"“Hospital Não É Caridade”… Até Uma Menina Desmaiar" Parte 5
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Sofia abriu os olhos devagar no fim daquela tarde.
A primeira coisa que viu foi o teto branco.
Depois, a luz fraca entrando pela janela do quarto.
Tentou se mexer, mas uma dor no abdômen fez seu rosto se contrair.
"Não, meu amor. Devagar."
Mariana se levantou imediatamente da poltrona.
Ela estava ao lado da cama havia horas.
Sofia virou o rosto.
"Mãe?"
"Estou aqui."
Mariana segurou a mão da filha e tentou sorrir.
Foi um sorriso ruim.
Cansado.
Os olhos estavam vermelhos e inchados.
Sofia percebeu.
"Você estava chorando?"
Mariana passou a mão rapidamente pelo rosto.
"Não."
"Estava sim."
"Foi só cansaço."
Sofia ficou olhando para ela.
"Você sempre fala isso quando não quer me contar."
Mariana soltou uma pequena risada, mas a voz quase não saiu.
"Olha só quem ficou esperta depois da cirurgia."
Sofia tentou sorrir.
Depois olhou para o próprio braço.
Havia um acesso preso com fita.
"Eu fui operada?"
"Foi."
"Eu dormi?"
"Dormiu."
"Doía muito."
"Eu sei."
Mariana levou a mão da filha até os lábios.
Beijou seus dedos.
Por alguns segundos, ficou ali sem falar nada.
Sofia observou novamente os olhos da mãe.
"Mãe..."
"Oi?"
"Eu quase morri?"
Mariana congelou.
"Quem falou isso?"
"Ninguém."
"Então não pensa nisso."
"Mas eu quase morri?"
Mariana sentiu a garganta fechar.
"Você está aqui comigo."
"Isso não responde."
Mariana respirou fundo.
"Você ficou muito doente."
Sofia olhou para a janela.
"Eu fiquei com medo."
"Eu sei."
"Quando eu caí, achei que não ia acordar."
Mariana fechou os olhos por um instante.
"Não fala isso."
"Mas eu achei."
A menina apertou a mão da mãe.
"Eu queria você."
Mariana abaixou a cabeça.
"Desculpa."
Sofia franziu a testa.
"Por quê?"
"Porque eu não estava aqui."
"Você estava trabalhando."
Mariana sentiu as lágrimas voltarem.
Era cruel ouvir aquilo da própria filha.
Sofia tinha oito anos e parecia estar tentando aliviar a culpa de uma mulher adulta.
"Eu devia ter chegado antes."
"Mas você veio."
"Devia ter vindo antes."
Sofia ficou em silêncio.
Depois perguntou:
"O moço está aqui?"
"Que moço?"
"O que me segurou."
"Arthur?"
Sofia assentiu.
"Ele veio te ver."
"Ele é seu amigo?"
"Não."
"Então por que ele me ajudou?"
Mariana ficou parada.
"Porque ele viu que você precisava."
Sofia pensou por alguns segundos.
"E aquela moça?"
Mariana sabia imediatamente de quem ela estava falando.
"Qual?"
"A da recepção."
Mariana desviou os olhos.
Sofia continuou:
"Ela estava brava comigo."
"Não pensa nela agora."
"Eu fiz alguma coisa errada?"
A pergunta atingiu Mariana como uma lâmina.
Ela se virou.
"O quê?"
Sofia baixou a voz.
"Mãe… eu fiz alguma coisa errada?"
Mariana sentou na beirada da cama.
"Não, meu amor."
"Mas ela não queria que eu ficasse aqui."
"Você não fez nada."
"Eu entrei sem você."
"Porque estava com dor."
"Eu devia ter esperado a dona Célia?"
"Não."
Mariana segurou o rosto da filha com as duas mãos.
"Escuta o que eu vou te falar."
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Sofia olhou para ela.
"Você nunca precisa pedir desculpa porque está sentindo dor."
A menina piscou.
"Nunca."
Mariana tentou controlar o choro.
"Se você estiver doente, pede ajuda."
"Mesmo sem dinheiro?"
Mariana ficou sem ar.
Sofia continuou:
"Ela perguntou se a gente tinha dinheiro."
"Eu sei."
"Eu falei que tinha moeda."
Mariana abaixou o rosto.
Uma lágrima caiu sobre o lençol.
Sofia tocou o braço dela.
"Mãe?"
"Estou bem."
"Então por que aquela moça não queria me ajudar?"
Mariana abriu a boca.
Nenhuma resposta veio.
Porque não existia uma resposta que pudesse dar a uma criança sem quebrar alguma coisa dentro dela.
Como explicar que alguns adultos olhavam primeiro para um cartão antes de olhar para uma pessoa?
Como explicar que pobreza podia transformar dor em suspeita?
Mariana apenas acariciou o cabelo da filha.
"Agora você precisa descansar."
Sofia percebeu que a mãe não responderia.
E não insistiu.
Pouco depois, alguém bateu à porta.
Um homem de camisa social entrou carregando uma pasta.
"Senhora Mariana Oliveira?"
"Sou eu."
"Paulo, do setor financeiro."
Mariana imediatamente ficou tensa.
"Financeiro?"
"Precisamos atualizar a senhora sobre os custos da internação."
Sofia olhou para a mãe.
Mariana se levantou.
"Podemos conversar lá fora?"
"Claro."
Ela acompanhou Paulo até o corredor.
O homem abriu a pasta.
"O pagamento realizado ontem cobriu a entrada emergencial, exames iniciais e parte dos procedimentos."
"Foi o senhor Arthur que pagou."
"Sim."
Paulo virou uma folha.
"Mas houve cirurgia, anestesia, medicamentos, materiais, internação e acompanhamento."
Mariana olhou para o papel.
Quando viu o total, parou de respirar.
"Isso está certo?"
"Sim."
"Não pode estar."
"É uma estimativa atualizada."
Mariana leu novamente.
Era mais dinheiro do que conseguia juntar em muitos meses.
"Eu não tenho isso."
"Podemos avaliar parcelamento."
"Em quantas vezes?"
Paulo explicou.
Mariana fez a conta mentalmente.
Mesmo parcelado, era impossível.
"Tem outro jeito?"
"Podemos consultar condições especiais."
"Eu ganho pouco mais de dois salários mínimos."
Paulo ficou em silêncio.
"Eu pago aluguel."
Nada.
"Tenho conta de luz, comida, escola..."
"Eu entendo."
Mariana soltou uma risada amarga.
"Todo mundo aqui entende."
Paulo fechou parcialmente a pasta.
"Não precisa resolver tudo hoje."
"Mas eu vou ter que pagar."
"Sim."
Mariana olhou para o quarto.
Sofia estava deitada do outro lado da porta.
"Quanto tempo ela precisa ficar internada?"
"Isso depende do médico."
"Cada dia aumenta?"
Paulo hesitou.
"Existem diárias e custos adicionais."
Mariana ficou pálida.
"Quanto por dia?"
Ele mostrou.
Mariana levou a mão à testa.
"Meu Deus."
"Senhora Mariana..."
"Eu tenho uma moto."
Paulo franziu a testa.
"Desculpe?"
"Uma Honda Biz."
Ela começou a falar rápido, como se já estivesse fazendo contas.
"É 2018, mas está boa."
"Senhora, não precisa..."
"Eu uso para trabalhar."
Mariana respirou fundo.
"Consigo vender."
"Não precisa decidir isso agora."
"Preciso, sim."
Ela olhou para o papel.
"Se eu vender, dá uma parte."
"Podemos conversar com o setor responsável."
"E o resto?"
"Parcelamento."
Mariana fechou os olhos.
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"Tem gente que empresta dinheiro."
Paulo percebeu o desespero.
"Não recomendo que faça isso."
"Eu conheço um homem no bairro."
"Senhora Mariana..."
"Ele empresta sem banco."
Paulo baixou a voz.
"Não faça isso."
"Então me fala o que eu faço."
Ele ficou calado.
Mariana soltou o ar.
"É."
Ela pegou a folha.
"Ninguém sabe."
Quando voltou ao quarto, tentou esconder o documento dentro da bolsa.
Sofia estava acordada.
"O que era?"
"Nada."
"Era dinheiro?"
Mariana parou.
"Não se preocupa com isso."
"Era a conta?"
"Sofia."
"Eu ouvi."
Mariana se aproximou.
"Isso é coisa de adulto."
"É muito?"
"Não importa."
"Você vai vender a moto?"
Mariana sentiu o coração afundar.
"Quem falou?"
"Eu ouvi você."
"Você precisava estar descansando."
"Como você vai trabalhar sem a moto?"
"Eu pego ônibus."
"Demora muito."
"Eu me viro."
Sofia ficou quieta.
Mariana ajeitou o cobertor.
"Agora dorme."
"Eu já estou melhor."
"Está começando a melhorar."
"Eu consigo ir para casa."
Mariana parou.
"Não."
"Consigo."
"Você acabou de operar."
"Eu posso ficar deitada lá."
"Nem pensar."
Sofia olhou para a bolsa onde a mãe tinha escondido a conta.
"Mãe, vamos embora."
Mariana sentiu os olhos arderem.
"Sofia..."
"Eu já estou melhor."
"Você precisa ficar aqui."
"Mas cada dia custa dinheiro."
Mariana virou o rosto.
"Isso não é problema seu."
"É sim."
"Não."
"Você vai vender a moto por minha causa."
"Eu venderia dez motos por você."
"Mas você só tem uma."
Mariana não conseguiu responder.
Sofia tentou se sentar.
A dor a fez gemer.
Mariana imediatamente a segurou.
"Viu? Você não está bem."
"Eu aguento."
"Não precisa aguentar."
Sofia começou a chorar.
"Eu não quero que você fique devendo."
Mariana abraçou a filha com cuidado.
"Eu não quero que você pense nisso."
"Eu não quero dar trabalho."
A frase destruiu Mariana.
Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos da menina.
"Você nunca é trabalho."
"Mas está todo mundo bravo."
"Quem?"
"As pessoas daqui."
Mariana respirou fundo.
Sofia limpou uma lágrima.
"Eu acho que eles não gostam da gente."
"Não fala isso."
"É porque a gente não tem dinheiro?"
Mariana apertou a filha contra o peito.
Dessa vez, não tentou esconder o choro.
Do lado de fora, Arthur estava parado diante da porta.
Ele tinha chegado poucos minutos antes.
Trazia um pequeno livro infantil que comprara no caminho.
Mas não entrou.
Tinha ouvido tudo.
Ouviu Sofia dizer que não queria dar trabalho.
Ouviu uma criança recém-operada pedir para ir embora porque cada dia custava dinheiro.
Arthur olhou para o livro em sua mão.
Depois para o corredor impecavelmente branco do Hospital São Gabriel.
Seus olhos ficaram vermelhos.
Pela primeira vez desde que aquela história começara, ele precisou virar o rosto para esconder as lágrimas.
Então guardou o livro debaixo do braço.
Pegou o celular.
Afastou-se alguns metros.
Procurou um contato que não ligava havia meses.
Quando a pessoa atendeu, Arthur não cumprimentou.
Sua voz estava baixa.
Mas firme.
"Preciso de um favor."
Do outro lado, alguém respondeu.
Arthur olhou novamente para a porta do quarto de Sofia.
"Eu quero todas as imagens daquela recepção."
Fez uma pausa.
"Desde o segundo em que aquela menina entrou pela porta."
A pessoa perguntou alguma coisa.
Arthur apertou o telefone contra o ouvido.
"Não quero relatório."
"Não quero resumo."
"Não quero o vídeo que o hospital decidiu separar."
Seus olhos endureceram.
"Eu quero tudo."
Arthur caminhou até a janela no fim do corredor.
Lá embaixo, funcionários entravam e saíam do hospital como em qualquer outro dia.
"Todas as imagens daquela recepção."
A voz dele ficou ainda mais fria.
"Sem cortes."
Houve silêncio do outro lado.
Então veio uma resposta.
Arthur franziu a testa.
"Como assim?"
Escutou por mais alguns segundos.
Seu rosto mudou completamente.
"Repete."
A resposta veio.
Arthur olhou lentamente para o corredor.
Porque alguém já tinha tentado acessar as gravações antes dele.
E dezessete minutos daquela noite não estavam mais no sistema.
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