"Quando O Bilionário Voltou A Andar, Sua Família Entrou Em Pânico" Parte 3
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Isabela não respondeu imediatamente.
Continuou encarando Ricardo Montenegro enquanto mantinha o comprimido fechado na palma da mão.
O irmão de Augusto permanecia diante da porta com uma tranquilidade desconfortável.
Não havia ameaça explícita em seu rosto.
Era justamente isso que preocupava.
"Uma coisa que eu não deveria ter encontrado?"
Ricardo sorriu.
"Você parece levar tudo muito a sério."
"Medicamentos costumam ser coisa séria."
"Principalmente quando não entendemos para que servem."
Isabela abriu a mão.
"Então me explique."
Ricardo olhou para o comprimido.
"Não sou médico."
"Mas sabia exatamente o que eu estava segurando."
O sorriso dele diminuiu.
Por um instante, o homem educado desapareceu.
Depois voltou.
"Camila me disse que você era competente."
Isabela franziu a testa.
"Você conhece Camila?"
"Eu aprovei sua contratação."
Aquilo mudou o ambiente.
Até aquele momento, Isabela acreditava que Camila havia recebido a indicação por contatos do hospital.
Ricardo se aproximou da bancada.
"Augusto precisava de alguém novo. Os últimos profissionais não conseguiram lidar com ele."
"Ou não tiveram tempo suficiente."
"Meu irmão nunca facilitou a vida de ninguém."
Ricardo pegou a prescrição impressa.
Seus olhos passaram pelas linhas.
"Esse comprimido provavelmente veio de alguma prescrição anterior. A equipe deve ter cometido um erro."
"Provavelmente?"
"Você está nesta casa há poucos dias, Isabela."
Ele colocou o papel sobre a bancada.
"Não transforme cada detalhe em uma conspiração."
Ela sustentou o olhar.
"Eu não disse que era uma conspiração."
Ricardo percebeu o próprio erro.
O silêncio entre os dois durou alguns segundos.
Então ele sorriu novamente.
"Você é mais esperta do que parece."
"E você responde menos do que deveria."
Ricardo soltou uma risada baixa.
"Agora entendo por que Augusto ainda não mandou você embora."
Antes de sair, ele parou junto à porta.
"Obrigado por cuidar do meu irmão."
Isabela não respondeu.
Ricardo voltou a olhar para o comprimido.
"Mas um conselho."
"Qual?"
"Cuide da recuperação dele."
A voz perdeu a suavidade.
"Não da família Montenegro."
A porta se fechou.
Isabela permaneceu imóvel.
Depois pegou um pequeno envelope plástico, colocou o comprimido dentro e guardou na bolsa.
Não sabia o que aquilo significava.
Mas sabia de uma coisa.
Ricardo Montenegro não havia entrado naquela sala por acaso.
Na manhã seguinte, Augusto estava mais impaciente que o normal.
"Você está distraída."
Isabela ajustou a faixa elástica ao redor de sua perna.
"Estou trabalhando."
"Você olhou para o mesmo ponto três vezes."
"Agora também virou especialista em comportamento?"
"Passei a vida observando pessoas que queriam alguma coisa de mim."
Isabela levantou os olhos.
"E o que eu quero?"
"É o que estou tentando descobrir."
Ela se aproximou.
"Então tente enquanto contrai a perna direita."
Augusto fez uma expressão irritada.
Mesmo assim, obedeceu.
A resposta foi pequena.
Mas apareceu.
"De novo."
Ele tentou.
"Mais força."
"Se eu tivesse mais força, não estaria nessa cadeira."
Isabela ignorou o comentário.
"Outra vez."
Depois de quase uma hora, Augusto estava exausto.
Mas não reclamou.
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Aquilo chamou a atenção dela.
"Hoje você está cooperando."
"Não se acostume."
"Seria uma pena descobrir que você consegue seguir instruções."
Augusto quase sorriu.
Então Dona Helena apareceu.
"Senhor Augusto, sua família chega às sete."
O rosto dele mudou.
A pequena leveza desapareceu.
"Eu sei."
Isabela recolheu os equipamentos.
"Algum problema?"
Augusto não respondeu.
Dona Helena explicou:
"Haverá um jantar."
Augusto olhou para ela.
"Não precisa contar minha agenda."
Dona Helena permaneceu serena.
"Ela vai perceber quando vinte pessoas ocuparem a casa."
Isabela olhou de um para o outro.
"É aniversário de alguém?"
Augusto soltou uma risada sem humor.
"É pior."
Naquela noite, a Mansão Montenegro deixou de parecer vazia.
Carros de luxo começaram a entrar pelos portões.
Empresários.
Advogados.
Parentes.
Integrantes do conselho do Grupo Montenegro.
Isabela deveria ter ido embora.
Mas Augusto teria uma sessão leve depois do jantar, e Dona Helena havia pedido que ela permanecesse.
Do alto da escada, Isabela observou os convidados entrando.
Todos sorriam.
Todos perguntavam por Augusto.
Todos pareciam preocupados.
Mas havia alguma coisa estranha.
As perguntas eram cuidadosas demais.
"Ele melhorou?"
"Já consegue ficar em pé?"
"O médico deu algum novo prognóstico?"
Pareciam falar de saúde.
Mas Isabela começou a sentir que estavam medindo outra coisa.
Quanto tempo Augusto continuaria fraco.
Às oito, ele entrou na sala de jantar.
O ambiente mudou imediatamente.
Mesmo sentado em uma cadeira de rodas, Augusto Montenegro ainda obrigava as pessoas a abrirem espaço.
Ricardo caminhava ao lado dele.
"Que bom ver você disposto a participar."
Augusto nem olhou para o irmão.
"Essa continua sendo minha casa."
Ricardo sorriu.
"E ninguém disse o contrário."
Na extremidade da mesa estava Vitória Albuquerque Montenegro, esposa de Ricardo.
Elegante, impecável, vestido escuro, joias discretas.
Ela beijou o rosto de Augusto.
"Você parece melhor."
"Isso decepciona você?"
Vitória manteve o sorriso.
"Sempre tão agradável."
O jantar começou com conversas aparentemente banais.
Mercado.
Investimentos.
Projetos imobiliários.
Depois, lentamente, o assunto mudou.
Um dos diretores, Alberto Nogueira, colocou a taça sobre a mesa.
"Augusto, precisamos conversar sobre a próxima assembleia."
Augusto continuou cortando a carne.
"Conversem."
"Há decisões importantes sendo adiadas."
"Ricardo está como presidente interino."
Ricardo levantou a mão.
"Não precisamos discutir isso hoje."
Augusto olhou para ele.
"Por quê? Você está com vergonha?"
O ambiente ficou pesado.
Alberto respirou fundo.
"O mercado precisa de estabilidade."
Augusto largou os talheres.
"Traduza."
Ninguém respondeu.
Ele olhou ao redor.
"Vocês querem saber quando vou sair definitivamente."
Um dos tios tentou intervir.
"Ninguém está dizendo isso."
"Não?"
Augusto apontou para Alberto.
"Então diga."
O homem engoliu em seco.
"Existe uma proposta para formalizar a presidência executiva de Ricardo."
Dona Helena, que supervisionava o serviço, parou por um instante.
Isabela observava tudo de longe.
Augusto ficou imóvel.
"Formalizar."
Ricardo finalmente falou.
"É apenas uma medida de segurança para o grupo."
"Segurança."
Augusto riu.
"Há três meses eu estava dirigindo essa empresa."
"Há três meses você sofreu um acidente grave."
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"Eu não morri."
Vitória apoiou os braços sobre a mesa.
"Augusto, ninguém está dizendo isso."
Ele olhou diretamente para ela.
"Então diga o que estão dizendo."
Vitória não recuou.
"Que talvez seja hora de Augusto aceitar que algumas coisas não voltarão."
O silêncio caiu sobre a mesa.
Isabela viu os dedos dele apertarem os apoios da cadeira.
Tão forte que os nós ficaram brancos.
Vitória continuou:
"O grupo não pode viver esperando uma recuperação que talvez nunca aconteça."
Augusto respirou fundo.
Ricardo tentou parecer incomodado.
"Vitória, chega."
Ela virou-se para o marido.
"Alguém precisa ser sincero."
Augusto empurrou a cadeira para trás.
"Terminamos."
Alberto tentou levantar.
"Augusto..."
"Eu disse que terminamos."
Ninguém insistiu.
Talvez ele estivesse em uma cadeira de rodas.
Mas ainda era Augusto Montenegro.
Ele saiu da sala sem olhar para ninguém.
Isabela o encontrou vinte minutos depois na sala de reabilitação.
As luzes estavam apagadas.
Augusto estava diante das barras paralelas.
Sozinho.
Ela acendeu apenas uma luminária.
"Você deveria descansar."
"Não."
"Hoje já treinou."
"Vamos de novo."
Isabela percebeu o rosto dele.
Raiva.
Humilhação.
Mas principalmente uma determinação que não estava ali nos outros dias.
"Isso não funciona assim."
"Faça o que precisa fazer."
"Augusto..."
Ele bateu a mão no apoio.
"Eu preciso ficar de pé."
Isabela ficou em silêncio.
"Para quê?"
Ele ergueu os olhos.
"Para lembrar minha família de quem eu sou."
Isabela aproximou-se.
"Então vamos fazer isso do jeito certo."
Ela posicionou a cadeira entre as barras.
Ajustou os pés.
"Não tente provar nada para ninguém agora."
Augusto segurou as barras.
"Fácil falar."
"Você quer levantar?"
"Quero."
"Então escute."
Ele respirou fundo.
Isabela colocou uma das mãos perto do quadril dele.
"Tronco para frente."
Augusto obedeceu.
"Empurre com os braços."
Ele fez força.
O corpo subiu alguns centímetros.
A perna direita tremeu.
Então cedeu.
Augusto caiu de volta na cadeira.
Bateu no apoio.
"De novo."
"Espere."
"De novo."
Isabela reposicionou seus pés.
Segunda tentativa.
Augusto conseguiu subir mais.
Por um instante, o quadril deixou a cadeira.
Então os joelhos falharam.
Isabela o segurou.
"Augusto."
"Outra vez."
"Seu corpo está cansado."
"Outra vez."
Isabela viu algo nos olhos dele.
Não era apenas orgulho.
Era desespero.
Ela respirou fundo.
"Última tentativa."
Augusto segurou as barras.
Isabela se abaixou diante dele.
"Olhe para mim."
Ele olhou.
"Não pense no jantar."
Silêncio.
"Não pense no Ricardo."
Augusto apertou as mãos.
"Não pense em quem quer tirar sua empresa."
Ela tocou a perna direita.
"Pense nisso."
Augusto respirou profundamente.
"Agora."
Ele empurrou.
O corpo começou a subir.
Isabela sustentou parte do quadril.
"Mais."
Augusto gemeu de esforço.
"Não pare."
Os braços tremeram.
A perna esquerda quase cedeu.
Então aconteceu.
A perna direita endureceu.
Por um segundo.
Depois dois.
Augusto ficou parcialmente em pé.
Isabela arregalou os olhos.
"Isso."
Ele parecia não acreditar.
"Isabela..."
"Não fale. Sustente."
Ela diminuiu o apoio das mãos.
A perna continuou suportando parte do peso.
Augusto olhou para baixo.
Seus olhos ficaram marejados.
"Eu estou..."
"Sim."
"Minha perna..."
"Está sustentando."
Ele respirou como se tivesse esquecido como fazer aquilo.
Depois de poucos segundos, o corpo perdeu força.
Isabela o ajudou a sentar.
Augusto permaneceu imóvel.
"Você sentiu?"
Ele não respondeu.
"Augusto."
Ele passou a mão pelo rosto.
"Eu senti o chão."
Isabela sorriu pela primeira vez naquela noite.
"Então amanhã fazemos de novo."
Ele levantou os olhos para ela.
Algo havia mudado.
Pela primeira vez, não havia apenas raiva.
Havia esperança.
Do outro lado da porta de vidro, alguém observava.
Ricardo permanecia imóvel no corredor escuro.
Tinha visto tudo.
A perna de Augusto suportando peso.
Isabela comemorando.
O irmão olhando para o chão como um homem que acabava de recuperar algo que todos acreditavam perdido.
O sorriso educado de Ricardo desapareceu.
Ele se afastou silenciosamente.
Caminhou até o escritório.
Fechou a porta.
Pegou o celular.
Fez uma ligação.
Quando alguém atendeu, Ricardo falou apenas quatro palavras.
"Temos um problema."
Do outro lado da linha, uma voz perguntou alguma coisa.
Ricardo olhou pela janela para a sala onde Augusto ainda estava com Isabela.
Então respondeu:
"Ele está ficando de pé."
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