"Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro" Capítulo 20
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Caio parou de se debater.
Renato olhou para os policiais.
"Contas. Empresas. Transferências."
Caio ficou branco.
"Renato."
"Eu entrego tudo."
"Fica quieto."
"Eu tenho arquivos."
"Renato!"
"Foi ideia do Caio!"
O corredor silenciou.
Caio pareceu esquecer até onde estava.
Olhou para o irmão.
"Você está me culpando?"
Renato respondeu:
"Você me ameaçou."
"Você assinou tudo."
"Porque você mandou."
"Você recebeu dinheiro!"
"Menos que você."
Caio começou a rir.
Era um riso estranho.
Quase desesperado.
"Olha para você."
Renato desviou o rosto.
"Trinta anos de irmão."
"Você ia me entregar primeiro."
"Não ia."
"Mentiroso."
"Você colocou uma arma na mesa e disse que eu não podia sair."
"Porque precisava de você."
"Não."
Renato levantou os olhos.
"Você precisava de alguém para culpar."
Caio ficou em silêncio.
Os policiais os separaram.
Um foi levado primeiro.
Depois o outro.
Ao passar por Augusto, Renato parou.
O policial tentou puxá-lo.
Augusto fez um gesto.
"Um segundo."
Renato olhou para ele.
Parecia novamente o menino do hospital.
"Pai..."
Augusto fechou os olhos.
Renato chorou.
"Eu sinto muito."
Augusto abriu os olhos.
"Eu também."
Renato esperou mais.
Talvez perdão.
Talvez uma promessa.
Talvez ouvir que tudo seria resolvido.
Augusto não ofereceu nenhuma dessas coisas.
O policial o levou.
Caio passou depois.
Não chorava.
O ódio permanecia.
"Você vai se arrepender."
Augusto respondeu:
"Já me arrependi por tempo suficiente."
Caio foi levado.
As sirenes continuavam do lado de fora.
Mariana finalmente saiu da área protegida.
A perna tremia.
Augusto se aproximou.
"Você está bem?"
Ela olhou para a marca branca no vidro.
"Eu acho."
"Você não devia ter saído."
"Eu sei."
"Podia..."
"Eu sei."
Ele parou.
Mariana tocou o braço dele.
"Pelo menos dessa vez não me dá sermão."
Augusto quase sorriu.
"Fechado."
Sérgio apareceu.
"Área segura."
Rafael soltou o ar.
Helena entrou poucos minutos depois.
Terno escuro.
Cabelo preso.
Uma pasta na mão.
Augusto olhou para ela.
"Acabou."
Helena não respondeu.
Ele percebeu.
"Helena?"
Ela caminhou até eles.
Olhou para Mariana.
Depois para a porta por onde Caio e Renato tinham sido levados.
"Não."
Augusto franziu a testa.
Helena abriu a pasta.
Dentro havia documentos que ele ainda não tinha visto.
"Caio e Renato foram presos."
"Eu sei."
"Mas a fraude é maior do que imaginávamos."
Augusto ficou sério.
"Quanto maior?"
Helena fechou a pasta novamente.
"Muito."
Mariana olhou de um para o outro.
Augusto perguntou:
"O que você encontrou?"
Helena respirou fundo.
"Ainda não acabou."
Parte 11
Família
"Ainda não acabou."
Helena colocou a pasta sobre a mesa da sala de controle.
Augusto não respondeu imediatamente.
Do lado de fora, as viaturas ainda ocupavam a rua. Caio e Renato já haviam sido levados, mas o eco dos gritos dos dois parecia continuar preso dentro das paredes.
Mariana permaneceu perto do vidro atingido pelo disparo.
A marca branca da bala ainda estava ali.
Pequena.
Quase discreta.
Uma lembrança de que, poucos minutos antes, alguém havia tentado matá-la.
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"Quanto?", Augusto perguntou.
Helena abriu a pasta.
"Mais do que os cinquenta milhões que encontramos no primeiro levantamento."
"Quanto mais?"
Ela respirou fundo.
"Quase o dobro."
Mariana virou lentamente.
Augusto ficou imóvel.
"Como?"
"Empresas que não estavam no primeiro grupo."
"De quem?"
"Interpostas pessoas."
Helena espalhou alguns documentos.
"Motoristas. Ex-funcionários. Um primo distante da ex-mulher de Renato. Dois antigos sócios de Caio."
Augusto fechou os olhos.
"Há quanto tempo?"
"Pelo menos sete anos."
Ele abriu novamente.
"Sete?"
"Sim."
"Então começou antes do que eu imaginava."
"Começou quando você ainda acreditava que eram erros administrativos."
Augusto ficou em silêncio.
Mariana observou.
Aquela frase doeu.
Porque ele sabia exatamente o que significava.
Durante anos, cada irregularidade havia sido explicada.
Um contrato mal feito.
Um fornecedor ruim.
Um pagamento sem documentação.
Uma despesa mal lançada.
Pequenos desvios.
Pequenas desculpas.
Até que todos os pequenos desvios formaram uma estrada inteira.
Helena continuou:
"Há indícios de superfaturamento, empresas de fachada, contratos simulados e remessas para contas no exterior."
"Caio?"
"Os dois."
"Quem organizava?"
"Ainda estamos reconstruindo."
Augusto olhou para ela.
"Renato vai falar."
"Já começou."
Mariana franziu a testa.
"Já?"
Helena assentiu.
"Na delegacia."
Augusto não pareceu surpreso.
"Ele sempre soube abandonar o navio antes de afundar."
Helena respondeu:
"Dessa vez, talvez esteja afundando junto."
As primeiras quarenta e oito horas foram um terremoto.
O Grupo Valença convocou reunião extraordinária do conselho.
A imprensa cercou a sede na Faria Lima.
Imagens de Caio sendo colocado numa viatura apareceram em todos os portais.
Renato, algemado, evitava as câmeras.
As manchetes se multiplicaram.
Tentativa de homicídio.
Extorsão.
Fraude empresarial.
Armas ilegais.
Sequestro planejado.
Desvio milionário.
A história que começara com um velho no chão de um hospital agora dominava o país.
Mariana tentou voltar para a faculdade três dias depois.
Não conseguiu atravessar o portão sem ser reconhecida.
Alguns estudantes pediram fotos.
Outros apenas olharam.
Uma mulher se aproximou e abraçou Mariana sem pedir licença.
"Meu pai morreu de sepse."
Mariana ficou parada.
A mulher chorava.
"Quando vi sua história, pensei nele."
Mariana não sabia o que dizer.
Apenas abraçou de volta.
Naquela tarde, ligou para Augusto.
"Talvez o instituto precise existir."
Do outro lado, ele ficou em silêncio.
"Você está falando sério?"
"Não faz festa."
"Não estou."
"Está sorrindo."
"Como sabe?"
"Porque eu já conheço sua voz."
Augusto respirou fundo.
"Então mudou de ideia."
"Não completamente."
"Claro."
"Eu quero regras."
"Terá."
"Quero independência."
"Terá."
"Quero que meu nome não sirva para propaganda."
"Concordo."
"E não quero ser chamada de herdeira."
Augusto respondeu:
"Você nunca foi."
"Ótimo."
"Você quer trabalhar?"
"Quero."
"Então vamos trabalhar."
Enquanto isso, Caio e Renato começaram a destruir um ao outro.
Renato foi o primeiro a entregar documentos.
Listas de fornecedores.
Contas.
Mensagens.
Planilhas.
Nomes.
Caio descobriu no dia seguinte.
Pediu para falar com o advogado.
"Ele entregou o quê?"
"Não posso confirmar tudo."
"Entregou quanto?"
"Caio..."
"Ele entregou minhas mensagens?"
O advogado ficou em silêncio.
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Caio entendeu.
"Filho da mãe."
"Você precisa se acalmar."
"Ele estava em tudo."
"Eu sei."
"Assinou tudo."
"Isso será discutido."
"Não. Ele vai tentar jogar em mim."
"É possível que esteja colaborando."
Caio começou a rir.
"Claro."
A risada virou raiva.
"Ele sempre foi assim."
"Assim como?"
"Covarde."
Do outro lado, Renato dizia quase a mesma coisa.
"Caio sempre foi impulsivo."
A promotora não reagiu.
"Continue."
"Eu tentava controlar."
"Mas assinava os documentos."
"Porque ele pressionava."
"Durante sete anos?"
Renato ficou em silêncio.
"Eu estava preso na estrutura."
"Preso com apartamento de luxo, carros e contas no exterior?"
Ele abaixou os olhos.
"Eu sei como parece."
"Não estamos discutindo aparência."
A promotora empurrou uma folha.
"Essa transferência tem sua assinatura."
Renato respondeu:
"Foi Caio quem montou."
"Mas foi você quem autorizou."
"Sim."
"Então não tente se transformar em vítima."
Renato engoliu em seco.
"Eu posso ajudar."
"Ajude."
"Quero acordo."
"Primeiro entregue tudo."
A guerra entre os irmãos durou meses.
Cada novo depoimento produzia outro ataque.
Caio dizia que Renato era o cérebro financeiro.
Renato dizia que Caio comandava a pressão e as ameaças.
Caio dizia que Renato sugerira esconder recursos no exterior.
Renato dizia que Caio havia organizado a invasão.
Em uma audiência, os dois foram colocados na mesma sala pela primeira vez desde a prisão.
Caio olhou para o irmão.
"Você me vendeu."
Renato respondeu:
"Você ia me matar junto."
"Mentira."
"Você apontou uma arma para mim."
"Porque você queria fugir."
"E eu devia ter fugido muito antes."
Caio riu.
"Agora virou santo?"
"Não."
"Então assume."
"Eu estou assumindo."
"Não. Está negociando."
Renato olhou para ele.
"E você está fingindo que fez tudo sozinho por lealdade?"
Caio ficou em silêncio.
Renato continuou:
"Você me usou durante anos."
"E você gostou."
"Gostei do dinheiro."
"Então pronto."
"Sim."
Renato respirou fundo.
"Essa é a diferença."
"Qual?"
"Eu parei de mentir para mim mesmo."
Caio levantou, mas os agentes se aproximaram imediatamente.
"Você é um rato."
Renato respondeu:
"E você é o motivo de eu estar aqui."
Caio riu.
"Não."
Apontou para ele.
"Você é o motivo."
O conselho do Grupo Valença reuniu-se seis semanas depois.
Augusto entrou pela primeira vez na sede desde a internação.
A sala ficou em silêncio.
Alguns diretores levantaram.
Ele fez um gesto.
"Sentem."
Beatriz Nogueira apresentou o relatório.
As páginas pareciam não terminar.
Contratos fictícios.
Fornecedores inexistentes.
Pagamentos sem prestação comprovada.
Compra de bens pessoais com recursos corporativos.
Transferências internacionais.
Augusto ouviu tudo.
Sem interromper.
No final, Álvaro Menezes falou:
"Precisamos votar a exclusão definitiva dos dois."
Augusto assentiu.
"Votem."
"Você não quer falar?"
"Não."
Álvaro hesitou.
"Eles são seus filhos."
Augusto respondeu:
"Hoje vocês precisam agir como conselheiros."
A votação foi unânime.
Caio Valença e Renato Valença estavam oficialmente fora do Grupo Valença.
Nenhum cargo.
Nenhuma representação.
Nenhum direito especial.
Nenhuma volta.
Augusto permaneceu sentado depois que todos saíram.
Beatriz ficou.
"Você está bem?"
"Não sei."
Ela fechou o notebook.
"Quer ficar sozinho?"
"Um pouco."
Quando a porta se fechou, Augusto olhou para as duas cadeiras onde os filhos costumavam se sentar.
Caio sempre escolhia a mais próxima da janela.
Renato preferia a ponta da mesa.
Durante anos, Augusto imaginara entregar a empresa aos dois.
Agora as cadeiras estavam vazias.
E, pela primeira vez, ele não tentou preenchê-las.
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