"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 7
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Olhei nos olhos dele.
Era isso que tornava tudo tão difícil.
Eduardo mentia bem porque parte dele parecia acreditar no que dizia no momento em que dizia.
"Promete?"
Ele nem hesitou.
"Prometo."
Sorri.
"Então está bem."
À noite, ele preparou jantar.
Macarrão.
Molho simples.
Uma salada que eu quase não toquei.
Eduardo falava sobre problemas da empresa como se nada estivesse acontecendo.
"Marcelo está estranho."
Meu garfo parou por um segundo.
"Marcelo?"
"Distraído."
"Ele sempre foi ansioso."
"Agora está pior."
"Talvez esteja cansado."
Eduardo me observou.
"Você falou com ele?"
Meu coração acelerou.
"Por que eu falaria?"
"Não sei."
"Você acabou de dizer que ele está estranho."
"Helena."
"Eduardo."
Por um instante, ficamos olhando um para o outro.
A tensão apareceu e sumiu.
Ele voltou a comer.
"Esquece."
"Você está paranoico."
"Pode ser."
"Empresa faz isso."
"Você saberia."
Aquilo foi provocação.
Sutil.
"Eu saberia."
Ele levantou a taça.
"À aposentadoria corporativa."
Eu ergui meu copo de água.
"À sobrevivência."
Eduardo sorriu.
Não percebeu o peso da palavra.
Eu percebi.
Naquela mesma noite, recebi uma mensagem de Lívia.
"Precisamos conversar amanhã."
Não respondi de imediato.
Eduardo estava ao meu lado no sofá.
Assistia a alguma coisa no celular.
Esperei ele ir tomar banho.
Depois escrevi.
"É sobre Paris?"
A resposta veio rápido.
"É pior."
No dia seguinte, encontrei Lívia e Gabriel num escritório emprestado na Avenida Paulista.
Gabriel espalhou documentos sobre a mesa.
"O dinheiro está se movendo."
"Quanto?"
"Mais do que antes."
"Para onde?"
"Contas concentradoras."
Lívia abriu uma planilha.
"Eduardo está reduzindo a dispersão."
Olhei os números.
"Oito empresas."
"Agora quatro."
"Depois?"
"Provavelmente duas ou três contas principais."
Gabriel apontou.
"Isso facilita uma saída rápida."
Meu estômago apertou.
"Então congelamos agora."
Lívia balançou a cabeça.
"Não."
"Por quê?"
"Porque ainda tem dinheiro fora."
"Mas já temos prova."
"Temos prova de movimentação suspeita."
"R$ 46,8 milhões não é suspeita pequena."
"Não é questão de tamanho."
Gabriel entrou.
"É questão de alcance."
Olhei para ele.
"Explica."
"Se bloquearmos tudo hoje, Eduardo percebe em minutos."
"Ótimo."
"Não."
"Por quê?"
"Porque ele ainda controla rotas que não conhecemos."
"Então ele pode fugir com o resto."
"Exatamente."
Sentei devagar.
Minha barriga estava maior a cada semana.
Tudo ficava mais pesado.
Inclusive o medo.
"Quanto ainda está fora?"
Gabriel respondeu.
"Não sabemos."
"Isso não me ajuda."
"Eu sei."
Lívia puxou uma pasta.
"Mas temos uma alternativa."
Abriu o documento.
Na primeira página havia um acordo de recuperação emergencial.
"Como funciona?"
"Os investidores e a seguradora reconhecem formalmente que determinados valores podem ser patrimônio corporativo desviado."
"Isso já está assinado?"
"Alguns reconhecimentos, sim."
"Todos?"
"Ainda não."
"Quanto tempo?"
"Pouco."
Gabriel continuou.
"Quando Eduardo concentrar os recursos em contas cobertas pelo acordo e tentar fazer uma transferência internacional sem autorização compatível, o mecanismo pode ser acionado."
"Acionado como?"
Lívia apontou para o documento.
"Autorizações pré-assinadas."
"De quem?"
"Partes legitimadas."
"Para mover o dinheiro?"
"Para segregar o saldo recuperável."
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"Para onde?"
"Conta fiduciária."
"Em meu nome?"
"Não."
"Em nome da empresa?"
"Também não."
Gabriel respondeu.
"Custódia vinculada."
"Com você."
"Sim."
Fiquei em silêncio.
"Então, se funcionar, ninguém pode dizer que eu simplesmente peguei o dinheiro."
"Essa é a ideia", Lívia disse.
"Eu não quero o dinheiro."
"Eu sei."
"Quero devolver."
"Eu sei."
"Quero que fique limpo."
Lívia me olhou.
"Por isso estamos fazendo desse jeito."
Gabriel fechou a pasta.
"Mas tem uma condição."
"Qual?"
"Você precisa esperar."
Soltei uma risada sem humor.
"Essa palavra está começando a me irritar."
"Mesmo assim."
"Esperar o quê?"
"Eduardo mover o dinheiro."
"E se ele mudar o plano?"
"Então mudamos o nosso."
"E se ele perceber?"
"Por isso você não pode confrontar."
"Eu já não estou confrontando."
"Tem que continuar."
"Até quando?"
Gabriel me encarou.
"Até ele entrar na própria armadilha."
Eu queria odiar a resposta.
Não consegui.
Porque era exatamente isso.
Não bastava saber que Eduardo roubava.
Precisávamos deixar que ele provasse o que pretendia fazer com o dinheiro.
Naquela tarde, voltei para casa com a sensação de que estava carregando duas gestações.
Uma era Sofia.
A outra era uma guerra.
Eduardo chegou cedo de novo.
Dessa vez trouxe uma caixa pequena.
"Outra coisa?"
"Abre."
Era uma pulseira fina de ouro.
"Eduardo."
"Gostou?"
"É bonita."
"Para usar no hospital."
Olhei para ele.
"Você comprou joia para eu parir?"
Ele riu.
"Você consegue transformar tudo em interrogatório."
"Desculpa."
"Não precisa."
Ele colocou a pulseira no meu pulso.
Por um segundo, fiquei olhando.
Pensei nas contas.
Nos fornecedores falsos.
Em Vanessa.
Em Paris.
E naquela mão fechando um presente em volta do meu braço como se estivesse tentando encenar um casamento que já não existia.
"Ficou perfeita."
"Obrigada."
"Helena."
"Hum?"
"Depois que Sofia nascer, a gente devia viajar."
Quase engasguei.
"Viajar?"
"Quando der."
"Para onde?"
Ele deu de ombros.
"Algum lugar tranquilo."
"Paris?"
A palavra escapou antes que eu pudesse impedir.
Eduardo congelou.
Foi mínimo.
Mas aconteceu.
"Paris?"
"Você não gosta?"
"Gosto."
"Então."
Ele sorriu.
"Talvez."
"Talvez."
Fingi naturalidade.
Ele também.
Mas, naquela noite, Eduardo ficou mais atento ao celular.
Eu percebi.
Talvez tivesse achado a pergunta estranha.
Talvez não.
No dia seguinte, Gabriel me ligou.
"Não fala."
Fiquei em silêncio.
Ele continuou.
"Estou com eles."
"Quem?"
"Eduardo e Vanessa."
"Onde?"
"Restaurante no Itaim."
"Você está ouvindo?"
"Não."
"Então?"
"Ela está fazendo cena."
"Como sabe?"
"Porque metade do restaurante também sabe."
Quase sorri.
"Ele vai me mandar relatório."
"Não."
"Por quê?"
"Eu quero que você veja."
Mais tarde, Gabriel me enviou fotografias.
Vanessa gesticulando.
Eduardo olhando para o relógio.
Vanessa chorando.
Depois, uma foto dela apontando o dedo para ele.
Na legenda do relatório, Gabriel colocou apenas:
"Discussão intensa. Motivo aparentemente pessoal."
No dia seguinte, uma fonte do restaurante ajudou a preencher parte da conversa.
Vanessa tinha sido alta demais.
"Depois de Paris, você vai se divorciar dela."
A frase tinha sido ouvida.
Eduardo respondeu mais baixo.
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Mas uma segunda pessoa confirmou parte.
"Não agora."
Vanessa insistiu.
"Você prometeu."
Eduardo:
"Eu disse que vou resolver."
"Quando?"
"Depois que a criança nascer."
Vanessa:
"Você sempre diz depois."
Eduardo:
"Porque agora não é hora."
"Então quando?"
Foi a próxima frase que Gabriel conseguiu reconstruir com mais clareza.
"Depois que ela tiver o bebê, vai estar ocupada demais para se preocupar com qualquer coisa."
Quando li, precisei fechar os olhos.
Não por surpresa.
Por nojo.
Lívia estava sentada na minha frente.
"Você quer parar?"
"Não."
"Helena."
"Eu disse não."
"Isso é diferente de contrato."
"Eu sei."
"É pessoal."
"Eu também sei."
Gabriel me observava.
"Você ainda pode sair disso."
Olhei para ele.
"Como?"
"Deixa os advogados assumirem."
"E eu faço o quê?"
"Cuida de você."
"Enquanto ele foge?"
"Não."
"Enquanto Vanessa espera Paris?"
"Não."
"Enquanto milhões somem?"
Gabriel ficou em silêncio.
"Então não me manda sair."
Lívia tocou minha mão.
"Você está perto do parto."
"Exatamente."
"Isso devia importar mais."
"Importa."
Passei a mão na barriga.
"Só que agora eu sei que importa para eles também."
Gabriel franziu a testa.
"Como assim?"
"Eduardo está contando com isso."
"Com o parto?"
"Com o que vem depois."
Lívia percebeu.
"Ele acha que você vai estar distraída."
"Mais do que isso."
Eu me levantei.
"Ele acha que eu vou estar vulnerável."
Naquela noite, Eduardo chegou depois da meia-noite.
Fingi dormir.
Ele entrou no quarto devagar.
Tirou os sapatos.
Colocou o celular na mesa.
Deitou ao meu lado.
Minutos depois, a mão dele repousou na minha barriga.
"Sofia."
Fiquei imóvel.
"Não demora muito."
Quase abri os olhos.
Ele falava baixo.
Talvez acreditasse que eu dormia.
"Depois disso, tudo vai ficar mais simples."
Meu coração disparou.
Eduardo retirou a mão.
Pouco depois, dormiu.
Eu não dormi.
Na manhã seguinte, ele estava gentil.
Fez café.
Perguntou se eu queria ir à consulta acompanhada.
"Você não tem reunião?"
"Posso cancelar."
"Não precisa."
"Quero estar presente."
"Na próxima."
"Promete?"
"Prometo."
Ele me beijou.
Era um jogo cada vez mais cruel.
Quanto mais eu sabia, mais amor ele fingia.
Quanto mais ele fingia, mais fácil ficava para mim continuar fingindo também.
Os dias passaram.
Gabriel acompanhava os movimentos.
Mais dinheiro entrava nas contas concentradoras.
Lívia fechava as últimas autorizações.
A seguradora reconheceu parte dos valores.
Dois investidores assinaram.
Depois um terceiro.
O acordo ficou pronto.
Gabriel me mostrou o protocolo no relógio.
"É esse ícone."
Um símbolo prateado.
"Uma vez?"
"Uma vez."
"E se eu apertar cedo demais?"
"Pode comprometer tudo."
"Então só quando?"
"Quando eu confirmar que a última condição foi cumprida."
"Como?"
"O relógio vai receber o status."
"Autorizado."
"Isso."
Olhei para a tela.
Parecia ridículo que R$ 46,8 milhões, meses de investigação e meu casamento inteiro pudessem um dia depender de um toque.
"Não aperta por emoção."
"Não vou."
"Mesmo se ele te provocar."
"Não vou."
"Mesmo se Vanessa aparecer."
Olhei para Gabriel.
"Por que ela apareceria?"
Ele deu de ombros.
"Estou dizendo em tese."
Naquela noite, Eduardo recebeu uma ligação enquanto estávamos na sala.
Olhou para mim.
"É trabalho."
"Atende."
Ele se levantou.
Foi até o corredor.
Eu continuei sentada.
Ou fingi.
A voz dele ficou mais baixa.
Levantei.
Fui até a cozinha.
Não precisava ouvir.
Não queria ouvir.
Então ouvi meu nome.
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