"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 14
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"Você fez o que precisava."
"Não parece."
"Não precisa parecer."
Olhei para Sofia.
"Eu só quero ir para casa."
Lívia ficou em silêncio.
A palavra casa tinha se tornado complicada.
A residência no Morumbi ainda era juridicamente minha.
Eu a tinha comprado antes do casamento.
Mas durante doze anos, Eduardo tinha dormido no quarto.
Tomado café na cozinha.
Recebido amigos na varanda.
Transformado aquele lugar numa vida compartilhada.
Agora eu precisaria entrar e decidir o que ainda era meu emocionalmente.
Três dias depois, recebi alta.
Não havia imprensa na porta.
Graças a Lívia.
Não havia Eduardo.
Graças a uma medida provisória.
Gabriel dirigiu.
Sofia dormiu quase todo o caminho.
Quando entramos na rua de casa, senti uma pressão no peito.
O portão abriu.
Tudo estava igual.
As plantas.
A fachada.
A varanda.
A vida anterior ainda parecia existir.
Entrei segurando minha filha.
Lívia vinha atrás.
"Quer que eu fique?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Não."
Ela sorriu.
"Ótimo começo."
Olhei para a sala.
Havia uma foto do nosso casamento.
Eu e Eduardo.
Rio de Janeiro.
Doze anos antes.
Peguei.
Lívia ficou parada.
"Vai quebrar?"
"Não."
"Jogar fora?"
"Também não."
"Então?"
Coloquei a foto dentro de uma gaveta.
"Não quero decidir tudo hoje."
Pela primeira vez, eu podia não decidir.
E aquilo parecia liberdade.
Os dias seguintes foram uma avalanche.
A seguradora informou formalmente que não cobriria despesas de defesa pessoal relacionadas a conduta dolosa.
O banco enviou notificação sobre garantias pessoais ligadas a uma linha de crédito de luxo.
Um juiz restringiu movimentações de ativos associados às empresas investigadas.
Lívia lia cada documento.
Eu cuidava de Sofia.
Às vezes as duas coisas aconteciam ao mesmo tempo.
"Tem mais uma."
Eu estava amamentando.
"Fala."
"Banco."
"Qual?"
"O da linha de crédito."
"Valor?"
"Alto."
"Quanto?"
Lívia falou.
Fechei os olhos.
"Ele vai odiar."
"Vai."
"Problema dele."
"Sim."
Outro dia, Gabriel apareceu com atualização.
"Recuperação parcial confirmada."
"Quanto?"
Ele me mostrou.
Parte significativa dos valores já estava segregada.
"Conta fiduciária?"
"Sim."
"Ninguém mexe?"
"Sem ordem."
"Nem eu?"
"Nem você."
"Ótimo."
Gabriel arqueou a sobrancelha.
"Ótimo?"
"Era isso que eu queria."
"Tem gente que nessa hora mudaria de ideia."
"Eu não quero o dinheiro dele."
Lívia me corrigiu.
"Nem tudo era dele."
Olhei para ela.
"Exatamente."
Gabriel fechou a pasta.
"Então fala."
"Falar o quê?"
"O que você quer."
Olhei para os dois.
"Eu não quero o dinheiro dele. Quero de volta o dinheiro que nunca foi dele."
Lívia assentiu.
"Isso vai para o processo."
"Pode ir."
"Também vai destruir a narrativa de vingança."
"Melhor ainda."
"Você está pensando nisso?"
"Não."
Passei a mão na cabeça de Sofia.
"Mas estou cansada de homens que confundem justiça com vingança quando uma mulher para de obedecer."
Gabriel não respondeu.
Lívia sorriu de canto.
"Essa também pode ir."
O divórcio começou na semana seguinte.
Eduardo contestou.
Claro.
Primeiro tentou discutir patrimônio.
Depois a casa.
Depois ações.
Depois objetos absurdos.
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Uma coleção de relógios.
Um carro.
Quadros.
Cada item parecia mais tentativa de me obrigar a falar com ele do que disputa real.
Lívia colocou uma lista sobre a mesa.
"Casa."
"Minha antes do casamento."
"Documentado."
"Próximo."
"Investimentos pessoais."
"Separados."
"Próximo."
"Participação societária."
"Vai depender da cláusula e do processo."
"Próximo."
"Eduardo pede acesso à residência."
"Não."
"Para buscar pertences."
"Com inventário e terceiro presente."
"Ótimo."
"Ele também pede visita a Sofia."
Minha mão parou.
"Legalmente?"
"Pode pedir."
"Agora?"
"Sim."
"Ele está impedido?"
"Não automaticamente."
Olhei para o berço.
"Eu não quero usar Sofia para punir ele."
"Eu sei."
"Mas também não vou fingir que ele não colocou a vida dela em risco."
"É isso que vamos argumentar."
"Com supervisão."
"Provavelmente."
Assenti.
Dois dias depois, o advogado de Eduardo enviou um pedido diferente.
Encontro pessoal.
Sem Sofia.
Sem imprensa.
Sem conselho.
Só eu.
Lívia leu.
"Não."
"Eu quero ir."
Ela levantou os olhos.
"Por quê?"
"Porque preciso terminar olhando para ele."
"Você já terminou."
"Juridicamente."
"Helena."
"Eu preciso."
"Não sozinha."
"Você fica perto."
"Gabriel também."
"Não precisa."
"Precisa."
O encontro aconteceu no escritório de Lívia.
Sala de reunião neutra.
Vidro fosco.
Mesa comprida.
Eduardo entrou antes de mim.
Quando abri a porta, quase não reconheci.
Não porque estivesse destruído.
Ainda estava bem vestido.
Barba feita.
Camisa limpa.
Mas a postura tinha mudado.
Ele parecia menor.
Fiquei em pé.
Eduardo também.
"Helena."
"Eduardo."
Olhou para minha barriga por instinto.
Depois lembrou.
Os olhos subiram.
"Sofia?"
"Bem."
"Eu quero ver."
"Não viemos falar disso."
"Eu sou pai."
"Isso está sendo tratado."
Eduardo fechou os olhos.
"Você fala comigo como advogada."
"Talvez devesse ter ouvido essa advogada antes."
Ele puxou uma cadeira.
"Pode sentar?"
"Senta."
Eduardo sentou.
Eu permaneci de pé alguns segundos.
Depois me sentei.
Silêncio.
Foi ele quem quebrou.
"Eu errei."
"Sim."
"Eu sei que não acredita em mim."
"Qual parte?"
"Eu nunca quis machucar você."
"Você me deixou em trabalho de parto num estacionamento."
"Eu não sabia que ia piorar tão rápido."
"Sabia que eu estava em trabalho de parto."
"Vanessa devia só confirmar..."
Parei.
"Confirmar o quê?"
Eduardo fechou a boca.
"Fala."
"Que você não tinha ido para o hospital ainda."
"Por quê?"
"Eu precisava de tempo."
"Para fugir."
"Para organizar."
"Paris?"
Ele respirou fundo.
"Era temporário."
Quase ri.
"Com duas passagens?"
"Helena."
"Com Vanessa?"
"Eu estava confuso."
"R$ 46,8 milhões confundem bastante."
"Não era assim."
"Como era?"
"Eu pretendia devolver."
"Quando?"
"Depois."
"Depois de quê?"
"Depois que as coisas estabilizassem."
"Que coisas?"
"Empresa."
"Você."
"Minha gravidez?"
"Não."
"Sofia?"
"Não coloca ela nisso."
Fiquei em silêncio.
Eduardo baixou os olhos.
"Eu perdi tudo."
"Não."
Ele levantou o rosto.
"Como não?"
"Você ainda tem muito mais do que algumas pessoas que você prejudicou."
"Você sabe o que eu quero dizer."
"Sei."
Ele se inclinou.
"Você conseguiu."
"Consegui o quê?"
"Me tirar da empresa."
"Você se tirou."
"Congelar dinheiro."
"Você moveu."
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"Virar o conselho."
"Você deixou prova."
"Tomar minha casa."
"Minha casa."
Eduardo bateu a mão na mesa.
"Você destruiu minha vida."
A frase ficou no ar.
Eu olhei para ele.
Era isso.
No fundo, depois de tudo, Eduardo ainda acreditava que minha reação era o evento principal.
Não a fraude.
Não a mentira.
Não o abandono.
Minha reação.
"Não."
Minha voz saiu calma.
"Não o quê?"
"Eu não destruí sua vida."
Eduardo riu.
"Olha ao redor."
"Eu só parei de impedir você de destruí-la sozinho."
Ele ficou imóvel.
Nenhum de nós falou por alguns segundos.
Eduardo desviou o olhar.
Pela primeira vez, parecia não ter resposta.
Levantei.
"Acabou?"
Ele também levantou.
"Helena."
Parei na porta.
"Eu amei você."
Fechei os olhos.
Aquela frase doeu mais do que eu esperava.
Não me virei imediatamente.
"Talvez."
"Não diz talvez."
"Então por que foi tão fácil me tratar como obstáculo?"
Eduardo não respondeu.
Abri a porta.
"Eu também amei você."
Ele respirou.
"Então..."
Virei.
"É exatamente por isso que dói."
Saí.
Meses se passaram.
Os processos avançaram.
A VittaSul continuou funcionando.
Mais devagar.
Mais desconfiada.
Mas viva.
Augusto assumiu coordenação temporária.
Marcelo permaneceu após colaborar.
A análise da cláusula restringiu definitivamente parte dos direitos especiais de Eduardo enquanto a responsabilização seguia.
Meu divórcio avançou.
Sofia cresceu.
Começou a sorrir.
Depois a reconhecer minha voz.
E eu comecei a dormir mais de três horas seguidas.
Quando a primeira audiência criminal importante foi marcada, Lívia perguntou se eu queria comparecer.
"Quero."
"Tem certeza?"
"Sim."
Vanessa também estaria lá.
Eu não a via desde o estacionamento.
Cheguei cedo.
Sentei ao lado de Lívia.
Gabriel ficou algumas fileiras atrás.
Quando Vanessa entrou, quase não reconheci aquela mulher.
Não havia salto vermelho.
Nenhum sorriso.
Cabelo preso.
Rosto cansado.
Ela sentou do outro lado.
Minutos depois, Eduardo entrou com o advogado.
Vanessa ergueu os olhos.
Por um instante, vi alguma coisa voltar ao rosto dela.
Esperança.
Talvez achasse que ele olharia.
Que perguntaria se ela estava bem.
Que haveria entre os dois algum sinal de que tudo aquilo tinha valido a pena.
Eduardo passou diante dela.
Não parou.
Não sorriu.
Não tocou.
Nem sequer virou o rosto.
Vanessa continuou olhando.
E, naquele instante, alguma coisa dentro dela finalmente quebrou.
Porque pela primeira vez ela entendeu uma verdade que nenhum processo precisaria provar.
Ela tinha arriscado tudo por um homem que nunca tinha planejado dividir o fim com ela.
PARTE 11
Só Evidência
Nove meses depois, Eduardo Duarte admitiu parte dos crimes financeiros ligados ao desvio de recursos da VittaSul.
Não houve cena cinematográfica.
Nenhum grito.
Nenhuma confissão dramática diante de câmeras.
Só uma sala fria, advogados, documentos e um homem que finalmente percebeu que cada mentira tinha produzido uma prova.
O acordo judicial não apagava o que ele tinha feito.
Reconhecia movimentações fraudulentas, tentativas de transferência indevida de patrimônio corporativo e uso irregular de estruturas empresariais para desviar recursos.
Lívia me explicou cada ponto.
"Ele está tentando reduzir o risco."
"Eu sei."
"Vai admitir parte."
"Também sei."
"Talvez não tudo."
"Não preciso que ele admita tudo."
Ela me olhou.
"Não?"
"Os documentos já disseram."
Lívia fechou a pasta.
Eu estava na cozinha de casa.
Sofia brincava no tapete com um brinquedo de tecido.
Tinha nove meses.
Já engatinhava.
Tentava se levantar em qualquer coisa.
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