"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 2
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Eu também ria.
Durante anos, deixei que ele contasse aquela versão.
Vanessa tocou minha bolsa do hospital com a ponta do sapato.
"Enquanto você brincava de esposa perfeita, nós construíamos uma vida."
Abri os olhos.
"Nós?"
Ela sorriu.
Foi a confirmação.
Não uma mensagem encontrada.
Não uma fotografia.
Não um perfume.
A própria mulher estava me dizendo.
"Há quanto tempo?"
Vanessa pareceu saborear a pergunta.
"Você realmente quer saber?"
"Há quanto tempo?"
"Tempo suficiente."
"Seis meses?"
Ela riu.
"Mais."
Aquilo deveria ter me destruído.
Talvez fosse exatamente o que ela esperava.
Mas eu só senti uma peça se encaixar.
Vanessa franziu a testa.
"Você não vai chorar?"
"Isso faria diferença?"
"Para mim, faria."
A honestidade daquela resposta era quase monstruosa.
Gabriel começou a se levantar.
"Vanessa."
Ela virou-se rapidamente.
"Como você sabe meu nome?"
Silêncio.
Gabriel percebeu o erro.
Vanessa também.
"Eu não disse meu sobrenome. Ela também não."
Gabriel limpou o sangue da boca.
"Você é conhecida."
"Por um homem que dorme em estacionamento?"
Ela se aproximou dele.
Eu precisava impedir aquilo.
"Vanessa."
Ela parou.
"Eduardo vai mesmo embora com você?"
A pergunta funcionou.
Vanessa voltou a atenção para mim.
"Agora você quer saber."
"Responde."
Ela sorriu.
"Paris."
A palavra ecoou dentro de mim.
"Paris?"
"Esta noite."
"Você está mentindo."
"Primeira classe."
Ela retirou o celular da bolsa e mostrou rapidamente a tela.
Vi uma reserva.
Dois nomes.
Eduardo Duarte.
Vanessa Albuquerque.
São Paulo.
Paris.
Naquela noite.
"Enquanto você estiver no hospital aprendendo a trocar fraldas, nós estaremos tomando champanhe sobre o Atlântico."
"Ele não pode simplesmente desaparecer."
"Pode."
"Ele tem uma empresa."
"Não por muito tempo."
Vanessa percebeu tarde demais o que tinha dito.
Meu olhar se fixou nela.
"Como assim?"
"Esquece."
"Não. Você disse que ele não teria a empresa por muito tempo."
Ela se aproximou novamente.
"Você realmente acha que ainda importa?"
Importava.
Mais do que ela podia imaginar.
Três meses antes, eu tinha encontrado o primeiro pagamento.
R$ 680 mil para uma empresa que supostamente prestava serviços de transporte refrigerado à VittaSul.
A empresa não tinha caminhões.
Depois encontrei outra.
E outra.
Oito fornecedores falsos.
Quarenta e três notas fiscais alteradas.
Quando terminei a primeira análise, R$ 46,8 milhões tinham passado por empresas que não deveriam existir.
Todas as trilhas levavam ao mesmo homem.
Meu marido.
Eu não confrontei Eduardo.
Não chorei.
Não ameacei divórcio.
Contratei advogados.
E contratei um investigador.
Vanessa não sabia disso.
Também não sabia que o homem que ela acabara de chutar não morava naquele estacionamento.
Gabriel Nogueira tinha passado anos investigando crimes financeiros antes de abrir sua própria empresa de investigação.
Naquela noite, o casaco velho, a barba descuidada e as roupas sujas eram apenas parte de uma função muito específica.
Ele era também o custodiante indicado no acordo emergencial que meus advogados haviam preparado.
Vanessa olhava para mim como se eu fosse uma mulher abandonada.
Era exatamente assim que eu precisava que continuasse me vendo.
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"Ele disse que você não teria coragem de lutar", ela falou.
"Ele disse isso?"
"Disse."
"Quando?"
"Ontem."
Senti Sofia se mexer.
Meu coração apertou.
Vanessa se inclinou.
"Ele sabe que você vai ficar ocupada demais com o bebê."
Aquilo me atingiu de um jeito diferente.
Não pela crueldade.
Pela confirmação.
"Foi isso que ele disse?"
"Quase palavra por palavra."
Minha respiração desacelerou.
Vanessa interpretou meu silêncio como derrota.
Então colocou o salto vermelho sobre meu joelho.
A pressão veio devagar.
"Vanessa."
"Finalmente com medo?"
Ela pressionou mais.
A dor explodiu pela minha perna.
Gabriel avançou.
"Afasta o pé dela."
"Fica onde está."
"Isso é agressão."
"Vai chamar quem?"
Vanessa se abaixou até o rosto ficar a poucos centímetros do meu.
O perfume de Eduardo estava ali.
Ou talvez eu devesse dizer que o perfume dela estivera nele o tempo inteiro.
"Tenha esse bastardo aqui mesmo."
Meu corpo ficou imóvel.
Vanessa sorriu.
"No chão. No meio do óleo."
A ponta do salto pressionou outra vez meu joelho.
"Eduardo e eu vamos para Paris esta noite."
Então ela cuspiu no meu rosto.
Por um segundo, imaginei minhas unhas atravessando aquela maquiagem perfeita.
Imaginei puxando o cabelo dela.
Imaginei gritando.
Não fiz nada disso.
Fiquei muito quieta.
Eduardo sempre dizia que meu silêncio era fraqueza.
Nunca entendeu que eu ficava em silêncio quando já tinha tomado uma decisão.
Passei o polegar pela minha bochecha e limpei a saliva.
Vanessa me observava.
"Acabou, Helena."
Olhei para ela.
"Tem certeza?"
O sorriso diminuiu.
"Do quê?"
"De que acabou."
Ela soltou uma risada.
Então baixei os olhos para meu pulso.
A tela do relógio inteligente havia acendido.
Um pequeno ícone prateado estava disponível.
Eu esperava por aquilo havia semanas.
Os R$ 46,8 milhões não estavam todos no mesmo lugar. Eduardo havia usado empresas de fachada, cartões pré-pagos, contas intermediárias e estruturas no exterior.
Meus advogados não podiam simplesmente tomar dinheiro porque eu dizia que tinha sido roubado.
Precisávamos de documentação.
Autorizações.
Reconhecimento formal de que os valores estavam sob disputa.
E, acima de tudo, precisávamos que Eduardo fizesse a última movimentação.
Ele tinha acabado de fazer.
Naquela noite, convencido de que estava fugindo, Eduardo colocou a própria mão dentro da armadilha.
Levantei o pulso.
Vanessa olhou para o relógio.
"O que você está fazendo?"
Não respondi.
Pressionei o ícone prateado.
Uma vez.
A tela vibrou.
Em algum lugar de São Paulo, uma sequência de autorizações pré-assinadas começou a ser executada.
Ordens de transferência doméstica foram acionadas.
Pedidos internacionais entraram em bloqueio por suspeita de fraude.
Valores recuperáveis começaram a ser direcionados para uma conta fiduciária sob custódia até decisão judicial.
Nada daquilo aparecia no estacionamento.
Não houve sirene.
Nenhuma luz piscou.
Nenhum alarme tocou.
Vanessa olhou ao redor e começou a rir.
"Era isso?"
A contração seguinte começou.
Apoiei a cabeça contra a coluna de concreto e respirei.
Quatro segundos.
Seis segundos.
Como Gabriel havia ensinado.
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Vanessa apontou para meu relógio.
"Vai chamar uma ambulância?"
Levantei os olhos para ela.
"Não."
Na outra ponta de São Paulo, o primeiro pedido de transferência acabava de ser autenticado.
E, poucos segundos depois, o celular de Vanessa começou a tocar.
PARTE 2
A Ligação
O celular de Vanessa começou a tocar antes que a contração terminasse.
Ela olhou para a tela e sorriu.
"Eduardo."
O jeito como disse o nome dele foi deliberado.
Como se quisesse ter certeza de que eu entendesse quem ligava para quem naquela noite.
Vanessa passou o polegar pela tela, mas não atendeu imediatamente.
Primeiro olhou para mim.
Depois para Gabriel, ainda apoiado no carro.
Então inclinou a cabeça.
"Acho que ele quer se despedir."
Eu não respondi.
Minha mão continuava agarrada à alça da bolsa do hospital.
A dor diminuía aos poucos, deixando para trás um peso profundo nas costas e um suor frio escorrendo pela minha nuca.
Vanessa colocou a ligação no viva-voz.
"Oi, amor."
A resposta veio como um grito.
"O que você fez?"
O sorriso dela desapareceu.
"Como assim?"
"O cartão foi recusado."
"Qual cartão?"
"O de Paris."
Vanessa ficou imóvel.
Eduardo continuou falando rápido demais.
"Eu tentei pagar a taxa da aeronave. Recusado. Tentei o cartão corporativo. Bloqueado. A conta de reserva não responde."
Ela olhou para mim.
Eu mantive os olhos fechados.
"Eduardo, calma."
"Calma?"
O som de uma buzina atravessou o telefone.
Ele provavelmente ainda estava dentro do carro.
"Eu acabei de receber três alertas do banco. A transferência internacional foi colocada em análise. A conta de Luxemburgo também entrou em restrição."
Vanessa apertou o celular com mais força.
"Isso não faz sentido."
"Eu sei que não faz sentido."
"Você movimentou o dinheiro hoje?"
Silêncio.
Foi curto.
Mas suficiente.
Vanessa percebeu.
Eu também.
"Eduardo?"
"Não fala disso no telefone."
O rosto dela mudou.
Pela primeira vez desde que tinha entrado naquele estacionamento, Vanessa pareceu menos cruel do que assustada.
Ela virou lentamente em minha direção.
O olhar desceu até meu relógio.
"Você fez alguma coisa."
Abri os olhos.
"Fiz."
Vanessa deu um passo.
"O quê?"
"Você vai descobrir."
Ela riu, mas o som saiu seco.
"Não brinca comigo."
"Eu não estou brincando."
Vanessa abaixou o telefone.
"Eduardo, ela está dizendo que fez alguma coisa."
Do outro lado, o silêncio foi ainda pior.
Então ele perguntou:
"Ela quem?"
Vanessa olhou para mim.
"Helena."
A respiração de Eduardo mudou.
"Você está com ela?"
"Estou."
"Onde?"
Vanessa pareceu confusa.
"No estacionamento."
"Que estacionamento?"
Ela ficou parada por um segundo.
"Eduardo, do que você está falando?"
Meu peito apertou.
Havia algo estranho ali.
Vanessa tinha vindo preparada para me encontrar.
Mas Eduardo parecia não querer dizer certas coisas nem para ela.
Talvez ele soubesse menos sobre o que Vanessa faria.
Talvez ela soubesse menos sobre o que ele faria.
Ou talvez ambos estivessem mentindo até entre si.
Eu não precisava decidir isso ainda.
Só precisava ouvir.
Vanessa elevou a voz.
"O estacionamento onde você deixou sua esposa."
"Baixa a voz."
"Você me mandou vir até aqui."
"Eu mandei você confirmar que ela tinha chegado."
"Ela está em trabalho de parto."
Outra pausa.
Longa demais.
Vanessa olhou para o telefone.
"Eduardo?"
"Eu sei."
Aquelas duas palavras atravessaram o estacionamento.
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