"Horas Para a Execução" Capítulo 4
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Michael parou com a bota ainda suspensa.
Rex ocupava o espaço entre ele e Ethan. A cabeça permanecia baixa, o dorso rígido, as quatro patas abertas sobre a lajota. Um fio de pelo se levantou ao longo do pescoço.
— Rex — chamou Samuel.
Uma orelha se moveu. O corpo não.
Michael abaixou o pé no mesmo lugar.
— Precisamos encerrar.
Rex soltou um latido único.
O som bateu no vidro, atravessou a sala e arrancou a mão de Julia do cinto. Ela não chegou a tocar no spray. Michael ergueu a palma para que permanecesse parada.
— Ninguém avança — disse Samuel. — Me dá espaço.
Alan apareceu atrás do vidro e acionou o interfone.
— Retire o animal.
Samuel se levantou devagar. Não enrolou a guia nem puxou o cão. Deu um passo lateral, tentando abrir uma rota até a porta.
— Vem comigo, garoto.
Rex olhava para Michael.
— Ele nunca foi treinado para ataque — explicou Samuel. — Está bloqueando. Se vocês cercarem, ele vai aumentar a resposta.
— Temos um horário — respondeu Alan pelo alto-falante.
Margaret tomou o controle do interfone.
— Price, afaste a equipe do corredor.
— Diretora...
— Agora.
A sombra de dois agentes desapareceu do visor estreito da porta. Julia recuou até a parede. Michael manteve as mãos visíveis.
Samuel encurtou vinte centímetros da guia.
— Rex, olha pra mim.
O cão não obedeceu.
Michael tentou deslocar o peso para trás. A sola rangeu. Rex respondeu com um rosnado baixo, contínuo, sem mostrar os dentes.
Ethan acompanhava tudo ajoelhado. As algemas impediam que tocasse no dorso do cão sem se inclinar para a frente.
— Ele sabe — disse.
Samuel não desviou os olhos de Rex.
— Sabe que estão vindo buscar você.
— Não sabe o resto.
— Ainda bem.
Ethan estendeu as mãos juntas.
— Rex.
O cão virou a cabeça apenas o suficiente para enxergá-lo.
— Olha pra mim.
Rex cedeu meio passo, deixando o flanco tocar o joelho de Ethan. Michael aproveitou o movimento para recuar. Julia o acompanhou.
— Está tudo bem, garoto — disse Ethan.
Rex gemeu.
— Eu sei. Eu sei.
Samuel puxou de leve. O peitoral tensionou. Rex plantou as patas e escorregou alguns centímetros. As unhas deixaram quatro riscos claros no piso encerado.
Ethan fechou as mãos sobre a guia, próximo ao mosquetão.
— Me dá um segundo.
Samuel soltou a pressão.
Ethan encostou a testa na cabeça de Rex. O cão respirou junto ao pescoço dele, ainda atento às duas figuras contra a parede.
— Você fez seu trabalho — sussurrou Ethan. — Fez mais do que devia.
Rex lambeu a corrente entre os punhos.
— Vai com Samuel.
O cão baixou as orelhas.
— Ele precisa de você agora.
Samuel apertou os lábios. Ethan entregou a guia sem olhar para ele.
— Quando chegar em casa, abre a porta da frente. Mesmo se estiver frio.
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— Pra quê?
— Ele vai querer conferir a entrada.
Samuel passou a tira pelo punho.
— Eu abro.
Michael esperou o sinal. Margaret não deu nenhum. O relógio continuava avançando.
Samuel deu dois passos em direção à saída.
— Vem, Rex.
O cão acompanhou o primeiro. No segundo, voltou para Ethan e colocou a cabeça sob as mãos algemadas.
Ethan se dobrou sobre ele.
— Chega, garoto. Vai.
A palavra saiu mais alta do que todas as anteriores. Rex recuou, assustado. Samuel aproveitou para conduzi-lo até a porta sem arrastar.
Michael abriu apenas a largura necessária. Quando Rex viu o corredor, virou com força. A pata ruim cedeu. Samuel sustentou o peitoral antes que o quadril tocasse o chão.
— Devagar!
Rex recuperou o apoio e latiu para Ethan. Uma vez. Outra.
Ethan permaneceu de joelhos.
— Vai!
Michael fechou a porta entre eles.
Do outro lado, unhas rasparam o piso. Samuel chamava o nome do cão. Rex puxava a guia, gemia e voltava a latir. O som se afastou pelo corredor, retornou mais forte numa curva e diminuiu outra vez.
Ninguém na sala falou.
Alan entrou pela porta lateral depois que os latidos desapareceram.
— Precisamos registrar comportamento agressivo.
Samuel já não estava ali para responder. Michael apontou para os riscos no piso.
— Comportamento protetivo. Sem avanço, sem mordida, sem tentativa de contato.
— Ele rosnou para dois agentes.
— Depois que avançamos.
Alan olhou para Margaret atrás do vidro.
— Isso é uma ocorrência.
A diretora ligou o interfone.
— Registre completa. Inclua que a equipe recuou e o condutor retirou o animal sem uso de força.
Ethan ergueu o rosto.
— Não põe culpa no Rex.
Alan fechou a pasta.
— Seu cão interferiu num procedimento.
— Eu pedi a visita. A culpa fica comigo.
Michael soltou as algemas da corrente da cintura para permitir que Ethan se levantasse. O metal deixou uma marca vermelha no pulso.
— Ele não entende culpa — disse Michael.
Alan virou para o agente.
— Desde quando você interpreta cachorro?
Michael abriu a porta da sala.
— Desde que um acabou de explicar melhor que nós o que estava tentando fazer.
Julia soltou o ar e descruzou as mãos. Michael olhou para os riscos no piso. Atrás do vidro, Alan retirou os óculos. Margaret desligou o interfone.
Ethan continuou diante da porta fechada.
Thomas aproximou uma cadeira.
— Quer levantar?
Ethan apoiou as mãos no assento, mas as pernas falharam na primeira tentativa. Michael avançou por reflexo e parou ao lembrar do cão. Ethan viu.
— Ele quase pegou você.
— Não — respondeu Michael. — Ele avisou.
Julia ajudou Ethan pelo outro braço. Quando o colocou sentado, enxugou o rosto com o punho antes de retornar à parede.
— Quanto tempo? — perguntou Ethan.
Michael olhou o relógio.
— Até amanhã?
— Sim.
— Vinte e duas horas e quarenta minutos.
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Ethan encarou as marcas no chão.
— Quero mudar meus papéis.
Thomas puxou outra cadeira.
— O que deseja alterar?
— Tudo que ainda estiver no meu nome.
— Há um advogado de plantão para disposições finais.
— Chama ele.
Michael tocou o rádio.
— Posso perguntar por quê?
Ethan apontou com os punhos unidos para a porta.
— Porque ele passou onze anos pagando uma parte da minha pena sem ter feito nada.
No corredor externo, Samuel alcançou a primeira barreira. Rex se recusou a entrar no elevador. Virou o corpo para o caminho de volta e puxou até a respiração ficar ofegante.
— Ele não vai sair por ali — disse um agente.
— Então encontramos outro caminho.
— O protocolo...
Samuel ajoelhou diante do cão.
— O protocolo de vocês já tomou o bastante por hoje.
Margaret chegou antes que a discussão crescesse. Tirou o crachá do pescoço e abriu uma porta de serviço que levava à rampa de abastecimento.
— É mais longo, mas não tem elevador.
Samuel assentiu.
Rex olhou para ela. O pelo do pescoço baixara, porém o corpo continuava inclinado na direção da sala.
— Ele vai comer? — perguntou Margaret.
— Hoje, talvez não.
— A visita fez mal a ele?
Samuel segurou o peitoral e ajudou Rex no primeiro degrau baixo da rampa.
— Pergunte amanhã.
Margaret os acompanhou até a saída. A chuva fina continuava. Quando a porta externa abriu, Rex correu dois passos, cheirou o ar e olhou para trás.
Samuel baixou a rampa da camionete. O cão não subiu.
— Vamos, garoto.
Rex voltou os olhos para o prédio.
Margaret permaneceu sob a cobertura enquanto Samuel esperava. Dez minutos depois, Rex entrou na camionete. Antes que a traseira fechasse, soltou um gemido na direção dos muros.
Na sala, Ethan recebeu uma pilha de formulários.
Ele pediu uma caneta e escreveu no alto da primeira página duas palavras:
SECOND DOOR
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