"Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas" Parte 4
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Na manhã seguinte, Rafael já tinha transformado a mesa da sala em um pequeno escritório de investigação.
Notebook aberto.
Documentos impressos.
Horários anotados.
Nomes de fornecedores do casamento.
Isabela saiu do quarto e encontrou o marido ao telefone.
"Eu não quero um resumo, Henrique. Quero as gravações completas."
Ele ouviu por alguns segundos.
"Do estacionamento também."
Outra pausa.
"E ninguém apaga nada."
Rafael desligou.
Isabela colocou uma xícara de café diante dele.
"Conseguiu?"
"O Palácio Imperial Jardins guarda as imagens por noventa dias."
"Vão entregar?"
"Depois que mencionei preservação de prova e responsabilidade civil, ficaram bastante colaborativos."
Ela se sentou.
"Quanto tempo?"
"Algumas horas."
Isabela olhou para os papéis.
Havia uma lista com os profissionais contratados para o casamento.
Cerimonial.
Buffet.
Segurança.
Fotografia.
Filmagem.
Ela tocou uma das folhas.
"Você acha que o homem que estava com Augusto era Marcelo?"
"Ainda não sei."
"Minha tia disse que não viu o rosto."
"Por isso precisamos parar de adivinhar."
Rafael fechou uma pasta.
"Se alguém ajudou Augusto, deixou algum rastro."
Isabela pensou na mãe.
Helena também sabia alguma coisa.
Talvez não tudo.
Mas o suficiente para ficar em silêncio.
"Você ainda está pensando nela."
Isabela não precisou perguntar de quem Rafael falava.
"Eu queria não estar."
"Você não precisa decidir nada agora."
"Não é uma decisão."
Ela olhou para ele.
"É a primeira vez que eu consigo olhar para minha mãe sem inventar uma desculpa por ela."
Rafael não respondeu.
O celular tocou.
Ele olhou para a tela.
"Chegou."
Quarenta minutos depois, os dois estavam no escritório de Rafael, no Itaim Bibi.
Uma das salas de reunião tinha sido fechada apenas para eles.
Na tela grande, aparecia o corredor lateral do Palácio Imperial Jardins.
A gravação era da tarde do casamento.
"Quatro horas antes da cerimônia."
Rafael avançou alguns minutos.
Funcionários passavam carregando flores.
Garçons empurravam carrinhos.
Uma assessora corria com caixas nas mãos.
Então Augusto apareceu.
Isabela se inclinou para frente.
Ele ainda não usava o traje completo da festa.
Estava de camisa branca e calça social.
Olhou para os dois lados.
Depois entrou em uma sala privada.
Rafael pausou.
"Agora olha."
Trinta segundos depois, outro homem apareceu.
Terno cinza.
Pasta preta.
Passos rápidos.
Isabela reconheceu antes mesmo de o rosto aparecer claramente.
"Marcelo."
Marcelo Ferraz.
Diretor financeiro do Grupo Almeida havia quase oito anos.
Um homem que Ricardo descrevia como discreto, técnico e indispensável.
Rafael confirmou.
"É ele."
Isabela sentiu o estômago apertar.
"Então minha tia estava certa."
Rafael retomou o vídeo.
Marcelo entrou na mesma sala.
A porta fechou.
Nada aconteceu durante doze minutos.
Depois Marcelo saiu.
Estava sozinho.
Mas havia algo diferente.
"Volta."
Rafael retornou alguns segundos.
"Viu?"
Isabela apontou.
"Quando entrou, ele estava carregando uma caixa."
Pequena.
Escura.
Quase escondida pela pasta.
Quando saiu, a caixa tinha desaparecido.
Rafael ficou sério.
"Sim."
Avançaram.
Sete minutos depois, Augusto saiu.
Ele olhou para o corredor.
Enfiou uma pequena caixa no bolso interno do paletó que carregava sobre o braço.
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Isabela sentiu o sangue gelar.
"Foi ele."
"Não podemos afirmar o que havia na caixa."
"Rafael."
"Eu sei."
Ele segurou a mão dela.
"Mas precisamos construir isso de um jeito que Augusto não consiga destruir depois."
Isabela puxou a mão lentamente.
"Meu irmão não improvisou."
"Não."
"Ele marcou uma reunião."
"Sim."
"Recebeu alguma coisa."
"Sim."
"E depois tentou colocar aquilo na minha taça."
Rafael fechou o vídeo.
"Agora precisamos descobrir por quê."
Isabela ficou olhando para a tela preta.
A resposta parecia óbvia.
As ações.
Mas alguma coisa não encaixava.
"Se ele só queria impedir a transferência, por que fazer isso no casamento?"
Rafael ergueu os olhos.
"Continua."
"Ele poderia ter falado com meu pai."
"Falou."
"Poderia ter ameaçado."
"Provavelmente ameaçou."
"Poderia até tentar questionar os documentos."
Ela se levantou.
"Mas escolheu meu casamento."
Rafael começou a entender.
"Porque precisava de público."
Isabela ficou imóvel.
Duzentas pessoas.
Empresários.
Executivos.
Conselheiros.
Gente ligada à imprensa.
Celulares.
Câmeras.
O cenário perfeito.
"Ele precisava que todo mundo visse."
Rafael abriu a lista de fornecedores.
"Vamos descobrir o quê."
No início da tarde, Isabela recebeu uma ligação da cerimonialista.
"Senhora Isabela, encontrei uma coisa estranha."
"O quê?"
"Sobre a equipe de fotografia."
Isabela colocou o telefone no viva-voz.
"Pode falar."
"Nós contratamos seis profissionais."
"Eu lembro."
"Mas havia sete credenciais emitidas."
Rafael imediatamente pegou uma caneta.
"Para quem era a sétima?"
A mulher hesitou.
"Esse é o problema. O pedido não veio da nossa equipe."
"De quem veio?"
"Do senhor Augusto Almeida."
Isabela fechou os olhos.
"O nome?"
"Caio Nunes."
Rafael digitou rapidamente.
"Função?"
"Fotógrafo de apoio."
"E onde ele deveria ficar?"
A cerimonialista demorou um pouco.
"Na lateral da mesa principal."
Isabela abriu os olhos.
Exatamente onde ela estava.
"Ele tinha alguma orientação específica?"
"Estou olhando o documento agora."
O som de folhas sendo mexidas veio pelo telefone.
"Sim."
"Qual?"
"Registrar continuamente a noiva durante os discursos e durante a primeira hora da recepção."
Ninguém falou.
A cerimonialista continuou.
"Senhora Isabela, isso não é normal."
"Eu sei."
Depois da ligação, Rafael procurou o nome do fotógrafo.
Encontrou trabalhos pequenos.
Eventos empresariais.
Festas.
Cobertura de celebridades.
E uma sequência de serviços para empresas ligadas ao Grupo Almeida.
"Olha isso."
Isabela aproximou-se.
"Marcelo contratou esse homem três vezes."
"Então não era fotógrafo de apoio."
"Era uma câmera apontada para você."
Isabela sentou lentamente.
Agora tudo começava a fazer sentido.
A substância.
O horário.
Os convidados.
O fotógrafo.
"Quanto tempo o médico disse que os efeitos demoravam para aparecer?"
"Depende da dose e do álcool."
"Augusto começou a perder o controle em cerca de meia hora."
Rafael assentiu.
Isabela olhou para o cronograma da festa.
Trinta minutos depois do brinde estava previsto o quê?
Ela puxou uma folha.
Encontrou.
"Meu discurso."
Rafael leu.
O nome de Isabela estava marcado às vinte e duas horas.
Sozinha.
No centro do salão.
Com microfone.
Diante de todos.
Ela sentiu náusea.
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"Era isso."
Rafael ficou em silêncio.
"Eu teria tomado a taça."
A voz dela saiu baixa.
"Depois subiria naquele palco."
"Isa..."
"Eu estaria confusa."
Ela começou a andar.
"Talvez falasse coisas sem sentido. Talvez caísse. Talvez gritasse com alguém."
"Não sabemos."
"Mas eles sabiam o que queriam filmar."
Rafael não negou.
Isabela parou diante da janela.
"Depois aquele vídeo apareceria onde?"
Rafael respondeu:
"No conselho."
Ela se virou.
"E na imprensa."
"Provavelmente."
Ela quase conseguia visualizar as manchetes.
Herdeira perde o controle no próprio casamento.
Filha de Ricardo Almeida apresenta comportamento preocupante diante de executivos.
Nova acionista do Grupo Almeida causa constrangimento público.
Não precisavam provar doença nenhuma.
Precisavam criar dúvida.
E no mundo empresarial, dúvida podia valer milhões.
"Augusto diria que eu não tenho condições."
Rafael assentiu.
"Capacidade emocional comprometida."
"Julgamento instável."
"Risco de governança."
"Incapaz de administrar uma participação dessa dimensão."
Rafael fechou o notebook.
"E pressionaria Ricardo."
"Para cancelar a transferência."
"Ou bloquear seus direitos políticos até uma avaliação."
Isabela riu de incredulidade.
"Meu casamento inteiro era um cenário."
A frase do irmão voltou à memória.
"Minha surpresa está chegando."
Não era provocação.
Era uma contagem regressiva.
Rafael se levantou.
"Temos o encontro com Marcelo, a credencial do fotógrafo e o cronograma."
"Mas ainda falta a ligação."
"Qual?"
"Por que Marcelo faria isso?"
Rafael ficou em silêncio.
Isabela continuou.
"Augusto tinha quase oitocentos milhões de motivos."
Ela apontou para a imagem congelada de Marcelo.
"E ele?"
Rafael voltou ao computador.
"Essa é uma boa pergunta."
Nas horas seguintes, ele começou a pesquisar empresas ligadas ao diretor financeiro.
Participações antigas.
Sócios.
Prestadores de serviço.
Contratos públicos.
Empresas abertas e encerradas.
Isabela acompanhava em silêncio.
Até Rafael parar.
"Espera."
"O quê?"
"Marcelo aparece como sócio indireto de uma consultoria."
"Qual?"
"FM Estratégia e Gestão."
"Nunca ouvi falar."
"Porque não usa o nome completo dele."
Rafael abriu outro arquivo.
A empresa tinha contratos com diversas companhias.
Entre elas, fornecedores do Grupo Almeida.
Ele começou a cruzar datas.
Depois valores.
Sua expressão mudou.
"Não."
Isabela se aproximou.
"O que foi?"
"Tem transferências."
"Do grupo?"
"Não diretamente."
Rafael digitou mais algumas coisas.
"Augusto usou empresas intermediárias."
"Quanto?"
"Estou somando."
Um minuto.
Dois.
Rafael abriu uma planilha.
Isabela viu dezenas de números.
Pagamentos pequenos.
Pagamentos maiores.
Consultorias.
Comissões.
Serviços.
Todos distribuídos ao longo de três anos.
"Rafael."
Ele continuou calculando.
"Quanto?"
Nada.
"Rafael, fala."
Ele finalmente parou.
Virou o notebook para ela.
Na última linha havia um total.
Isabela leu uma vez.
Depois outra.
"Isso foi para uma empresa do Marcelo?"
"Controlada por ele."
"E saiu de onde?"
"De operações autorizadas por Augusto."
Isabela olhou para o valor.
R$ 46.000.000,00.
Quarenta e seis milhões de reais.
Rafael respirou fundo.
"Agora sabemos por que Marcelo precisava que você nunca assumisse o controle do Grupo Almeida."
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