"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 15
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E parecia determinada a destruir cada canto seguro que eu montava.
"Você está estranhamente calma."
"Eu passei meses querendo que isso acabasse."
"Agora está acabando."
"Talvez por isso."
Lívia sorriu.
"Não vai sentir falta de mim aparecendo com processo toda semana?"
"Nem um pouco."
"Ofensa pessoal."
"Você supera."
Sofia bateu um brinquedo no chão.
Olhei para ela.
Era difícil acreditar que aquela menina tinha estado dentro de mim na noite em que tudo desmoronou.
Ou quando eu achava que tinha desmoronado.
Eduardo recebeu as consequências que o processo permitia.
Vanessa também.
No caso dela, a gravação de Gabriel tornou a defesa muito mais difícil.
A agressão estava registrada.
O chute.
As ameaças.
O salto pressionando meu joelho.
As palavras.
Tudo.
Vanessa acabou aceitando responsabilidade pelo ataque.
Teve de arcar com despesas médicas relacionadas às agressões e também com parte dos custos decorrentes das lesões de Gabriel.
Quando Lívia me contou, eu só perguntei uma coisa.
"Ela ainda diz que foi provocada?"
"Não oficialmente."
"Então aprendeu alguma coisa."
"Talvez."
"Ou o advogado aprendeu por ela."
"Mais provável."
Gabriel apareceu naquela tarde.
Trazia café.
"Trouxe sem açúcar."
"Você lembra."
"Investigador."
"Isso não explica tudo."
"Explica bastante."
Ele colocou um copo sobre a mesa.
Olhou para Sofia.
Ela estava tentando morder a própria meia.
"Ela mudou."
"Todo dia."
"Está parecendo com você."
"Espero que não seja na teimosia."
Gabriel riu.
"Então não está."
Sentei.
"Renato?"
O sorriso desapareceu.
"Continua sob investigação."
"Prime Health?"
"Operações suspensas."
"E as outras?"
"Algumas já foram encerradas."
"Alguma surpresa?"
"Mais conexões."
"Com Eduardo?"
"Parte."
"Vanessa?"
"Parte."
"Renato?"
"Mais do que ele gostaria."
Passei a mão no copo.
"Vai chegar nele?"
Gabriel deu de ombros.
"Vai depender do que conseguirem provar."
"Justo."
Ele me observou.
"Você queria mais?"
"Não."
"Nem depois do estacionamento?"
"Depois do estacionamento eu queria destruir os dois."
Gabriel não respondeu.
"Durante uns dez minutos."
"Pouco."
"Eu estava ocupada parindo."
Ele riu.
Eu também.
Era bom conseguir rir daquilo.
Mesmo que só por alguns segundos.
Os R$ 46,8 milhões nunca voltaram de uma vez.
Foi devagar.
Parte recuperada.
Parte bloqueada.
Parte discutida.
Parte localizada meses depois.
O importante era que o dinheiro não foi para mim.
Nunca foi.
A conta fiduciária permaneceu sob controle formal.
Os valores recuperados foram sendo devolvidos à empresa e aos investidores conforme decisões e acordos.
Numa reunião do conselho, Augusto comentou:
"Você podia ter pedido uma participação maior na recomposição."
Olhei para ele.
"Por quê?"
"Porque sem você nada disso teria sido descoberto."
"Eu já tenho minha participação."
"Você sabe o que eu quero dizer."
"Sei."
"Então?"
"Eu não quero prêmio por impedir um roubo."
Augusto ficou em silêncio.
"Quero a empresa inteira de volta ao lugar certo."
"Isso vai levar tempo."
"Então leva."
A VittaSul sobreviveu.
Não sem dano.
Clientes fizeram perguntas.
Investidores exigiram auditorias.
Fornecedores foram revistos.
Funcionários ficaram assustados.
Alguns pediram demissão.
Outros ficaram.
A imprensa empresarial publicou matérias.
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Meu nome apareceu em algumas.
Eu recusei quase todas as entrevistas.
Não queria ser transformada em personagem.
Já tinha passado tempo demais vivendo na história de outra pessoa.
Augusto me chamou para conversar alguns meses depois.
A reunião foi simples.
Sem conselho completo.
Sem advogado.
Só nós dois.
"Quero que você volte."
"Eu já voltei."
"Não como conselheira."
Olhei para ele.
"Você está falando de presidência."
"Estou."
"Não."
A resposta saiu rápido.
Augusto arqueou a sobrancelha.
"Nem vai pensar?"
"Já pensei."
"Quando?"
"Enquanto você falava."
"Isso não conta."
"Conta para mim."
Ele apoiou os braços na mesa.
"Helena, a empresa confia em você."
"Isso é bom."
"Os investidores também."
"Melhor ainda."
"Então por que não?"
Olhei pela janela.
Vila Olímpia estava cheia de prédios.
Trânsito.
Gente apressada.
"Porque passei anos deixando Eduardo medir meu valor pelo quanto eu estava dentro da empresa."
Augusto ficou quieto.
"Depois passei meses provando que eu ainda sabia quem eu era."
"Você provou."
"Exatamente."
Voltei o olhar.
"Então não preciso virar CEO no dia seguinte para confirmar nada."
"Não seria no dia seguinte."
"Você entendeu."
Augusto sorriu.
"Entendi."
"Quero ficar no conselho."
"Por enquanto?"
"Por enquanto."
"Depois?"
"Depois eu decido."
Ele assentiu.
"Isso é um não?"
"É um não hoje."
"Aprendi a respeitar seus contratos."
"Devia ter aprendido antes."
Augusto riu.
Meu divórcio foi finalizado algumas semanas depois.
Também sem drama.
Assinaturas.
Reconhecimento.
Patrimônio separado.
A casa permaneceu comigo.
Eu a tinha comprado antes do casamento.
Parte das discussões societárias continuaria em outras instâncias.
Mas o vínculo entre Eduardo e eu terminava ali.
Lívia colocou a decisão sobre minha mesa.
"Quer comemorar?"
"Como?"
"Champanhe."
"Às três da tarde?"
"Você está divorciada. Pode."
"Tenho uma filha pequena."
"Suco de uva?"
"Melhor."
Ela abriu a geladeira.
Pegou duas taças.
"Isso é ridículo."
"Totalmente."
Serviu suco.
Levantou a taça.
"À liberdade."
Olhei para ela.
"Não."
"Não?"
"À paz."
Lívia sorriu.
"À paz."
Batemos as taças.
Sofia acordou no quarto ao lado e começou a chorar.
Lívia fechou os olhos.
"Que paz."
Eu ri.
"É outro tipo."
O contato com Eduardo passou a ser quase todo intermediado por advogados.
Quando necessário, por questões relacionadas a Sofia, eu mantinha as conversas curtas.
Sem casamento.
Sem nostalgia.
Sem negociação emocional.
No início, ele tentou.
"Você lembra da nossa primeira casa?"
Eu não respondia.
"Helena, eu só quero conversar."
Nada.
Depois:
"Eu queria que Sofia soubesse que eu não sou só o pior momento da minha vida."
Essa mensagem me fez parar.
Li três vezes.
Não por pena.
Porque, pela primeira vez, ele parecia falar de si sem me culpar.
Respondi.
"Então seja melhor nos próximos."
Foi tudo.
Ele não escreveu durante dois dias.
Depois mandou:
"Vou tentar."
Eu não sabia se tentaria.
Também já não era responsabilidade minha.
Vanessa desapareceu da minha vida muito mais rápido.
Depois dos procedimentos judiciais, não nos falamos.
Nunca recebi pedido de desculpas.
Nunca pedi.
Meses depois, Gabriel mencionou que ela havia deixado o apartamento no Itaim Bibi.
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"Foi embora de São Paulo?"
"Não sei."
"Você sabe."
"Talvez."
"Não quero saber."
"Então não sabe."
Era assim com Gabriel.
Ele nunca tentou ocupar o espaço que Eduardo tinha deixado.
E eu agradecia por isso.
Não houve romance.
Nenhum beijo tardio.
Nenhum final em que o investigador misterioso se transformava no homem perfeito.
Ele virou outra coisa.
Amigo.
Uma presença segura.
Alguém que sabia quando falar.
E, principalmente, quando não falar.
Um ano depois do nascimento de Sofia, recebi uma mensagem dele.
"Vão reformar o estacionamento."
Fiquei olhando para a tela.
"Qual?"
A resposta veio.
"B-17."
Meu peito apertou.
Eu sabia exatamente.
"Quando?"
"Começam semana que vem."
Demorei a responder.
"Quero ir."
Gabriel escreveu:
"Tem certeza?"
Sorri sozinha.
"Você está ficando parecido com Lívia."
"Isso é ameaça?"
"Quase."
Combinamos para sábado cedo.
São Paulo estava estranhamente clara naquela manhã.
Pouco trânsito.
Céu limpo.
Sofia estava com um ano.
Já andava alguns passos quando tinha onde se apoiar.
Mas naquele dia, eu a carreguei.
Não queria colocar minha filha no chão daquele lugar.
Mesmo que tudo estivesse diferente.
Gabriel já estava esperando.
Não havia barba falsa.
Nem roupas sujas.
Usava um terno azul-marinho simples.
Quando me viu, sorriu.
"Chegou."
"Você também."
Ele olhou para Sofia.
"Feliz aniversário atrasado."
"Ela aceita presentes."
"Imagino."
Sofia o encarou.
Depois agarrou meu colar.
Gabriel riu.
"Ela lembra de mim."
"Ela tinha três dias quando vocês se conheceram oficialmente."
"Então com certeza."
Entramos.
O prédio parecia menor.
Essa foi minha primeira impressão.
Na memória, o estacionamento era enorme.
Escuro.
Infinito.
Agora era apenas concreto.
Colunas.
Manchas.
Fitas de obra.
Algumas paredes já tinham marcações para reforma.
Descemos.
B-17.
Gabriel parou.
Eu também.
Olhei para o chão.
A mancha de óleo ainda estava ali.
Ou o que restava.
Fraca.
Quase apagada.
O concreto tinha marcas novas.
Poeira.
Rachaduras.
Mas eu sabia o ponto exato.
Ali.
Meu joelho tinha tocado o chão.
Ali.
Vanessa tinha parado.
Ali.
O salto vermelho.
Ali.
Eu tinha apertado o botão.
Sofia mexeu nos meus braços.
Beijei a cabeça dela.
Gabriel ficou ao meu lado.
Não disse nada por um tempo.
Depois perguntou:
"Más lembranças?"
Olhei para o chão.
"Não."
Ele virou para mim.
"Não?"
"Não."
"Então por que voltar?"
Respirei.
Olhei para Sofia.
Ela estava ocupada tentando pegar um fio solto da minha blusa.
Sorri.
"Porque durante muito tempo eu achei que foi aqui que minha vida desmoronou."
Gabriel não interrompeu.
"Eu pensava naquele chão."
Olhei em volta.
"Na dor."
"Na Vanessa."
"Em Eduardo indo embora."
Passei a mão nas costas de Sofia.
"Eu achava que esse lugar era o pior momento da minha vida."
Gabriel falou baixo.
"E não era?"
Pensei.
"Era."
Ele ficou confuso.
"Mas também não era."
"Explica."
Olhei para ele.
"Foi aqui que eu parei de esperar."
"Eduardo?"
"Todo mundo."
Minha voz saiu calma.
"Eu parei de esperar que ele voltasse."
"Que Vanessa tivesse vergonha."
"Que alguém entendesse por mim."
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"Que minha vida voltasse ao normal."
Gabriel assentiu.
"Hoje eu sei que foi aqui que ela voltou a ser minha."
Sofia encostou a cabeça no meu ombro.
Gabriel sorriu.
"Você ensaiou isso?"
"Não."
"Pareceu."
"Então estraguei o momento."
"Um pouco."
Ri.
Seguimos andando.
Perto da rampa, Gabriel parou.
Olhou para trás.
"B-17 vai sumir."
"Eu sei."
"Daqui a alguns meses, ninguém vai saber."
"Melhor."
"Você não quer nenhuma placa?"
"Gabriel."
"Estou brincando."
"Espero."
Ele sorriu.
Depois ficou sério.
"Então aquilo tudo ficou no passado?"
Parei.
Olhei uma última vez.
O concreto.
A coluna.
A mancha.
Durante um ano, aquele lugar tinha sido uma ferida.
Agora não.
Também não era símbolo.
Nem monumento.
Nem sentença.
Era só um lugar onde fatos tinham acontecido.
Onde alguém tinha tentado me reduzir à dor.
Onde outro alguém tinha escolhido dinheiro em vez da própria família.
Onde uma mulher desesperada tinha confundido crueldade com vitória.
E onde eu tinha descoberto que ficar quieta não significava continuar aceitando.
Olhei para Gabriel.
"Não."
Ele esperou.
"Virou evidência."
Gabriel sorriu.
Não disse mais nada.
Subimos a rampa.
A luz apareceu primeiro no chão.
Depois nas paredes.
Depois em nós.
Quando saímos do estacionamento, o sol da manhã bateu forte no rosto.
São Paulo estava acordando.
Carros passavam.
Gente caminhava.
Uma padaria na esquina abria as portas.
Alguém ria do outro lado da rua.
Sofia apertou os olhos por causa da claridade.
Depois apontou para o céu.
"Olha."
Foi uma das poucas palavras que ela já sabia dizer.
Olhei.
"Estou olhando."
Gabriel seguiu para o carro.
"Até segunda?"
"Conselho."
"Você ainda não aceitou a presidência?"
"Não."
"Augusto vai insistir."
"Problema dele."
"Você gosta de dizer isso."
"Gosto."
Ele entrou no carro.
Eu fiquei alguns segundos na calçada.
Sofia no colo.
O prédio atrás de mim.
A cidade inteira na frente.
Durante muito tempo, achei que recomeçar significava apagar o que tinha acontecido.
Não significava.
O estacionamento existiu.
A traição existiu.
A fraude existiu.
O medo existiu.
Eduardo existiu.
Vanessa existiu.
Tudo aquilo fazia parte da minha história.
Mas não era mais o final dela.
Ajustei Sofia nos braços.
Ela encostou a mão no meu rosto.
"Vamos?"
Ela não respondeu.
Eu sorri.
E caminhei com minha filha em direção à luz da manhã, sem olhar para trás outra vez.
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