"Meu Noivo Milionário Riu de Mim e Disse Que Eu Só Recusava Seus Presentes Para Parecer Diferente das Outras Interesseiras" Capítulo 3
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Na segunda-feira, Henrique entrou na sala do pai sem bater. Álvaro Valença estava em videoconferência com dois advogados e ergueu um dedo para exigir silêncio. Henrique ignorou.
— Os Ferraz congelaram o contrato.
Álvaro encerrou a chamada sem se despedir. Aos sessenta e sete anos, mantinha a mesma disciplina física com que construíra a incorporadora: terno mesmo sem cliente, barba feita antes das seis, nenhum objeto fora do lugar. Olhou para o filho como se atraso, susto e emoção fossem defeitos da mesma categoria.
— Eu sei.
— Foi ela.
— Ela quem?
— Lívia.
Álvaro apoiou as mãos na mesa.
— A designer de uma agência com sete funcionários convenceu Augusto Ferraz a suspender um contrato de dois bilhões durante o fim de semana?
O sarcasmo deveria ter detido Henrique. Em vez disso, alimentou sua certeza.
— A mãe dela vai se casar com ele.
Pela primeira vez, Álvaro pareceu genuinamente surpreso.
— Desde quando?
— Não sei. Ela escondeu.
— Você ficou noivo de uma mulher por oito meses e não sabia com quem a mãe dela se relacionava?
— Sônia dizia que era um empresário viúvo. Lívia nunca deu sobrenome.
— Talvez porque você nunca tenha perguntado.
Henrique cerrou a mandíbula. O pai abriu uma pasta e empurrou algumas páginas sobre a mesa.
— O contrato foi suspenso porque o relatório de drenagem usa dados antigos. A auditoria dos Ferraz encontrou o problema na quinta-feira. Seu noivado terminou na sexta. A menos que sua ex-noiva controle o tempo, uma coisa não causou a outra.
— Ela sabia.
— Mesmo que soubesse, temos um problema técnico. Resolva-o.
Henrique saiu sentindo que todos haviam conspirado para retirar dele o direito à interpretação. No corredor, ligou para Lívia de outro número. Ela atendeu porque esperava retorno de um fornecedor.
— Você falou com Augusto Ferraz sobre mim?
O silêncio durou dois segundos.
— Bom dia para você também.
— Responde.
— Não.
— Sua mãe vai casar com ele e você achou irrelevante mencionar?
— Minha mãe pediu discrição até contar à família. E eu não sabia que o patrimônio do namorado dela fazia parte do nosso noivado.
— Não distorce. O Grupo Ferraz congelou nosso contrato um dia depois da sua cena.
— Então ligue para o Grupo Ferraz.
— Estou ligando para você.
— Esse é o seu problema, Henrique. Você sempre escolhe a pessoa sobre quem acredita ter poder.
Ela desligou. Henrique ficou olhando para o aparelho, incrédulo. Nunca tivera dificuldade para prolongar uma conversa até que Lívia cedesse. O bloqueio parecia menos grave que aquela nova capacidade de encerrar.
Na agência, Lívia apoiou as mãos na mesa até o coração desacelerar. Sua chefe, Paula, apareceu com duas canecas e fechou a porta.
— Era ele?
Lívia confirmou.
— Quer ir para casa?
— Não. Quero terminar a apresentação da linha de cosméticos.
Trabalhar não apagava a dor, mas devolvia proporção às horas. Henrique ocupara espaço demais por tempo demais. Entre ajustes de cor, reuniões e uma discussão sobre tampas recicláveis, havia minutos inteiros em que Lívia não se lembrava dele. Considerou isso uma forma pequena de liberdade.
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À tarde, Paula recebeu uma ligação e chamou Lívia novamente.
— O Grupo Ferraz abriu concorrência para redesenhar as embalagens da divisão de alimentos. Eles convidaram a gente.
Lívia deixou o lápis cair.
— Quem fez o convite?
— Compras. E antes que pergunte, não foi Caio Ferraz. O e-mail veio da gerente de marca, com cópia para compliance. Parece legítimo.
— Nós nunca atenderíamos uma conta desse tamanho.
— Por isso mesmo vamos apresentar. Você lidera.
O primeiro impulso de Lívia foi recusar. Imaginou Henrique dizendo que ela havia trocado um sobrenome por outro, usando o casamento da mãe como escada. A voz dele ainda vivia onde sua própria avaliação deveria estar.
Paula percebeu.
— Se você fosse um homem e o futuro padrasto comandasse uma empresa, alguém pediria que você evitasse oportunidades para parecer puro?
— Vão dizer que foi indicação.
— Vão dizer qualquer coisa. Nosso trabalho precisa ser bom o bastante para a frase morrer rápido.
Lívia respirou fundo.
— Quero tudo documentado. Critérios, pontuação, reuniões. E não quero Caio avaliando.
— Concordo.
Naquela noite, Lívia escreveu para ele. "A agência foi convidada para a concorrência da divisão de alimentos. Quero deixar claro que não pedi e que prefiro que você não participe de nenhuma decisão."
Caio respondeu minutos depois. "Eu soube agora. Não participo dessa divisão, mas vou declarar conflito por causa do casamento dos nossos pais. Você terá o mesmo processo das outras agências. Se quiser, mando a política de contratação."
Ela recebeu um PDF de vinte e sete páginas e quase sorriu. Era o oposto de um buquê. Não exigia gratidão; oferecia transparência.
"Obrigada", escreveu.
"De nada. E, para constar, espero que vocês ganhem porque forem melhores. Seria constrangedor ter de fingir que uma embalagem feia é bonita no almoço de domingo."
Lívia riu sozinha.
Nas semanas seguintes, mergulhou na concorrência. Visitou supermercados, conversou com repositoras, fotografou prateleiras e descobriu que idosos confundiam duas versões do produto porque as cores eram próximas. Sugeriu uma estrutura tátil na embalagem, não como detalhe decorativo, mas como recurso de acessibilidade. Dormia pouco e acordava com ideias. Pela primeira vez desde o término, economizar energia não significava preparar um presente para alguém; significava construir algo que carregaria seu nome.
Henrique, porém, não desapareceu. Mandou flores à agência. Lívia devolveu. Enviou o relógio por mensageiro, junto com o anel, como se a devolução do presente pudesse reabrir o noivado. Ela recebeu a caixa sem tocá-la e pediu a Paula que testemunhasse o conteúdo. Depois solicitou que o relógio fosse colocado à venda. Quitaria as parcelas e doaria qualquer diferença a um programa de formação para mulheres designers.
Dois dias antes da apresentação, Henrique a esperou na saída do prédio.
— Precisamos conversar como adultos.
— Adultos marcam horário e aceitam quando o outro recusa.
— Eu vim pedir desculpa.
Lívia parou a uma distância segura.
— Então peça.
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Henrique pareceu não esperar que fosse tão simples.
— Eu estava com amigos. Falei besteira. Homens exageram quando estão juntos.
— Isso explica o público, não a opinião.
— Eu não acho que você seja interesseira.
— Você disse que eu precisava ser colocada no meu lugar.
— Foi uma frase infeliz.
— Foi uma ideia muito bem articulada.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Está bem. Eu errei. Mas você também escondeu uma conexão com os Ferraz e agora sua agência está concorrendo a uma conta deles. Não percebe como parece?
A antiga Lívia teria apresentado provas, datas e e-mails. A nova percebeu que a acusação era uma porta giratória: quanto mais explicava, mais tempo permanecia dentro dela.
— Parece que minha mãe vai casar com um homem que a respeita e minha agência recebeu um convite formal. Se você enxerga sujeira, limpe seus olhos.
Henrique deu um passo.
— Caio está interessado em você.
Ela sentiu o rosto aquecer, mais de raiva que de surpresa.
— Isso não é assunto seu.
— Ele faz isso. Gosta de bancar o homem correto para pegar o que os outros deixaram vulnerável.
— Você me deixou livre, não vulnerável.
Um carro parou junto à calçada. Caio desceu do banco do passageiro, mas não se aproximou imediatamente. Sônia estava no banco traseiro; tinham combinado buscar Lívia para provar doces do casamento. Caio avaliou a distância, o corpo tenso de Henrique e o rosto dela.
— Está tudo bem? — perguntou a Lívia.
Henrique respondeu antes.
— Conversa de casal.
— Não somos um casal — Lívia disse.
Caio assentiu. Não encarou Henrique, não mostrou força. Abriu a porta traseira para Lívia.
— Quer ir?
Ela caminhou até o carro. Henrique segurou a porta antes que fechasse.
— Você acha que ele é diferente porque fala baixo? Todos os Ferraz compram o que querem.
Caio finalmente olhou para ele.
— Tire a mão.
— Ou o quê?
— Ou ela terá de pedir uma segunda vez, e você vai provar exatamente quem é.
Henrique olhou para Lívia. Ela não disse nada. Não precisava. Ele retirou a mão.
No carro, Sônia apertou o joelho da filha. Caio voltou ao banco da frente e não perguntou detalhes. Dez minutos depois, comentou que o confeiteiro insistia em colocar lavanda no bolo e que aquilo, na opinião dele, transformaria sobremesa em sabonete. A conversa mudou porque Lívia quis que mudasse.
Na sexta-feira, a agência apresentou o projeto. Caio não estava na sala. Augusto também não. Uma banca de seis profissionais avaliou as propostas sem nomes na primeira etapa. Quando o resultado chegou, Paula abriu o e-mail diante da equipe inteira.
Elas haviam vencido com noventa e quatro pontos de cem.
Lívia chorou. Não como no corredor do restaurante, escondida e reduzida, mas cercada por colegas que sabiam quantas noites cabiam naquele resultado.
Na saída, encontrou um pacote pequeno sobre sua mesa. Não havia joia. Dentro, um lápis mecânico profissional da mesma marca barata que ela usava, acompanhado de um bilhete de Caio:
"Para a mulher que fez uma banca inteira enxergar melhor. Antes que se preocupe: custou menos que o nosso jantar de sábado. Se ainda assim não quiser, eu respeito."
Lívia segurou o lápis e percebeu algo que Henrique nunca aprendera: o valor de um presente não estava em quanto o outro deveria agradecer, mas em quanto você prestara atenção.
Ela ficou com ele.
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