"A Garçonete Que Ganhou o Respeito do Don" Capítulo 1
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O cheiro de alho refogado e molho de tomate acompanhava Sofia Almeida desde o meio-dia. Às oito e vinte da noite, ele já tinha entrado no cabelo, no uniforme vinho e até na fita que protegia uma bolha no calcanhar esquerdo.
Ela apoiou uma bandeja no balcão, soltou os dedos um por um e conferiu o salão. Restavam três mesas, duas contas e uma cesta de pão que Marco Ferraz apontava como se tivesse encontrado uma falha num centro cirúrgico.
— Mesa sete. Pão. Agora.
Marco passou por ela sem reduzir o passo. O paletó preto não tinha uma ruga; a voz guardava todas.
Sofia encheu a cesta, cobriu os pães com um guardanapo e atravessou o Bellarosa. No caminho, desviou de uma cadeira puxada por um homem que nem levantou os olhos do celular e recolheu uma colher caída antes que uma cliente pisasse nela.
A mesa sete ficava num canto cercado por estantes de vinho. Era a melhor do salão. Naquela noite, uma senhora esperava sozinha diante de dois lugares postos.
O vestido azul-marinho tinha corte simples e tecido caro. As pérolas repousavam sobre o colo, alinhadas. A mão direita, porém, tremia quando buscou o copo.
Sofia pousou a cesta.
— Pão quentinho, senhora. Quer que eu sirva água também?
A mulher ergueu os olhos castanhos. As linhas ao redor deles se fecharam num sorriso.
— Quero saber seu nome primeiro.
— Sofia.
— Maria. Pronto, agora a gente pode parar de conversar como duas placas de elevador.
Sofia riu pelo nariz. Aquele som saiu antes do sorriso profissional que usava com os clientes.
Maria abriu uma bolsa de miçangas. Os dedos escorregaram no zíper duas vezes. Quando conseguiu, tirou um organizador de comprimidos e o segurou entre as mãos.
— Você abre pra mim? Hoje meus dedos resolveram fazer greve.
Sofia olhou para Marco. Ele discutia com um auxiliar perto da cozinha, de costas para a mesa sete.
— Claro. Qual compartimento?
— Noite. Duas pequenas.
O plástico abriu com um estalo. Sofia inclinou o recipiente e deixou dois comprimidos na palma de Maria. Um era rosado e oval; o outro, azul-claro e redondo.
— Tem certeza da dose?
Maria tocou cada comprimido com a unha vinho.
— Minha enfermeira organiza tudo nas segundas. Esses dois depois do jantar.
Sofia entregou o copo e esperou que ela engolisse. Maria demorou na segunda pílula. Uma veia apareceu no pescoço; o ar saiu pela boca em três sopros curtos.
— Está apertando o peito?
— Um pouco de falta de ar. Passa quando eu descanso.
Sofia puxou a cadeira vazia para perto, sem sentar.
— Encosta as costas. Solta os ombros. Se piorar, eu chamo o Samu.
— Se chamar uma ambulância por cada suspiro meu, meu filho compra a empresa e estaciona uma na porta de casa.
Maria obedeceu mesmo enquanto reclamava. A respiração ganhou espaço. Sofia contou os movimentos do peito usando o relógio pendurado no salão.
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— Melhorou?
— Melhorou. Você estuda isso?
— Estudava enfermagem.
— Estudava é verbo triste.
Sofia empurrou uma mecha para trás da orelha. O grampo já havia desaparecido durante o almoço.
— Dei uma pausa.
— Quanto tempo dura essa pausa?
— Até eu terminar de pagar umas contas.
Maria observou a fita que aparecia acima do sapato de Sofia. Depois olhou para as mãos dela, marcadas pelas alças das bandejas.
— Senta um minuto. Meu filho está atrasado e jantar sozinha dá azia antes da comida chegar.
— Meu gerente também dá azia.
— Então já estamos medicadas.
Sofia se acomodou na ponta da cadeira. Deixou os joelhos voltados para o salão, pronta para levantar. Maria perguntou quem a ensinara a identificar falta de ar sem assustar ninguém.
— Minha avó. Ela me criou. Hoje sou eu que cuido dela.
— Uma mulher sábia?
— Teimosa. Se a senhora conhecesse, as duas iam disputar quem manda no quarteirão.
Maria alisou o guardanapo. Um tremor menor percorreu os dedos.
— E a faculdade?
— Faltava um semestre.
— Falta ainda.
Sofia abriu a boca, mas um garfo bateu no chão atrás dela. Levantou-se, recolheu o talher e pediu outro ao auxiliar. Ao voltar, Maria tinha fechado a bolsa.
— A vida empurra os planos da gente pra outra mesa — disse Maria. — Eles continuam no salão.
As portas do Bellarosa se abriram.
O ruído do restaurante perdeu camadas. Primeiro cessou a bronca de Marco. Depois as conversas junto ao bar baixaram, e por último os talheres pararam de bater nos pratos.
Um homem alto entrou entre dois seguranças. O terno grafite acompanhava os ombros sem uma dobra. Fios grisalhos cortavam o cabelo preto nas têmporas; uma cicatriz fina atravessava a sobrancelha esquerda.
Sofia o reconheceu das fotografias nas páginas de economia. Antônio Russo aparecia diante de armazéns, hospitais filantrópicos e caminhões de importação. As matérias usavam a palavra empresário; os comentários usavam palavras mais baixas.
Marco abotoou o paletó e correu até a entrada. Antônio passou por ele com um aceno curto.
— Preciso voltar — Sofia murmurou.
Maria segurou de leve dois dedos dela.
— Você já voltou três vezes.
Antônio chegou à mesa, inclinou-se e beijou a mãe nas duas faces.
— Desculpa o atraso, mamma.
A voz grave não combinava com o silêncio ao redor. Ele falou baixo, e o salão inteiro pareceu escutar melhor.
— Você sempre pede desculpa depois de fazer todo mundo esperar — Maria respondeu. — Quero apresentar Sofia. Ela abriu meu remédio e ficou comigo quando meu peito apertou.
Sofia levantou tão depressa que a perna da cadeira raspou no piso.
— Eu só trouxe água.
Antônio olhou o copo, o porta-comprimidos e o rosto dela. De perto, a cicatriz quebrava a linha escura da sobrancelha.
— Ajudou minha mãe?
— Qualquer pessoa ajudaria.
Maria soltou uma risada curta.
— Quatro passaram por aqui. Uma perguntou se eu queria sobremesa.
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Antônio meteu a mão no bolso interno do paletó. Sofia deu meio passo para trás antes de ver o envelope.
— Não precisa.
Ele manteve o envelope entre dois dedos.
— Ainda nem ofereci.
— Eu sei como envelope funciona.
Um dos seguranças baixou o rosto. Maria mordeu o canto do sorriso.
Antônio aproximou o envelope da mesa.
— Aceite como agradecimento.
— Agradece ficando com ela quando se atrasar.
Os olhos dele ficaram presos nos de Sofia. Ela segurou a borda da bandeja e não desviou.
— Sofia!
Marco surgiu ao lado dela. O rosto estava claro demais sob as luzes quentes.
— Mesa nove pediu a conta faz cinco minutos. Peço desculpas, senhor Russo. Ela é nova e ainda confunde gentileza com intimidade.
— Trabalho aqui há onze meses — Sofia disse.
Marco segurou o braço dela acima do cotovelo.
— Cozinha. Agora.
Antônio pousou dois dedos no punho de Marco. Não apertou. A mão do gerente se abriu.
— Solta a moça.
Marco recolheu o braço e ajeitou a manga.
— Claro. Eu só queria preservar o padrão da casa.
— O padrão da sua casa deixou uma senhora sem ar esperando água — Sofia disse. — Eu termino a mesa nove e depois a gente conversa.
Maria bateu a ponta da unha na mesa.
— Conversam na minha frente. Seu funcionário passou dez minutos gritando com um menino perto da cozinha e ignorou uma cliente pedindo ajuda. Sofia fez o serviço de vocês dois.
Algumas cabeças se viraram. Marco engoliu antes de sorrir.
— Houve um mal-entendido.
— Houve uma testemunha — Antônio respondeu.
Sofia pegou a bolsa de Maria, que escorregara do encosto. Quando a ergueu, o forro aberto se virou. Um lenço, uma chave e uma cápsula branca caíram sobre a toalha.
A cápsula girou entre os talheres. Antônio prendeu o envelope de volta no paletó e a recolheu com o guardanapo.
Maria franziu a testa.
— Isso é meu?
Antônio examinou o pó claro dentro do invólucro. O maxilar dele endureceu.
— Minha mãe não toma cápsula branca.
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