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"Horas Para a Execução" Capítulo 5

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O último latido ainda parecia preso no corredor quando a advogada de plantão abriu a pasta de bens de Ethan.

Rebecca Sloan colocou os óculos e leu a lista.

— Cento e oitenta e sete dólares na conta prisional. Direitos sobre uma parcela em Mill Creek. Livros, roupas, correspondência e objetos pessoais. É isso?

— Tem uma fotografia.

— Objeto pessoal.

— Separe.

— Para quem?

Ethan olhou para Thomas.

— Meu filho. Se ele quiser.

Rebecca fez uma anotação.

— E a parcela?

— Vende.

— O terreno está em inventário antigo. Pode demorar.

— Vai continuar existindo depois de amanhã.

A advogada tirou os óculos.

— Qual é o beneficiário?

Ethan virou o formulário que tinha começado na sala de visita. As duas palavras estavam cercadas por setas e frases incompletas.

— Um programa para animais de presos.

— Qual programa?

— Esse.

— Senhor Miller, não posso transferir bens para uma instituição que não existe.

— Então cria uma.

Rebecca recostou na cadeira.

Margaret acompanhava a conversa perto da porta. Tinha voltado do estacionamento com gotas de chuva nos ombros e encontrado o pedido sobre a mesa.

— Explique o que o programa faria — disse ela.

Ethan abriu as mãos sobre o papel.

— Quando alguém entra aqui, o cachorro fica onde?

— Depende da família.

— E quando não tem família?

Margaret conhecia a resposta. Animais eram recolhidos, entregues a abrigos ou deixados com vizinhos sem condições. A administração registrava filhos, medicamentos, imóveis e procurações. Animais apareciam no campo "outros".

— Você quer pagar hospedagem? — perguntou Rebecca.

— Família temporária. Ração. Veterinário. Transporte.

— Com o valor provável daquela parcela, talvez consiga atender dois ou três casos.

Ethan segurou a caneta.

— Então começa com dois ou três.

— Um fundo exige administração, prestação de contas e alguém responsável.

— Samuel.

Margaret cruzou os braços.

— Ele não concordou.

— Pergunta.

— Por que agora?

Ethan passou o polegar por uma mancha de tinta.

— Rex foi parar com ele porque alguém recolheu o que eu deixei na calçada. Tem gente aqui que entra algemada e nem sabe se o cachorro recebeu água naquela noite.

Rebecca anotou sem interromper.

— Hoje eu entendi uma coisa — continuou Ethan. — Quando a porta fechou atrás de mim, fechou pra ele também. Só que ninguém explicou nada.

Margaret puxou uma cadeira.

— O fundo não pode usar a prisão para reabilitar sua imagem.

— Não põe meu nome.

Thomas abriu o caderno e pediu uma frase para acompanhar a doação. Ethan recusou três versões. Na quarta, ditou: "Para os animais que ficaram sem explicação."

— Quer mencionar Rex? — perguntou Thomas.

— Ele já fez a parte dele.

— Se Samuel disser não, eu assumo a papelada até encontrar alguém que entenda de animais.

— Você entende de gente?

— O suficiente para não prometer demais.

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Ethan aceitou com um aceno. A proposta tinha limites e podia fracassar. Era mais real assim.

— A família da vítima pode interpretar isso como campanha de compaixão.

— Não divulga antes. Não divulga depois. E não usa Rex pra dizer que eu merecia sair daqui.

Rebecca ergueu a cabeça.

— Você entende que a doação não interfere na sentença?

— Se interferisse, eu não estaria oferecendo cento e oitenta e sete dólares.

Margaret conteve uma resposta. Puxou o formulário para perto.

— Second Door?

— Cachorro espera na primeira porta. Quando ela não abre, precisa existir outra.

Rebecca reorganizou as páginas.

— Posso redigir uma disposição para destinar os bens a uma organização de proteção animal indicada pelo executor. Margaret pode anexar uma carta de intenção para criar um projeto específico, sem garantia de aprovação.

— Serve.

— Preciso de um executor.

— Samuel, se aceitar. Thomas se ele não aceitar.

O capelão assentiu uma vez.

Rebecca trabalhou durante quarenta minutos. Ethan leu cada página. Pediu que retirassem uma frase sobre "reparação moral". Mandou substituir "legado humanitário" por "destinação de bens".

Thomas trouxe dados de uma associação regional. Havia vinte e oito animais em lista de espera e apenas nove lares temporários. Ethan passou o dedo pelos nomes: gatos idosos, dois coelhos, um pit bull jovem, uma cadela cega.

— Coloca gato também — disse.

Rebecca ergueu os olhos.

— Você falou em cães.

— Falei porque conheço cachorro. Porta fecha igual pros outros.

Ela alterou a descrição para

animais domésticos de pessoas privadas de liberdade

.

Margaret recebeu uma ligação do conselho durante a revisão. Afastou-se até a janela, respondeu três perguntas e desligou com a boca apertada.

— Eles querem saber se isso gera privilégio para condenados.

Ethan bateu a caneta na folha.

— O benefício é pro animal.

— Foi o que eu disse.

— E?

— Pediram parecer jurídico.

Rebecca levantou a própria pasta.

— Já estou redigindo.

Thomas colocou a lista de espera ao lado de Ethan.

— Escolha não é sua, mas isso mostra o tamanho.

Ethan leu novamente o nome da cadela cega.

— Se o dinheiro acabar, o que acontece?

— Procuramos doação — respondeu Margaret.

— E se ninguém doar?

— Começamos com o que existe. Foi sua própria frase.

Ele devolveu a lista e retomou a assinatura.

Na margem, escreveu:

Nenhum animal será usado como recompensa, ameaça ou moeda de troca.

Rebecca rubricou a inclusão e anexou a folha ao termo.

Rebecca anexou uma cláusula proibindo o uso do fundo para despesas jurídicas. Ethan pediu outra: nenhuma família acolhedora receberia contato direto do preso sem consentimento.

— Tem gente que usa qualquer porta aberta — disse.

Margaret anotou a sugestão.

Thomas reuniu os formulários. Ethan deixou o pedido original por último, passou a unha sobre o nome de Rex e entregou à diretora.

— Guarda longe de câmera.

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— Vai para o arquivo restrito.

— E as imagens?

— Serão mantidas pelo prazo legal. Depois, destruídas.

Ethan assentiu. A lembrança que desejava conservar não estava numa câmera: quatro riscos no chão e o peso do focinho sobre suas mãos.

— A primeira versão parece obituário de político — disse.

— Linguagem jurídica costuma parecer pior — respondeu Rebecca.

Quando assinou, o tremor tinha diminuído. Colocou as iniciais em sete folhas e a assinatura completa em três.

Margaret recolheu uma cópia.

— Vou submeter a proposta ao conselho.

— Eles vão negar?

— Provavelmente vão pedir seis formulários que ainda não existem.

— E você?

— Vou criar os formulários.

Ethan empurrou a caneta de volta.

— Obrigado.

Margaret ficou de pé.

— Não agradeça ainda.

Na casa de Samuel, Rex recusou a tigela de ração. Caminhou até a porta, deitou com o corpo atravessado diante dela e manteve os olhos abertos.

Samuel aqueceu frango, misturou ao alimento e deixou a tigela ao alcance do focinho. Rex cheirou, virou a cabeça e voltou a encarar a maçaneta.

— Ele não vem.

As orelhas se mexeram.

— Eu queria mentir pra você.

Samuel estendeu a manta cinza no piso e sentou ao lado do cão. Encontrou uma pequena mancha úmida perto da borda. Chuva ou saliva; não fazia diferença.

O telefone tocou às quatro da tarde.

Margaret explicou a proposta. Samuel ouviu até o fim sem fazer perguntas.

— Ele escreveu meu nome?

— Como primeira opção para administrar o fundo.

— Ele sempre entregou serviço pros outros perto do prazo.

— O senhor pode recusar.

Samuel olhou a tigela cheia.

— Me manda os documentos.

— Isso é um sim?

— É um "me manda".

Margaret respirou do outro lado.

— Há outra questão. Ethan não autorizou contato familiar, mas o senhor pode avisar Laura por conta própria.

— Vocês não avisaram?

— Ela recebeu a comunicação oficial da data meses atrás. Não respondeu.

Samuel coçou a cabeça de Rex.

— Quatro anos sem falar com ela.

— Não estou pedindo que fale.

— Está colocando a ideia na mesa.

— Sim.

A ligação terminou. Samuel ficou com o número antigo de Laura na tela. Rex gemeu ao ouvir um caminhão na rua e tentou se levantar.

Samuel apertou o botão de chamada.

Laura atendeu no quinto toque.

— Quem é?

— Sou eu.

O silêncio durou até Rex gemer outra vez.

— Esse é o Rex? — perguntou ela.

— É.

— O que aconteceu?

Samuel pousou a mão sobre o peitoral ainda úmido.

— Hoje ele viu Ethan.

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