"A Garçonete Que Ganhou o Respeito do Don" Capítulo 2
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Antônio fechou a cápsula dentro do guardanapo e ergueu dois dedos. Os seguranças caminharam para as portas antes que alguém perguntasse o que estava acontecendo.
— Ninguém sai pela área de serviço — ele disse.
Marco deu um passo para trás.
— Senhor Russo, fechar o restaurante cria uma situação...
— Então abra a bolsa da minha mãe e resolva.
Sofia se inclinou sobre Maria. A cor havia diminuído ao redor da boca da senhora.
— Dona Maria, consegue respirar fundo?
Maria tentou. O ar travou no meio e virou tosse.
Sofia afastou o prato, puxou a cadeira para longe da mesa e soltou o primeiro botão escondido do vestido. Marco segurou a bandeja dela.
— Tire as mãos da cliente.
— Chama o Samu.
— Você não dá ordem aqui.
— Liga agora!
O grito atravessou o salão. Sofia encostou dois dedos no pulso de Maria, contou por quinze segundos e tornou a contar. Rápido, irregular.
Antônio se aproximou. Ela levantou a palma livre.
— Espaço. Ela precisa de ar.
Um homem acostumado a abrir caminho parou diante da mão de uma garçonete. O relógio de ouro brilhou quando ele recuou.
— O que você precisa?
— Tem um oxímetro no bolso do meu avental. Lado direito.
Ele localizou o aparelho pequeno, preso entre um bloco e duas canetas. Ao entregá-lo, os dedos dos dois se encontraram. Sofia segurou por um instante a mão dele junto com o aparelho.
— Isso. Obrigada.
Antônio soltou devagar. O olhar permaneceu na mão dela até Sofia encaixar o oxímetro no dedo de Maria.
— Oitenta e nove — Sofia disse. — Cadê a ambulância?
— A caminho — respondeu um segurança.
Maria apertou o punho da filha que não tinha. Sofia se abaixou, aproximando o rosto.
— Fica comigo. Conta os lustres.
— São feios.
— Melhor. Reclama de cada um.
— Aquele parece... bolo de casamento.
— Um.
O número subiu para noventa e um. Sofia abriu a bolsa com a permissão de Maria e retirou o porta-comprimidos. Conferiu cada compartimento sem tocar nas doses.
— Quem preparou isso?
— Celina, minha enfermeira. Segunda de manhã.
— Alguém mexeu depois?
Maria apontou para Marco com o queixo.
— Deixei a bolsa no guarda-volumes quando fui ao lavabo. Ele disse que bolsas grandes não combinavam com a mesa.
Marco soltou uma risada seca.
— A senhora deve estar confundindo. Eu ofereci o cofre da recepção.
Sofia ergueu o organizador contra a luz. Um resíduo branco prendia-se à dobradiça do compartimento noturno.
— A cápsula abriu aqui dentro.
— Ou caiu da sua mão — Marco rebateu. — Você estava mexendo no remédio dela quando todo mundo viu.
As portas se abriram para os socorristas. Dra. Helena Prado entrou logo atrás da maca, ainda com o jaleco aberto sobre a roupa social.
— Antônio.
— Ela tomou duas pílulas e perdeu o ar.
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Helena se ajoelhou diante de Maria, ouviu os pulmões e conferiu o oxímetro.
— Quais pílulas?
Sofia descreveu cor, formato e horário. A médica pediu o organizador. Usou luvas, separou os compartimentos e encontrou outra cápsula branca sob uma dose de quinta-feira.
— Isso não está na prescrição — disse Helena.
Antônio tirou o relógio e o colocou sobre a mesa. O som do metal no tampo fez Marco olhar para a porta.
— O que faz? — Antônio perguntou.
Helena cheirou a cápsula sem abri-la.
— Laboratório. Agora eu só consigo dizer que Maria recebeu uma substância estranha. A reação pode ter vindo dela ou de uma interação.
— Mais uma dose?
— Podia derrubar a pressão e fechar as vias aéreas. Vamos levá-la.
Maria segurou a manga de Sofia quando os socorristas a ergueram.
— Você vem.
Marco entrou entre a maca e a garçonete.
— Ela tem mesas.
— Ela não trabalha mais esta noite — Antônio disse.
— É decisão da gerência.
— Acabou de tomar uma.
Marco abriu a boca. Sofia soltou o laço do avental, dobrou a peça uma vez e a deixou sobre uma cadeira.
— Júlio cobre a nove. A doze já pediu café. Tem uma criança alérgica a castanha na cinco; avise a cozinha.
Ela pegou a bolsa de Maria e acompanhou a maca. Antônio recolheu o relógio, guardou-o no bolso e caminhou atrás.
No corredor de serviço, Marco bloqueou a passagem com o corpo.
— Se sair por essa porta, nem volta pra buscar pagamento.
Sofia parou.
— Manda por transferência.
— Você acha que ele vai cuidar da sua vida agora? Você é uma garçonete que sentou com a pessoa certa.
Antônio aproximou-se até o gerente recuar sozinho.
— Câmeras — ele disse. — Quero a gravação desde a chegada da minha mãe.
— Só a polícia pode exigir.
— Ótimo. Ligue para ela também.
A ambulância levou Maria ao Hospital Santa Augusta. Sofia entrou no carro de Antônio com o organizador lacrado numa embalagem que Helena fornecera. O interior cheirava a couro e cedro.
Antônio ficou no banco oposto. Havia espaço para três pessoas entre os dois.
— Você sempre enfrenta seu chefe na frente do salão? — ele perguntou.
— Só quando ele tenta impedir alguém de respirar.
— E sempre recusa dinheiro?
— Quando não vendi nada.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Você prestou um serviço.
— Serviço tem preço combinado antes. Aquilo era uma pessoa pedindo ajuda.
O carro fez uma curva. O joelho de Antônio tocou o dela; ele afastou a perna no mesmo instante. Sofia apertou a embalagem contra o colo e olhou pela janela.
No hospital, Helena levou Maria para uma sala de emergência. Antônio ficou junto à porta, recebendo telefonemas. Dava ordens curtas: preservar imagens, listar funcionários, localizar Celina.
Sofia lavou as mãos no banheiro e viu molho seco na manga. Esfregou até o tecido ficar molhado. Ao voltar, encontrou um segurança conversando com Marco no corredor.
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O gerente carregava uma sacola transparente.
— Ela esqueceu as coisas — disse Marco. — Achei melhor trazer antes que inventassem outra história.
O segurança retirou da sacola o bloco, as canetas e o avental. Marco pediu que verificassem o bolso interno.
Enquanto aguardavam Helena, Sofia refez em voz alta tudo o que tocara desde a mesa sete. A cesta de pão, o copo, a tampa do compartimento e a bolsa caída. Pediu ao segurança que anotasse os nomes de quem recolhera cada objeto e proibiu Marco de aproximar a sacola da bancada clínica.
— Está dando aula de perícia? — ele perguntou.
— Estou evitando que você contamine outra coisa.
Uma técnica trouxe sacos numerados. Sofia separou o avental, o frasco e as canetas, usando uma pinça para não alterar impressões. Antônio acompanhou o procedimento e mandou fotografar cada lacre com o relógio do hospital aparecendo ao fundo.
Marco tentou telefonar. O segurança pediu que mantivesse o aparelho visível. Na tela, uma mensagem de "E.R." apareceu por um instante: "Sai daí."
Sofia viu. Marco bloqueou o telefone e o guardou.
— Quem é E.R.?
Helena voltou com o eletrocardiograma de Maria. Mostrou a Sofia o traçado e pediu que explicasse o que via. Sofia indicou o ritmo irregular, a queda anterior de oxigênio e a necessidade de conservar as embalagens.
— Ainda lembra — Helena disse.
— Um semestre não apaga três anos.
Antônio ouviu da porta. Quando a médica seguiu para a emergência, ele repetiu "um semestre" em voz baixa e guardou a informação junto com o nome da clínica de Dona Cida.
— Assunto meu.
Antônio estendeu a mão.
— Agora é assunto da minha mãe.
Um frasco âmbar apareceu sob o forro. O rótulo trazia o nome completo de Maria Russo.
Marco apontou para Sofia.
— Foi ela que mexeu no remédio.
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