"Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas" Parte 5
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Isabela entrou no prédio do Grupo Almeida pouco depois das sete da manhã.
A Faria Lima ainda começava a despertar, mas o hall de mármore já estava cheio de funcionários com crachás, cafés nas mãos e olhos atentos demais para uma terça-feira.
Ela sentiu os olhares.
Alguns disfarçaram.
Outros nem tentaram.
A história do casamento já tinha atravessado os corredores.
Rafael havia insistido para que ela não fosse sozinha.
Mas Isabela recusou.
"Se eu entrar escondida na empresa que também é minha, Augusto já ganhou alguma coisa."
Foi o que disse antes de sair.
Agora, diante das catracas, percebeu o peso real daquela decisão.
O segurança hesitou por menos de um segundo.
"Bom dia, senhora Isabela."
"Bom dia."
O elevador levou quase um minuto até o vigésimo primeiro andar.
Pareceu uma eternidade.
Quando as portas se abriram, ela viu a placa metálica:
Grupo Almeida Participações.
Durante anos, entrara ali como filha do presidente.
Às vezes como alguém chamada para resolver problemas.
Nunca como alguém que tinha direito de fazer perguntas.
Dessa vez seria diferente.
Ricardo estava na sala dele.
Esperava por ela.
"Rafael me ligou."
"Então você já sabe."
"Sei sobre os quarenta e seis milhões."
Isabela fechou a porta.
"E?"
Ricardo passou a mão pelo rosto.
Parecia mais velho do que dois dias antes.
"Eu queria dizer que estou surpreso."
"Mas não está."
"Não completamente."
Ela parou.
"Você já desconfiava."
Ricardo não respondeu.
"Pai."
"Há meses."
A raiva veio imediatamente.
"Meses?"
"Eu não tinha prova."
"Mas tinha suspeita."
"Sim."
Isabela soltou uma risada amarga.
"É impressionante como todo mundo nessa família sabe alguma coisa antes de mim."
Ricardo levantou os olhos.
"Eu estava tentando proteger você."
"Não usa essa palavra."
"Isabela."
"Minha mãe também diz que estava protegendo a família."
Ela se aproximou da mesa.
"Augusto tentou destruir minha reputação porque sabia que eu poderia descobrir o que ele estava fazendo."
Ricardo se calou.
"Você transferiu as ações por causa disso?"
"Em parte."
"Então fala tudo."
Ele abriu uma gaveta.
Tirou uma pasta cinza.
Colocou sobre a mesa.
"Há oito meses, a auditoria interna encontrou inconsistências em pagamentos para prestadores de serviço."
Isabela abriu a pasta.
Havia relatórios.
Notas fiscais.
Contratos.
"Que tipo de inconsistência?"
"Serviços duplicados. Consultorias sem relatório. Fornecedores com endereços compartilhados."
"Empresas de fachada."
"Era uma possibilidade."
Ela passou as páginas rapidamente.
"Por que não chamou a polícia?"
"Porque eu ainda não sabia quem estava envolvido."
"Agora sabe."
Ricardo desviou o olhar.
"Eu comecei a suspeitar de Augusto quando percebi que quase todas as aprovações finais passavam por ele."
Isabela ergueu o rosto.
"E Marcelo?"
"Eu confiava nele."
"Confiava."
"Sim."
A palavra saiu pesada.
Isabela continuou lendo.
Algumas empresas apareciam repetidas vezes.
Alfa Norte Serviços.
Prisma Consultoria.
Nova Via Logística.
Nomes genéricos.
Contratos milionários.
"Essas empresas existem?"
"Algumas existem no papel."
"Funcionários?"
"Quase nenhum."
"Endereço?"
"Salas comerciais pequenas ou escritórios virtuais."
Isabela fechou a pasta.
"Então meu irmão estava roubando a empresa."
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Ricardo ficou rígido.
"Não quero usar essa palavra sem conclusão formal."
"Eu quero."
"Isabela."
"Quarenta e seis milhões não desaparecem porque alguém errou uma planilha."
Ela empurrou a pasta de volta.
"Augusto e Marcelo montaram um esquema."
Ricardo não respondeu.
O silêncio confirmou.
Isabela caminhou até a janela.
Lá embaixo, São Paulo parecia pequena.
"Por isso eu."
Ricardo ergueu os olhos.
"Sim."
"Você precisava de alguém no conselho que ele não controlasse."
"Precisava de alguém que soubesse dizer não."
Ela virou.
"Por que não você?"
A pergunta atingiu Ricardo.
Ele demorou.
"Porque eu percebi tarde demais que Augusto tinha construído influência em setores que eu já não acompanhava como antes."
"Diretores?"
"Alguns."
"Conselheiros?"
"Talvez."
"Marcelo."
"Com certeza."
Isabela respirou fundo.
"Então a transferência não era apenas herança."
"Não."
"Era poder de voto."
"Sim."
Agora tudo parecia ainda pior.
Augusto não queria apenas dinheiro.
Queria impedir que ela entrasse no lugar exato onde poderia enxergar as contas.
"Quando eu assumiria formalmente?"
"Na próxima reunião extraordinária."
"Quando?"
"Sexta-feira."
Isabela ficou imóvel.
Três dias.
O casamento acontecera no sábado.
Augusto tinha menos de uma semana para destruí-la antes que ela pudesse sentar à mesa do conselho.
"Ele estava sem tempo."
Ricardo assentiu.
"Agora você entende."
"Entendo por que ele fez."
Ela olhou para o pai.
"Não entendo por que você me colocou no meio de tudo sem me contar."
Ricardo baixou o olhar.
"Eu achei que, se Augusto não soubesse que você sabia, teria menos motivos para agir."
"Ele agiu mesmo assim."
"Eu errei."
Isabela sentiu o cansaço voltar.
"Você errou comigo a vida inteira."
Ricardo não tentou se defender.
Ela saiu da sala levando cópias dos relatórios.
Nas horas seguintes, ocupou uma pequena sala do setor jurídico e começou a cruzar documentos.
Contratos.
Notas.
Aprovações.
Datas.
Pagamentos.
Quanto mais olhava, mais claro ficava.
Uma empresa recebia por consultoria de transporte.
Outra, por análise de expansão.
Uma terceira, por manutenção de sistemas.
Mas os comprovantes eram vazios.
Relatórios copiados.
Assinaturas digitais repetidas.
Isabela encontrou o mesmo erro de formatação em três empresas supostamente independentes.
Chamou Rafael.
"Você consegue verificar os sócios dessas três?"
"Me manda os nomes."
Ela enviou.
Quarenta minutos depois, ele respondeu.
"Tem laranja."
"Quem?"
"Um contador aposentado aparece em duas."
"E a terceira?"
"Está no nome de uma mulher de setenta e dois anos em Osasco."
"Alguma ligação com Marcelo?"
"Filho dela trabalha numa empresa do primo dele."
Isabela fechou os olhos.
"Então é maior."
"Bem maior."
"Quanto?"
"Ainda não sei."
"Não para."
"Você também não."
Ela quase sorriu.
Quase.
No meio da tarde, seu celular recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
"Preciso falar com você."
Sem nome.
Isabela respondeu:
"Quem é?"
A resposta veio depois de alguns segundos.
"Patrícia."
Ela ficou olhando para a tela.
A esposa de Augusto.
"Sobre o quê?"
"Não por mensagem."
"Então onde?"
"Um lugar onde ele não me veja."
Duas horas depois, Isabela entrou em uma cafeteria discreta na Vila Nova Conceição.
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Patrícia já estava sentada no fundo.
Boné.
Óculos escuros.
Roupa simples.
Nada lembrava a mulher elegante do casamento.
Isabela sentou em frente a ela.
"Você está me seguindo?"
Patrícia tirou os óculos.
"Não."
"Augusto sabe que você está aqui?"
"Não."
"Então fala."
Patrícia olhou para os lados.
"Ele saiu do hospital."
"Eu sei."
"Está furioso."
"Também sei."
"Ele culpa você."
Isabela quase riu.
"Que novidade."
Patrícia apertou a xícara entre as mãos.
"Você não entende."
"Então me explica."
"Quando Augusto acha que está perdendo alguma coisa, ele muda."
"Ele tentou me dopar."
"Eu sei."
"Você sabia antes?"
"Não."
A resposta veio rápida.
Isabela observou o rosto dela.
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Então por que me chamou?"
Patrícia respirou fundo.
"Porque eu reconheci."
"Reconheceu o quê?"
"O jeito dele."
Isabela franziu a testa.
Patrícia se inclinou.
"Você acha que seu casamento foi a primeira vez?"
O barulho da cafeteria pareceu diminuir.
Isabela ficou imóvel.
"Primeira vez de quê?"
"De Augusto mexer com alguém antes de conseguir o que quer."
"Fala claramente."
Patrícia fechou os olhos.
"Eu vi coisas."
"Que coisas?"
"Remédios trocados."
Isabela sentiu o corpo gelar.
"De quem?"
Patrícia não respondeu.
"Patrícia."
"Seu irmão sempre teve uma justificativa."
"Para drogar pessoas?"
"Ele dizia que era só para acalmar."
Isabela bateu a mão na mesa.
"Quem?"
Algumas pessoas olharam.
Patrícia baixou a voz.
"Um executivo que queria denunciar um contrato."
"O que aconteceu?"
"Passou mal antes de uma reunião."
"Mais alguém?"
"Um ex-sócio."
"Mais alguém?"
Patrícia apertou os lábios.
Isabela entendeu.
"Meu pai."
Patrícia não respondeu.
Foi pior.
"Meu pai?"
"Isabela..."
"Meu pai também?"
Patrícia levou a mão à bolsa.
"Dois anos atrás, Ricardo passou alguns meses muito mal."
"Ele teve uma crise de pressão."
"Foi o que disseram."
"Você está dizendo que não foi?"
"Estou dizendo que Augusto cuidava de muita coisa naquela época."
Isabela sentiu a respiração falhar.
"Que coisa?"
"Horários."
"Continua."
"Remédios."
O sangue sumiu do rosto de Isabela.
"Você tem prova?"
Patrícia olhou para ela.
"É por isso que estou aqui."
Abriu a bolsa.
Retirou um celular antigo.
A tela estava rachada.
"Eu guardei isso porque um dia achei que precisaria me proteger dele."
Isabela pegou o aparelho.
"O que tem aqui?"
"Um vídeo."
"De quando?"
"Dois anos atrás."
Patrícia desbloqueou.
Abriu uma pasta escondida.
Havia vários arquivos.
Escolheu um.
"Eu gravei sem ele perceber."
"Por quê?"
"Porque naquele dia eu comecei a ter medo do homem com quem tinha casado."
Ela apertou o vídeo.
A imagem tremia.
Parecia ter sido feita da porta de um escritório.
Ricardo estava sentado em uma poltrona.
Olhos semicerrados.
Cabeça pesada.
Confuso.
Uma folha descansava sobre a mesa diante dele.
"Pai..."
A voz de Isabela saiu quase sem som.
No vídeo, Ricardo pegou uma caneta com dificuldade.
A mão tremia.
"Assina aqui."
A voz de Augusto apareceu.
Então ele entrou no enquadramento.
Ficou ao lado do pai.
Apontou para a linha do documento.
"Isso. Bem aqui."
Ricardo tentou ler.
"Que papel é esse?"
Augusto segurou seu ombro.
"Nada importante, pai. É só uma autorização."
Ricardo assinou.
A caneta quase caiu de sua mão.
Augusto pegou o documento.
Dobrou.
Sorriu.
Isabela ficou sem respirar.
O vídeo terminou.
Ela olhou para Patrícia.
"Que documento era aquele?"
Patrícia ficou pálida.
"Eu não sei."
Isabela segurou o celular com mais força.
Pela primeira vez, os quarenta e seis milhões pareciam apenas uma parte do problema.
Porque se Augusto tinha manipulado o próprio pai anos antes, talvez o esquema tivesse começado muito antes de qualquer transferência aparecer nas contas.
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