"O Chefe Que Eu Ensinei a Andar" Capítulo 1
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R$ 250 mil por três meses de trabalho soavam como salvação até Camila explicar que o serviço incluía dar banho, vestir e reabilitar um chefe criminoso preso a uma cadeira de rodas.
Teresa Ferreira levou alguns segundos para responder. O café esfriava entre suas mãos; dentro da mochila, a notificação da universidade continuava dobrada em quatro partes.
Três mensalidades atrasadas. Quatorze dias antes do cancelamento da matrícula. Oito anos de estudo reduzidos ao número vermelho no fim de uma página.
— Repete o valor.
Camila Duarte alinhou o pires com a borda da mesa.
— Duzentos e cinquenta mil. Metade quando você assinar, metade ao final dos noventa dias.
— Ninguém paga isso por fisioterapia domiciliar.
— A residência não é comum.
Teresa apoiou os cotovelos na mesa.
— Quem é o paciente?
Camila verificou o salão do café antes de falar.
— Massimo Pascale.
O sobrenome aparecia em fachadas de importadoras, restaurantes e galpões portuários. Também surgia em reportagens sobre licitações, homicídios arquivados e testemunhas que mudavam de cidade.
— Você quer me mandar para a máfia.
— Quero apresentar um contrato de atendimento a um homem com lesão medular.
— Quantas pessoas recusaram?
Camila girou a aliança que não usava por casamento, hábito antigo de audiências difíceis.
— Três profissionais saíram.
— Em quanto tempo?
— A última ficou quatro dias.
Teresa recostou-se. A garçonete trouxe água e deixou a conta sem interromper.
— Por quê?
— Massimo comandava qualquer lugar em que entrava. Há três meses, o carro dele saiu da estrada na serra. Fratura toracolombar, duas cirurgias, perda de força e sensibilidade nas pernas. Os médicos acreditam em recuperação parcial, talvez completa.
— E ele acredita?
— Ele odeia a cadeira, os médicos e quem vê o corpo dele falhar.
— Isso explica grosseria. Não explica R$ 250 mil.
Camila empurrou uma pasta cinza. O contrato exigia residência de segunda a sexta, administração de medicamentos, transferências, cuidados de higiene, exercícios, registros diários e confidencialidade sobre qualquer assunto fora da saúde.
— "Qualquer assunto" é largo demais.
— Eu consigo limitar a cláusula.
— Quem pediu meu nome?
— Eu sugeri. A família quer alguém habilitado, forte o bastante para transferi-lo e sem vínculos com os negócios.
— Sou pequena.
— Você derrubou um professor de cento e dez quilos durante treinamento de queda.
— Ele pediu.
— Massimo não vai pedir.
Teresa abriu a mochila e tirou a cobrança. Camila leu o cabeçalho e devolveu a folha sem comentar.
— Pagamento garantido? — Teresa perguntou.
— Mesmo que ele não melhore.
— E aos noventa dias eu saio.
Camila prendeu os olhos nela.
— Se ainda quiser.
Teresa marcou com a unha o papel da universidade. A frase ficou no ar, incômoda, enquanto um ônibus freava do lado de fora.
— Quero a cláusula clínica revisada, seguro profissional e acesso aos prontuários completos. Nenhum guarda entra durante banho ou avaliação sem meu pedido. Medicação só com prescrição assinada.
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Camila anotou.
— Posso conseguir.
— E se alguém me mandar ignorar crime?
— Você atende um paciente. Se presenciar risco imediato, liga para mim e para a polícia nessa ordem.
— Ordem errada.
— Eu sabia que você diria isso.
Dois dias depois, um sedã preto buscou Teresa diante da clínica. Ela guardou o notebook, uma faixa de transferência, dinamômetro e estetoscópio numa bolsa que parecia pequena dentro do porta-malas.
O carro subiu pela Serra da Cantareira até portões de ferro. Câmeras acompanharam a placa. Dois homens armados conferiram o contrato e abriram passagem para uma casa de pedra cercada por árvores.
Dario Costa a recebeu na entrada. Terno preto, cabelo raspado, olhos atentos ao corredor antes de cada frase.
— Senhora Ferreira.
— Teresa.
— O senhor Pascale está na sala de reabilitação.
— Quero ver o quarto, banheiro e rota de emergência primeiro.
Dario olhou para a bolsa clínica.
— Ele não gosta de esperar.
— A coluna dele prefere que eu conheça o espaço.
O segurança mostrou elevador, barras, banco de banho e quarto no térreo. Teresa fotografou medidas, testou os freios da cadeira reserva e apontou um tapete solto.
— Isso sai hoje.
— A decoração foi escolhida pela mãe dele.
— A mãe dele não vai responder pela queda.
Dario retirou o tapete e enrolou-o sem discutir.
A sala de reabilitação ocupava o lado ensolarado da casa. Massimo Pascale aguardava numa cadeira preta diante de janelas enormes. Usava camisa da mesma cor, aberta no pescoço, e calça adaptada. Os ombros ainda carregavam força; as pernas permaneciam imóveis sob o tecido.
Domênico Pascale estava atrás dele. Terno azul-marinho, cabelo penteado para trás, sorriso de reunião de conselho.
— A doutora chegou — disse Domênico.
— Fisioterapeuta — Teresa corrigiu. — O doutorado está em andamento.
Massimo olhou dos tênis brancos ao rosto dela.
— Você é pequena demais.
Teresa colocou a bolsa no chão.
— E você é rude demais.
Dario puxou o ar. Domênico inclinou a cabeça, esperando o estrago.
Massimo continuou olhando. O canto da boca cedeu, e uma risada curta escapou antes que ele fechasse a expressão.
— As outras pediram desculpa no primeiro minuto.
— Talvez por isso tenham ido embora.
Teresa aproximou-se, pediu permissão para examinar mãos e ombros. Ele não respondeu. Ela esperou.
— Vai ficar aí? — Massimo perguntou.
— Até você dizer sim ou não. Seu corpo continua sendo seu.
Os dedos dele bateram no apoio.
— Sim.
Ela testou amplitude, força, sensibilidade e equilíbrio de tronco. Massimo tentava antecipar cada comando. Teresa parava e reiniciava sempre que ele compensava com os braços.
— Você gosta de perder tempo — ele disse.
— Você usa o ombro para esconder o quadril. Eu gosto de dados verdadeiros.
Domênico observava da porta.
— Quanto tempo para ele andar?
— Ainda não sei.
— Os médicos deram estimativas.
— Pergunte a eles.
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Massimo lançou um olhar ao primo. Domênico abriu as mãos e saiu.
Teresa conferiu a pasta do acidente. Faltavam páginas do resgate e o laudo mecânico. Também não havia registro das três profissionais anteriores.
— Quero os prontuários completos amanhã.
— Você sempre chega dando ordem? — Massimo perguntou.
— Só quando me pagam muito.
Dario deixou uma chave sobre a mesa. Teresa teria quarto no corredor oposto. A primeira sessão começaria às seis e meia.
Massimo girou a cadeira em direção ao banheiro adaptado.
— O contrato inclui higiene pessoal.
— Eu li.
— As outras chamavam um cuidador.
— Você proibiu homens no banheiro?
— Proibi todo mundo.
Ele fechou a porta atrás dos dois. O clique da fechadura soou alto no mármore.
— Então começa agora — Massimo disse. — Sem ajuda masculina.
Naquela primeira noite, Teresa dormiu pouco. Abriu o notebook no quarto de hóspedes e comparou o contrato com as normas do conselho profissional. Incluiu no plano uma regra sobre consentimento em cuidados íntimos, outra sobre recusa do paciente e uma terceira sobre presença de segurança apenas em emergência.
Às cinco e quarenta, encontrou uma bandeja de café diante da porta. Nenhum bilhete. Dario apareceu no corredor e afirmou que Massimo acordara às quatro, perguntara se ela ainda estava na casa e depois mandara preparar a bandeja "para a equipe".
— Equipe de uma pessoa? — Teresa perguntou.
Dario encolheu um ombro.
Na cozinha, a governanta Celeste contou que a primeira enfermeira saíra depois de Massimo quebrar um espelho durante o banho. A segunda pediu demissão após encontrar um homem revistando sua bolsa. A terceira desapareceu antes de receber pagamento.
— Desapareceu ou foi embora? — Teresa perguntou.
Celeste apertou o pano de prato.
— Nesta casa, a gente aprende a usar a palavra mais segura.
Massimo entrou na cozinha movendo a cadeira sozinho. O silêncio de Celeste caiu sobre a pia.
— Qual é a palavra segura hoje? — ele perguntou.
— Café — Teresa respondeu, servindo uma xícara. — E prontuário completo.
Ela entregou o plano de cuidados. Massimo leu a cláusula de consentimento duas vezes.
— Você espera que eu peça ajuda para cada botão?
— Espero que diga sim antes de eu tocar. Em troca, eu digo antes de mover qualquer parte do seu corpo.
Ele assinou a folha e devolveu a caneta.
— Começamos às seis e meia.
— São seis e vinte e oito.
— Então está atrasada.
Teresa virou o relógio de pulso para ele.
— O seu adianta três minutos.
Massimo conferiu o relógio da parede. Dario tossiu para esconder o riso. O chefe girou a cadeira em direção à sala.
— Troquem o relógio da parede.
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