"Quando a Mentira É o Único Legado" Capítulo 2
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O silêncio do escritório de Gilberto pesava como chumbo, mas Valentina não recuou nem um centímetro diante da ameaça velada do pai.
Ainda com o pulso formigando pela revelação de Mateo e a pulseirinha de metal guardada no bolso, ela virou as costas sem dizer mais nada.
Naquela mesma manhã, antes que o sol de São Paulo rompesse a neblina densa, ela já estava ao volante de seu carro rumo à zona sul.
O endereço cravado na parte de trás da caixinha de veludo pertencia a uma antiga clínica obstétrica particular, escondida em uma rua arborizada de Moema.
O edifício de fachada clássica e tijolos à vista parecia intocado pelo tempo, mas a placa na entrada exibia uma nova razão social corporativa.
Valentina estacionou bruscamente na vaga em frente, desceu do veículo sob uma garoa fina e empurrou a porta de vidro fumê da recepção.
O ambiente interno cheirava a desinfetante caro e papel mofado, com um balcão de fórmica bege onde uma funcionária de meia-idade digitava sem pressa.
Bom dia, eu gostaria de consultar os registros de nascimentos e internações ocorridos no mês de outubro de mil novecentos e oitenta e oito, disse Valentina.
A atendente parou de digitar, ergueu lentamente os olhos por cima dos óculos de grau e analisou a expressão tensa da visitante.
Desculpe, mas este prédio agora abriga uma clínica de estética avançada e consultórios de cardiologia, a mulher respondeu com tom burocrático.
Os arquivos antigos do antigo hospital maternidade foram transferidos, descartados ou digitalizados há mais de duas décadas, querida.
Valentina respirou fundo, tentando conter a onda de impaciência que ameaçava transbordar, e colocou as mãos apoiadas sobre o balcão.
Eu preciso acessar o arquivo físico ou o backup digital daquela época, é uma questão urgente de saúde familiar e registros legais.
Por favor, o meu nome é Valentina, e eu nasci exatamente aqui, nesta instituição, insistiu ela com firmeza na voz.
A funcionária suspirou pesadamente, teclou algumas sequências rápidas no computador empoeirado e franziu a testa diante da tela.
Olha, senhora, o sistema diz que o bloco de prontuários referente ao final de mil novecentos e oitenta e oito simplesmente não existe mais, murmurou a atendente.
Consta aqui que os dados foram desativados por ordem administrativa direta e exclusão permanente por obsolescência de banco de dados.
Exclusão permanente?, Valentina repetiu as palavras com um nó na garganta, sentindo o chão desabar sob os seus pés.
Como um arquivo de nascimento pode simplesmente desaparecer do mapa sem deixar nenhum rastro burocrático oficial?
Neste exato momento, uma voz mansa e amedrontada ecoou vinda de uma salinha lateral nos fundos da recepção.
Se licença, senhora, se a senhora estiver procurando registros daquela gestão antiga, é melhor parar por aqui, disse um homem baixinho.
Era o arquivista da clínica, um senhor de cabelos brancos ralos e avental cinza, que olhava nervosamente para os lados.
O senhor sabe de alguma coisa? Por favor, eu preciso saber o que aconteceu com os meus documentos de nascimento!, implorou Valentina.
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O homem engoliu em seco, a testa suando frio, e deu dois passos para trás, aterrorizado com a insistência da moça.
Aqueles arquivos não sumiram por acaso, mocinha, e nem por erro de computador, sussurrou o funcionário mais velho com a voz trêmula.
Eles foram limpos por ordem de cima, por gente muito poderosa que tem influência direta neste estado de São Paulo inteiro.
Quem deu essa ordem?, questionou Valentina, sentindo o sangue ferver de ódio e indignação.
Foi um homem influente, um figurão que apareceu aqui anos atrás com uma maleta cheia de dinheiro e advogados particulares, respondeu o arquivista.
Ele comprou e apagou tudo o que ligava os bebês daquela época a este lugar, e se a senhora continuar fuçando...
Ele nem chegou a terminar a frase, pois um barulho seco de porta batendo no hall de entrada interrompeu a conversa na mesma hora.
O som de passos firmes e decididos ecoou pelo piso de cerâmica, fazendo o arquivista empalidecer instantaneamente e fugir correndo para os fundos.
Valentina virou-se lentamente em direção à entrada da clínica, com o coração disparado contra as costelas como um tambor enfurecido.
Parado bem no meio do saguão, vestindo um terno cinza de alfaiataria impecável e com a expressão mais gélida do mundo, estava Gilberto.
O patriarca a encarava com os olhos cinzentos faiscando de fúria contida, a postura erguida exalando uma autoridade tirânica e sufocante.
O que você pensa que está fazendo aqui, Valentina?, a voz de Gilberto cortou o ar da recepção como a lâmina de uma guilhotina.
Eu vim procurar o que é meu por direito, a minha própria história, a minha identidade que você e essa corja tentaram apagar, retrucou ela.
Minha história?, Gilberto soltou uma risada seca e amarga, dando passos lentos em direção à filha até ficar a poucos centímetros dela.
Você acha que sabe o que é uma história, garota ignorante? Acha que o mundo gira em torno dos seus caprichos de menina rica?
Você está cavando a própria cava e arrastando todos nós para a ruína com essa sua mania detestável de investigar o que não deve.
Eu só quero saber a verdade, pai!, gritou Valentina, as lágrimas de revolta finalmente escapando e molhando suas bochechas.
Por que a minha certidão é falsa? Por que a minha data de nascimento foi alterada? Quem sou eu de verdade?
Gilberto ergueła mão direita com um gesto autoritário, silenciando-a no ato, enquanto seu rosto enrugado endurecia em uma máscara de pura crueldade.
Você quer tanto a verdade, Valentina?, sibilou o velho bem perto do ouvido dela, com um tom de voz que fez o sangue congelar em suas veias.
Pois fique sabendo de uma vez por todas: se você continuar investigando essa merda e remexer no passado, você vai perder absolutamente tudo.
Você vai perder este sobrenome, vai perder o seu conforto, e vai perder a sua família inteira em um piscar de olhos.
Antes que Valentina pudesse recuperar o fôlego para responder àquela chantagem emocional e psicológica descarada, o velho deu meia-volta.
Gilberto caminhou a passos largos para fora da clínica, entrou em sua imponente caminhonete preta blindada que aguardava na calçada.
O motor roncou alto, o veículo arrancou cantando pneus e desapareceu rapidamente na esquina, deixando uma nuvem de fumaça cinzenta no ar.
Valentina permaneceu sozinha, plantada no meio da rua sob a garoa fina de São Paulo, sentindo o corpo inteiro tremer de puro ódio.
O medo inicial que sentira minutos antes havia evaporado por completo, incinerado por uma chama de revolta indomável e irredutível.
Ela limpou as lágrimas do rosto com as costas da mão, respirou fundo o ar úmido da cidade e olhou para o horizonte nublado.
Se o pai pensava que iria intimidá-la com ameaças vazias e chantagens baratas, ele estava cometendo o maior erro de sua vida inteira.
Ela entraria naqueles arquivos digitais escondidos, rastrearia cada centavo daquela farsa e descobriria quem era a verdadeira mãe de sangue.
No entanto, o que Valentina ainda não sabia era que a ameaça de Gilberto não era apenas um blefe de pai tirano para assustar a filha.
Aquele segredo monstruoso que ele tanto protegia estava prestes a explodir e revelar uma conexão muito mais perigosa do que ela podia supor.
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