"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 11
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"Tem acompanhante?"
Fechei os olhos.
"Não."
A palavra saiu pequena.
Ela pareceu entender mais do que eu disse.
"Se quiser, eu fico perto."
Olhei para ela.
"Obrigada."
Outra contração começou.
Dra. Camila falou firme.
"Helena, agora."
"Agora o quê?"
"Quando eu disser, você vai fazer força."
Meu coração disparou.
"Já?"
"Já."
"Eu não estou pronta."
"Seu corpo está."
Quase chorei.
"Eu não quero fazer isso sozinha."
Dra. Camila se aproximou.
"Você não está sozinha."
Era exatamente a frase que eu precisava ouvir.
Respirei.
A dor veio.
"Agora."
Fiz força.
O mundo desapareceu.
Não existia empresa.
Não existia dinheiro.
Não existia Paris.
Não existia traição.
Só dor.
Ar.
Vozes.
"De novo."
Eu obedeci.
"Isso."
"Eu não consigo."
"Consegue."
"Não consigo."
"Helena, olha para mim."
Olhei.
"Sua filha está quase aqui."
Chorei antes mesmo de perceber.
Não eram lágrimas de tristeza.
Nem de medo.
Eram lágrimas de exaustão.
Outra força.
Outro grito.
Dra. Camila falou alguma coisa que eu não entendi.
Uma enfermeira se moveu rápido.
Meu coração disparou.
"O que aconteceu?"
"Nada."
"Não mente."
"Ela está descendo."
"Os batimentos?"
"Estamos monitorando."
"Camila."
"Helena, foca em mim."
Outra contração.
"Agora."
Fiz força.
Dessa vez, meu corpo pareceu se partir.
Gritei o nome da minha filha.
"Sofia!"
E então tudo mudou.
Um segundo.
Dois.
Silêncio.
Meu coração parou.
"Por que ela não está chorando?"
Ninguém respondeu.
"Camila."
A equipe se moveu.
"Camila!"
Então veio o som.
Fraco primeiro.
Depois alto.
O primeiro choro de Sofia.
Eu desabei.
Literalmente.
Minha cabeça caiu para trás.
As lágrimas vieram de uma vez.
"Sofia."
A enfermeira sorriu.
"Ela está aqui."
"Eu quero ver."
"Já vai."
"Agora."
"Ela precisa ser avaliada primeiro."
"Ela está bem?"
Dra. Camila olhou para mim.
"Está reagindo bem."
Eu ouvi minha filha chorando do outro lado da sala.
Foi o som mais bonito que já tinha escutado.
E também o mais cruel.
Porque, naquele momento, percebi o que quase tinha acontecido.
Sofia poderia ter nascido no chão.
Naquele concreto.
Entre óleo e água suja.
Sem médico.
Sem equipamento.
Enquanto o próprio pai seguia para um aeroporto.
A imagem entrou na minha cabeça e eu não consegui afastar.
Quando colocaram Sofia sobre meu peito, perdi qualquer controle que ainda tinha.
Chorei de verdade.
Não em silêncio.
Não com dignidade.
Não tentando parecer forte.
Chorei como alguém que tinha segurado tudo por tempo demais.
"Oi."
Minha voz tremia.
Sofia se mexeu.
Pequena.
Quente.
Real.
"Oi, meu amor."
Encostei o rosto na cabeça dela.
"Desculpa."
A enfermeira olhou para mim.
"Não tem por que pedir desculpa."
Mas eu tinha.
Não racionalmente.
Ainda assim.
"Eu devia ter saído antes."
Ninguém respondeu.
"Eu devia ter ido embora quando percebi."
Sofia abriu a boca.
Depois fechou.
Passei o dedo pela bochecha dela.
"Eu devia ter protegido você."
Dra. Camila se aproximou.
"Helena."
Olhei.
"Você protegeu."
Balancei a cabeça.
"Quase não."
"Mas protegeu."
"Se aquela ambulância demorasse..."
Ela não respondeu imediatamente.
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Isso me assustou.
"Camila."
Dra. Camila puxou uma cadeira.
Sentou ao lado da cama.
"Eu não vou mentir."
Meu peito apertou.
"Vocês chegaram no limite."
Fechei os olhos.
"Quanto?"
"É difícil dizer exatamente."
"Mas?"
"Se tivesse ficado mais tempo naquele estacionamento, poderíamos estar falando de uma situação muito diferente."
Olhei para Sofia.
"Perigosa?"
"Sim."
Minha mão apertou a manta.
"Para ela?"
"Para as duas."
O ar desapareceu.
Dra. Camila continuou.
"Você estava em trabalho de parto avançado, sob estresse extremo, tinha sofrido agressão e estava sem assistência adequada."
"Ela poderia..."
Não consegui terminar.
Camila não me obrigou.
"Agora ela está aqui."
Olhei para minha filha.
"Agora ela está aqui."
"É nisso que você precisa se concentrar."
Concordei.
Mas a raiva começou a crescer.
Não como no estacionamento.
Era diferente.
Fria.
Precisa.
Eduardo sabia.
Sabia que eu estava em trabalho de parto.
Mesmo assim, foi embora.
Meu celular ficou desligado por quase duas horas.
Quando finalmente me levaram para o quarto, Lívia já estava esperando.
Ela não veio correndo.
Não me abraçou.
Primeiro olhou para Sofia.
Depois para mim.
Só então os olhos dela encheram de lágrimas.
"Ela é linda."
Eu sorri.
"Eu sei."
Lívia chegou mais perto.
"Posso?"
Entreguei Sofia.
Lívia segurou minha filha com um cuidado quase engraçado.
"Eu tenho medo de quebrar."
"Ela sobreviveu a uma família pior."
Lívia olhou para mim.
A frase tinha saído sem pensar.
Ela não respondeu.
Ficamos em silêncio.
Depois Sofia começou a se mexer.
Lívia devolveu.
"Gabriel está lá fora."
"Como ele está?"
"Bem."
"A boca?"
"Ponto pequeno."
"E Vanessa?"
O rosto de Lívia mudou.
"Está sendo formalmente investigada."
"Foi presa?"
"Foi conduzida."
"E agora?"
"A gravação pesa muito."
"Ela continua dizendo que eu armei?"
"Continua."
"Claro."
Lívia sentou.
"Ela também diz que perdeu a cabeça."
"Isso melhora?"
"Não."
"Eduardo?"
Ela olhou para meu celular.
"Você ainda não viu?"
"Não."
"Talvez seja melhor."
"Me dá."
"Helena."
"Me dá."
Ela entregou.
Quando liguei, a tela quase travou.
Chamadas perdidas.
Mensagens.
Eduardo.
Eduardo.
Eduardo.
Primeiro, o tom era agressivo.
"Helena, me liga imediatamente."
Depois:
"Você não tinha autorização para fazer isso."
Mais uma:
"Você está colocando a empresa em risco."
Outra:
"Seu advogado está te manipulando."
Depois a raiva começou a diminuir.
"Precisamos conversar."
"Eu só quero explicar."
"Você está entendendo tudo errado."
Eu continuei rolando.
As mensagens mudavam como se fossem escritas por homens diferentes.
"Eu não queria que nada disso acontecesse."
"Vanessa perdeu o controle."
"Eu nunca mandei ninguém machucar você."
Parei.
Nunca mandei ninguém machucar você.
Era a defesa perfeita de um homem que ainda não entendia a diferença entre não ordenar uma agressão e criar a situação que permitiu que ela acontecesse.
Continuei.
"Me disseram que Sofia nasceu."
Minha mão apertou o celular.
Outra:
"Eu quero ver minha filha."
Depois:
"Ela é minha filha também."
Mais uma.
"Nós somos uma família."
Fechei os olhos.
Lívia não disse nada.
Continuei.
"Pelo menos fala comigo pela Sofia."
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"Não faz isso com ela."
"Não deixa nossa filha crescer sem pai por causa de um erro."
Um erro.
R$ 46,8 milhões.
Vanessa.
Paris.
O estacionamento.
Tudo reduzido a um erro.
Continuei descendo.
A mensagem seguinte era mais longa.
"Helena, eu sei que você está com raiva. Você tem razão. Mas pensa em tudo que construímos em doze anos. Pensa na Sofia. Não toma decisões agora. Você acabou de passar por um parto difícil. Quando você estiver melhor, nós conversamos."
Soltei uma risada amarga.
Lívia me olhou.
"O quê?"
"Ele ainda está tentando dizer que eu estou confusa."
"É o padrão."
"Agora é o parto."
"Antes era gravidez."
"Antes era porque eu estava fora da empresa."
"Antes disso?"
Olhei para ela.
"Eu era sensível demais."
Lívia respirou fundo.
"Você não precisa responder."
"Eu sei."
"Então não responde."
Coloquei o celular sobre a mesa.
Sofia dormia no meu peito.
Passei quase uma hora sem olhar de novo.
Uma enfermeira entrou.
Depois Dra. Camila.
Examinaram Sofia.
Examinaram meu joelho.
Falaram de repouso.
De observação.
De amamentação.
Pela primeira vez em meses, ouvi pessoas falando de coisas que não envolviam fraude.
Foi um alívio.
Até o telefone vibrar.
Olhei.
Eduardo.
Outra mensagem.
"Eu fiz tudo por nós."
Fiquei imóvel.
Li de novo.
"Tudo o que fiz foi por nós."
Não senti raiva imediata.
Senti uma espécie de vazio.
Era como se doze anos de casamento tivessem cabido dentro daquela frase.
Tudo por nós.
As mentiras.
O dinheiro.
A amante.
A fuga.
O abandono.
Olhei para Sofia.
Ela dormia tranquila.
Eu toquei a tela.
Lívia percebeu.
"Não."
"Preciso."
"Por quê?"
"Porque essa vai ser a última."
Abri a conversa.
Escrevi devagar.
"Não existe mais 'nós'."
Fiquei olhando para a frase.
Depois enviei.
Dois tiques.
Lido.
Nenhuma resposta.
Por alguns minutos, senti paz.
Pequena.
Frágil.
Mas real.
Naquela noite, dormi com Sofia ao lado.
Acordei várias vezes.
Uma delas às três e dezessete.
Outra às quatro e quarenta.
Na última, sonhei que ainda estava no estacionamento.
No sonho, eu ouvia Sofia chorando atrás de uma porta que não conseguia abrir.
Acordei suando.
Olhei imediatamente para o berço hospitalar.
Sofia estava ali.
Respirando.
Levantei com dificuldade.
Peguei minha filha.
Sentei na poltrona.
"Você está aqui."
Ela fez um som pequeno.
"Eu também."
Pela primeira vez, aquelas palavras pareciam suficientes.
Na manhã seguinte, o céu de São Paulo estava cinza.
Lívia chegou pouco depois das oito.
Dessa vez, não trouxe café.
Não trouxe flores.
Não perguntou se eu tinha dormido.
Entrou carregando uma pasta e um tablet.
Quando vi o rosto dela, soube que não era visita de amiga.
"Bom dia."
"Isso depende."
Ela fechou a porta.
"Como está a Sofia?"
"Bem."
"E você?"
"Viva."
"Ótimo."
Colocou o tablet sobre a mesa.
"Lívia."
"Eu sei."
"Eu acabei de parir."
"Eu sei."
"Então por que você está com essa cara?"
Ela sentou na cadeira.
"Porque a VittaSul está explodindo."
Olhei para a tela.
Havia notificações internas.
Mensagens do conselho.
Um comunicado da seguradora.
Solicitações jurídicas.
"Quanto?"
"Todo mundo sabe que houve bloqueio."
"Sabem de Eduardo?"
"Parte."
"Vanessa?"
"Parte."
"Dos R$ 46,8 milhões?"
"Alguns."
Passei a mão no rosto.
"E agora?"
Lívia desbloqueou o tablet.
"Agora você vai precisar decidir quanto quer que eles saibam."
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