"Eles Me Deixaram Morrer Pelo Meu Dinheiro" Capítulo 17
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A cada carro que permanecia por tempo demais atrás deles, ela conferia o retrovisor.
Percebeu.
O medo já havia entrado.
E talvez fosse exatamente isso que mais odiava.
Quando chegaram, o porteiro estava no lugar de sempre.
Seu Anselmo.
Cabelos grisalhos.
Camisa social um pouco larga.
Óculos escorregando pelo nariz.
Ele levantou a cabeça.
"Boa noite, dona Mariana."
Ela quase respondeu normalmente.
Então parou.
Olhou para Augusto.
Depois para Rafael.
Depois para o porteiro.
"Não."
Anselmo franziu a testa.
"Senhora?"
Mariana apontou para ele.
"Você."
"Eu?"
"Também."
Anselmo olhou para Augusto.
Augusto suspirou.
"Vamos subir."
Mariana permaneceu parada.
"Não vou subir até alguém me explicar quem ele é."
Anselmo tirou os óculos.
"Meu nome é Anselmo."
"Isso eu sei."
"Então..."
"Quem você é de verdade?"
O homem ficou em silêncio.
Rafael desviou o rosto para esconder um sorriso.
Mariana viu.
"Não ri."
"Não estou rindo."
"Está sim."
Augusto interveio.
"Anselmo trabalha conosco."
Mariana fechou os olhos.
"Eu sabia."
"Na verdade, meu nome completo é Sérgio Anselmo Almeida."
Ela abriu os olhos.
"Como?"
O homem retirou o crachá simples de porteiro.
Virou.
No verso havia outra identificação.
"Sérgio Almeida. Coordenação de Proteção Patrimonial."
Mariana ficou imóvel.
"Você está brincando."
"Não."
"Você ficava dormindo na portaria."
Sérgio respondeu com tranquilidade:
"Eu ronco melhor quando preciso parecer inofensivo."
Rafael riu.
Mariana olhou para ele.
"Agora você pode rir."
Rafael assentiu.
"Obrigado."
Ela apontou para Sérgio.
"Você não é porteiro?"
"Tecnicamente, também sou."
"Como?"
"Eu abro o portão."
Mariana levou a mão à testa.
"Meu Deus."
Augusto falou:
"Vamos subir."
Dessa vez ela foi.
No elevador, ninguém disse nada.
Mariana olhava para o painel.
Primeiro andar.
Segundo.
Terceiro.
A porta abriu.
O corredor era exatamente como ela conhecia.
Pintura antiga.
Luz amarelada.
Um vaso de planta quase morto perto da janela.
Duas bicicletas encostadas na parede.
Tudo parecia absolutamente comum.
E isso a deixava mais desconfiada.
Ela abriu a porta do apartamento.
Entrou primeiro.
Nada havia mudado.
O sofá velho.
A mesa pequena.
Os livros.
A geladeira.
Augusto fechou a porta.
Mariana cruzou os braços.
"Pronto."
"Pronto o quê?"
"Me mostra."
"Mostrar o quê?"
"Se você falar que não sabe, eu juro que..."
Augusto levantou uma mão.
"Está bem."
Ele caminhou até a parede da sala.
A mesma parede descascada onde Mariana havia colocado uma pequena estante.
"Você vai quebrar minha parede?"
"Não."
"Ela já está ruim o bastante."
Augusto passou a mão por trás de um quadro barato.
Pressionou alguma coisa.
Nada aconteceu.
Mariana olhou.
"Impressionante."
"Espera."
Um som metálico veio de dentro da parede.
Ela parou.
A estante começou a se mover.
Mariana deu um passo para trás.
"Augusto."
A parede inteira deslizou alguns centímetros.
Depois abriu para o lado.
Atrás dela havia outra porta.
Escura.
Sem maçaneta.
Rafael se aproximou.
Encostou o polegar em um leitor.
A porta destravou.
Mariana ficou sem voz.
Augusto olhou para ela.
"Agora você pode reclamar."
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"Eu nem sei por onde começar."
A porta abriu.
Do outro lado havia um corredor estreito iluminado por luz branca.
Nada lembrava o apartamento.
Paredes reforçadas.
Câmeras.
Portas metálicas.
Cabos protegidos.
Mariana entrou lentamente.
"O que é isso?"
"Área segura."
"Debaixo da minha sala?"
"Do lado."
"Isso não melhora."
Rafael passou por eles.
"Há dois ambientes."
Mariana olhou para Augusto.
"Dois?"
"Sim."
"Quantas paredes falsas existem aqui?"
"Poucas."
"Quantas?"
Augusto não respondeu.
"Augusto."
"Quatro."
Ela ficou parada.
"Eu odeio você um pouco."
"Justo."
Chegaram a uma sala maior.
Seis monitores ocupavam uma parede inteira.
Imagens ao vivo apareciam em cada tela.
Entrada do prédio.
Rua.
Garagem.
Escada.
Corredores.
Elevador.
Mariana sentiu um arrepio.
"Vocês gravam tudo?"
Sérgio entrou atrás deles.
"Áreas comuns e perímetro."
"Minha casa?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Absoluta."
Ela olhou para Augusto.
"Se eu descobrir uma câmera no meu banheiro..."
"Não existe."
"Quarto?"
"Não."
"Cozinha?"
Augusto hesitou.
Mariana arregalou os olhos.
"Augusto."
"Na entrada da cozinha."
"Por quê?"
"Ângulo de porta."
"Você é inacreditável."
Sérgio apontou para outra tela.
"Não há captação de áudio dentro do apartamento, a não ser quando ativada por emergência."
"Ativada por quem?"
"Por você."
"Eu nem sabia que existia."
"Agora sabe."
Mariana aproximou-se dos monitores.
Uma das câmeras mostrava o andar de cima.
Dois jovens estavam sentados num corredor.
Ela reconheceu os dois.
"Esses são os estudantes."
Sérgio respondeu:
"Não."
Mariana virou.
"Não?"
"Agentes."
"Agentes?"
"Proteção."
Ela soltou uma risada vazia.
"Eu encontrei um deles reclamando de prova."
Rafael respondeu:
"Ele estava realmente fazendo uma prova."
"De quê?"
"Direito."
Mariana ficou sem entender.
"Então ele é estudante."
"E agente."
"Isso é ridículo."
"Funciona."
Ela olhou novamente para as telas.
"Desde quando?"
Augusto respondeu:
"Desde que você me trouxe para cá."
Mariana congelou.
"Desde o primeiro dia?"
"Sim."
"Você transformou meu prédio nisso em uma noite?"
Augusto balançou a cabeça.
"Não."
"Então..."
Ela olhou ao redor.
A verdade começou a aparecer antes que ele dissesse.
"Isso já existia."
"Sim."
Mariana ficou imóvel.
"Quanto tempo?"
"Anos."
"Por quê?"
Augusto respirou fundo.
"Esse prédio pertence ao meu fundo privado."
Ela ficou em choque.
"Meu prédio?"
"Sim."
"Meu aluguel?"
"Vai para uma administradora ligada ao fundo."
"Meu contrato?"
"É legítimo."
"Meu apartamento?"
"Você alugou normalmente."
"E ninguém me falou que o dono era você."
"Você nunca perguntou."
Mariana o encarou.
"Não usa isso."
Augusto levantou as mãos.
"Foi uma tentativa ruim."
"Péssima."
Ela voltou a olhar para a sala.
"Por que um bilionário tem uma fortaleza escondida dentro de um prédio velho?"
Augusto respondeu:
"Porque ninguém olha duas vezes para um prédio velho."
Sérgio completou:
"Foi adquirido anos atrás como ponto de contingência."
Mariana ficou séria.
"Contingência para quê?"
"Sequestro."
A palavra caiu pesada.
"Ameaça empresarial."
Outra.
"Extorsão."
Outra.
"Proteção de testemunha em casos específicos."
Mariana olhou para Augusto.
"Você já usou?"
"Não."
"Nunca?"
"Nunca precisei."
"Até agora."
Ele assentiu.
"Até agora."
Mariana andou pela sala.
Havia armários fechados.
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Equipamentos médicos.
Rádios.
Uma porta reforçada.
"Isso é uma casa segura."
"Sim."
"E eu morei aqui sem saber."
"Sim."
"Quantas vezes você entrou nessa sala enquanto eu estava dormindo?"
Augusto respondeu imediatamente:
"Nenhuma."
Ela estreitou os olhos.
"Tem certeza?"
"Sim."
"Rafael?"
"Nenhuma."
"Sérgio?"
"Também não."
Mariana soltou o ar.
"Pelo menos isso."
Augusto se aproximou de uma das telas.
"Quando você me trouxe do hospital, eu já suspeitava que Caio e Renato reagiriam."
"Suspeitava de quê?"
"Que tentariam recuperar acesso."
"Não que tentariam matar alguém."
"Não naquele momento."
"Quando percebeu?"
"Quando começaram a procurar sua rotina."
Mariana ficou séria.
"Então você sabia que eles viriam."
Augusto olhou para ela.
"Eu sabia que a ganância faria o trabalho por mim."
Mariana cruzou os braços.
"Isso continua parecendo que você está esperando eles atacarem."
"Estou esperando que façam uma escolha que não possam negar depois."
"E se essa escolha matar alguém?"
"Não vai."
"Você não pode prometer isso."
"Posso reduzir a chance."
"Não é a mesma coisa."
Augusto permaneceu em silêncio.
Mariana continuou:
"Você podia ter simplesmente ido para outro lugar."
"Sim."
"Uma casa com segurança."
"Sim."
"Um hotel."
"Sim."
"Uma propriedade fora da cidade."
"Sim."
"Então por que aqui?"
"Porque eles acreditam que aqui é vulnerável."
Mariana sentiu raiva.
"Então é uma armadilha."
Augusto respondeu:
"É proteção."
"Com pessoas esperando do lado de fora."
"Sim."
"Isso é uma armadilha."
"É um lugar seguro que parece inseguro."
"Augusto."
"Mariana."
"Para."
Ele ficou quieto.
Ela olhou ao redor.
"Você quer que eles venham."
A resposta demorou.
"Eu quero que parem."
"Não foi o que perguntei."
Augusto sustentou o olhar.
"Sim."
Mariana ficou em silêncio.
"Eu quero que venham até um lugar onde não consigam machucar você."
"Nem você?"
"Nem eu."
"E onde tudo fique registrado."
"Sim."
Ela fechou os olhos.
"Meu Deus."
Sérgio interveio:
"Nada acontece sem autorização da polícia."
Mariana virou.
"A polícia sabe?"
"Parte da operação está coordenada."
"Parte?"
"Não podemos prever o momento."
"E se vierem hoje?"
Sérgio olhou para um relógio.
"Estamos preparados."
Mariana percebeu algo.
"Por que todo mundo está tão calmo?"
Ninguém respondeu.
Ela olhou para os monitores.
Depois para Augusto.
"Vocês sabem alguma coisa."
Augusto respirou fundo.
"Temos movimento."
"Que movimento?"
Sérgio respondeu:
"Marcelo fez contato."
"O infiltrado?"
"Sim."
"Com Renato?"
"Com os dois."
Mariana sentiu um frio na barriga.
"E?"
"Caio está recrutando gente."
"Que gente?"
"Quatro ex-funcionários de segurança do Grupo Valença."
Augusto olhou para Sérgio.
"Confirmado?"
"Três confirmados. O quarto está a caminho."
Mariana virou lentamente.
"Para fazer o quê?"
Sérgio respondeu:
"Aparentemente, entrar no prédio."
"Entrar?"
"Sim."
"Hoje?"
"Provavelmente."
Ela ficou pálida.
"Você sabia disso antes de me trazer?"
Augusto não respondeu rápido o bastante.
"Augusto."
"Sim."
Mariana deu um passo para trás.
"Você me trouxe para cá sabendo."
"Porque aqui é o lugar mais seguro."
"Não."
"É."
"Você me trouxe para o lugar que eles vão atacar."
"E onde não conseguem chegar até você."
"Isso não é a mesma coisa."
Augusto se aproximou.
"Se você estivesse em outro lugar, Caio poderia mudar de plano."
"Então eu sou a isca."
"Não."
"Sim."
"Você está dentro da zona protegida."
"Não importa."
"Importa."
"Você continua escolhendo por mim."
"Porque o risco já existe."
Mariana começou a respirar mais rápido.
"Eu quero sair."
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