"Horas Para a Execução" Capítulo 1
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A porta de aço fechou com um golpe que percorreu a sala e morreu nas paredes cinzentas.
Ethan Miller permaneceu no centro, esperando que o agente retirasse as mãos de suas costas. O uniforme laranja sobrava nos ombros. Quando se sentou, a corrente entre as algemas tocou a borda metálica da mesa.
Michael Reed deixou uma folha diante dele.
— Últimas solicitações. Refeição, ligação, assistência religiosa. Leia e marque.
Ethan percorreu as opções. Café da manhã especial. Escolha de sobremesa. Presença do capelão. Uma chamada de quinze minutos, sujeita à aprovação.
— Quanto tempo?
Michael consultou o relógio.
— A execução está marcada para amanhã, às seis.
— Perguntei quanto tempo tenho pra preencher.
— Dez minutos.
Ethan pegou a caneta presa à mesa por uma corrente curta. Marcou café preto. Deixou o restante em branco.
Michael ficou ao lado da porta. Tinha acompanhado homens até aquela sala por dezessete anos. Alguns exigiam bifes, tortas inteiras, refrigerantes que não bebiam desde a infância. Outros devolviam a folha sem olhar.
— Nenhuma ligação? — perguntou.
Ethan dobrou o papel ao meio.
— Não.
— A direção precisa de uma resposta em cada campo.
— Escreve recusado.
Michael voltou até a mesa e empurrou a folha para o lado certo. Ethan a abriu. Na linha destinada ao familiar, escreveu o nome de Laura e parou antes do número.
Fazia quatro anos desde a última carta dela. Onze desde a última visita de Daniel.
O filho tinha dezesseis anos quando se sentou atrás do vidro, com o cabelo caindo sobre os olhos e os dois punhos enfiados nos bolsos do moletom. Ethan falou do clima, da escola, de uma equipe de beisebol que Daniel já não acompanhava. O garoto não respondeu. Na saída, encostou dois dedos no vidro e nunca mais voltou.
Ethan riscou o nome de Laura.
— Acabou?
— Quase.
Ele virou a folha. O verso estava vazio. A caneta permaneceu sobre o papel enquanto Michael mexia no rádio preso ao ombro.
— Reed.
— O quê?
— Você consegue descobrir se um cachorro ainda está vivo?
Michael olhou para ele.
— Um cachorro?
— Pastor-belga. Rex. Deve estar com Samuel Carter.
— Isso é uma solicitação de visita?
Ethan alinhou a dobra do formulário com a borda da mesa.
— Se ele estiver vivo.
Michael soltou o rádio. Os agentes recebiam pedidos estranhos às vésperas de uma execução. Um homem quis ouvir a gravação de um jogo de 1987. Outro pediu que abrissem a janela durante uma tempestade. Nenhum pedira um animal.
— Há regras sanitárias. Segurança. A direção pode negar.
— Eu sei.
— Ele pode nem reconhecer você.
A mão algemada de Ethan parou sobre o formulário.
— Eu sei.
Michael entregou outra folha sem dizer mais nada. Ethan escreveu devagar, usando letras grandes para compensar o tremor dos dedos.
Quero ver Rex uma última vez.
O nome trouxe uma estrada secundária de volta à sala. Chovia naquela noite também. Ethan dirigia para casa quando viu o animal preso entre a vala e a faixa amarela, magro demais, o pescoço marcado por uma cicatriz circular.
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Ele parou a camionete e abriu a porta.
O cão mostrou os dentes.
Ethan deixou água numa tampa de caixa de ferramentas, voltou para o banco e esperou. Quarenta minutos depois, ouviu unhas na lataria. Rex entrou sem convite e se encolheu no assoalho do passageiro.
— Só hoje — disse Ethan.
Laura repetiu a mesma frase quando o viu na cozinha. Daniel, com cinco anos, dormiu no chão do corredor para impedir que o pai levasse o cachorro embora pela manhã.
A noite durou quase dez anos.
Rex passou a dormir diante da porta do quarto. Esperava o motor da camionete na janela. Nas tardes de sábado, corria atrás de Daniel pelo quintal e roubava a luva de beisebol apenas para ser perseguido.
No dia da prisão, Ethan foi colocado no banco traseiro de uma viatura. Rex avançou até o portão e latiu até perder a voz. Laura contou numa carta que ele permaneceu três dias junto à entrada, recusando comida.
Depois as cartas diminuíram. Rex foi para a casa de Samuel. Ethan guardou a última fotografia numa caixa de papelão: Daniel aos doze anos, sentado no capô da camionete, Rex entre os pés dele.
Michael puxou o formulário.
— Vou entregar à diretora.
— Reed.
O agente esperou.
— Se ele não aguentar a viagem, deixa pra lá.
Michael dobrou a folha uma vez.
— Isso quem decide é o veterinário.
Ethan acompanhou o papel até a porta. Quando a chapa de aço fechou, ficou sozinho com a mesa, duas cadeiras aparafusadas e o reflexo fraco de um homem que parecia mais velho que seus quarenta e oito anos.
Margaret Hall recebeu o pedido vinte minutos depois.
Leu a frase, virou a folha e procurou alguma explicação. Não havia.
O chefe de segurança, Alan Price, permaneceu em pé diante da mesa.
— Animais não entram no setor de execução.
— Isso está escrito onde?
— No protocolo de controle biológico. E no de segurança indireta.
— Um pastor-belga de treze anos é uma ameaça indireta?
— Se ficar agitado, sim.
Margaret colocou os óculos sobre o pedido.
— Avaliação veterinária, guia curta, condutor autorizado e dois agentes na sala.
— Diretora...
— Ele não pediu suspensão. Pediu vinte minutos com um cachorro.
Alan abriu a pasta que carregava.
— A senhora leu o processo dele.
— Li cada página. Autorizar uma visita não muda uma linha.
— E se a família da vítima souber?
Margaret passou o dedo sobre a assinatura de Ethan.
— Não haverá imprensa. Nenhuma câmera além do circuito interno. Primeiro descubra se o animal está vivo.
Alan recolheu a cópia. Antes que alcançasse a porta, Margaret levantou o telefone.
— Carter trabalha com uma associação de cães aposentados, certo?
— Foi o que Miller informou.
— Então ligue para ele agora.
Alan saiu. Margaret ficou com o original sobre a mesa.
Ela abriu o arquivo digital de Ethan. A fotografia de entrada mostrava um homem mais pesado, cabelo escuro e maxilar firme. Abaixo, onze anos de relatórios: três advertências no primeiro ano, nenhuma nos seis últimos, trabalho na lavanderia, pedidos de biblioteca e uma recusa de entrevista.
Margaret localizou o contato de Samuel. Havia também uma anotação antiga de Laura:
animal entregue a cuidador particular
. Uma vida inteira resumida em cinco palavras administrativas.
Michael voltou para buscar a decisão.
— Vai ser autorizado?
— Se o cão passar na avaliação.
— Price acha arriscado.
— Price acha arriscado trocar a marca do café.
Michael não sorriu. Ficou olhando o formulário.
— Miller perguntou se ele ainda estava vivo antes de pedir a visita.
Margaret fechou o arquivo.
— Isso muda alguma coisa para você?
— Só estou registrando.
— Então registre que a autorização pode ser cancelada a qualquer sinal de estresse do animal.
Michael pegou a cópia e chegou à porta.
— Diretora, se o cachorro reconhecer, quem encerra os vinte minutos?
Margaret colocou os óculos.
— O relógio.
Quando ficou sozinha, ela leu o pedido uma terceira vez. O papel não continha justificativa, promessa ou súplica. Apenas um nome e um limite.
Do outro lado da cidade, um telefone começou a tocar ao lado de um radiador. Um pastor-belga de focinho grisalho abriu um olho. Samuel Carter olhou o número de Westbridge na tela e não atendeu na primeira chamada.
Na segunda, sentou-se no chão ao lado de Rex.
— Carter falando.
Rex ergueu a cabeça quando Samuel ouviu o nome de Ethan.
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