"O Segredo Dentro Do Ouvido De Mafia Boss" Capítulo 3
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A gravação terminou.
Por alguns segundos, ninguém dentro da biblioteca conseguiu se mover.
Dante continuava olhando para o tablet nas mãos de Rafael, como se pudesse obrigar aquela tela a explicar três anos inteiros de sua vida.
Mariana sentiu um arrepio percorrer os braços.
Victor não havia apenas participado de alguma coisa.
Ele sabia exatamente o que aconteceria se Dante recuperasse a audição.
E havia outro homem envolvido.
Um homem cuja voz ninguém reconhecia.
"Toque de novo."
A ordem de Dante saiu baixa.
Rafael voltou alguns segundos no arquivo.
O chiado apareceu primeiro.
Depois, a voz de Victor.
"Se Dante voltar a ouvir, tudo acaba."
A voz desconhecida respondeu:
"Então garanta que ele nunca volte."
Dante fechou os olhos.
Na segunda vez, aquelas palavras pareceram ainda piores.
Não eram uma ameaça impulsiva.
Eram parte de um plano.
"Quando isso foi gravado?"
Rafael verificou os dados recuperados.
"Não temos uma data exata ainda."
"Então descubra."
"Estamos tentando."
Dante caminhou até a janela.
Do lado de fora, a chuva continuava caindo sobre o Jardim Europa.
Durante três anos, ele havia visto tempestades como aquela sem ouvir absolutamente nada.
Agora cada gota parecia bater diretamente contra seus nervos.
Mariana observou em silêncio.
Dante apertou a mandíbula.
"Quantos arquivos existem?"
Rafael demorou a responder.
"Milhares."
Dante virou-se.
"Milhares?"
"Alguns estão corrompidos. Outros parecem fragmentos de poucos segundos."
"De quanto tempo?"
Rafael olhou para um dos técnicos.
O homem respondeu.
"Os primeiros registros recuperáveis têm quase três anos."
Dante ficou parado.
Três anos.
Não era apenas um aparelho para impedir que ele ouvisse.
Era uma escuta.
Instalada dentro do próprio corpo.
Mariana levou a mão à boca.
"Então tudo o que foi dito perto dele..."
O técnico assentiu.
"Pode ter sido gravado."
A frase caiu como uma pedra.
Dante pensou em reuniões do conselho.
Conversas com advogados.
Negociações reservadas.
Discussões familiares.
Consultas médicas.
Encontros com políticos.
Pessoas que tinham falado perto dele acreditando que um homem surdo jamais saberia o que estava sendo dito.
Talvez Victor tivesse ouvido tudo.
Talvez alguém acima de Victor tivesse ouvido tudo.
Dante se virou para Rafael.
"Quem tinha acesso à minha rotina?"
"Victor controlava a agenda pessoal."
"Eu já sei."
A voz de Dante endureceu.
"Quero saber quem controlava salas, carros, reuniões, quem sabia onde eu estaria e a que horas."
Rafael respondeu com cuidado.
"Victor supervisionava quase tudo isso."
Dante soltou uma risada curta.
Não havia humor nela.
"Claro que supervisionava."
Mariana olhou para Gabriel dormindo no sofá.
O menino estava abraçado ao carrinho vermelho.
Tão pequeno.
Tão distante de tudo aquilo.
E ainda assim havia sido ele quem desmontara em segundos uma mentira que adultos poderosos haviam mantido por anos.
Dante passou a mão pelo rosto.
"Comecem pelos arquivos mais antigos."
Um dos técnicos assentiu.
"Pode levar algum tempo."
"Não me importa."
"Dante."
Henrique apareceu na porta da biblioteca.
Ele havia terminado uma nova avaliação médica.
"Precisamos conversar."
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Dante olhou para ele.
"Depois."
"É sobre sua audição."
"Minha audição foi roubada durante três anos. Acho que consigo esperar mais dez minutos."
Henrique ficou em silêncio.
Mariana percebeu que ninguém ali sabia como falar com Dante agora.
Antes, todos precisavam escolher cuidadosamente o que mostrar.
Agora ele ouvia o tom.
A hesitação.
O medo.
Até a mentira parecia diferente quando tinha som.
Rafael recebeu uma notificação.
"Encontramos outro arquivo."
Dante voltou imediatamente.
"Toque."
O técnico abriu a gravação.
Primeiro, ruídos de hospital.
Um monitor cardíaco.
Passos.
Uma porta.
Depois, Victor.
"Ele ainda está sedado?"
Uma voz masculina respondeu.
"Por mais algumas horas."
Henrique empalideceu.
Dante olhou para ele.
"Você reconhece essa voz?"
Henrique aproximou-se do tablet.
"Não tenho certeza."
A gravação continuou.
Victor falou novamente.
"Quando ele acordar, vai acreditar que perdeu a audição por causa da explosão."
O outro homem respondeu.
"Desde que ninguém faça exames fora do protocolo."
Dante virou lentamente para Henrique.
O médico ergueu as mãos.
"Eu não estava nessa conversa."
"Mas você estava no hospital."
"Sim."
"Você assinou meus relatórios."
"Com base nos exames disponíveis."
"Exames que talvez tenham sido manipulados."
Henrique ficou pálido.
"Se foram, eu não sabia."
Dante sustentou o olhar dele por alguns segundos.
"Espero que não."
O áudio terminou.
Mariana sentiu o ambiente ficar ainda mais pesado.
Dante não sabia mais em quem confiar.
Talvez esse fosse o verdadeiro objetivo desde o começo.
Isolar um homem poderoso.
Não apenas do som.
Mas da verdade.
O técnico continuou trabalhando.
"Há uma pasta separada."
Rafael aproximou-se.
"Nome?"
O homem leu.
"IM."
Dante ficou imóvel.
Mariana percebeu.
"O que significa?"
Ele não respondeu.
Rafael olhou para ele.
"Dante?"
Dante continuava olhando para a tela.
"Abra."
O técnico clicou.
Havia dezenas de arquivos.
Alguns com datas.
Outros apenas números.
O primeiro começou com barulho de restaurante.
Taças.
Talheres.
Música baixa.
Então uma voz feminina.
"Você não pode continuar adiando."
Dante perdeu a cor.
Mariana olhou para ele.
Ele conhecia aquela voz.
Na gravação, Dante respondeu.
Sua própria voz de três anos antes parecia estranha até para ele.
"Eu só preciso resolver algumas coisas."
A mulher soltou um suspiro.
"Você sempre precisa resolver alguma coisa."
"Isabela..."
Mariana voltou os olhos para Dante.
Ele apertou os dedos contra a mesa.
A mulher continuou.
"Eu não preciso de outra mansão, Dante. Não preciso de sobrenome, segurança nem motorista. Eu preciso saber se você ainda quer a vida que prometeu."
Dante fechou os olhos.
A gravação terminou.
Mariana não perguntou nada.
Não precisava.
O rosto dele dizia que aquela mulher havia sido importante.
Muito importante.
Rafael abriu outro arquivo.
Dessa vez, a voz era de Victor.
"Ela está fazendo perguntas demais."
O homem desconhecido respondeu.
"Então afaste os dois."
Victor ficou alguns segundos em silêncio.
"Ele vai atrás dela."
"Não se acreditar que ela o traiu."
Dante agarrou a borda da mesa.
Rafael olhou para ele.
"Dante..."
"Continue."
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O áudio avançou.
Victor falou novamente.
"E ela?"
O desconhecido respondeu:
"Vai acreditar que Dante escolheu o império."
Mariana sentiu o coração apertar.
Duas pessoas haviam sido separadas.
Uma mentira para cada lado.
Dante acreditando que Isabela o abandonara.
Isabela acreditando que Dante a escolhera como descartável.
"Quem era ela?"
Mariana perguntou com cuidado.
Dante demorou.
"Minha noiva."
A resposta surpreendeu Mariana.
"Vocês iam se casar?"
"Seis semanas depois do acidente."
Ele se afastou da mesa.
"Depois que acordei sem ouvir, tudo começou a desmoronar."
Dante olhou para a chuva.
"Isabela tentou ficar comigo."
A voz dele perdeu dureza.
"Mas começaram a chegar mensagens."
"Que mensagens?"
"Prints."
Ele soltou o ar lentamente.
"Conversas que supostamente eram dela com outro homem."
Mariana entendeu.
"Falsas?"
"Agora eu não sei mais o que era verdadeiro."
Dante abaixou a cabeça.
"Eu a confrontei."
"Ela negou?"
"Disse que eu estava procurando uma desculpa para afastá-la."
Ele sorriu sem alegria.
"Eu achei que ela estava mentindo."
Mariana ficou em silêncio.
Dante continuou.
"Dois dias depois, ela saiu de São Paulo."
"Para onde?"
"Campos do Jordão."
Rafael parecia conhecer a história.
Mariana não.
"E então?"
Dante demorou a responder.
"O carro dela caiu de uma estrada durante uma tempestade."
Mariana congelou.
"Dante..."
"Encontraram o veículo perto de um rio."
Ele respirou fundo.
"Havia sangue."
"Encontraram o corpo?"
Dante não respondeu imediatamente.
"Não."
Mariana sentiu algo estranho.
"Então nunca tiveram certeza?"
"Encontraram o celular dela."
"A bolsa?"
"Sim."
"Documentos?"
"Sim."
"Mas não o corpo."
Dante olhou para ela.
A verdade que Mariana estava tentando dizer sem palavras pareceu atravessá-lo.
Durante três anos, ele havia aceitado uma morte sem corpo.
Porque confiava nas pessoas ao redor.
Victor.
Investigadores.
Funcionários.
Talvez até médicos.
Rafael chamou a atenção deles.
"Tem mais."
Um novo áudio carregou.
Victor estava falando.
A voz parecia mais baixa.
"Ela morreu acreditando que Dante a traiu."
Dante ficou completamente imóvel.
Mariana viu a cor desaparecer de seu rosto.
Ele sussurrou:
"Isabela."
O homem desconhecido riu.
"Melhor assim."
Victor respondeu:
"E Dante?"
"Vai carregar a culpa."
Dante fechou os olhos.
As mãos começaram a tremer.
Mariana se aproximou instintivamente.
"Dante."
Ele levantou uma mão.
Não queria consolo.
Talvez porque ainda não soubesse se aquilo era dor ou esperança.
Se Victor falava sobre a morte de Isabela como parte de um plano, então talvez nada daquela história tivesse acontecido como Dante acreditava.
O áudio continuou.
Victor parecia inquieto.
"E se alguém procurar mais?"
"Não vai procurar."
"Dante pode mudar de ideia."
"Surdo, isolado e convencido de que ela o traiu?"
O desconhecido soltou uma risada.
"Ele vai enterrar o assunto junto com ela."
Dante bateu a mão contra a mesa.
O som ecoou.
Ele próprio se assustou.
Gabriel se mexeu no sofá.
Mariana imediatamente foi até o filho.
O menino abriu os olhos.
"Mamãe?"
"Está tudo bem."
Gabriel olhou para Dante.
"Ele está bravo?"
Mariana acariciou seu cabelo.
"Um pouco."
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Gabriel sentou-se.
Dante respirou fundo, tentando controlar a própria voz.
"Desculpa."
Gabriel apontou para ele.
"Você fala alto agora."
Por um instante, ninguém soube como reagir.
Dante quase sorriu.
Quase.
Então o técnico ergueu a cabeça.
"Tem mais uma frase no arquivo."
"Toque."
O áudio voltou.
A voz desconhecida estava mais distante.
"Ela deixou algo que Dante jamais poderá encontrar."
Dante deu um passo à frente.
"Volte."
O técnico repetiu.
"Ela deixou algo que Dante jamais poderá encontrar."
Dante olhou para Rafael.
"O que ela deixou?"
"Não sei."
"Filho?"
Mariana perguntou antes de pensar.
Dante virou para ela.
O silêncio ficou estranho.
"Não."
A resposta saiu rápida.
"Isabela não estava grávida."
Mas ele não parecia tão certo quanto gostaria.
Talvez pudesse ser dinheiro.
Documentos.
Alguma prova.
Ou alguma coisa que Victor e o homem desconhecido temiam até hoje.
Rafael começou a falar quando um alarme atravessou a mansão.
Dante levou a mão à orelha.
O som era brutal para alguém que passara três anos no silêncio.
Luzes vermelhas começaram a piscar no corredor.
Rafael pegou o rádio.
"O que aconteceu?"
Uma voz respondeu entre chiados.
"Movimento no setor leste."
"Quem?"
"Não sabemos."
Dante olhou para as câmeras da biblioteca.
Uma das telas ficou preta.
Depois outra.
Rafael empalideceu.
"Estão derrubando o sistema."
Mariana pegou Gabriel no colo.
"Victor?"
Dante caminhou até a porta.
"Ele não conseguiu sair."
Rafael ouviu outra transmissão.
Seu rosto mudou.
"Encontraram uma passagem aberta perto da antiga adega."
Dante franziu a testa.
"Que passagem?"
"Um corredor de serviço da construção original."
"Para onde leva?"
Rafael consultou a planta no tablet.
Então parou.
"Até o jardim de inverno."
O lugar onde Gabriel havia encontrado Dante.
Mariana sentiu o sangue gelar.
Victor talvez não tivesse chegado ali por acaso.
Talvez estivesse perto desde o começo.
Um segurança surgiu correndo no corredor.
"Dante!"
Todos olharam.
O homem estava ofegante.
"Victor não saiu da propriedade."
Dante apertou os olhos.
"Onde ele está?"
"Os sensores detectaram movimento dentro das paredes do setor leste."
Rafael sacou a arma.
Mariana abraçou Gabriel com força.
Dante deu um passo para fora da biblioteca.
Então dois estampidos violentos ecoaram no andar inferior.
Tiros.
Dante parou.
Desta vez, depois de três anos de silêncio, ele ouviu cada um deles.
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