"O Segredo Dentro Do Ouvido De Mafia Boss" Capítulo 2
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As portas do jardim de inverno se fecharam.
Dante Montenegro ouviu o som metálico das fechaduras pela primeira vez em três anos.
Ele estremeceu.
Não de medo.
O ruído simplesmente parecia forte demais.
Durante três anos, seu mundo havia sido feito de silêncio, movimentos, vibrações e palavras lidas nos lábios dos outros.
Agora tudo chegava ao mesmo tempo.
A chuva contra os vidros.
Os passos dos seguranças.
A respiração nervosa de Mariana.
Gabriel arrastando a ponta do tênis no chão.
E o coração de Dante parecia bater dentro da própria cabeça.
Victor Ferraz continuava parado diante dele.
Dante apertou o pequeno objeto metálico entre os dedos.
"Rafael."
Um homem alto, de terno escuro, surgiu no corredor.
Rafael Almeida comandava a segurança pessoal de Dante havia sete anos.
"Estou aqui."
Dante demorou um segundo para reagir.
Ele tinha ouvido a resposta.
Sem olhar para um celular.
Sem precisar observar os lábios de Rafael.
Aquele detalhe quase o desconcentrou.
Então sua expressão voltou a endurecer.
"Feche todos os portões."
Rafael franziu a testa.
"Todos?"
"Todos."
Dante olhou para Victor.
"Ninguém entra. Ninguém sai."
Victor respirou fundo.
"Dante, isso é completamente desnecessário."
Dante virou lentamente para ele.
"Eu não pedi sua opinião."
Victor ficou calado.
Mariana percebeu o movimento dos seguranças ao redor.
Seu primeiro impulso foi pegar Gabriel e sair dali.
Ela deu um passo em direção à porta.
Rafael bloqueou seu caminho.
"Senhora, espere."
Mariana apertou a mão do filho.
"Eu já entendi. Estou demitida."
Ninguém respondeu.
"Eu só quero pegar minhas coisas e levar meu filho para casa."
Dante ouviu.
Virou-se para ela.
Mariana sentiu o estômago apertar.
Ainda não havia se acostumado com a ideia de que agora ele podia escutar tudo.
"Vocês não vão embora."
Ela empalideceu.
"Meu filho não tem nada a ver com isso."
Dante olhou para Gabriel.
O menino continuava observando o objeto preto na mão dele.
"Seu filho acabou de encontrar dentro da minha orelha alguma coisa que ficou lá durante três anos."
Mariana respirou fundo.
"Ele tem três anos."
"Victor também sabe disso."
Ela acompanhou o olhar de Dante.
Victor permanecia imóvel.
Mas havia alguma coisa estranha em sua expressão.
Não era mais indignação.
Era cálculo.
Mariana puxou Gabriel para mais perto.
"Então eu quero ir embora agora."
Victor aproveitou.
"É o mais sensato. Mande a funcionária para casa e resolvemos isso entre nós."
Dante olhou para ele.
A frase parecia inocente.
Mas agora Dante podia ouvir algo que antes não podia.
A pressa na voz de Victor.
O leve tremor escondido sob o tom autoritário.
Dante ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou com Rafael.
"Ninguém toca nessa mulher nem no filho dela."
Victor perdeu o pouco de tranquilidade que ainda mantinha.
"Dante..."
"Principalmente eles."
Rafael assentiu.
"Entendido."
Mariana não sabia se aquilo deveria tranquilizá-la.
Não tranquilizou.
Gabriel levantou o rosto para Dante.
"Seu ouvido dói?"
Todos olharam para o menino.
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Dante demorou a responder.
"Um pouco."
Gabriel pareceu preocupado.
"Foi porque eu puxei?"
"Não."
Dante abriu a mão.
"O problema já estava aqui."
Gabriel pensou por alguns segundos.
"Então eu ajudei?"
Dante olhou para ele.
A tensão em seu rosto diminuiu por um instante.
"Acho que sim."
Gabriel sorriu.
"De nada."
Rafael desviou o rosto para esconder um sorriso.
Até Mariana quase riu.
Victor não.
Dante percebeu.
Poucos minutos depois, o jantar beneficente começou a ser encerrado antes do previsto.
Os convidados receberam a informação de que uma falha técnica havia comprometido parte da estrutura elétrica da mansão.
Ninguém acreditou completamente.
Mas ninguém discutiu.
Quando alguém carregava o sobrenome Montenegro, até as perguntas sabiam quando permanecer caladas.
Às nove e quinze, um carro entrou pelo portão lateral.
Dr. Henrique Vasconcelos chegou carregando uma pequena maleta médica.
Henrique era o médico particular de Dante desde antes do acidente.
Tinha cinquenta e oito anos, cabelos grisalhos e uma calma quase irritante.
Assim que entrou no jardim de inverno, percebeu que algo estava errado.
"Dante?"
Dante virou para ele.
Henrique parou.
"Você ouviu meu nome?"
"Ouvi."
O médico ficou pálido.
"Como?"
Dante abriu a mão.
"Isso saiu da minha orelha."
Henrique aproximou-se.
O objeto parecia ainda menor sobre a palma de Dante.
"O que é isso?"
"Era o que eu esperava que você me dissesse."
Henrique colocou luvas.
Pegou o dispositivo com uma pinça e o colocou sobre uma bandeja.
"Quem retirou?"
Dante apontou para Gabriel.
Henrique olhou para a criança.
Gabriel levantou a mão.
"Eu."
O médico piscou.
"Você?"
"Tinha um bichinho."
Mariana apertou os olhos.
"Gabriel, não era um bichinho."
"Parecia."
Henrique não conseguiu esconder a surpresa.
"Preciso examinar sua orelha."
Dante assentiu.
O médico utilizou um otoscópio.
A expressão dele mudou quase imediatamente.
"Há inflamação."
"Recente?"
"Não."
Henrique ajustou a luz.
"Existe tecido cicatricial profundo."
Dante ficou imóvel.
"De quanto tempo?"
"É impossível dizer com precisão aqui."
Henrique examinou novamente.
"Mas não se formou hoje."
Mariana sentiu um arrepio.
Victor cruzou os braços.
"Isso não prova nada."
Henrique olhou para ele.
"Eu não disse que provava."
Dante virou a cabeça.
"Continue."
Henrique se afastou.
"Preciso levar esse objeto para análise."
"Não sai desta casa."
"Dante..."
"Traga o equipamento para cá."
O médico percebeu que discutir seria inútil.
"Vou precisar de uma lupa eletrônica e de alguém que entenda de microcomponentes."
Rafael pegou o celular.
"Eu resolvo."
Victor deu um passo à frente.
"Isso está virando um espetáculo."
Dante olhou diretamente para ele.
"Você parece muito incomodado."
"Estou preocupado com você."
"Há quanto tempo?"
Victor endureceu a mandíbula.
"Quase dez anos."
Dante ergueu o pequeno aparelho dentro da embalagem transparente.
"Então deveria estar curioso para descobrir quem colocou isso dentro da minha cabeça."
Victor sustentou o olhar.
"Talvez tenha sido colocado durante algum tratamento."
Henrique respondeu antes de Dante.
"Eu nunca autorizei nada parecido."
Victor virou-se.
"Você reconhece o objeto?"
"Não."
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"Então não pode afirmar que não seja médico."
Henrique ficou em silêncio.
Dante percebeu.
"Henrique."
O médico olhou para ele.
"Você acha que isso é um aparelho médico?"
Henrique respirou fundo.
"Não."
O silêncio caiu sobre o ambiente.
Dante continuou.
"Tem certeza?"
"Sim."
"Então o que é?"
"Ainda não sei."
Victor soltou um suspiro impaciente.
Henrique aproximou o objeto de uma pequena lente portátil.
"Mas existem contatos metálicos, uma fonte minúscula de alimentação e o que parece ser algum tipo de transmissor."
Mariana sentiu a boca secar.
"Transmissor?"
Henrique a encarou.
"É apenas uma hipótese."
Dante não gostou da palavra.
"Quero uma hipótese melhor."
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Existem tecnologias capazes de produzir estímulos ultrassônicos e interferência localizada."
Dante ficou imóvel.
"E isso faria alguém perder a audição?"
"Depende da frequência, intensidade e exposição."
"Três anos."
Henrique entendeu imediatamente.
"Se o aparelho permaneceu ativo durante todo esse tempo..."
Ele parou.
Dante estreitou os olhos.
"Fale."
Henrique escolheu as palavras com cuidado.
"Talvez sua audição nunca tenha sido destruída."
Ninguém respirou.
Mariana olhou para Dante.
Ele parecia não ter entendido.
"Explique."
"O dispositivo pode ter interferido continuamente na forma como seu sistema auditivo funcionava."
"Então eu não era surdo?"
Henrique hesitou.
"Seu cérebro recebia alguma forma de bloqueio ou interferência."
Dante deu um passo para trás.
Três anos.
A palavra parecia atravessar sua cabeça.
Três aniversários.
Três Natais.
Centenas de reuniões.
Milhares de conversas.
Ele se lembrou das pessoas falando lentamente diante dele.
Das mensagens que chegavam resumidas.
Dos funcionários que escolhiam o que escrever em seu tablet.
Victor.
Quase sempre Victor.
"Quem decidia minhas reuniões?"
Ninguém respondeu.
Dante olhou para Rafael.
"Quem?"
Rafael pareceu desconfortável.
"Victor administrava sua agenda pessoal."
Dante encarou Victor.
"E as ligações?"
Victor respondeu.
"Você não podia atender."
"Quem filtrava?"
"Minha equipe."
"E quem controlava minha equipe?"
Victor não respondeu.
Dante já sabia.
"Você."
Mariana viu algo mudar no rosto dele.
Dante não estava apenas descobrindo que alguém havia roubado sua audição.
Estava descobrindo que alguém havia controlado seu mundo.
Henrique voltou a examinar o aparelho.
"Espere."
Todos olharam.
"O que foi?"
"Tem alguma coisa gravada aqui."
Dante aproximou-se.
"O quê?"
Henrique aumentou a lente.
"É muito pequeno."
Rafael acendeu outra luz.
Henrique leu lentamente.
"VF-17."
Dante congelou.
Victor também.
Mariana percebeu imediatamente.
"VF..."
Dante completou.
"Victor Ferraz."
Victor soltou uma risada curta.
"Isso é ridículo."
Rafael continuou olhando para o objeto.
"O número dezessete..."
Dante virou para ele.
"Você lembra."
Rafael assentiu lentamente.
"Unidade Dezessete."
Mariana não entendeu.
"O que era isso?"
Dante não tirou os olhos de Victor.
"Uma divisão de segurança privada do Grupo Montenegro."
"Quem comandava?"
Rafael respondeu.
"Victor."
Victor balançou a cabeça.
"Centenas de equipamentos usam códigos semelhantes."
Dante aproximou-se.
"Então você não se importará se investigarmos."
"Claro que não."
Mas a resposta veio rápida demais.
Dante ouviu.
E percebeu.
Pela primeira vez em três anos, Victor não podia esconder nervosismo atrás do silêncio de Dante.
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Rafael recebeu uma ligação.
Afastou-se alguns passos.
Seu rosto mudou.
"Dante."
"O que houve?"
"Victor precisa vir comigo."
Todos olharam para ele.
Victor franziu a testa.
"Para onde?"
Rafael não respondeu.
Olhou para Dante.
"Temos um problema."
Dante virou para Victor.
Mas o lugar onde ele estava havia poucos segundos estava vazio.
A porta lateral do jardim de inverno estava aberta.
Victor tinha desaparecido.
Dante correu até o corredor.
"Fechem a mansão inteira!"
Rafael acionou o rádio.
"Todas as equipes, procurem Victor Ferraz. Ninguém atira sem ordem."
Mariana sentiu Gabriel puxar sua roupa.
"Mamãe."
"Agora não, meu amor."
"Mas caiu outra coisa."
Ela olhou.
Gabriel tinha uma peça minúscula na palma da mão.
Parecia uma película preta, fina como papel.
Dante voltou.
"O que é isso?"
Gabriel apontou para o aparelho.
"Caiu do bichinho."
Henrique pegou a peça cuidadosamente.
Rafael chamou dois especialistas de tecnologia que já aguardavam no escritório.
Duas horas depois, Gabriel dormia enrolado em um cobertor no sofá da biblioteca.
Mariana permanecia ao lado dele.
Dante não se sentara nem uma única vez.
À meia-noite, Rafael entrou.
Tinha um tablet nas mãos.
"Conseguimos acessar parte da peça."
Dante levantou os olhos.
"O que havia nela?"
Rafael hesitou.
"Arquivos."
"Que tipo de arquivos?"
"Áudio."
Dante ficou imóvel.
Mariana sentiu um frio percorrer a espinha.
"Áudio?"
Rafael assentiu.
"Esse aparelho não estava apenas interferindo na audição."
Dante aproximou-se.
"Estava fazendo o quê?"
"Gravando."
O rosto de Dante perdeu a expressão.
"Por quanto tempo?"
"Não conseguimos saber ainda."
Rafael desbloqueou o tablet.
"Mas encontramos arquivos antigos."
Dante pegou o aparelho.
"Toque."
Um chiado preencheu a biblioteca.
Depois vieram vozes distantes.
Uma delas era impossível de confundir.
Victor.
"Se Dante voltar a ouvir, tudo acaba."
Mariana levou a mão à boca.
Dante ficou completamente imóvel.
Então outra voz surgiu na gravação.
Mas aquela voz nenhum deles reconheceu.
"Então garanta que ele nunca volte."
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