"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 10
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"Também recusado."
"Isso é impossível."
"Podemos aceitar transferência."
Eduardo olhou para o telefone.
A conta de reserva continuava indisponível.
"Me dá cinco minutos."
"Claro."
O funcionário saiu.
Eduardo abriu o aplicativo bancário.
A conta principal carregou.
Depois apareceu a mensagem.
Acesso temporariamente restrito.
Ele tentou outra.
A mesma coisa.
Outra.
Bloqueio preventivo.
Seu rosto ficou branco.
"Helena."
Falou o nome como se fosse uma conclusão.
Não uma suspeita.
Ele ligou.
Meu celular vibrava dentro da bolsa no estacionamento.
Eu nem ouvi.
Eduardo ligou de novo.
Nada.
Pela terceira vez.
Nada.
"Atende."
Ele começou a andar pelo terminal.
Dois homens de terno estavam perto da entrada.
Um policial uniformizado alguns passos atrás.
Eduardo ainda não percebia.
Abriu o aplicativo de mensagens.
Escreveu:
"Helena, me liga agora."
Apagou.
Escreveu de novo.
"Precisamos conversar."
Enviou.
Depois tentou o advogado novamente.
Finalmente alguém atendeu.
"Eduardo?"
"Graças a Deus."
"Você está onde?"
"Não importa."
"Importa muito."
"Eu preciso de uma liminar."
"Para quê?"
"Bloquear uma movimentação."
"Que movimentação?"
"Helena mexeu nas contas."
Silêncio.
"Como você sabe?"
"Porque tudo está travado."
"Você recebeu notificação judicial?"
"Não."
"Então pode ser bloqueio bancário."
"Eu sei o que está acontecendo."
"Eduardo."
"Ela descobriu."
O advogado não respondeu.
Eduardo continuou andando.
"Você está me ouvindo?"
"Estou."
"Preciso que faça alguma coisa."
"Antes preciso saber onde você está."
"Por quê?"
"Porque tem gente procurando você."
Eduardo parou.
"Quem?"
"Não fala pelo telefone."
"Quem?"
"Investigadores."
Eduardo virou lentamente.
Foi então que viu os dois homens.
Eles já caminhavam na direção dele.
O policial vinha logo atrás.
"Merda."
"Eduardo?"
Ele desligou.
Pegou a mala.
O funcionário do terminal voltou.
"Senhor Duarte, seu embarque pode começar assim que resolvermos a taxa."
Eduardo olhou para a pista.
O avião estava ali.
A poucos metros.
Olhou para os investigadores.
Depois para a porta de acesso.
"Senhor Duarte?"
Eduardo puxou a mala.
Andou.
"Senhor Duarte."
Um dos homens falou.
Ele continuou.
"Eduardo Duarte."
Parou.
Virou.
"Quem quer saber?"
O homem mostrou identificação.
"Precisamos conversar."
"Sobre?"
"Movimentações financeiras da VittaSul Logística Médica."
Eduardo olhou para o policial.
"Tem mandado?"
"Temos autorização para abordagem e preservação de bens vinculados à investigação."
"Isso é absurdo."
"Então vai ser rápido."
"Eu tenho voo."
"Não mais."
Eduardo riu.
"Você não pode me impedir."
O policial se aproximou.
"Pode colaborar."
"Ou?"
"Ou complicar."
Eduardo olhou para a pista.
O funcionário tinha parado de sorrir.
"Essa mala é sua?", perguntou o investigador.
"É."
"Podemos verificar?"
"Não."
"Temos ordem de preservação."
"Meu advogado está vindo."
"Ótimo."
"Vocês não vão tocar nas minhas coisas."
O policial respirou fundo.
"Senhor Duarte."
Eduardo apertou a alça.
"Eu conheço meus direitos."
"Então conhece também suas obrigações."
Eduardo não soltou.
O policial fez um gesto.
O outro agente abriu a mala.
Eduardo avançou.
"Eu não autorizei."
"Não encosta."
O policial segurou seu braço.
"Solta."
"Fica parado."
A mala se abriu.
Roupas.
Documentos.
Um estojo rígido.
Duas pastas.
O investigador levantou a primeira.
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Dentro havia contratos.
Um deles tinha o logotipo da Prime Health.
Outro da MedTrans.
Eduardo perdeu a cor.
"Isso é material de trabalho."
"Em uma viagem para Paris?"
"Sim."
O investigador abriu o estojo.
Um hardware wallet.
"Isso também?"
Eduardo não respondeu.
Depois apareceu um envelope.
Documentação imobiliária.
Proposta de compra de uma propriedade no exterior.
Pagamentos vinculados a empresas intermediárias.
O investigador ergueu o papel.
"Interessante."
Eduardo tentou pegar.
O policial impediu.
"Não toca."
"Vocês não entendem."
"Então explica."
"É investimento."
"Com qual dinheiro?"
"Meu."
"Tem certeza?"
"Claro."
O segundo investigador encontrou dois passaportes.
Um brasileiro.
Outro estrangeiro.
Eduardo olhou.
Pela primeira vez, o medo ficou visível.
"Você pretendia ficar quanto tempo em Paris?"
"Isso não é da sua conta."
"Talvez seja."
Eduardo fechou os olhos.
E entendeu.
As contas.
Os fornecedores.
Gabriel.
As autorizações.
Helena.
Ela sabia.
Não havia descoberto naquela noite.
Não havia apertado um botão por impulso.
Tinha preparado tudo.
Por semanas.
Talvez meses.
E ele tinha continuado dormindo ao lado dela sem perceber.
No estacionamento, os paramédicos chegaram correndo.
"Gestante de trinta e nove semanas?"
"Sim", Gabriel respondeu.
Um deles se ajoelhou.
"Qual seu nome?"
"Helena."
"Quantos minutos entre as contrações?"
"Não sei."
"Bolsa rompeu?"
"Não."
"Algum sangramento?"
"Não."
Ele verificou meus sinais.
"Precisamos levar agora."
Gabriel pegou minha bolsa.
Vanessa gritou atrás.
"Isso é teatro."
O policial virou.
"Cala a boca."
Ela ficou indignada.
"Você não pode falar assim comigo."
"Então facilita."
Outro agente segurou o braço dela.
"Você vai nos acompanhar."
"Eu não vou."
"Vai."
"Quero ligar para Eduardo."
"Depois."
"Ele vai resolver isso."
Eu olhei para Vanessa.
Ela ainda acreditava.
Mesmo agora.
Ainda acreditava que Eduardo poderia resolver.
Os paramédicos me colocaram na maca.
A dor voltou.
Mais perto.
Mais funda.
Apertei o lençol.
Gabriel caminhou ao lado.
"Meu telefone."
"Está na bolsa."
"Olha."
Ele pegou.
Havia chamadas perdidas de Eduardo.
Mensagens.
Uma de Lívia.
Outra de um número que Gabriel reconheceu.
Ele abriu.
Leu.
Seu rosto mudou.
"Gabriel."
Ele olhou para mim.
Eu só fiz uma pergunta.
"Pegaram ele?"
Gabriel leu a mensagem mais uma vez.
Depois assentiu.
"Ele não vai para Paris."
Fechei os olhos.
Não senti vitória.
Só cansaço.
Um cansaço tão profundo que parecia vir de anos.
As portas da ambulância começaram a fechar.
Vanessa gritava ao longe.
Os policiais falavam.
Gabriel entregou minha bolsa ao paramédico.
"Eu vou atrás."
Assenti.
A porta fechou.
O som do estacionamento desapareceu.
A ambulância começou a se mover.
A paramédica ajustou o monitor.
"Helena, olha para mim."
"Estou olhando."
"Respira."
Outra contração veio.
Dessa vez foi diferente.
Muito diferente.
Meu corpo inteiro respondeu.
Apertei a barra lateral da maca.
"Meu Deus."
A paramédica olhou para a colega.
"Quanto tempo?"
"Menos de dois minutos."
A dor subiu.
Gritei.
"Helena, não força."
"Eu não consigo."
A médica se inclinou.
Verificou.
Seu rosto mudou imediatamente.
"Para o hospital agora."
O motorista acelerou.
Eu agarrei a barra com as duas mãos.
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"Está doendo."
"Eu sei."
"Tem alguma coisa acontecendo."
"Eu sei."
A médica olhou para a colega.
Depois para mim.
E gritou:
"O bebê está vindo agora!"
PARTE 8
Sofia
A ambulância atravessou São Paulo com a sirene aberta enquanto eu tentava entender se ainda estava dentro do meu próprio corpo.
Tudo doía.
Minhas costas.
Minha barriga.
Meu joelho.
Até respirar parecia exigir esforço.
A médica mantinha uma das mãos sobre meu abdômen e falava com a equipe pelo rádio.
"Trinta e nove semanas. Trabalho de parto avançado. Contrações a menos de dois minutos."
Fechei os olhos.
Sofia estava chegando.
Depois de tudo.
Depois do estacionamento.
Depois de Eduardo.
Depois de Vanessa.
Minha filha ainda estava chegando.
"Helena, olha para mim."
Abri os olhos.
A paramédica segurava meu braço.
"Você consegue me ouvir?"
"Consigo."
"Não força ainda."
"Eu não estou escolhendo."
"Eu sei."
Outra contração me atravessou.
Gritei.
Não consegui evitar.
Minha mão procurou alguma coisa para segurar e encontrou o lençol.
Por um segundo, a imagem do estacionamento voltou inteira.
A poça preta.
O salto vermelho.
O rosto de Vanessa.
A frase.
"Tenha esse bastardo aqui mesmo."
Abri os olhos com força.
"Não."
A paramédica se inclinou.
"Não o quê?"
"Ela não vai nascer lá."
"Ninguém vai deixar."
"Promete?"
"Prometo."
Eu sabia que era uma frase simples.
Mas naquele momento precisei acreditar.
A ambulância fez uma curva.
Ouvi uma buzina.
Depois outra.
A médica olhou para o relógio.
"Estamos perto."
"Quanto?"
"Poucos minutos."
Poucos minutos pareciam uma vida inteira.
Outra contração.
Mais forte.
Minha garganta secou.
"Sofia."
A paramédica segurou minha mão.
"Fala com ela."
"Filha, espera só mais um pouco."
Minha voz falhou.
"Por favor."
A paramédica sorriu.
"Ela está ouvindo."
Eu queria acreditar nisso também.
Quando as portas da ambulância se abriram, luzes claras me atingiram.
Hospital Santa Aurora.
Finalmente.
Enfermeiros puxaram a maca.
Tudo passou rápido.
Corredores.
Portas.
Vozes.
Perguntas.
"Nome completo?"
"Helena Duarte."
"Idade?"
"Trinta e oito."
"Primeira gestação?"
"Sim."
"Alguma condição de risco?"
"Não."
"Foi agredida?"
Abri os olhos.
A pergunta ficou no ar.
"Sim."
A enfermeira olhou para meu joelho.
"Quem?"
"Depois."
"Precisamos registrar."
"Depois."
Outra contração.
A enfermeira não insistiu.
"Leva para sala três."
Uma mulher de jaleco entrou logo depois.
Cabelo preso.
Máscara abaixada no queixo.
Olhos atentos.
"Helena?"
"Sim."
"Sou Camila Rocha. Obstetra de plantão."
"Meu médico..."
"Já foi avisado."
Ela tocou minha barriga.
"Eu vou cuidar de você até ele chegar."
Assenti.
Dra. Camila examinou rapidamente.
Seu rosto ficou sério.
"Está bem avançado."
"Quanto?"
"Mais do que eu gostaria para alguém que passou esse tempo fora do hospital."
A frase me cortou.
"Minha filha está bem?"
"Batimentos presentes."
"Bem?"
"Por enquanto, sim."
"Por enquanto?"
Ela respirou fundo.
"Helena, eu preciso que você confie em mim."
Quase ri.
A palavra confiança já parecia uma provocação.
Mesmo assim, assenti.
"Eu confio."
"Ótimo."
Dra. Camila chamou a equipe.
"Vamos preparar."
A sala se encheu de gente.
Eu procurei um rosto conhecido.
Nada.
Nenhum Eduardo.
Nenhuma Lívia.
Nenhum Gabriel.
Só profissionais.
E eu.
Era estranho.
Passei meses imaginando Eduardo ao meu lado.
Segurando minha mão.
Fazendo piada para esconder o nervosismo.
Talvez chorando antes de mim.
Agora eu mal queria ouvir o nome dele.
Uma enfermeira perguntou:
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