localização atual: Novela Mágica Horas Para a Execução Capítulo 8

"Horas Para a Execução" Capítulo 8

PUBLICIDADE

Michael permaneceu diante da porta fechada até Margaret tocar seu ombro.

— Reed.

Ele voltou ao posto. O corredor precisava continuar funcionando: rádio, registros, assinaturas, chaves contadas duas vezes. A rotina não se interrompia para ajudar ninguém.

Thomas acompanhou Ethan. Não houve discurso. Ethan recusou a leitura final e pediu apenas que o tecido permanecesse no bolso.

— Vai permanecer — confirmou Margaret.

À mesma hora, Samuel abriu a traseira da camionete num campo a vinte quilômetros de casa. A chuva tinha parado. A grama molhada tocava a barriga de Rex quando ele desceu pela rampa.

Era um dos lugares onde Ethan costumava caminhar com o cão antes da prisão. Havia um caminho de terra, duas árvores grandes e uma estrada visível entre as colinas.

Rex cheirou o primeiro poste de cerca. Caminhou até uma moita, cansou e parou. Samuel acompanhou sem guia tensionada.

— Você lembra daqui?

O cão avançou para a parte alta do campo.

Samuel carregava água, remédio e a tigela que Rex recusara em casa. Colocou tudo sobre a manta reserva e consultou o relógio. Faltavam sete minutos.

Ele guardou o aparelho no bolso.

Rex virou para a estrada. Um motor pesado surgiu atrás da colina.

As orelhas se ergueram. O cão deu dois passos, a pata traseira rígida atrasando o corpo. A cauda se moveu uma vez.

Samuel enxergou uma camionete azul aparecer ao longe. Não era a antiga caminhonete de Ethan. Nem a cor, nem o formato, nem o som.

Rex permaneceu de pé.

— Não é ele, garoto.

O veículo atravessou o trecho visível e sumiu atrás das árvores.

— Sinto muito.

Rex sentou. Samuel sentou ao lado, apoiando o ombro contra o corpo quente do cão.

No interior de Westbridge, o relógio passou das seis.

O procedimento ocorreu sem testemunhas externas. Não houve ligação do governador, prova descoberta no último instante ou suspensão. A sentença que atravessara anos de recursos chegou ao fim previsto.

Margaret assinou o registro. Thomas retirou os óculos. Michael contou as chaves pela terceira vez e errou no mesmo número.

Julia preencheu o campo final. Margaret recolheu a tira de manta para devolvê-la a Samuel, mas Thomas mostrou a disposição assinada: o tecido permaneceria com Ethan.

— Ele pediu isso? — perguntou Julia.

— Pediu.

Margaret devolveu a tira ao bolso interno e fechou o uniforme sobre ela. Depois conferiu a carta, que seguiria para Daniel junto à fotografia.

Michael apareceu na porta.

— Terminou?

Ninguém respondeu com a palavra. Margaret entregou a pasta ao arquivo. O grupo saiu em fila, deixando a sala como o protocolo determinava.

No campo, Rex se deitou quando o motor sumiu. Samuel colocou a manta sob a pata traseira e ofereceu água. O cão recusou, mantendo os olhos na curva vazia.

— Podemos esperar mais cinco minutos.

Ficaram quarenta.

Quando Rex finalmente bebeu, Samuel despejou o restante da água sobre a grama e guardou a tigela. Não disse que era hora de ir. Apenas abriu a rampa. O cão entrou depois de olhar uma última vez para a estrada.

PUBLICIDADE

Samuel fechou a traseira devagar, esperando até Rex acomodar a pata dolorida sobre a manta.

Antes de ligar o motor, deixou a janela aberta para o cão sentir o cheiro do campo.

Julia tomou o chaveiro das mãos dele.

— São vinte e quatro.

— Eu sei.

— Então vai lavar o rosto.

Michael entrou no banheiro dos funcionários. Abriu a torneira, molhou as mãos e ficou olhando a água correr. Na memória, Rex deslizava sobre a lajota, as unhas deixando linhas brancas enquanto tentava voltar.

Em casa, naquela noite, sua filha encontrou-o sentado à mesa sem ter tirado o uniforme.

— Pai, você está triste?

Michael negou por hábito. Depois passou a mão pelo rosto.

— Estou.

— Foi no trabalho?

— Foi.

— Alguém se machucou?

Ele puxou a cadeira ao lado.

— Vi um cachorro que não entendia por que iam separar uma pessoa dele.

— O que ele fez?

— Ficou na frente.

A menina apoiou o queixo na mesa.

— Funcionou?

Michael olhou para o próprio crachá.

— Não.

— Mesmo assim ele tentou.

— Tentou.

— Então era um cachorro bom.

Michael fechou os olhos.

— Era.

A morte de Ethan recebeu uma nota curta no jornal local. O texto citava o crime, os recursos rejeitados e o horário. Não mencionava Rex. Margaret recusou três pedidos de acesso às imagens após um funcionário comentar a visita fora da prisão.

Samuel recortou a nota e guardou numa gaveta, longe da fotografia. Não leu em voz alta. Rex passou aquela manhã entre a porta e o radiador. Quando Samuel abriu a entrada para receber uma entrega, o cão ergueu-se rápido, olhou para o homem no degrau e retornou à manta.

O entregador reconheceu o peitoral.

— É o cachorro da história da prisão?

Samuel segurou a caixa sem responder.

— Vi um post. Dizem que o preso chorou e o cão tentou atacar os guardas.

— Ele não atacou ninguém.

— Posso tirar uma foto?

Samuel fechou a porta.

Naquela tarde, telefonou para Margaret.

— A história vazou.

— Sem imagem oficial. Estou investigando.

— Proteja o Rex disso.

— Como?

— Não confirme raça, idade, endereço ou associação. Se alguém transformar o cachorro em mascote de inocência, eu retiro meu nome do projeto.

Margaret anotou.

— Ethan pediu a mesma coisa.

Samuel ficou em silêncio.

— Então, pela primeira vez em muito tempo, ele acertou antes de mim.

Depois da ligação, levou a tigela até a porta. Rex comeu metade da ração sem deixar de vigiar a entrada.

Ao anoitecer, Samuel abriu a garagem. Rex ouviu o motor e foi até a janela. O corpo acelerou antes da pata permitir; ele bateu o ombro no sofá e continuou.

Samuel deixou que cheirasse o banco, o piso e a manta usada na viagem. Rex subiu pela rampa e investigou o espaço vazio. Depois se deitou no mesmo lugar ocupado na ida.

— Podemos ficar aqui um pouco.

Samuel sentou no para-choque. Durante quase uma hora, Rex manteve o focinho apontado para a rua.

Quando decidiu descer, comeu o restante da ração. Samuel anotou o horário para contar à veterinária. Na linha seguinte, escreveu:

Não apagar o cheiro da manta ainda.

À meia-noite, Rex deixou a porta e dormiu junto à cama de Samuel pela primeira vez desde a visita.

— Aqueles minutos não são material de divulgação — disse ao setor jurídico.

O pedido manuscrito permaneceu na pasta azul.

Dois dias depois, Samuel voltou a Westbridge sem Rex. Levava os documentos assinados e uma expressão que encerrou todas as perguntas sobre o cão.

Margaret o recebeu no escritório.

— Ele comeu?

— Na noite seguinte.

— Continua junto à porta?

— Parte do dia.

Ela entregou o termo de executor.

— O conselho autorizou um projeto-piloto por seis meses. Sem orçamento da prisão. O fundo cobre despesas e uma associação externa administra os acolhimentos.

Samuel leu a primeira página.

— Quanto vale a parcela?

— A estimativa mais baixa é oito mil dólares depois das taxas.

— Isso paga pouco.

— Ele sabia.

Samuel assinou.

— Por onde começa?

Margaret abriu uma pasta fina. A fotografia presa no alto mostrava um vira-lata branco de orelha preta.

— Este é Cooper. A tutora entra para cumprir pena amanhã. O abrigo municipal recolhe o cão no fim do dia se ninguém buscar.

Samuel olhou a ficha, depois o relógio.

— Tenho espaço por uma noite.

— E depois?

Ele guardou a cópia no bolso da jaqueta.

— Encontramos a segunda porta.

PUBLICIDADE

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos: