
Ela assentiu.
Alguns minutos depois, Henrique estava sozinho no escritório.
Abriu o notebook.
Digitou o nome que Mariana lhe dera.
O perfil apareceu imediatamente.
Fechado.
Mas a foto principal estava visível.
Patrícia abraçada a Gabriel.
Henrique não aparecia.
Vitória também não.
Ele ficou parado alguns segundos.
Depois pegou o celular e ligou para Gabriel.
O rapaz demorou a atender.
"Oi, pai."
"Você segue o perfil privado da sua mãe?"
Silêncio.
"Gabriel."
"Sigo."
"Me mostra."
"Pai..."
"Agora."
Quinze minutos depois, Gabriel entrou no escritório.
O rosto dele já mostrava que sabia o que estava por vir.
Henrique apontou para a cadeira.
"Abre."
Gabriel sentou.
Pegou o celular.
Entrou no perfil da mãe.
Henrique aproximou-se.
A primeira foto era recente.
Patrícia e Gabriel num jantar.
Legenda:
"Meu menino. Meu orgulho."
Henrique deslizou.
Outra.
Os dois em Campos do Jordão.
Outra.
Natal da família Montenegro.
Henrique aparecia ao fundo.
Vitória não.
Outra.
Um almoço em um restaurante nos Jardins.
Patrícia, Gabriel e Henrique.
Legenda:
"Minha base."
Henrique continuou.
Até parar numa imagem conhecida.
Ele reconheceu imediatamente o jardim da mansão.
Reconheceu a própria camisa.
Reconheceu a roupa de Gabriel.
Era a mesma fotografia que Mariana havia guardado.
Só que publicada de outro jeito.
Henrique.
Patrícia.
Gabriel.
Vitória havia sido cortada.
A legenda dizia:
"Minha família. Meu mundo."
Henrique ficou imóvel.
Gabriel abaixou a cabeça.
"Pai..."
"Você viu isso?"
"Vi."
"E nunca achou estranho?"
Gabriel respirou fundo.
"No começo eu achei."
"No começo?"
"Depois virou normal."
Henrique virou-se devagar.
"Normal?"
"Eu não estou dizendo que era certo."
"Mas ficou normal."
Gabriel não respondeu.
Henrique sentiu uma raiva que já não cabia no peito.
"Quantas fotos?"
"Eu não sei."
"Quantas?"
"Muitas."
Henrique começou a deslizar mais rápido.
Uma.
Outra.
Outra.
Em algumas, Vitória simplesmente não estava.
Em outras, ele reconhecia lugares onde tinha certeza de que ela estivera.
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Mas a menina havia sido cortada.
Ou escondida.
Ou substituída por um enquadramento menor.
Henrique bateu o celular sobre a mesa.
"Chega."
Gabriel se levantou.
"Pai, eu sinto muito."
Henrique apontou para ele.
"Você vai sentir isso olhando na cara da sua irmã."
Gabriel engoliu em seco.
"Eu sei."
"Não. Ainda não sabe."
Henrique saiu do escritório.
Subiu as escadas.
A porta da suíte estava fechada.
Ele abriu sem bater.
Patrícia estava diante do espelho, guardando joias numa caixa.
Ela olhou para ele pelo reflexo.
"Você perdeu completamente a noção de privacidade?"
Henrique colocou o celular sobre a bancada.
"Explica."
Patrícia olhou para a tela.
Seu rosto mudou por um segundo.
Depois voltou ao normal.
"Explicar o quê?"
Henrique riu sem humor.
"Você cortou nossa filha das fotos."
"Henrique..."
"Não."
Ele bateu a mão na bancada.
"Você cortou a Vitória das fotos."
Patrícia ficou em silêncio.
"Uma por uma."
"Você está surtando por causa de rede social?"
"Não é rede social."
Henrique apontou para ela.
"É padrão."
Patrícia cruzou os braços.
"Você passou a noite inteira procurando motivo para me condenar."
"Eu não precisei procurar muito."
Ela respirou fundo.
"Eu já disse que essa situação saiu do controle."
"Não. Você controlou tudo."
Henrique se aproximou.
"Você escolheu onde ela podia ir."
"Escolheu onde ela não podia ir."
"Escolheu quando aparecia."
"Escolheu quando sumia."
Patrícia ficou tensa.
"Baixa a voz."
"Por quê?"
Henrique apontou para o corredor.
"Está com medo que ela escute?"
Patrícia endureceu.
"Eu não vou aceitar você me tratando como um monstro."
"Então para de agir como um."
Ela soltou uma risada nervosa.
"Você quer mesmo saber?"
Henrique ficou em silêncio.
"Quer?"
"Quero."
Patrícia respirou fundo.
"Eu nunca quis essa adoção."
Henrique não se mexeu.
Por alguns segundos, pareceu não ter entendido.
"O quê?"
"Você ouviu."
Henrique a encarou.
"Não."
"Sim."
"Você está mentindo."
"Não estou."
Ele deu um passo para trás.
"Você chorou quando assinamos os papéis."
"Porque era um momento emocional."
"Você escolheu o quarto dela."
"Porque ela viria morar aqui."
"Você escolheu o nome do meio."
"Porque alguém precisava fazer isso."
Henrique sentiu o rosto esquentar.
"Você me disse que queria uma filha."
Patrícia apertou os lábios.
"Eu disse o que precisava dizer."
Henrique ficou imóvel.
"Por quê?"
"Porque você já tinha decidido."
"Eu nunca teria feito isso sem você."
"Mas teria insistido até eu ceder."
Henrique balançou a cabeça.
"Não."
"Você estava obcecado."
"Com o quê?"
"Com a ideia de salvar alguém."
Henrique sentiu uma pontada no peito.
"Ela não era um projeto."
"Para você, talvez não."
"Ela é nossa filha."
Patrícia desviou o olhar.
Henrique percebeu.
"Olha pra mim."
Ela não olhou.
"Patrícia."
Finalmente, ela o encarou.
"Ela é nossa filha."
Patrícia respirou fundo.
"Legalmente."
Henrique perdeu a cor.
"Não fala isso."
"É verdade."
"Não fala isso."
"Você quer que eu finja?"
Henrique apontou para o chão.
"Ela cresceu aqui."
"Eu sei."
"Chamou você de mãe."
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"Eu sei."
"Ficou doente no seu colo."
"Eu sei."
"Correu para você quando teve medo."
Patrícia fechou os olhos.
Henrique estava quase gritando.
"Então não me diz que ela é só legalmente nossa filha."
Patrícia abriu os olhos.
Havia cansaço e irritação.
"Eu aceitei por você."
Henrique ficou em silêncio.
Patrícia continuou.
"Não porque eu queria ser mãe dela."
A frase atravessou o quarto.
Henrique não respondeu.
No corredor, do outro lado da porta entreaberta, Vitória parou.
Ela segurava um copo de água.
Tinha vindo procurar o pai.
Ouviu tudo.
Não fez barulho.
Nem chorou.
Apenas ficou parada.
Lá dentro, Henrique falou com a voz baixa.
"Doze anos."
Patrícia virou o rosto.
"Doze anos e você está me dizendo isso agora."
"Porque você me empurrou para esse limite."
"Eu empurrei?"
Henrique riu.
"Você excluiu uma criança da própria família."
"Não simplifica."
"Não existe nada mais simples."
"Existe, sim."
Patrícia virou-se para ele.
"Você sempre fez ela se sentir especial demais."
Henrique ficou incrédulo.
"Especial demais?"
"Você compensava tudo."
"Porque ela foi abandonada quando bebê."
"Exatamente."
Patrícia deu um passo.
"E você transformou isso numa dívida eterna."
Henrique olhou para ela como se visse outra pessoa.
"Você sente ciúme dela."
Patrícia não respondeu.
"Meu Deus."
Ele passou a mão pelo rosto.
"Você sente ciúme da sua própria filha."
"Não coloca isso desse jeito."
"De que jeito eu coloco?"
Patrícia perdeu a paciência.
"Eu tenho um filho!"
Henrique ficou imóvel.
"E ela começou a ocupar um espaço que nunca deveria..."
Patrícia parou.
Tarde demais.
Henrique a encarou.
"Termina."
Ela fechou a boca.
"Termina a frase."
Patrícia desviou o olhar.
No corredor, Vitória segurou o copo com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Ela voltou lentamente para o quarto.
Fechou a porta.
Sentou na cama.
Por alguns minutos, ficou apenas olhando para a mala amarela no chão.
Depois abriu o armário.
Pegou uma mochila menor.
Começou a colocar algumas roupas dentro.
Uma camiseta.
Uma calça.
Escova de dentes.
Seu livro favorito.
A pulseira que Henrique havia dado.
Parou quando encontrou uma fotografia.
Era ela pequena, entre Henrique e Patrícia.
Vitória olhou para o rosto da mulher que chamara de mãe a vida inteira.
Então virou a foto para baixo.
Na suíte, Henrique continuava discutindo.
"Você vai explicar isso para ela."
Patrícia respondeu imediatamente.
"Não."
"Vai."
"Ela é uma criança."
"Justamente."
"Ela não precisa saber de tudo."
Henrique se aproximou.
"Ela já sabe que você não queria levá-la."
"Isso é diferente."
"Não existe mais diferente."
Ele apontou para a porta.
"Amanhã você vai sentar com ela e vai dizer a verdade."
Patrícia ficou pálida.
"Qual verdade?"
Henrique estreitou os olhos.
Antes que pudesse responder, ouviu um barulho no corredor.
Abriu a porta.
Não havia ninguém.
Apenas um copo de água no chão.
Henrique olhou para o copo.
Depois para o corredor vazio.
Seu rosto mudou.
"Vitória?"
Nenhuma resposta.
Ele correu até o quarto dela.
Bateu.
"Filha?"
Silêncio.
Abriu.
Vitória estava deitada de costas.
Ou pelo menos parecia.
Henrique não percebeu a mochila escondida atrás da poltrona.
Nem a fotografia virada para baixo.
Na manhã seguinte, a mansão estava estranhamente silenciosa.
Henrique acordou cedo.
Passou pelo quarto de Vitória.
A porta estava aberta.
A cama vazia.
Ele franziu a testa.
"Vitória?"
Entrou.
Nada.
O banheiro estava vazio.
Olhou para o armário.
Algumas roupas haviam sumido.
O coração começou a acelerar.
"Vitória!"
Henrique correu pelo corredor.
"Gabriel!"
O rapaz saiu do quarto assustado.
"O que foi?"
"Cadê sua irmã?"
"Não sei."
Henrique desceu correndo.
Cozinha.
Sala.
Quintal.
Piscina.
Nada.
"Mariana!"
A governanta apareceu.
"Senhor?"
"Você viu a Vitória?"
Mariana empalideceu.
"Hoje não."
Henrique voltou para o quarto.
Foi então que viu um papel dobrado sobre o travesseiro.
Pegou.
Reconheceu a letra imediatamente.
As mãos começaram a tremer.
Havia apenas uma frase.
"Pai, agora você pode viajar com a sua família."
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