"O Último Tango em Lisboa" Capítulo 2
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O estilhaçar da janela da frente foi ensurdecedor, quebrando o silêncio tenso que pairava sobre a oficina de restauração no Bairro Alto. Cacos de vidro voaram em todas as direções, misturando-se à chuva pesada que invadia o ambiente escuro.
Matheus atravessou o caixilho quebrado em pleno voo, colidindo violentamente contra o assassino mascarado que espreitava nas sombras. Um baque seco de corpos chocando-se contra o assoalho de madeira ecoou pela sala, seguido pelo estampido abafado de uma arma com silenciador.
Uma bala perdida sibilou perigosamente perto do ouvido de Inês, cravando-se na estante de livros antigos ao fundo. Um filete de sangue quente começou a manchar a gola do sobretudo de Matheus, denunciando o impacto certeiro no ombro esquerdo.
"Fique abaixada, miúda!", rugiu Matheus com a voz grave e cortante, ignorando a dor lancinante que rasgava a sua carne. Com uma eficiência fria e implacável, ele imobilizou o sicário do sindicato com uma chave de braço brutal.
O assassino mascarado emitiu um gemido abafado de dor antes de ter o pulso estalado sob a pressão implacável de Matheus. Sem perder um segundo, Matheus desferiu um golpe certeiro com o punho na têmpora do homem, apagando-o instantaneamente.
Inês recuou rastejando pelo chão, com o coração a martelar descontroladamente contra as costelas, enquanto olhava para o intruso sangrando sobre os tapetes persas. "Quem é você? O que está acontecendo aqui?", gritou ela, a voz trêmula de pavor e incredulidade.
Matheus levantou-se com dificuldade, apoiando o peso do corpo na perna boa enquanto o sangue escorria abundantemente pelo seu braço esquerdo. Ele deu dois passos rápidos na direção de Inês, com o olhar âmbar brilhando na penumbra como o de um predador encurralado.
Antes que ela pudesse reagir, Matheus a derrubou com firmeza contra o assoalho, cobrindo-lhe a boca com a mão calejada para abafar qualquer grito. "Cale a boca se quiser continuar respirando, os outros já devem estar a caminho", sibilou ele junto ao ouvido dela.
O corpo de Matheus pressionava o dela contra o chão frio, a respiração dele pesada e quente misturando-se ao cheiro de pólvora e sangue fresco. Inês debateu-se por um instante, sentindo o terror puro paralisar os seus sentidos diante daquela intimidade violenta e repentina.
"Você tem exatamente sessenta segundos para decidir o seu destino", sussurrou Matheus, encostando a lâmina fria de uma faca tática contra o seu queixo. "Ou escolhe morrer aqui com uma faca na garganta, ou levanta-se agora mesmo e foge comigo para salvar a sua vida."
Inês olhou fundo nos olhos dele, procurando qualquer vestígio de hesitação ou mentira naqueles orbes âmbar assustadores. "Como é que eu sei que você não é apenas outro assassino querendo acabar o serviço?", desafiou ela, com a voz abafada pela mão dele.
"Se eu quisesse vê-la morta, você já estaria a fazer companhia ao velho Álvaro desde o momento em que entrei", retrucou Matheus com brutal franqueza. Ele retirou lentamente a mão da boca dela, mantendo a lâmina firme o suficiente para demonstrar que não aceitaria uma recusa.
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Inês ofegou, sentindo o ar voltar aos seus pulmões, mas percebeu que a sirene da polícia lá fora começava a soar mais perto. "Tudo bem... eu vou com você", murmurou ela, engolindo em seco o nó de pânico que apertava a sua garganta.
No exato momento em que Matheus recolheu a lâmina e estendeu a mão para ajudá-la a levantar, algo caiu do bolso interno do seu casaco ensanguentado. Um pequeno anel de prata com gravações gastas pelo tempo rolou pelo assoalho de madeira, parando exatamente aos pés de Inês.
Ela abaixou-se devagar, os dedos trêmulos tocando o metal frio e reconhecendo imediatamente o relevo daquela peça única. Era o anel de casamento que pertencia ao seu falecido pai, a mesma joia que desaparecera na noite trágica do incêndio.
"Onde... onde é que você arranjou isto?", perguntou Inês com a voz embargada, erguendo os olhos verdes marejados de lágrimas para encarar Matheus. O colar de mentiras em que ela acreditava havia desmoronado de vez, substituído por uma conexão dolorosa e inexplicável com aquele homem misterioso.
Matheus desviou o olhar por uma fração de segundo, o maxilar tenso denunciando o peso daquela revelação indesejada. "Eu disse-lhe que conhecia o seu passado muito melhor do que a senhora própria, miúda", respondeu ele com um sussurro áspero.
Novas sirenes de viaturas policiais ululavam ao longe, cortando a neblina densa da madrugada e aproximando-se rapidamente do Bairro Alto. O tempo havia esgotado, e o som de botas pesadas na escadaria do prédio indicava que a vizinhança ou a polícia já investigava o tumulto.
"Não temos mais nenhum segundo a perder, Inês", disse Matheus, agachando-se rapidamente para agarrar a cintura dela com o braço bom. Sem dar espaço para hesitações, ele içou o corpo de Inês sobre o seu ombro esquerdo como se ela não pesasse nada.
Inês emitiu um grito abafado de protesto, batendo com os punhos fechados contra as costas dele enquanto sentia o cheiro forte de sangue impregnado na roupa. "Ponha-me no chão, eu consigo andar sozinha!", exigiu ela, sentindo o estômago revirar com o movimento brusco.
"Guarde as suas forças para quando precisarmos de correr a pé, agora apenas segure-se a mim e fique em silêncio", ordenou Matheus com autoridade inegável. Ele deu meia-volta com passos largos e decididos, ignorando completamente a dor latejante no ombro ferido.
Avançando pela oficina escura, Matheus alcançou a porta dos fundos que dava para o beco estreito e sinuoso do Bairro Alto. Com um pontapé certeiro de sua bota pesada, ele estilhaçou a fechadura oxidada, abrindo uma rota de fuga para a noite chuvosa.
O vento gelado e a umidade da madrugada chicotearam o rosto de Inês no exato instante em que eles abandonaram o refúgio destruído. As sirenes da polícia uivavam alto na neblina espessa, refletindo luzes vermelhas e azuis nas paredes de pedra das casas antigas.
Matheus mergulhou na escuridão do labirinto de becos lisboetas, carregando Inês firmemente contra o seu corpo enquanto a chuva lavava o sangue que escorria pelo seu ombro. Eles desapareceram na neblina, deixando para trás apenas o eco de passos apressados e o início de uma caçada mortal.
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