"Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim" Parte 3
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Henrique ficou olhando para a mãe como se não tivesse entendido.
"Como assim não foi a primeira vez?"
Dona Lúcia não respondeu imediatamente.
Ela atravessou a sala, largou a bolsa sobre uma poltrona e olhou para as três malas que ainda estavam perto da porta.
Depois voltou os olhos para o filho.
"Você realmente nunca percebeu?"
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Percebi o quê?"
Dona Lúcia suspirou.
"Que a Vitória quase nunca aparece quando a família Montenegro se reúne."
Henrique franziu a testa.
"Isso não é verdade."
"É."
"Ela foi ao aniversário do Eduardo no ano passado."
"Foi porque você estava lá."
Henrique ficou em silêncio.
Dona Lúcia continuou.
"No casamento da prima da Patrícia, quem foi?"
"Patrícia e Gabriel."
"E a Vitória?"
Henrique respondeu automaticamente.
"Ela não quis ir."
Dona Lúcia ergueu as sobrancelhas.
"Foi isso que Patrícia te disse?"
Henrique não respondeu.
Uma lembrança apareceu.
Ele estava em Belo Horizonte naquele fim de semana, fechando um contrato.
Patrícia havia ligado no sábado à tarde.
"Vitória preferiu ficar em casa. Disse que casamento é chato."
Henrique acreditara.
Na época, até achou graça.
Agora não parecia engraçado.
"E o almoço no Fasano?", Dona Lúcia perguntou.
Henrique olhou para ela.
"Que almoço?"
"Aniversário da irmã da Patrícia."
Ele tentou lembrar.
"Eu estava em Brasília."
"Exatamente."
Dona Lúcia cruzou os braços.
"Patrícia levou Gabriel."
"E Vitória estava doente."
"Não estava."
Henrique sentiu a respiração mudar.
"Mãe."
"Eu passei aqui naquela tarde."
Dona Lúcia falava com calma, mas havia raiva em cada palavra.
"Ela estava no quintal desenhando."
Henrique ficou imóvel.
"Você tem certeza?"
"Henrique, eu sei reconhecer quando minha neta está doente."
Ele passou a mão pelo rosto.
A cada frase da mãe, alguma coisa se quebrava.
"Por que você não me contou?"
Dona Lúcia soltou uma risada amarga.
"Eu tentei."
"Quando?"
"No Natal passado."
Henrique lembrou.
Uma discussão rápida na cozinha.
A mãe tinha dito que Patrícia estava sendo dura demais com Vitória.
Henrique, cansado depois de semanas de trabalho, respondera:
"Vocês duas nunca se deram bem. Não quero entrar nisso."
A lembrança agora queimava.
Dona Lúcia percebeu pela expressão dele.
"Você lembra."
Henrique abaixou os olhos.
"Eu achei que fosse uma briga entre vocês."
"Porque era mais fácil achar isso."
Ele levantou a cabeça.
"Não faz isso."
"Eu não estou fazendo nada."
"Eu não sabia."
"Esse é o problema."
Henrique ficou em silêncio.
Dona Lúcia se aproximou.
"Você ama aquela menina."
"Amo."
"Eu sei."
"Então não fala como se eu..."
"Amor não adianta muito quando a gente não olha."
A frase acertou Henrique em cheio.
Ele virou o rosto.
Por alguns segundos, o único som na sala foi o relógio antigo perto da escada.
"Que outras vezes?"
Dona Lúcia respirou fundo.
"Teve um almoço da família Montenegro em Campos do Jordão."
Henrique fechou os olhos.
"Patrícia disse que Vitória tinha prova."
"Era domingo."
Ele abriu os olhos.
"Teve a festa de noivado do Caio."
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"Ela disse que Vitória estava com dor de cabeça."
"Vitória estava comigo."
Henrique encarou a mãe.
"Com você?"
"Ela achou que vocês tinham saído para resolver um problema."
Henrique sentiu uma pontada no peito.
"Ela não sabia da festa?"
"Não."
Dona Lúcia balançou a cabeça.
"Ela me perguntou por que todo mundo tinha sumido de casa."
Henrique respirou fundo.
"Mais."
"Henrique..."
"Eu quero saber tudo."
A mãe hesitou.
Depois falou.
"Teve o jantar do Gabriel no aniversário dele."
Henrique franziu a testa.
"Vitória estava lá."
"Na comemoração aqui em casa."
Dona Lúcia fez uma pausa.
"Não no jantar do dia seguinte."
Henrique não sabia do que ela estava falando.
"Que jantar?"
Dona Lúcia ficou em silêncio.
Ele entendeu.
"Eu nem sabia."
"Pois é."
Henrique sentou no sofá.
A cabeça parecia pesada.
"Quantas vezes?"
"Não sei."
"Cinco?"
Dona Lúcia não respondeu.
"Dez?"
Ela desviou o olhar.
Henrique levantou novamente.
"Eu preciso falar com Vitória."
"Agora?"
"Agora."
Ele subiu.
Vitória ainda estava acordada.
Henrique bateu antes de entrar.
"Filha?"
"Pode entrar."
Ela estava deitada, abraçada a um travesseiro.
A mala amarela continuava vazia no chão.
Henrique sentou na beirada da cama.
"Posso te perguntar umas coisas?"
Vitória assentiu.
"Você lembra do casamento da prima da sua mãe?"
Ela pensou.
"Qual?"
"Aquele no ano passado."
Vitória deu de ombros.
"Não fui."
"Por quê?"
"Eu nem sabia."
Henrique sentiu o coração apertar.
"Você não sabia?"
"Não."
"Patrícia me disse que você não queria ir."
Vitória olhou para ele, confusa.
"Mas ninguém me perguntou."
Henrique precisou desviar os olhos.
"E o almoço de aniversário da tia Fernanda?"
"Que almoço?"
A resposta veio tão rápida que ele fechou os olhos.
"Esquece."
"Pai."
"Oi."
"Você achava que eu não queria ir nessas coisas?"
Henrique demorou.
"Às vezes."
Vitória ficou pensativa.
"Eu achava que vocês saíam porque tinham trabalho."
Henrique sentiu vergonha.
"Quem te dizia isso?"
"Mãe."
A palavra doeu.
"Ela dizia que era coisa de adulto."
"Entendi."
"Às vezes eu perguntava do Gabriel."
"E o que ela dizia?"
"Que ele já era grande."
Henrique respirou fundo.
"Você ficou triste?"
Vitória encolheu os ombros.
"Às vezes."
"Por que nunca me contou?"
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
"Porque você sempre estava trabalhando."
Henrique engoliu em seco.
"Você podia me ligar."
"Mãe dizia para não te incomodar."
Ele fechou os olhos.
Vitória continuou.
"Ela falava que você estava resolvendo coisas importantes."
Henrique passou a mão no rosto.
"Você é importante."
Vitória olhou para ele.
"Eu sei."
Mas a forma como ela disse não parecia convicção.
Henrique saiu do quarto com a sensação de que tinha acabado de descobrir uma casa em que vivera sem realmente morar.
Na manhã seguinte, ele não foi à Faria Lima.
Cancelou duas reuniões.
Ignorou seis ligações.
E começou a procurar.
Abriu o calendário compartilhado da família.
Viu datas.
Eventos.
Jantares.
Casamentos.
Aniversários.
Em muitas ocasiões, Patrícia tinha escrito apenas três nomes.
Henrique.
Patrícia.
Gabriel.
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Ou, quando Henrique estava fora, apenas:
Patrícia e Gabriel.
Nenhuma menção a Vitória.
Ele abriu o álbum de fotos da família no computador.
Começou a comparar datas.
Quanto mais procurava, pior ficava.
Gabriel em um restaurante nos Jardins.
Patrícia em um casamento em Campinas.
Gabriel em uma festa no Clube Athletico Paulistano.
Patrícia sorrindo ao lado dos Montenegro em Campos do Jordão.
Vitória não aparecia.
Henrique foi até a cozinha.
Mariana organizava o café da manhã.
"Mariana."
Ela se virou.
"Bom dia, senhor Henrique."
"Preciso falar com você."
O rosto dela mudou.
"Claro."
"Na sala."
Mariana limpou as mãos no avental e o seguiu.
Henrique fechou a porta.
"Você sabia?"
Ela ficou imóvel.
"Sabia o quê?"
"Não faz isso."
Mariana baixou os olhos.
"Senhor Henrique..."
"Há quanto tempo Patrícia deixa Vitória fora das coisas?"
Mariana apertou as mãos.
"Eu não sei."
"Você sabe."
"Senhor..."
"Mariana."
Ele falou sem gritar.
Mas o tom foi suficiente.
"Eu quero a verdade."
Ela respirou fundo.
"Faz tempo."
Henrique fechou os olhos por um instante.
"Quanto tempo?"
"Mais de um ano."
Ele ficou parado.
"Você viu?"
"Vi."
"E nunca me contou."
Mariana começou a chorar.
"Eu tinha medo de perder meu emprego."
Henrique não respondeu.
"Eu tenho dois filhos na faculdade."
Ela limpou o rosto rapidamente.
"Minha mãe depende de mim."
"Eu entendo medo."
Henrique apontou para o andar de cima.
"Mas ela é uma criança."
"Eu sei."
"Então por que ninguém fez nada?"
Mariana começou a chorar mais forte.
"Eu fazia o que podia."
"Como?"
"Eu ficava com ela."
Henrique sentiu o peito apertar.
"Quando?"
"Quando dona Patrícia saía com Gabriel."
"E dizia o quê para Vitória?"
"Que era compromisso de adulto."
Henrique fechou os olhos.
"Meu Deus."
Mariana respirou fundo.
"Tem mais."
Henrique olhou para ela.
"O quê?"
Ela hesitou.
Depois caminhou até uma pequena despensa ao lado da lavanderia.
Henrique a seguiu.
Mariana puxou uma caixa de papelão de cima de um armário.
A caixa estava fechada com fita.
"Eu devia ter jogado isso fora."
Henrique franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque dona Patrícia mandou."
Ela colocou a caixa sobre uma bancada.
Henrique abriu.
Dentro havia papéis.
Convites.
Cartões.
Fotografias.
Ele pegou a primeira.
Era uma foto da família em frente à mansão.
Henrique.
Patrícia.
Gabriel.
Mas alguma coisa estava errada.
Na lateral direita da imagem havia um corte irregular.
Ele pegou outra fotografia.
Mesma coisa.
Outra.
Outro corte.
Henrique começou a entender.
"Mariana..."
Ela estava chorando em silêncio.
Henrique puxou mais uma foto.
Desta vez, o corte não tinha sido feito perfeitamente.
Ainda aparecia um pedaço de uma mão pequena segurando a de Gabriel.
Ele conhecia aquela pulseira.
Tinha dado de presente no aniversário de Vitória.
Henrique sentiu o sangue gelar.
"Ela cortou a Vitória das fotos?"
Mariana não respondeu.
Henrique ergueu os olhos.
"Mariana."
Ela assentiu lentamente.
"Foi dona Patrícia."
Henrique ficou parado, segurando a fotografia mutilada.
Então Mariana puxou uma última imagem do fundo da caixa.
"Essa aqui ela esqueceu de cortar."
Henrique pegou.
Era a foto original.
Os quatro estavam juntos.
Gabriel sorria.
Henrique segurava o ombro da filha.
Vitória estava no meio deles, abraçada à mãe.
Patrícia também sorria.
No verso havia uma data.
Dois anos antes.
E uma frase escrita pela própria Patrícia:
"Minha família inteira."
Henrique leu aquilo duas vezes.
Depois levantou os olhos para Mariana.
"O que aconteceu depois dessa foto?"
Mariana empalideceu.
"Senhor Henrique..."
"O quê?"
Ela olhou para a porta, como se tivesse medo de que alguém escutasse.
Então respondeu num sussurro:
"Foi depois daquela conversa que dona Patrícia teve com o pai dela."
Henrique ficou imóvel.
"Que conversa?"
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