"Horas Para a Execução" Capítulo 3
PUBLICIDADE
A porta se abriu até tocar o limitador de borracha.
Rex apareceu ao lado da perna de Samuel. O focinho grisalho avançou primeiro; depois vieram os olhos escuros, as orelhas firmes e o peitoral preto. O cão parou na entrada.
Ethan não se moveu.
Samuel soltou uma volta da guia.
Onze anos de ausência ocuparam a sala sem produzir qualquer som. Michael manteve a mão junto ao rádio. Thomas desviou um passo para liberar o caminho. Atrás do vidro, Margaret Hall deixou a caneta sobre o bloco.
— Rex.
A voz de Ethan saiu áspera.
O cão inclinou a cabeça. Cheirou o ar outra vez e avançou um passo. A cauda se moveu, parou, retomou com mais força.
— Sou eu, garoto.
Rex começou a andar.
O primeiro trecho foi lento. A guia deslizou pelos dedos de Samuel. Quando o cão alcançou o centro da sala, acelerou e soltou um gemido agudo, som que Samuel não ouvia havia anos.
Ethan tentou se levantar. A corrente da cintura prendeu seus movimentos. Ele caiu de joelhos antes que um agente pudesse tocá-lo.
Rex chegou.
Não saltou. Ergueu a pata dianteira e colocou sobre a coxa coberta pelo uniforme laranja. Depois encostou a cabeça no peito de Ethan.
Ethan segurou dois segundos. As mãos algemadas alcançaram o pescoço do cão e afundaram no pelo. Seu rosto desceu até a orelha esquerda.
O primeiro som se perdeu ali. O segundo atravessou a sala.
— Me perdoa.
Rex pressionou a cabeça contra ele.
— Me perdoa por não ter voltado.
Os ombros de Ethan se sacudiram. Ele tentou respirar, engoliu o ar e apertou o cão dentro do limite das correntes.
— Achei que você não fosse lembrar.
Rex gemeu e lambeu a lateral do queixo dele.
Ethan riu no meio do choro. Uma lágrima caiu sobre a máscara preta do animal.
— Você me encontrou.
Michael olhou para a parede. A agente ao lado dele, Julia Ramos, baixou o queixo. Thomas permaneceu imóvel. Nenhum deles se aproximou.
Samuel soltou toda a extensão aprovada da guia e se sentou na cadeira mais distante. Tinha prometido à veterinária que observaria Rex, não a cena. Conferiu a respiração, a posição da pata e o esforço do quadril.
O cão estava cansado. Também se recusava a afastar o corpo de Ethan.
Durante alguns minutos, Ethan acariciou a base das orelhas, o focinho, a cicatriz antiga em torno do pescoço. Seus dedos encontraram pequenas mudanças que as fotografias não mostravam: uma saliência perto da mandíbula, pelo mais ralo no peito, um ponto duro sobre a pata traseira.
— Você está velho.
Rex levantou o focinho.
— Eu também.
Samuel aproximou a cadeira meio metro.
— Artrite atrás. A lesão piora no frio.
Ethan passou a mão pela pata sem apertar.
— Ainda corre atrás de esquilo?
— Tenta. O esquilo costuma vencer.
— Sempre venceu.
— Na versão dele, nunca.
PUBLICIDADE
Ethan limpou o rosto no ombro do uniforme.
— Come bem?
— Melhor que eu.
— Dorme dentro de casa?
Samuel olhou para Rex.
— Dentro.
— Junto à porta?
A pergunta ficou entre os dois.
— Sim — respondeu Samuel.
Ethan parou de acariciar.
— Depois desse tempo todo?
— Principalmente quando passa uma camionete parecida com a sua.
Rex virou a cabeça para Samuel ao ouvir a palavra. A cauda bateu uma vez na lajota.
Ethan baixou os olhos para as mãos presas.
— Eu não devia ter deixado ele esperar.
— Ele teve casa, comida, veterinário e um quintal grande.
— Não falei disso.
Samuel apoiou os antebraços nos joelhos.
— Cachorro não conta ano do jeito que a gente conta.
— Então conta o quê?
— Se você volta.
Ethan fechou os olhos. Rex empurrou o focinho sob a mão dele até os dedos retomarem o movimento.
— Eu não vou voltar.
Samuel não respondeu.
Rex se deitou aos pés de Ethan, mantendo uma parte do corpo sobre a bota dele. Ethan ajeitou as pernas para não pressionar a pata machucada.
— Quando eu fui preso, ele tentou morder alguém?
— Tentou atravessar o portão. Laura segurou a coleira.
— Ela devia ter soltado.
Samuel ergueu os olhos.
— Não faça piada com isso.
— Não foi piada.
— Então é pior.
Ethan aceitou a correção com um movimento curto de cabeça. Passou o polegar pela borda do peitoral.
— Você cuidou do que eu abandonei.
— Cuidei do Rex.
— Eu sei.
— Fiz por ele.
— Eu sei disso também.
Samuel recostou. O pedido de gratidão não se completou, e nenhum dos dois tentou recuperá-lo.
Margaret observava através do vidro. O relógio acima da porta avançava. Ela havia autorizado vinte minutos; Alan Price já apontara duas vezes para o visor.
Ethan perguntou sobre os remédios. Samuel descreveu os comprimidos escondidos em queijo, a rampa na camionete e a mania de Rex de ocupar o lado quente do radiador. Ethan ouviu sem interromper. Cada detalhe acrescentava anos a que ele não assistira.
— Ele teve medo de mim no começo — disse Ethan.
Samuel olhou para o cão adormecido sobre a bota laranja.
— Da cicatriz?
— De mão levantada. Se eu pegava uma ferramenta acima da cabeça, ele se escondia embaixo da mesa.
— Levou quanto tempo?
— Quatro meses pra entrar na camionete sozinho. Quase um ano pra dormir sem ficar de olho aberto.
Samuel passou os dedos pela guia.
— Comigo ele dormiu na cozinha na primeira noite.
Ethan ergueu o rosto.
— Sério?
— Você já tinha feito a parte difícil.
Rex acordou quando Ethan tocou a cicatriz do pescoço. O cão lambeu os punhos presos e tornou a deitar.
— Daniel escolheu o nome — disse Ethan. — Eu queria chamar de Duke.
— Ainda bem que você perdeu.
— Eu perdia muita votação naquela casa.
PUBLICIDADE
A frase quase abriu um lugar confortável. Ethan fechou-o ao recolher as mãos.
— Depois eu perdi a casa inteira.
Samuel não corrigiu. Ajustou a ponta da guia para longe da pata de Rex.
— Ele está aqui por ele mesmo — disse. — Não use isso para pedir absolvição a ninguém.
— Não vou.
— Nem de mim.
— Eu sei.
Rex levantou a cabeça entre os dois. Ethan ofereceu a mão algemada. O cão colocou o focinho sobre ela.
Julia deixou uma tigela de água no chão e recuou. Rex bebeu duas vezes, mantendo uma pata sobre a bota de Ethan. Depois empurrou a tigela e encostou o corpo nele.
— Ele fazia isso nas tempestades — disse Ethan. — Escolhia alguém e grudava.
— Hoje ele escolheu — respondeu Samuel.
Ethan conferiu o relógio. Restavam sete minutos. Retirou o cadarço solto debaixo da pata do cão e ajeitou o peitoral.
— A fivela está gastando o pelo.
— Helen já pediu outro tamanho.
— Coloca uma faixa por baixo até chegar.
— Eu sei cuidar dele.
Ethan recolheu as mãos.
— Eu sei. Foi mal.
Samuel mudou a fivela de posição mesmo assim.
— Ele ainda odeia trovão?
— Agora finge que não ouve.
— E ouve?
— Antes do primeiro clarão.
Ethan puxou Rex para perto. O cão permitiu, olhos semicerrados, focinho pousado sobre a corrente da algema.
A voz de Alan chegou pelo alto-falante.
— Cinco minutos.
Ethan levantou a cabeça.
— Não.
Michael tocou o rádio.
— Miller...
— Só mais cinco.
— Você já teve vinte.
— Eu esperei onze anos.
Michael não encontrou resposta dentro do protocolo. Atrás do vidro, Margaret ergueu um dedo: mais três minutos.
— Três — informou ele.
Ethan voltou ao cão.
— Três minutos, garoto.
Rex ergueu a cabeça. A cauda parou.
As orelhas se voltaram para Michael, depois para Julia. O cão cheirou o ar, acompanhou o movimento de um agente no corredor e se levantou com esforço.
Samuel segurou a guia sem tensioná-la.
— Rex?
Michael deu um passo para indicar o fim da visita.
O cão se colocou na frente de Ethan.
PUBLICIDADE
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 11
MENINA DÁ METADE DO LANCHE A UM MENINO SEM-TETO... 25 ANOS DEPOIS, ELE VOLTA MILIONÁRIO
Aos nove anos, Gabriel Costa vivia nas ruas de São Paulo e esperava todos os dias diante do portão de uma escola particular. Foi ali que conheceu Valentina Almeida, uma menina rica que passou a dividir escondida metade do próprio almoço com ele. Quando Gabriel foi adotado por uma família de Curitiba, fez uma promessa antes de partir: "Quando eu crescer… eu volto para te buscar." Vinte e cinco anos depois, Valentina enfrenta a doença do pai, a falência do Grupo Almeida e um noivado que esconde interesses perigosos. É então que Gabriel retorna a São Paulo — não mais como o menino faminto do portão, mas como um empresário cuja fortuna ultrapassa R$ 950 milhões.Moderno13.8 mil palavras5 180 -
TerminadoCapítulo 11
MILIONÁRIO CHEGA MAIS CEDO À CASA DE CAMPO... E QUASE DESMAIA COM O QUE VÊ
Milionário chega mais cedo à casa de Campo e quase desmaia com o que vê. Alejandro para no jardim sem acreditar. Léo, seu filho, ri alto nos braços de Helena, a faxineira. O menino que diziam ser incapaz de sentir emoção, agora gargalha como nunca. Pela manhã, Carla insistiu em aumentar os sedativos, dizendo que Léo era um caso perdido. Mas ali, diante dos olhos do pai, a verdade aparece. Não era doença, era medo. Helena tenta soltá-lo, assustada, mas Léo se agarra a ela como proteção. Quando o carro de Carla surge na entrada, o sorriso some, o corpo do menino trava. Alejandro entende tudo naquele instante. Ele manda Helena agir normalmente e decide observar em silêncio. Aquela risada muda tudo. Naquela noite, ele jura proteger o filho, descobrir quem mentiu e acabar com o terror escondido dentro da própria casa. A guerra começa ali, no quintal, com um riso que salvou uma vida.Moderno13.7 mil palavras5 123 -
TerminadoCapítulo 12
Eles Pensavam Que Eu Era Uma Boneca Frágil… Até Ouvirem o Som do Gatilho
Na alta sociedade de São Paulo, Christian von Stock e Victória de Medeiros pareciam o casal perfeito: ele, um titã corporativo brilhante e irretocável; ela, uma herdeira gélida e deslumbrante. Mas o conto de fadas durou apenas até o momento em que a porta da imponente mansão se fechou. No segundo em que o último flash da imprensa sumiu, Christian revelou ser o seu pior pesadelo. Dono de uma mente brilhante e sádica, ele confiscou o passaporte, o celular e as contas de Victória, transformando-a em uma prisioneira na própria casa. Para garantir a obediência absoluta, ele escolheu a única fraqueza dela: Camila, sua irmã caçula com síndrome de down, agora vigiada de perto como refém. Aos olhos do mundo, eles eram a imagem da felicidade conjugal, com sorrisos ensaiados e jantares de gala. Entre quatro paredes, era uma guerra psicológica diária onde a respiração de Victória era controlada e a liberdade, uma lembrança distante. Christian acreditava ter quebrado o espírito de sua esposa, transformando-a em uma boneca dócil. O que ele não sabia era que, sob a pele da mulher acuada, Victória contava cada segundo, memorizava cada código de segurança e aguardava pacientemente o momento certo. Ela fingiu submissão. Ela jogou o jogo dele. E, quando o monstro finalmente cometeu o erro de subestimá-la, a frágil esposa sumiu. No lugar dela, emergiu a lâmina afiada pronta para destruir o império dele de dentro para fora. Uma mente brilhante, uma gaiola de ouro e um jogo de gato e rato onde a única regra é sobreviver para ver quem quebra primeiro.Outras|Aventura|Moderno15.3 mil palavras5 148 -
TerminadoCapítulo 10
Minha Mãe Deixou Minha Esposa Desmaiada no Chão
Arthur voltou de viagem dois dias antes e encontrou a mesa cheia, o filho de oito dias chorando e Elena desacordada no tapete. A mãe dele continuava cortando o jantar. Se você encontrasse sua esposa nessa situação e descobrisse que alguém da sua própria família havia falsificado sua assinatura, qual seria sua primeira atitude? Leia até o fimModerno10.3 mil palavras5 130 -
TerminadoCapítulo 11
Mostraram Suas Verdadeiras Faces… Sem Saber Que Eu Fingia Estar Paralisada
Fingi Estar Paralisada Por 10 Dias… Meus Filhos Disputaram Minha Fortuna, Mas A “Intrusa” Ficou... Aos 66 anos, Beatriz Montenegro Sampaio construiu um dos maiores impérios imobiliários de São Paulo. Rica, poderosa e acostumada a controlar tudo, ela acreditava conhecer os próprios filhos. Até ser envenenada durante sua festa de aniversário. Ao descobrir que sobreviveria sem sequelas permanentes, Beatriz toma uma decisão perigosa: fingir que ficou paralisada e sem conseguir falar para descobrir quem permaneceria ao seu lado quando ela não pudesse mais oferecer poder, dinheiro ou proteção.Moderno15.1 mil palavras5 352 -
TerminadoCapítulo 11
“Ela Não É Minha Filha”… Até o DNA Revelar Um Segredo Pior
No aniversário da pequena Sofia, Isabela presencia uma cena que muda para sempre sua relação com a poderosa família Montenegro. Mas o golpe mais cruel vem do próprio marido, Alexandre, que olha para a menina e declara diante de todos: "Ela não é minha filha." Isabela, porém, já conhece a verdade. Um exame de DNA confirma que Sofia é filha biológica de Alexandre com 99,9998% de probabilidade. Só que existe uma segunda página no resultado — e ela revela algo ainda mais devastador... Até onde sua própria mãe foi capaz de ir para proteger os segredos da família Montenegro?Moderno13.4 mil palavras5 287 -
TerminadoCapítulo 11
O Chefe da Máfia Mais Temido Viu Minhas Mãos Tremendo… E Fez Uma Única Pergunta
Isabela Oliveira Martins só queria sobreviver a mais um turno em um restaurante sofisticado nos Jardins, em São Paulo. Mas, ao servir a mesa 17, suas mãos começaram a tremer diante do homem que todos no salão pareciam temer: Dante Vasconcelos Montenegro, um poderoso e misterioso chefe da máfia. Quando Dante percebe as marcas no pulso da garçonete, segura sua mão e pergunta baixinho: "Quem fez isso com você?" Isabela não consegue responder. Porque o homem de quem está fugindo é Marcelo Ferraz, seu ex-namorado controlador, alguém que parece sempre saber onde ela está. O que Isabela ainda não sabe é que seu encontro com Dante está longe de ser uma coincidência do destino. Uma investigação começa a revelar que Marcelo se aproximou dela por causa de Antônio, seu pai, morto quinze anos antes em circunstâncias nunca esclarecidas. E quanto mais Isabela procura respostas, mais descobre que os Ferraz e os Montenegro escondem um passado construído sobre dinheiro, traições e silêncio. Até Dante guarda um segredo sobre a noite em que Antônio morreu. Agora, Isabela terá que descobrir em quem pode confiar — sem permitir que outro homem decida seu destino. Porque talvez seu pai não tenha morrido apenas por descobrir um crime.Bilionário|Máfia|Moderno14.3 mil palavras5 4105 -
TerminadoCapítulo 10
Três Dias Após o Funeral, Ouvi Meu Marido Planejar Minha Herança
Três dias depois de enterrar a mãe, Eliza ouviu o marido dizer ao telefone: “Assim que eu acessar as contas, a gente venceu.” Ela não desceu a escada nem exigiu explicações. Apertou o botão de gravar. Na manhã seguinte, o último vídeo de Margaret revelou que Garrett pesquisava a herança antes mesmo do casamento — e que Sienna, irmã de Eliza, havia aberto a primeira porta.Moderno9.7 mil palavras5 197 -
TerminadoCapítulo 10
A Menina Que Entrou Molhada no Baile
Com fome e encharcada, Lívia, de nove anos, entra escondida no baile beneficente do Hotel Imperial procurando a mãe. Helena Albuquerque, viúva de uma das famílias mais ricas de São Paulo, joga água no rosto da menina e a acusa de roubo. Quando Lívia cai, um colar de safira se solta de seu pescoço. Dentro da pedra existe uma fotografia que Helena não vê há vinte anos — e a prova de que a criança humilhada diante da elite é a neta que ela nunca soube que tinha.Moderno10.0 mil palavras5 110 -
TerminadoCapítulo 10
A Menina Deu Seu Último Remédio ao Temido Homem
Uma reação alérgica derruba Adrian Moretti dentro da própria mansão. Ellie Carter, filha de uma funcionária e portadora de alergia severa, usa nele seu último autoinjetor de epinefrina. Quando Adrian voltou a respirar, descobriu que aquela era a última dose dela. Minutos depois, a menina disse algo ainda mais impossível: viu um velho colocar “lágrimas azuis” no vinho. O que começou com uma injeção levou a uma chave costurada dentro de um coelho, ao assassinato encoberto de David e à filha que Adrian acreditava ter enterrado.Moderno|Romance10.1 mil palavras5 127