"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 4
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Mas nunca corrigi.
Naquela terça-feira, eu só pretendia revisar um contrato simples.
Marcelo Tavares, diretor financeiro da VittaSul, tinha me enviado um arquivo porque havia uma cláusula de seguro mal redigida em um contrato de transporte refrigerado.
Era coisa de quinze minutos.
Talvez vinte.
Abri o documento depois do almoço.
A empresa contratada se chamava MedTrans Brasil Soluções Térmicas.
O nome não me chamou atenção.
O valor, sim.
R$ 680 mil por quatro meses de serviço.
Era alto.
Mas transporte médico refrigerado era caro.
Continuei lendo.
O problema apareceu no endereço.
Rua Doutor Américo Brasiliense, número 1764.
Parei.
Conhecia aquela região.
A VittaSul tinha usado um escritório temporário perto dali anos antes.
Abri o cadastro da empresa.
O endereço aparecia como sede administrativa.
Copiei.
Joguei no mapa.
A imagem carregou.
Não havia empresa de logística.
Não havia galpão.
Não havia frota.
Havia uma pequena sala comercial em um prédio antigo.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos.
Talvez fosse só escritório fiscal.
Acontecia.
Procurei o CNPJ.
A empresa tinha menos de um ano.
Capital social baixo.
Dois funcionários registrados.
Nenhum veículo em nome próprio.
E, mesmo assim, tinha recebido centenas de milhares de reais da VittaSul.
Senti Sofia se mexer.
Coloquei a mão na barriga.
"Calma, filha. A mamãe só está ficando curiosa."
Abri o sistema interno da empresa.
Eu ainda tinha acesso porque continuava acionista e consultora jurídica eventual.
Eduardo reclamava disso.
Dizia que era desnecessário.
Mas nunca conseguiu remover meus acessos sem passar pelo conselho.
Procurei MedTrans.
Vieram doze pagamentos.
Doze.
Não quatro.
O total ultrapassava R$ 2 milhões.
Meu corpo ficou imóvel.
Voltei para o contrato.
Depois para as notas fiscais.
Os serviços descritos eram vagos.
"Consultoria de malha térmica."
"Apoio estratégico de distribuição."
"Intermediação logística."
Expressões bonitas.
Nenhuma entregava nada concreto.
Abri outro pagamento aleatoriamente.
A empresa beneficiária tinha outro nome.
Prime Health Operações.
Outro endereço estranho.
Outro capital social baixo.
Outro contrato milionário.
Foi assim que começou.
Não com perfume.
Não com mensagem de amante.
Com um endereço.
Passei as três horas seguintes cruzando dados.
A cada nova busca, aparecia outra empresa.
Oito no total.
Todas relativamente novas.
Todas prestando serviços difíceis de medir.
Todas recebendo valores elevados.
E todas com padrões de pagamento parecidos.
Datas próximas.
Valores quebrados em parcelas.
Aprovações sempre fora do horário comercial.
Em alguns casos, às duas da manhã.
Meu estômago começou a apertar.
Não por causa da gravidez.
Por instinto.
Eu conhecia aquele desenho.
Empresas de fachada raramente começam parecendo criminosas.
Elas começam parecendo burocráticas.
Chatas.
Com nomes genéricos.
Contratos vagos.
Notas fiscais que ninguém quer ler.
Eu tinha passado anos ensinando clientes a procurar exatamente aquilo.
Agora estava vendo dentro da empresa que eu ajudara a construir.
Fechei o notebook.
Levantei.
Fui até a cozinha.
Bebi água.
Voltei.
Abri de novo.
Eu queria estar errada.
Era isso.
Eu queria encontrar uma explicação estúpida.
Uma reestruturação contábil.
Um contrato emergencial.
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Algum erro de Marcelo.
Qualquer coisa.
Então encontrei a primeira assinatura.
Aprovação executiva.
Eduardo Duarte.
Fiquei olhando para o nome.
Podia ser sistema automatizado.
Podia ser delegação.
Abri os registros.
A autenticação tinha sido feita com credencial exclusiva.
Token pessoal.
Dupla validação.
Não era automático.
Voltei para outra nota.
Eduardo.
Outra.
Eduardo.
Outra.
Eduardo.
Minha mão esfriou sobre o mouse.
Ainda assim, eu não aceitei imediatamente.
Conhecia meu marido havia doze anos.
Eu tinha visto Eduardo dormir no chão de um escritório quando a VittaSul quase faliu no segundo ano.
Tinha visto ele vender o próprio carro para pagar salário.
Tinha visto chorar quando conseguimos o primeiro grande contrato com uma rede hospitalar.
A empresa não era só dinheiro.
Era parte da nossa vida.
Roubar da VittaSul era roubar de investidores, funcionários, hospitais.
E de mim.
"Não."
Falei sozinha.
Fechei a tela.
Era cedo demais.
Eu precisava de fatos.
Naquela noite, Eduardo chegou às onze e vinte.
Eu estava na sala.
Ele entrou falando ao telefone.
"Não, Vanessa, deixa isso para amanhã."
Meu olhar subiu.
Ele me viu.
Virou o rosto.
"Depois eu te ligo."
Desligou.
"Você ainda está acordada?"
"Estava esperando."
Ele tirou o paletó.
O perfume veio antes dele se aproximar.
Doce.
Floral.
Feminino.
O mesmo cheiro que eu já tinha percebido duas vezes naquela semana.
"Reunião longa?"
"Terrível."
Ele afrouxou a gravata.
"Vanessa não para."
"Imagino."
Eduardo não percebeu nada na minha voz.
Talvez porque já tivesse parado de me ouvir havia muito tempo.
Sentou ao meu lado.
Beijou minha testa.
"Como está a Sofia?"
"Ativa."
Ele colocou a mão na minha barriga.
Por alguns segundos, fomos uma família.
Quase perfeita.
Eu olhei para o rosto dele.
Queria perguntar.
Queria dizer que tinha encontrado as empresas.
Queria perguntar por que seu nome estava nas autorizações.
Queria perguntar por que o perfume de Vanessa estava na gola da camisa.
Não perguntei nada.
"Você jantou?", ele disse.
"Já."
"Eu comi na reunião."
"Com Vanessa?"
Ele levantou os olhos.
Foi mínimo.
Quase nada.
"Com todo mundo."
Sorri.
"Claro."
Naquela noite, ele dormiu ao meu lado.
Eu fiquei acordada.
Às duas e treze da manhã, o celular dele vibrou.
Eduardo não acordou.
A tela acendeu sobre o criado-mudo.
Uma mensagem.
Vanessa.
Eu não toquei.
Só li o que apareceu na prévia.
"Chegou bem?"
Três palavras.
Nada incriminador.
Nada romântico.
Nada que uma consultora não pudesse perguntar.
Mesmo assim, fiquei olhando para o telefone até a tela apagar.
Na manhã seguinte, fui mais fundo.
Somei os pagamentos.
R$ 46,8 milhões.
Quarenta e seis milhões e oitocentos mil reais.
Parei de respirar por um instante.
Abri uma planilha nova.
Listei empresa por empresa.
Data por data.
Valor por valor.
Depois encontrei algo pior.
Três fornecedores tinham contas bancárias que recebiam transferências e, poucas horas depois, enviavam dinheiro para outras empresas.
Uma delas estava ligada a um escritório contábil em Alphaville.
Outra fazia transferências para uma instituição financeira em Luxemburgo.
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Meu coração disparou.
Aquilo já não parecia desorganização.
Parecia estrutura.
Imprimi tudo.
Depois destruí as folhas.
Não podia deixar documentos espalhados em casa.
Passei o resto do dia fingindo normalidade.
À noite, Eduardo chegou com flores.
"Para você."
Olhei para o buquê.
"Lírios?"
"Você gosta."
Eu não gostava.
Vanessa gostava.
Eu sabia porque ela tinha colocado uma foto com lírios no escritório meses antes.
"Obrigada."
Peguei as flores.
Eduardo sorriu.
"Amanhã tenho reunião cedo."
"Com quem?"
"Planejamento estratégico."
"Vanessa?"
Ele suspirou.
"Helena."
"O quê?"
"Você está diferente."
Meu corpo inteiro ficou alerta.
"Estou grávida de seis meses."
"Não é isso."
Ele me estudou.
"Você anda perguntando demais."
Sorri.
"Desculpa."
Eduardo relaxou.
Foi quase insultante como relaxou rápido.
"É hormônio."
"Deve ser."
Ele beijou minha testa.
Na manhã seguinte, fiz o que não queria fazer.
Pesquisei Vanessa.
Não como esposa.
Como advogada.
Histórico profissional.
Empresas anteriores.
Sociedades.
Processos.
Participações.
Nada absurdo.
Nada que explicasse R$ 46,8 milhões.
Mas encontrei viagens.
Fotos.
Eventos.
Conferências.
Em uma publicação de seis meses antes, Vanessa estava em Paris.
Legenda discreta.
Reuniões estratégicas.
Na mesma semana, Eduardo tinha me dito que estava em Madri.
Fechei a foto.
Abri o histórico de reservas compartilhadas da família.
Eu nunca usava.
Eduardo também provavelmente tinha esquecido que aquele acesso existia.
Havia uma reserva antiga cancelada.
Hotel em Paris.
Dois hóspedes.
O nome dele.
E um segundo nome oculto nos detalhes iniciais.
Cliquei.
Vanessa Albuquerque.
Meu coração bateu tão forte que precisei me sentar.
Sofia se mexeu.
Levei a mão à barriga.
"Está tudo bem."
Não estava.
Pela primeira vez, as duas coisas se tocaram.
O dinheiro.
A mulher.
Até então, eu ainda conseguia imaginar crimes separados.
Talvez Eduardo escondesse alguma manobra financeira.
Talvez tivesse uma amante.
Mas, se Vanessa estava nas viagens ligadas aos períodos das transferências, havia uma chance real de ela fazer parte dos dois lados.
Naquela tarde, liguei para Lívia Sampaio.
Não falávamos de verdade havia quase um ano.
Tínhamos estudado juntas.
Ela tinha ido para contencioso empresarial.
Eu para compliance.
Atendeu no terceiro toque.
"Helena?"
"Lívia."
"Meu Deus. Quanto tempo."
"Eu preciso de você."
O tom dela mudou imediatamente.
"É sério?"
"Sim."
"Você está bem?"
Olhei pela janela.
Eduardo tinha acabado de mandar uma mensagem.
"Vou chegar tarde. Reunião com Vanessa."
"Fisicamente, sim."
"Então vem para o escritório."
"Não posso."
"Por quê?"
"Porque não quero que ninguém saiba que falei com você."
Silêncio.
Depois:
"Me encontra amanhã."
"Eu estou grávida."
"Eu sei. Você posta pouco, mas ainda tenho Instagram."
Quase ri.
"Onde?"
"Paulista. Um café dentro de uma livraria. Meio-dia."
"Fechado."
No dia seguinte, cheguei primeiro.
Lívia entrou poucos minutos depois.
Cabelo preso.
Terno cinza.
A mesma expressão de quem sempre desconfiava de tudo.
Ela sentou.
Olhou para minha barriga.
Depois para meu rosto.
"Você está péssima."
"Obrigada."
"De nada."
Empurrei um pen drive pela mesa.
"Olha."
Ela abriu o notebook.
Ficou vinte minutos sem falar.
Eu observei cada mudança no rosto dela.
A curiosidade.
A concentração.
Depois a preocupação.
Quando terminou, fechou o computador.
"Quem mais sabe?"
"Ninguém."
"Eduardo?"
"Não."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Vanessa?"
"Não."
Lívia cruzou os braços.
"Você quer denunciar agora?"
"Não."
"Quer confrontar ele?"
"Não."
Ela me encarou.
"Então o que você quer?"
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