"Joguei-a na Favela, Ela Comprou Meu Império" Capítulo 2
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A imponente Avenida Paulista amanheceu sob um céu cinzento e cortante, típica de uma manhã de segunda-feira em São Paulo, onde o cheiro de café expresso caro se misturava à fumaça dos escapamentos.
Sofia Rangel desceu do metrô na estação Trianon-Masp ajustando o blazer cinza de corte impecável que comprou com suas últimas economias, escondendo sob a aparente serenidade uma fúria gélida.
O Grupo Albuquerque ocupava os vinte andares superiores de um arranha-céu de vidro fumê e aço escovado, um verdadeiro monumento à ostentação erguido com o dinheiro roubado da herança de seus pais.
A segurança na portaria era implacável, mas a credencial falsa, porém juridicamente impecável que Mateus a ajudara a preparar, abriu as catracas eletrônicas sem disparar nenhum alarme de suspeita.
No trigésimo andar, a sala de recrutamento fervilhava com dezenas de jovens formados em universidades de elite, todos nervosos e vestindo marcas de grife internacionais enquanto aguardavam a chamada.
Sofia sentou-se no canto mais discreto, revisando mentalmente os relatórios financeiros sigilosos que havia memorizado durante a viagem de ônibus, pronta para triturar qualquer concorrente que aparecesse em seu caminho.
"Candidata Sofia Rangel, por favor, direcione-se à sala de reuniões principal no final do corredor de mármore", anunciou a recepcionista com um tom professoral e entediado.
Ao entrar na sala espaçosa com vista panorâmica para a avenida, Sofia deparou-se com uma banca de diretores sênior que a olhavam com uma mistura de desdém e curiosidade corporativa.
O diretor de recursos humanos, um homem careca de terno Armani, cruzou os braços e disparou uma pergunta capciosa sobre gestão de crises internacionais e desinvestimento em mercados emergentes.
"Como uma novata sem grandes conexões sociais na Faria Lima pretende salvar nossa divisão de ativos tóxicos sem comprometer o caixa?", perguntou ele com um sorriso irônico e condescendente.
Sofia não piscou; em vez disso, levantou-se com elegância e começou a dissecagem técnica dos erros contábeis da própria empresa, apontando falhas estruturais que deixaram os executivos boquiabertos.
Sua oratória era cortante como uma lâmina de barbear, unindo termos jurídicos complexos a uma frieza estratégica que transformou o interrogatório em uma verdadeira aula magna de alta finança.
"O problema real desta corporação não são os mercados emergentes, senhores, mas sim a ineficiência crônica e o desvio sistêmico de verbas que vocês fingem não enxergar nos balancetes", disparou Sofia com firmeza.
O silêncio na sala tornou-se absoluto, quebrado apenas pelo zumbido distante do ar-condicionado central, enquanto os diretores se olhavam em pânico, percebendo que tinham diante de si um talento monumental.
A contratação foi aprovada em menos de cinco minutos, com o diretor de RH assinando a papelada às pressas, completamente alheio ao fato de estar convidando a raposa para dentro do galinheiro.
Enquanto caminhava pelo corredor de piso encerado rumo ao seu novo departamento, Sofia cruzou o caminho de Bianca Albuquerque, que desfilava com um vestido de grife e óculos de sol na cabeça.
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Bianca parou abruptamente, medindo Sofia de cima a baixo com um olhar carregado de soberba aristocrática e um sorriso de escárnio desenhado em seus lábios pintados de vermelho vivo.
"Garota, onde você comprou esse terninho sem graça? Parece que saiu direto de uma liquidação de subúrbio", zombou Bianca, rindo alto para divertir as assistentes que a seguiam de perto.
Sofia manteve a postura erguida, olhou nos olhos claros da prima sem a menor gota de temor e respondeu com uma voz aveludada e cortante: "Cuide bem do seu cargo, querida, porque as coisas por aqui mudam mais rápido do que você imagina."
A audácia daquela resposta travou o riso de Bianca na garganta, deixando a herdeira ruborizada de raiva diante da ousadia inaudita daquela suposta plebeia recém-chegada.
"Você vai se arrepender de ter nascido, sua insolente de merda!", gritou Bianca nos corredores, mas Sofia já havia entrado no elevador corporativo, ignorando completamente o chilique da patricinha.
Enquanto isso, na cobertura blindada do prédio, a matriarca Vitória Albuquerque revisava relatórios administrativos enquanto tomava seu chá verde importado das colinas de Kyoto.
O assistente pessoal colocou sobre a mesa de mogno maciço uma pilha de fichas de novos contratados, pedindo a assinatura expressa da patroa para oficializar a distribuição dos departamentos.
Vitória passou os olhos distraídos pelos nomes impressos no papel timbrado até que o sobrenome Rangel saltou à vista, fazendo sua mão tremular levemente sobre a caneta de ouro.
"Rangel... que sobrenome irritantemente familiar", murmurou Vitória para si mesma, sentindo um calafrio inexplicável percorrer sua espinha dorsal sem motivo aparente.
Pensando tratar-se apenas de uma coincidente lembrança incômoda dos tempos em que enterrou o passado em Paraty, ela descartou o pensamento com um gesto impaciente de desdém.
"Mande essa tal de Sofia direto para o setor de logística pesada no subsolo, onde ficam os arquivos mofados e o pessoal mais incompetente da empresa", ordenou Vitória sem erguer os olhos.
A ordem foi executada imediatamente, e o documento com a transferência punitiva foi enviado para a mesa da nova funcionária poucas horas depois de sua contratação triunfal.
No subsolo abafado e cinzento, cercada por caixas de papelão empoeiradas e lâmpadas fluorescentes que piscavam sem parar, Sofia recebeu a notificação oficial da diretoria executiva.
Em vez de se desesperar com a tentativa óbvia de humilhação e isolamento profissional, ela abriu um sorriso misterioso que iluminou a penumbra daquela sala esquecida por Deus.
O que Vitória e Bianca jamais poderiam imaginar era que o subsolo guardava cópias físicas das microfilmagens contábeis de vinte anos atrás, perfeitamente acessíveis à nova funcionária do arquivo.
Sofia abriu a primeira caixa empoeirada, retirando de dentro um dossiê amarelado pelo tempo que trazia a assinatura falsificada da própria Vitória na certidão de transferência de bens dos Rangel.
Enquanto examinava as provas do crime sob a luz fraca de uma luminária de mesa, ela percebeu que as câmeras de segurança ocultas do teto registravam cada movimento seu no recinto.
Com um sorriso desafiador, Sofia olhou diretamente para a lente preta da câmera escondida, sabendo perfeitamente que a imagem estava sendo transmitida em tempo real para a mesa da diretoria.
Ela ajeitou os papéis confidenciais sobre a mesa de madeira gasta, respirou fundo o ar pesado do subsolo e sentiu o cheiro da vitória iminente preencher seus pulmões.
A armadilha estava armada no coração do império, e o primeiro peão havia acabado de ser sacrificado pelas mãos trêmulas da própria mulher que mandou matá-la no passado.
Sofia pegou a xícara de café frio, deu um gole lento e saboreou o silêncio pesado que antecedia a tempestade financeira prestes a desabar sobre a Avenida Paulista.
A porta corta-fogo do arquivo abriu-se com um rangido metálico, revelando a silhueta esguia de um homem de terno azul-marinho que caminhava sorrateiramente entre as prateleiras.
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