"Meu Noivo Milionário Riu de Mim e Disse Que Eu Só Recusava Seus Presentes Para Parecer Diferente das Outras Interesseiras" Capítulo 4
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O lápis ficou três dias na gaveta antes de Lívia usá-lo. Não porque planejasse devolver, mas porque o objeto a obrigava a reconhecer uma diferença que ainda não sabia administrar. Henrique oferecia coisas caras e observava sua reação como quem aguardava o rendimento de um investimento. Caio oferecera uma ferramenta modesta, explicara o preço e deixara uma saída. O gesto não a comprava. Justamente por isso a tocava.
Ela o estreou numa reunião de produção. A nova linha de embalagens exigia testes de cor, resistência e leitura. Lívia rabiscou correções até a mão doer. Ao perceber o lápis entre seus dedos, Paula arqueou uma sobrancelha.
— O herdeiro acertou o presente?
— Não começa.
— Não comecei nada. Só estou registrando um evento raro: homem rico descobre objeto abaixo de quatro dígitos.
Lívia tentou não sorrir. A equipe comemorava o contrato, mas o trabalho real começara. Ela impôs que toda aprovação passasse pelos canais formais. Quando Caio enviou uma mensagem perguntando se o lápis servira, respondeu apenas: "Serviu. Obrigada." Ele reagiu com um polegar e não transformou aquilo num convite.
O silêncio respeitoso durou até o jantar de anúncio do casamento de Sônia e Augusto. O evento reuniu parentes, executivos e amigos numa casa de eventos com jardim. Lívia ajudou a mãe a escolher um vestido azul-petróleo, simples perto do que estilistas haviam oferecido. Augusto não tentou mudar a escolha. Mandou ajustar a barra e disse que Sônia parecia a mulher com quem queria casar, o único critério relevante.
Antes da chegada dos convidados, ele chamou Lívia à biblioteca.
— Preciso conversar sobre uma coisa que pode ser desconfortável.
Ela se preparou para cláusulas, herança e imagem pública.
Augusto colocou uma pasta fechada sobre a mesa.
— Seu nome não está neste documento. Ainda. É um plano patrimonial para garantir que sua mãe tenha independência se eu morrer primeiro. Meus advogados perguntaram se eu pretendia incluir você em alguma estrutura familiar.
Lívia ficou rígida.
— Eu não quero nada.
— Eu imaginei que responderia assim. Por isso não tomei decisão sem falar com você. Não estou oferecendo dinheiro hoje. Estou perguntando se, no futuro, posso tratá-la como filha também no papel, sem que isso pareça uma compra.
Ela olhou para a pasta como se pudesse explodir.
— Caio sabe?
— Sabe que conversei com os advogados. Foi ele quem disse que eu deveria perguntar antes de incluir seu nome. E deixou claro que não se sente ameaçado.
— Eu não quero que ele pense…
— Caio pensa que afeto não se mede por porcentagem. Eu o criei melhor do que isso, espero.
Lívia respirou devagar.
— Posso não responder agora?
— Essa é a resposta mais sensata.
Augusto empurrou a pasta para longe. Em seguida, perguntou se ela se sentiria confortável caso ele a chamasse de filha em público. A pergunta quase a fez chorar. Henrique discutira seu direito ao sobrenome sem jamais perguntar como ela desejava ser apresentada. Augusto possuía mais poder e parecia mais cuidadoso com ele.
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— Pode — Lívia disse. — Mas talvez eu chore.
— Eu também. Vamos constranger todo mundo juntos.
No salão, Caio coordenava discretamente fornecedores quando a viu. Usava terno azul-marinho e parou por um instante, o mesmo lapso do primeiro jantar.
— Você está bonita — falou. — Sem segunda intenção obrigatória. É apenas uma informação.
— Você está aprendendo a colocar rodapé nas frases.
— Compliance emocional.
Ela riu. Depois percebeu Henrique perto do bar, acompanhado dos pais. O convite viera de Augusto por razões empresariais, antes do término. Lívia sentiu o corpo voltar à noite do restaurante: garganta estreita, dedos frios, atenção presa à localização dele.
Caio acompanhou seu olhar.
— Quer que eu peça para ele sair?
— Não. Esta noite é da minha mãe.
— Quer que eu fique por perto?
Lívia hesitou.
— Quero. Mas não como guarda-costas.
— Posso ser um vaso decorativo muito alto.
Henrique esperou até Augusto anunciar o casamento. Diante de todos, o empresário falou de Sônia como parceira, contou que ela recusara três pedidos até ter certeza de que a vida continuaria sendo dela e agradeceu a Lívia por confiar nele. Chamou-a de filha com a voz falhando. Os aplausos vieram antes que ela conseguisse enxugar as lágrimas.
Henrique aproximou-se durante a música seguinte.
— Agora entendi — disse.
Lívia virou-se.
— Entendeu o quê?
— Por que você terminou daquele jeito. Já tinha uma família mais rica esperando.
Caio estava a dois passos, conversando com um fornecedor. O maxilar dele endureceu, mas não interferiu.
— Você realmente não consegue imaginar uma decisão que não seja sobre dinheiro — Lívia respondeu.
— Não banque a ofendida. Sua agência ganhou o contrato dos Ferraz, você mora metade da semana aqui e Augusto acabou de chamá-la de filha diante do mercado inteiro.
— Eu ainda moro no mesmo apartamento. Minha agência venceu uma concorrência cega. E Augusto me chamou de filha porque ama minha mãe.
— Que conveniente.
Lívia reconheceu o mecanismo: Henrique precisava que a nova vida dela fosse fraude, pois a alternativa era admitir que ela prosperava sem ele.
— O que você veio buscar?
— Evitar que você destrua minha família por vingança.
— Seu contrato foi suspenso por dados ambientais falsos.
— Inconsistentes, não falsos.
Caio se aproximou.
— Essa diferença será definida pela auditoria, não por Lívia.
Henrique sorriu.
— Sempre pronto para salvar, Ferraz?
— Não. Ela não precisa. Estou corrigindo uma mentira sobre um processo da minha empresa.
— E o que ganha bancando o santo?
Caio olhou para Lívia antes de responder.
— Nada que ela não queira me dar.
A frase era uma confissão sem cobrança. Henrique também percebeu. Seu rosto mudou.
— Você está usando meu término para entrar na cama dela.
Lívia deu um passo à frente.
— Chega. Você não fala de mim como território. Nem quando estava comigo, muito menos agora.
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Álvaro Valença surgiu e segurou o braço do filho.
— Henrique, vamos embora.
— Ela precisa admitir o que fez.
— Quem precisa admitir alguma coisa é você — disse uma voz feminina.
Teresa Valença, mãe de Henrique, aproximou-se. Sempre tratara Lívia com educação calculada, elogiando sua simplicidade como quem elogia um artesanato. Naquela noite, porém, parecia cansada.
— Eu ouvi o que você disse no restaurante — Teresa contou. — Otávio me telefonou porque ficou envergonhado. Você humilhou sua noiva e agora a acusa por não ter voltado.
Henrique empalideceu.
— Mãe, não se meta.
— Eu me meti quando deixei você acreditar que dinheiro transformava grosseria em opinião. Foi um erro meu.
Álvaro levou o filho embora sob olhares silenciosos. Teresa permaneceu apenas tempo suficiente para pedir desculpas a Sônia e Augusto. A festa retomou o ritmo, mas Lívia precisou sair para o jardim.
Caio a encontrou sentada num banco. Não levou bebida nem tocou nela.
— Você disse a verdade — Lívia falou. — Na frente dele.
— Qual parte?
— Que não espera ganhar nada que eu não queira dar.
— Eu devia ter ficado calado?
— Não sei.
Caio assentiu, aceitando a incerteza.
— Eu gosto de você, Lívia. Gostei desde o jantar. Mas meu interesse não cria prazo, dívida nem obrigação. Se o máximo que eu puder ser é alguém seguro na nova família da sua mãe, vou aprender a ser isso.
Ela sentiu vontade de acreditar e medo de fazê-lo.
— Eu ainda comparo tudo com ele.
— Então não escolha nada agora.
— Você sempre tem a resposta certa?
— Não. Só tive tempo de pensar porque você foi clara na varanda.
Lívia abriu a bolsa e retirou uma pequena caixa. Caio franziu a testa.
— O que é isso?
— Um presente. Não caro. Vi numa papelaria.
Era um marcador de livros de metal, gravado com a frase: "Planos perfeitos falham por causa de placas ruins." Uma referência à primeira conversa deles. Caio passou o polegar pelas palavras e sorriu de um jeito sem treino.
— Posso aceitar?
— Deve. Custou menos que o lápis. Mantivemos o equilíbrio comercial.
— Ainda bem. Eu temia uma aquisição hostil.
Sentaram-se em silêncio. Dentro do salão, Sônia dançava com Augusto. Lívia não entregara o marcador para comprar paciência ou recompensar bondade. Entregara porque pensara nele e tivera vontade.
Pela primeira vez, dar um presente não parecia uma prova.
Parecia apenas afeto começando a respirar.
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