"Minha Mãe Comprou Passagens Para Todos… Menos Para Mim" Parte 2
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Vitória continuou olhando para as três passagens sobre a mesa.
Por alguns segundos, ninguém teve coragem de responder.
Ela parecia esperar que alguém risse e dissesse que era uma brincadeira.
Mas ninguém riu.
Patrícia foi a primeira a quebrar o silêncio.
"Vitória, vai ter outras viagens."
A menina ergueu os olhos lentamente.
"Outras?"
A palavra saiu pequena.
"Sim", Patrícia respondeu. "Não precisa fazer essa cara."
Henrique virou o rosto para a esposa.
"Essa cara?"
Patrícia ignorou o tom dele.
Vitória apontou para as passagens.
"Mas eu não vou agora?"
Patrícia respirou fundo, como se estivesse diante de uma criança fazendo uma pergunta inconveniente.
"Não."
Vitória ficou parada.
O chapéu de palha ainda estava em sua mão.
"Mas eu arrumei tudo."
Ninguém respondeu.
"Eu escolhi as roupas ontem."
A voz dela começou a falhar.
"Eu separei meu livro."
Ela olhou para Gabriel.
"E meu biquíni está na sua mala."
Gabriel baixou a cabeça.
Vitória virou-se para Patrícia.
"Mas… por que eu não posso ir?"
Patrícia cruzou os braços.
"Porque sua situação na escola não está boa."
Vitória franziu a testa.
"Minha situação?"
"Suas notas caíram."
"Eu tirei sete e meio em matemática."
"Depois de tirar nove."
Henrique soltou uma risada amarga.
"Você está falando sério?"
Patrícia olhou para ele.
"Estou."
Henrique apontou para Gabriel.
"O Gabriel fechou o semestre passado quase de recuperação em duas matérias."
Gabriel passou a mão no rosto.
"Pai..."
"É verdade ou não?"
Gabriel não respondeu.
Henrique voltou para Patrícia.
"E ele tem passagem."
"Gabriel tem dezenove anos."
"E daí?"
"É diferente."
"Claro que é diferente."
Henrique deu um passo para frente.
"Porque ele é seu filho biológico."
Patrícia arregalou os olhos.
"Não coloca palavras na minha boca."
"Então me explica."
"Eu já expliquei."
"Não, você inventou desculpas."
Vitória olhava de um para o outro.
A cada frase, seu rosto perdia mais cor.
Henrique percebeu.
Ajoelhou-se diante dela.
"Filha, olha pra mim."
Vitória tentou.
Mas os olhos encheram de lágrimas.
"Eu fiz alguma coisa?"
Henrique sentiu o peito apertar.
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Porque eu posso melhorar minhas notas."
"Vitória..."
"Eu posso estudar durante a viagem."
Patrícia virou o rosto.
Vitória continuou, desesperada para encontrar uma solução.
"Eu levo o caderno."
Henrique fechou os olhos por um segundo.
"Você não precisa fazer nada."
"Eu prometo que não vou reclamar."
"Filha."
"Eu também não vou pedir pra comprar nada."
"Vitória, chega."
A menina se calou.
Henrique segurou suas mãos.
"Você não fez nada de errado."
Ela olhou para ele.
"Então por que eu não tenho passagem?"
Henrique não encontrou resposta.
Porque a única pessoa que poderia responder estava atrás dele.
Ele se levantou devagar.
"Patrícia."
Ela desviou o olhar.
"Responde para ela."
"Henrique, isso não ajuda."
"Responde."
Patrícia soltou o ar.
"Eu já disse. Foi uma decisão minha."
"Não foi isso que ela perguntou."
Vitória apertou o chapéu entre os dedos.
Patrícia olhou para a menina.
"Você precisa aprender que nem sempre pode participar de tudo."
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Vitória piscou.
"Mas é uma viagem da família."
A frase caiu no meio da sala.
Patrícia ficou em silêncio.
Henrique sentiu a raiva subir novamente.
Vitória olhou para Gabriel.
Foi então que ela percebeu alguma coisa.
O irmão ainda não parecia surpreso.
Parecia culpado.
Ela estreitou os olhos.
"Gabriel."
Ele levantou a cabeça.
"Oi."
"Você sabia?"
O rapaz não respondeu.
Henrique virou-se para ele.
"É exatamente o que eu perguntei."
Gabriel passou a mão pela nuca.
"Mãe..."
Patrícia reagiu imediatamente.
"Gabriel, não precisa entrar nessa conversa."
Henrique bateu a mão na mesa.
"Ele já está nessa conversa."
Vitória deu um passo na direção do irmão.
"Você sabia?"
Gabriel engoliu em seco.
"Vitória..."
"Sabia ou não?"
O rapaz fechou os olhos por um instante.
"Sabia."
Vitória ficou imóvel.
Henrique também.
"Desde quando?" ele perguntou.
Gabriel demorou.
"Mais ou menos um mês."
Henrique olhou para Patrícia.
"Um mês?"
Ela continuou em silêncio.
Vitória parecia não ter entendido.
"Um mês?"
Gabriel tentou se aproximar.
"Vitória, eu queria te contar."
Ela recuou.
"Mas não contou."
"Mãe disse que ia resolver."
"Resolver o quê?"
"Eu não sei."
"Você sabia que eu não ia?"
"Sabia."
"Você viu eu falando da viagem todos os dias."
Gabriel baixou a cabeça.
"Vi."
"Você viu eu escolher roupa."
"Vitória..."
"Você viu eu comprar meus óculos de natação."
A voz dela começou a tremer.
Gabriel não respondeu.
Vitória deu mais um passo para trás.
"Você sabia e deixou eu arrumar minha mala?"
Gabriel empalideceu.
"Desculpa."
A primeira lágrima escorreu pelo rosto dela.
"Eu coloquei meu biquíni na sua mala."
"Eu sei."
"E você não falou nada."
"Eu estava tentando..."
"Não."
Vitória balançou a cabeça.
"Você só não falou."
Ela se virou rapidamente.
Henrique segurou seu braço com cuidado.
"Filha."
"Eu quero subir."
"Vitória..."
"Eu quero subir."
Henrique soltou.
Ela pegou a alça da mala amarela.
As rodinhas fizeram barulho no piso de mármore enquanto ela a arrastava até a escada.
Ninguém tentou impedir.
Quando Vitória desapareceu no andar de cima, Henrique se virou.
O rosto dele estava transformado.
"Acabou."
Patrícia franziu a testa.
"O quê?"
"A viagem."
Ela arregalou os olhos.
"Não."
"Está cancelada."
"Henrique, você enlouqueceu?"
"Não vou."
"Já está tudo pago!"
"Não me interessa."
"Você sabe quanto custou essa viagem?"
"Não me interessa."
"Tem reserva de hotel, passeio, transfer, jantar, tudo!"
"Eu pago a multa."
Patrícia soltou uma risada nervosa.
"Você está cancelando duas semanas em Trancoso por causa de uma birra?"
Henrique avançou um passo.
"Escolhe muito bem a próxima palavra."
Ela percebeu o perigo no tom dele.
Mesmo assim, não recuou.
"Minha família inteira está esperando a gente lá."
Henrique ficou em silêncio.
Patrícia continuou.
"Meu pai já chegou ontem."
"Ótimo."
"Minha irmã está lá."
"Ótimo."
"Meus primos também."
"Melhor ainda."
Ela perdeu a paciência.
"Você quer que eu diga o quê para todo mundo?"
Henrique respondeu sem hesitar.
"Diz que a gente não foi porque você esqueceu que sua filha também faz parte da família."
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Patrícia empalideceu.
"Não fala assim comigo."
"Então não me obriga a repetir."
Gabriel estava parado perto do sofá.
"Pai, talvez a gente possa..."
Henrique virou-se.
"Você não vai tentar consertar isso com uma viagem."
Gabriel se calou.
"Você vai consertar isso com sua irmã."
O rapaz abaixou a cabeça.
Patrícia pegou a bolsa.
"Eu não vou ficar aqui ouvindo sermão."
Henrique apontou para a porta.
"Então não fica."
Ela olhou para ele, incrédula.
"Você está me expulsando?"
"Estou dizendo que eu preciso ficar com a minha filha."
Patrícia apertou os lábios.
"Você sempre faz isso."
Henrique franziu a testa.
"Isso o quê?"
"Transforma qualquer coisa relacionada à Vitória numa prova de amor."
Ele ficou imóvel.
"Porque ela precisa provar que merece?"
Patrícia não respondeu.
Henrique encarou a esposa por vários segundos.
"Eu não reconheço você."
Ela pegou a mala bege e saiu da sala.
Pouco depois, a porta da suíte do casal bateu no andar de cima.
O restante da manhã passou em silêncio.
O motorista chegou e foi dispensado.
As malas ficaram na sala.
As reservas foram canceladas.
Gabriel passou horas trancado no quarto.
Vitória não desceu para almoçar.
Henrique tentou bater à porta duas vezes.
"Filha?"
"Não estou com fome."
"Posso entrar?"
"Quero ficar sozinha."
Ele respeitou.
Mas a sensação de fracasso não o abandonou.
À noite, a mansão estava silenciosa.
Henrique caminhou pelo corredor e viu uma faixa de luz sob a porta do quarto da filha.
Desta vez, bateu suavemente.
"Vitória?"
Nenhuma resposta.
Ele abriu apenas uma fresta.
A menina estava sentada no chão.
A mala amarela aberta diante dela.
Vitória tirava as roupas uma por uma.
O vestido branco que queria usar no jantar.
A camiseta nova.
O short.
O chapéu.
Os óculos de natação comprados com meses de mesada.
Tudo era colocado de volta no armário em silêncio.
Henrique entrou.
Ela não olhou.
"Posso sentar?"
Vitória deu de ombros.
Ele sentou no chão ao lado dela.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Vitória dobrou uma camiseta.
Depois perguntou:
"Pai."
"Oi."
Ela ficou olhando para a roupa nas mãos.
"Eu sou sua filha de verdade?"
Henrique virou o rosto imediatamente.
"Claro que é."
"Mesmo sendo adotada?"
"Principalmente sendo minha filha."
Ela engoliu em seco.
"Mas se eu fosse filha de verdade..."
"Você é."
Vitória finalmente olhou para ele.
Os olhos estavam vermelhos.
"Se eu fosse filha de verdade, eu teria uma passagem?"
Henrique sentiu como se alguém tivesse acertado seu peito.
"Vitória..."
"Eu só quero saber."
Ele segurou o rosto dela com cuidado.
"Escuta uma coisa."
A voz dele falhou.
"Você nunca vai precisar provar para mim que é minha filha."
Vitória começou a chorar.
Henrique a abraçou.
Desta vez, ela deixou.
Ficaram assim por muito tempo.
Mais tarde, depois que Vitória finalmente dormiu, Henrique desceu para a sala.
As três passagens ainda estavam sobre a mesa.
Ele as olhou por alguns segundos.
Então ouviu a campainha.
Era Dona Lúcia.
Sua mãe entrou sem sorrir.
"Cadê a Vitória?"
"Dormindo."
Dona Lúcia assentiu lentamente.
Henrique percebeu que ela parecia preocupada demais.
"Mãe."
"O quê?"
"Você sabia que Patrícia não ia levar a Vitória?"
Dona Lúcia demorou a responder.
"Soube ontem."
Henrique fechou os olhos.
"Por que ninguém me contou?"
A mãe segurou a bolsa com força.
"Porque eu achei que você finalmente fosse descobrir sozinho."
Henrique abriu os olhos.
"Descobrir o quê?"
Dona Lúcia olhou para a escada.
Depois voltou a encarar o filho.
"Henrique..."
Ela respirou fundo.
"Essa não foi a primeira vez."
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