"Ele Me Abandonou em Trabalho de Parto" Capítulo 1
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PARTE 1
O Salto Vermelho
A segunda contração me derrubou de joelhos no chão imundo do estacionamento antes que eu conseguisse ligar para Eduardo pela oitava vez.
A dor começou nas costas, apertou minha cintura e atravessou meu ventre com uma violência tão brutal que, por alguns segundos, eu não consegui respirar. Minha mão escorregou pela lateral de um carro coberto de poeira, e meu joelho caiu a poucos centímetros de uma poça escura onde água da chuva se misturava com óleo de motor.
Eu estava com trinta e nove semanas de gravidez.
E meu marido tinha desaparecido.
"Eduardo!"
Minha voz bateu nas colunas de concreto e voltou para mim em ecos cada vez mais fracos.
Nenhuma resposta.
Olhei para o celular outra vez.
Oito chamadas.
Quatro mensagens.
Nenhuma resposta.
A última mensagem dele continuava aberta na tela.
"Estou esperando você na entrada do estacionamento do hospital. Vem pela lateral. É mais rápido."
Eu tinha seguido exatamente aquela orientação.
Saí do carro de aplicativo na rua lateral, atravessei a pequena passagem indicada por Eduardo e entrei naquele estacionamento acreditando que encontraria meu marido esperando por mim.
Mas não havia Eduardo.
Não havia segurança.
Não havia funcionários.
Na verdade, quase não havia ninguém.
Parte do prédio comercial ao lado do hospital estava desativada havia meses. Alguns corredores do estacionamento ainda eram usados durante o dia, mas aquele setor inferior estava praticamente abandonado.
Uma lâmpada fluorescente piscava sobre minha cabeça.
O cheiro de concreto úmido, gasolina velha e lixo me embrulhava o estômago.
"Sofia, fica comigo", murmurei, levando as duas mãos à barriga.
Minha filha se mexeu.
Ou talvez fosse outra contração começando.
Eu não sabia mais.
A bolsa do hospital estava caída ao meu lado. Dentro dela havia uma manta branca, três bodies que minha mãe tinha escolhido, documentos, fraldas, uma pequena touca cor-de-rosa e a primeira roupa que Sofia usaria quando saíssemos do hospital.
Eu tinha imaginado aquele momento centenas de vezes.
Eduardo segurando minha mão.
Uma enfermeira sorrindo.
Luzes claras.
Lençóis limpos.
O primeiro choro da nossa filha.
Não aquele chão.
Não aquela poça de óleo.
Não aquele silêncio.
Peguei o celular novamente.
A ligação caiu direto na caixa postal.
Foi então que alguma coisa dentro de mim mudou.
Não foi medo.
Ainda não.
Foi uma certeza pequena e gelada.
Eduardo não estava atrasado.
Ele não tinha se perdido.
Não estava procurando uma cadeira de rodas.
Meu marido sabia exatamente onde eu estava.
E, por algum motivo que eu ainda não queria admitir, tinha me deixado ali.
A contração seguinte veio antes que eu pudesse terminar esse pensamento.
Soltei um grito.
Meu corpo se curvou sobre a barriga e apertei a alça da bolsa com tanta força que meus dedos ficaram brancos.
"Socorro!"
Dessa vez, ouvi movimento.
Passos.
Meu coração disparou.
"Por favor!"
Uma figura surgiu atrás de uma coluna.
Era um homem.
Alto, barba grisalha, cabelo desarrumado, um casaco marrom manchado e sapatos tão gastos que pareciam ter atravessado metade de São Paulo a pé.
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Meu primeiro impulso foi recuar.
Ele percebeu.
Parou imediatamente.
"Eu não vou encostar em você."
Sua voz era baixa e estranhamente calma.
"Estou grávida."
Ele olhou para minha barriga e quase sorriu.
"Essa parte eu percebi."
Outra onda de dor atravessou meu corpo.
Fechei os olhos.
"Meu marido... ele deveria estar aqui."
"Primeiro respira."
"Eu preciso chegar ao hospital."
"Eu sei. Mas primeiro você precisa respirar."
Ele se agachou a alguns metros de mim e deixou as mãos abertas, onde eu pudesse vê-las.
"Puxa o ar por quatro segundos."
Tentei.
"Um, dois, três, quatro."
Minha respiração tremia.
"Agora solta devagar. Seis segundos."
Fiz o que ele mandou.
"De novo."
A dor não desapareceu, mas deixou de parecer que meu corpo estava sendo partido ao meio.
"Isso", ele disse. "Olha para mim. Não para o chão."
Abri os olhos.
Havia algo estranho naquele homem.
As roupas diziam uma coisa.
Os olhos diziam outra.
Ele estava atento demais.
Calmo demais.
"Como você se chama?", perguntei.
"Gabriel."
Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, outro som atravessou o estacionamento.
Tac.
Tac.
Tac.
Gabriel virou a cabeça.
Eu também.
Tac.
Tac.
Tac.
Não eram sapatos de um médico.
Nem as botas pesadas de um segurança.
Eram saltos.
Uma mulher apareceu lentamente entre duas colunas.
Primeiro vi os sapatos.
Vermelhos.
Depois as pernas.
Um vestido claro, um sobretudo elegante sobre os ombros e uma bolsa que provavelmente custava mais do que o salário mensal de muita gente.
Então senti o perfume.
Meu estômago se contraiu antes mesmo que eu visse completamente o rosto dela.
Eu conhecia aquele cheiro.
Havia seis meses que ele aparecia nas camisas de Eduardo.
Às vezes fraco.
Às vezes quase imperceptível.
Uma vez, tão forte que eu tinha perguntado se alguém havia derramado perfume nele durante uma reunião.
Eduardo riu.
"Você anda vendo novela demais, Helena."
Agora a mulher que usava aquele perfume estava diante de mim.
Vanessa Albuquerque.
Consultora executiva da VittaSul Logística Médica.
A mulher que aparecia em reuniões importantes.
A mulher que ligava para Eduardo depois das dez da noite.
A mulher que ele sempre descrevia como "indispensável para a nova fase da empresa".
Ela olhou para mim no chão.
Depois olhou para Gabriel.
E sorriu.
"Então você chegou."
Meu sangue gelou.
Não havia surpresa na voz dela.
"Vanessa?"
Ela inclinou levemente a cabeça.
"Helena."
Gabriel se levantou.
"Ela está em trabalho de parto. Precisamos chamar uma ambulância."
Vanessa ergueu uma das mãos.
"Não toque nela."
Gabriel franziu a testa.
"Desculpa?"
"Você ouviu."
Olhei de um para o outro.
"Vanessa, onde está Eduardo?"
Ela ignorou minha pergunta.
"Quem é você?", perguntou a Gabriel.
"Isso não importa."
"Importa para mim."
"Ela precisa de atendimento."
"Eu disse para não tocar nela."
Gabriel deu um passo.
Vanessa se colocou entre nós.
Foi nesse momento que entendi.
Ela não estava ali por acaso.
Não tinha vindo ajudar.
"Você sabe onde ele está."
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Vanessa finalmente olhou para mim.
"Claro que sei."
Meu coração começou a bater tão forte que eu podia senti-lo na garganta.
"Então liga para ele."
Ela riu.
Não uma gargalhada.
Um riso curto, quase decepcionado.
"Você ainda não entendeu?"
Aquela pergunta doeu mais do que eu esperava.
Gabriel olhou para mim.
"Helena, não tenta levantar."
Mas eu tentei.
Apoiei a mão no carro e forcei as pernas.
"Eu quero saber onde está meu marido."
Vanessa cruzou os braços.
"Seu marido?"
A forma como repetiu aquelas palavras fez meu estômago virar.
"Eduardo", corrigi.
"Melhor."
"Cadê ele?"
Vanessa se aproximou.
Os saltos vermelhos pararam diante da poça de óleo.
"Resolvendo algumas coisas."
"Que coisas?"
"Coisas que já deveriam ter sido resolvidas há muito tempo."
Outra contração começou.
Dessa vez tentei não demonstrar.
Vanessa percebeu mesmo assim.
Ela observou meu rosto se contorcer e sorriu.
"Você sempre foi dramática."
Gabriel deu outro passo.
"Chega."
Vanessa virou-se para ele.
"Eu mandei você ficar longe dela."
"E eu estou dizendo que ela precisa de atendimento médico."
"Não é problema seu."
"Uma mulher em trabalho de parto no chão de um estacionamento é problema de qualquer pessoa com um mínimo de decência."
Por um instante, alguma coisa atravessou o rosto de Vanessa.
Raiva.
"Decência?"
Ela riu.
"Você nem sabe com quem está falando."
"Sei o suficiente."
Vanessa chegou mais perto dele.
"Some daqui."
Gabriel não se mexeu.
"Não."
Foi rápido.
Vanessa levantou a perna e acertou Gabriel com o salto e a lateral do pé.
Ele perdeu o equilíbrio e bateu contra um sedã estacionado.
O alarme do carro disparou.
"Para!"
Meu grito atravessou o estacionamento.
Gabriel caiu sobre um joelho.
Um fio de sangue apareceu no canto de sua boca.
Vanessa nem olhou para ele.
Veio até mim.
"Você deveria aprender a escolher melhor quem tenta salvar você."
"Você enlouqueceu?"
"Não, Helena."
Ela parou diante de mim.
"Eu só cansei."
"De quê?"
"De você."
Fiquei olhando para ela.
"Você nem me conhece."
Vanessa soltou uma risada.
"Eu conheço tudo sobre você."
Ela começou a andar lentamente ao meu redor.
"Sei que você toma café sem açúcar. Sei que dorme cedo. Sei que escolheu o nome Sofia no quarto mês. Sei que odeia dirigir na chuva."
Meu peito apertou.
"Sei que você ainda guarda contratos antigos no escritório de casa."
Meu olhar mudou.
Ela percebeu.
"Ah."
Vanessa sorriu.
"Finalmente acertei alguma coisa."
Gabriel ergueu a cabeça.
Eu não olhei para ele.
"Eduardo contou tudo isso?"
"Eduardo me contou coisas que nunca contou a você."
Outra contração me atingiu.
Dessa vez não consegui esconder.
Meu corpo dobrou.
Uma das mãos caiu no chão, diretamente sobre a água suja.
Respirei com dificuldade.
Vanessa se agachou diante de mim.
"Olha para você."
"Vai embora."
"Você passou anos fingindo que era melhor do que todo mundo."
"Eu nunca fiz isso."
"Não precisava. Essa sua calma fazia por você."
Ela se aproximou ainda mais.
"Eduardo dizia que você era a parte mansa do casamento."
Fechei os olhos.
Eu conhecia aquela frase.
Eduardo dizia isso em jantares.
"Helena é a parte tranquila da família."
Às vezes fazia os outros rirem dizendo que, depois do casamento, eu tinha abandonado o direito empresarial para "brincar com contratos em casa".
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