"Meu Irmão Mexeu Na Minha Taça… Então Eu Troquei As Nossas" Parte 3
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A casa dos Almeida, no Jardim Europa, parecia ainda mais fria naquela manhã.
As portas de madeira escura estavam abertas, os funcionários falavam baixo pelos corredores e os arranjos de flores do casamento ainda ocupavam parte da entrada, como restos de uma festa que tinha terminado mal demais para ser esquecida.
Isabela entrou sem anunciar.
Rafael veio logo atrás.
Ela tinha trocado o vestido de noiva por uma calça clara, camisa branca e um casaco leve.
Mas ainda carregava no rosto a noite inteira sem dormir.
Ricardo estava na biblioteca.
Sentado diante de uma mesa cheia de documentos.
Quando viu a filha, não pareceu surpreso.
"Eu sabia que você viria."
Isabela fechou a porta.
"Então facilita."
Ricardo tirou os óculos.
"Isabela..."
"É verdade?"
Ele ficou em silêncio.
"Eu quero ouvir da sua boca."
Rafael permaneceu perto da porta, sem interromper.
Ricardo olhou para os papéis diante dele.
Depois para a filha.
"É verdade."
A resposta atingiu Isabela com mais força do que ela esperava.
Mesmo já sabendo.
Mesmo tendo visto os documentos.
Mesmo tendo ouvido Rafael explicar os números.
Uma coisa era ler.
Outra era ouvir o pai admitir.
"Você transferiu para mim uma participação que vale centenas de milhões."
"Sim."
"E não me contou."
"Eu ia contar."
"Quando?"
"Depois da lua de mel."
Isabela soltou uma risada curta.
"Depois da lua de mel."
Ricardo fechou a expressão.
"Eu queria evitar justamente o que aconteceu."
"Então você sabia que Augusto reagiria assim."
"Eu sabia que ele ficaria revoltado."
"Revoltado?"
Ela se aproximou.
"Ele colocou uma substância na minha bebida."
Ricardo desviou o olhar.
"Eu não imaginei que chegaria a esse ponto."
"Mas imaginou alguma coisa."
O silêncio voltou.
Isabela sentiu a raiva crescer.
"Por que eu?"
Ricardo ergueu os olhos.
"O quê?"
"Por que as ações vieram para mim?"
"Porque eram minhas."
"Não foi isso que eu perguntei."
Ela apoiou as mãos na mesa.
"Augusto passou a vida inteira ouvindo que seria o sucessor. A mamãe tratava ele como se o grupo já tivesse o nome dele gravado na porta."
Ricardo respirou fundo.
"Eu errei nisso."
"Você deixou."
"Eu sei."
"Então por que mudou?"
Ricardo se levantou.
Ele caminhou até a janela.
Do lado de fora, o jardim perfeitamente cuidado parecia pertencer a outra família.
"Porque eu comecei a olhar para os resultados."
Isabela não disse nada.
Ricardo continuou.
"Durante anos, eu confundi confiança com capacidade."
Ele virou o rosto.
"Augusto fala bem. Entra em uma reunião e convence as pessoas. Assume riscos sem demonstrar medo. Isso sempre impressionou muita gente."
"Principalmente vocês."
"Principalmente sua mãe."
Isabela percebeu a escolha das palavras.
"Você está se tirando disso?"
"Não."
Ricardo voltou até a mesa.
"Eu fui tão responsável quanto ela."
Rafael cruzou os braços.
Ricardo olhou para ele por um instante.
Depois retomou.
"Quando o projeto de Goiás começou a afundar, foi você quem reorganizou tudo."
Isabela permaneceu imóvel.
"Quando perdemos aquele contrato com a rede hospitalar, foi você quem encontrou outra saída."
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"Augusto apresentou a proposta final."
"Porque eu deixei."
A frase caiu pesada.
Isabela sentiu os olhos arderem.
"Por quê?"
Ricardo não respondeu de imediato.
"Porque ele era o diretor responsável."
"Não."
Ela balançou a cabeça.
"Isso não explica."
Ricardo baixou o olhar.
"Porque eu achava que reconhecer você demais criaria um problema com seu irmão."
Isabela riu.
Mas dessa vez havia dor.
"Então você apagou meu trabalho para proteger o ego dele."
Ricardo fechou os olhos.
"Sim."
A sinceridade não ajudou.
Piorou.
Isabela se afastou.
"Quantas vezes?"
"Mais do que eu deveria."
"Quantas?"
"Não sei."
"Você sabe."
Ricardo não respondeu.
Isabela passou a mão pelo rosto.
"Eu passei anos achando que não era boa o suficiente."
"Você sempre foi."
"Mas vocês nunca fizeram parecer."
A porta se abriu.
Helena entrou.
"Chega."
Isabela virou o rosto lentamente.
A mãe estava impecável, como sempre.
Calça escura.
Blusa de seda.
Cabelos presos.
Parecia alguém a caminho de um almoço elegante.
Não alguém cuja filha quase tinha sido dopada no próprio casamento.
"Você ouviu?"
Helena fechou a porta.
"Ouvi o suficiente."
"Ótimo."
Isabela apontou para Ricardo.
"Então talvez você possa explicar o resto."
Helena apertou os lábios.
"Não acho que esse tom ajude."
Rafael soltou o ar pelo nariz.
Isabela apenas encarou a mãe.
"Que tom você prefere?"
"Um pouco de respeito."
"Respeito."
Ela repetiu a palavra como se fosse estrangeira.
"Interessante."
"Isabela."
"Você sabia das ações?"
Helena não respondeu.
A resposta estava no rosto.
Isabela sentiu algo dentro dela despencar.
"Você sabia."
"Seu pai comentou."
"Quando?"
"Há algumas semanas."
"Quantas?"
Helena hesitou.
"Quase dois meses."
Isabela sentiu a garganta fechar.
"Augusto sabia?"
"Descobriu."
"Como?"
"Não importa."
"Importa para mim."
Helena desviou os olhos.
Ricardo interferiu.
"Helena."
Ela respirou fundo.
"Ele viu um documento no escritório do seu pai."
Isabela congelou.
"E ficou com raiva."
Helena não respondeu.
"Perguntei se ficou com raiva."
"Ficou."
"Quanto?"
"Isabela..."
"Quanto?"
Helena perdeu a paciência.
"Ele ficou transtornado."
A palavra ecoou.
"Transtornado."
Isabela se aproximou.
"E você fez o quê?"
"Conversei com ele."
"Sobre?"
"Sobre aceitar a decisão do seu pai."
Isabela soltou uma risada sem alegria.
"E ele aceitou tão bem que tentou me dopar."
"Eu não sabia disso."
"Mas sabia que ele faria alguma coisa."
Helena ficou rígida.
Ricardo olhou para a esposa.
"Helena?"
Ela permaneceu calada.
Isabela sentiu o coração bater mais rápido.
"Mãe."
"Não foi assim."
"Foi como?"
Helena respirou fundo.
"Augusto disse que você precisava entender que não podia entrar no grupo achando que mandaria em tudo."
Rafael deu um passo à frente.
"E o que ele pretendia fazer?"
"Eu não sabia."
"Mas ele falou alguma coisa."
Helena fechou os olhos por um segundo.
Foi tudo o que Isabela precisava.
"O que ele falou?"
"Que faria você passar vergonha."
Isabela ficou imóvel.
Ricardo empalideceu.
"O quê?"
Helena virou para ele.
"Ricardo, eu achei que fosse só uma provocação."
"Que provocação?"
"Uma brincadeira de mau gosto."
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Isabela sentiu a raiva desaparecer.
No lugar, veio algo pior.
Uma frieza profunda.
"Você sabia que ele queria fazer alguma coisa comigo no meu casamento."
Helena balançou a cabeça.
"Eu achei que ele só queria assustar você."
A frase atravessou o cômodo.
Isabela ficou olhando para a mãe.
Sem chorar.
Sem gritar.
Sem responder.
Helena tentou se aproximar.
"Isa..."
Isabela recuou.
"Não encosta em mim."
A mãe parou.
"Eu não sabia da substância."
"Não interessa."
"Interessa, sim."
"Não."
Isabela finalmente ergueu a voz.
"Você sabia que seu filho queria me humilhar no meu casamento e deixou acontecer."
"Eu pensei que ele fosse falar alguma coisa, fazer uma cena, nada além disso."
"Então você sabia que ele estava planejando alguma coisa."
"Não desse tamanho."
"Você sempre faz isso."
Helena franziu a testa.
"Faço o quê?"
"Diminui tudo que ele faz."
Isabela sentiu os olhos se encherem.
"Quando ele machuca alguém, foi impulso. Quando ele mente, foi pressão. Quando ele destrói alguma coisa, foi porque estava nervoso."
Helena tentou interromper.
"Isabela..."
"Mas quando sou eu, sempre tenho que entender."
A voz dela falhou.
"Eu tenho que ter paciência. Tenho que manter a família unida. Tenho que lembrar que ele carrega o peso desta família."
Helena ficou pálida.
Isabela respirou fundo.
"Ontem ele quase acabou com a minha vida."
"Ele é seu irmão."
Isabela fechou os olhos.
Aquilo foi suficiente.
Quando abriu novamente, havia uma distância nova no olhar.
"E eu sou sua filha."
Helena não respondeu.
Aquela ausência de resposta disse tudo.
Isabela virou-se.
"Vamos embora."
Rafael não discutiu.
Seguiu com ela até a porta.
Ricardo chamou:
"Isabela."
Ela parou, mas não virou.
"Eu sinto muito."
Ela respondeu sem olhar para trás.
"Devia ter sentido antes."
Saiu.
Horas depois, já no apartamento de Rafael, Isabela permaneceu sentada perto da janela.
A cidade se espalhava lá embaixo.
Buzinas.
Prédios.
Luzes.
Tudo seguia funcionando.
Como se nada tivesse mudado.
Rafael colocou uma xícara de café na mesa.
"Você precisa comer."
"Depois."
"Você disse isso há quatro horas."
"Eu sei."
O celular de Isabela vibrou.
Era Tereza.
Ela quase não atendeu.
Mas havia algo no nome da tia que a fez deslizar o dedo.
"Oi."
"Isabela, você está sozinha?"
Ela olhou para Rafael.
"Estou com o Rafael."
"Melhor."
A voz de Tereza estava baixa.
"Eu preciso falar com vocês."
"Sobre o quê?"
"Sobre ontem."
Isabela sentou mais ereta.
"O que aconteceu?"
Tereza respirou do outro lado.
"Não é só sobre ontem."
"Então fala."
"Na noite anterior ao casamento, eu fui até o hotel levar um presente que tinha esquecido com a cerimonialista."
Isabela não interrompeu.
"Eu passei perto de uma das salas privadas."
Tereza hesitou.
"Augusto estava lá dentro."
"Com quem?"
"Eu não vi direito."
Rafael se aproximou.
Isabela colocou no viva-voz.
Tereza continuou.
"Eles estavam discutindo."
"Sobre mim?"
"Seu nome apareceu."
Isabela sentiu o corpo tensionar.
"O que disseram?"
"Havia um homem com ele."
"Quem?"
"Eu não sei."
"Mas ouvi claramente uma frase."
Tereza ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois repetiu:
"Depois do escândalo, ela não terá condições de assumir nada."
Rafael e Isabela trocaram um olhar.
"Escândalo?"
"Foi essa palavra."
Isabela apertou o telefone.
"Você ouviu mais alguma coisa?"
"Ouvi Augusto dizer que precisava parecer natural."
O peito dela apertou.
"Natural como?"
"Não sei."
"Você contou para alguém?"
"Não."
"Por quê?"
"Porque achei que fosse alguma disputa da empresa."
Isabela fechou os olhos.
Mais uma pessoa que tinha ouvido alguma coisa.
Mais uma pessoa que não tinha entendido o tamanho.
Tereza respirou fundo.
"Isabela..."
"Fala."
"Tem uma coisa que você precisa entender antes de continuar investigando."
A voz da tia mudou.
Ficou mais grave.
Mais cuidadosa.
"Seu irmão não estava sozinho."
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