"O Último Tango em Lisboa" Capítulo 1
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A chuva torrencial de Lisboa chicoteava as vidrarias do Bairro Alto, transformando as ruas de paralelepípedos em riachos escuros e reluzentes. Dentro da modesta oficina de restauração, o cheiro característico de couro envelhecido, cola de peixe e papel mofado misturava-se a um odor metálico e denso.
Inês empurrou a porta da frente com o ombro, sacudindo a umidade do casaco e segurando uma chávena de café morno. "Álvaro, se o senhor continuou a trabalhar com a luz apagada nesta escuridão toda, vai acabar estragando os olhos definitivamente", chamou ela, tateando a parede à procura do interruptor.
Nenhuma resposta veio do fundo do estúdio, apenas o som abafado das gotas de água batendo implacavelmente contra as telhas. A lâmpada fluorescente piscou duas vezes antes de estalar e banhar o espaço numa claridade fria e impiedosa.
Inês congelou no meio da sala, a chávena escorregando de seus dedos e espatifando-se contra o soalho de madeira. O café escuro espalhou-se rapidamente pelos pés de sua bota, mas ela não conseguia desviar os olhos da figura amarrada à cadeira de carvalho no centro da sala.
Era Álvaro, o seu velho mestre e mentor, mas a sua postura altiva e acolhedora havia sido substituída por uma rigidez macabra. O corpo idoso estava grotescamente inclinado para a frente, e as mãos calejadas de décadas de restauração tinham os dedos metodicamente mutilados.
"Não... por favor, não...", sussurrou Inês, sentindo o ar abandonar os seus pulmões em um grito mudo e sufocado. As lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos verdes, mas o terror paralisante impediu-a de correr para a porta.
Ela cambaleou para a frente, caindo de joelhos sobre os cacos de cerâmica e o café derramado, sem importar-se com a dor. Inês estendeu os braços trêmulos e acolheu as mãos frias e desfiguradas de seu querido mestre contra o próprio peito.
"Álvaro, quem fez isto com o senhor? Quem teve coragem?", soluçou ela, apertando os dedos mutilados enquanto o horror invadia cada fibra de seu ser. A constatação brutal de que o seu mundo seguro havia sido destruído para sempre rasgou o seu estômago.
Um estalido seco vindo do canto mais escuro do estúdio cortou o silêncio fúnebre da sala. O coração de Inês deu um salto violento nas costelas, fazendo-a perceber subitamente a verdade mais aterrorizante de todas: ela não estava sozinha.
"Quem está aí?", perguntou ela, a voz fraca e trêmula perdendo-se no eco da chuva lá fora. "Saia daí agora mesmo, eu já chamei a polícia!"
Um silêncio sepulcral respondeu à sua ameaça vazia, seguido pelo som arrastado de uma bota pesada contra o assoalho. As luzes da oficina estalaram de repente, explodindo em uma chuva de faíscas e mergulhando o ambiente em uma escuridão absoluta.
Inês tateou o chão no escuro, o pânico absoluto ameaçando apagar a sua consciência. "O que você quer de mim? Apareça!", gritou ela, tentando conter o desespero que subia pela garganta.
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Um objeto metálico e pequeno começou a deslizar pelo assoalho de madeira na direção dela, emitindo um som rítmico e assustador. O objeto parou exatamente a poucos centímetros dos seus sapatos encharcados, revelando ser uma antiga caixinha de música de metal escurecido.
A caixinha começou a girar sozinha por um mecanismo oculto, entoando uma melodia doce e infantil que cortou a noite como uma lâmina gélida. Era a exata canção de ninar que seus pais verdadeiros cantavam para ela nas raras noites antes de desaparecerem sem rasto.
"De onde você tirou isso?", gritou Inês, com a voz embargada pelas lágrimas e pela fúria cega que começava a nascer sob o pânico. A melodia continuava a tocar, ecoando como um fantasma zombeteiro na escuridão densa da oficina.
Nenhum som humano respondeu à sua pergunta, mas o barulho de uma respiração pesada revelou a proximidade do intruso. Inês tateou a bancada de trabalho às cegas, sentindo os dedos esbarrarem em ferramentas e pesos de papel até encontrarem a estrutura fria e pesada de uma prensa de ferro de encadernação.
Ela agarrou a manivela da prensa com ambas as mãos, usando toda a sua força para levantá-la da mesa. O metal pesado rangeu pesadamente, servindo como a sua única e última arma contra o monstro escondido na penumbra.
Um par de luvas de couro negro emergiu da escuridão absoluta, estendendo-se rapidamente em direção ao seu pescoço. No exato segundo em que os dedos gélidos tocaram a sua pele, Inês soltou o grito de guerra contido e ergueu a pesada prensa de ferro para descarregá-la contra a sombra.
O impacto estalou com força brutal contra o ombro do agressor, que emitiu um gemido abafado de dor antes de recuar para a penumbra. Inês ofegava pesadamente, com o suor frio misturando-se às lágrimas em seu rosto, enquanto mantinha a prensa erguida e pronta para descer novamente.
"Acha mesmo que um pedaço de ferro vai salvá-la desta vez, Inês?", uma voz distorcida por um modulador eletrónico sibilou através da escuridão. "O seu querido Álvaro tentou esconder o segredo, mas a herança dos Morais pertence ao sistema, não a uma ratinha de biblioteca."
"Quem é você? O que vocês querem de mim?", exigiu Inês, dando um passo cauteloso para a frente, embora suas pernas ameaçassem ceder a qualquer momento.
"Nós queremos exatamente o que está guardado no fundo falso daquela mesa de carvalho", respondeu a voz, zombeteira e fria. "A partitura que o velho escondeu antes de perder a língua e os dedos."
Inês sentiu a raiva superar o medo por uma fração de segundo. "O Álvaro deu a vida para proteger isto, e vocês mataram-no por causa de papel velho e ganância!"
"O velho era um traidor que tentou travar a engrenagem que alimenta a capital inteira", rosnou o intruso, dando um passo à frente, a silhueta alta desenhando-se contra a luz fraca da rua que entrava pela janela alta. "E você vai juntar-se a ele agora mesmo, a menos que decida entregar o que nos pertence."
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Antes que Inês pudesse reagir ou golpear novamente, o som ensurdecedor de vidro estilhaçando-se cortou o ar da sala. Um corpo pesado atravessou a janela da frente num turbilhão de cacos brilhantes e madeira partida, aterrissando pesadamente no meio do estúdio.
A figura que acabara de invadir a oficina rolou pelo chão com agilidade felina, levantando-se imediatamente enquanto sacava uma arma preta com silenciador adaptado. O clarão de um relâmpago que iluminou o céu de Lisboa revelou um homem alto, de ombros largos, com o sobretudo escuro encharcado de chuva e os olhos cor de âmbar faiscando de adrenalina.
Era Matheus.
O assassino mascarado recuou rapidamente para as sombras do canto oposto, percebendo que a situação havia mudado de figura com a chegada daquele novo elemento. "Você chegou tarde demais, cão de guarda", gritou a voz distorcida, antes de o intruso saltar agilmente pela porta dos fundos que dava para o beco escuro.
Matheus praguejou em voz alta, disparando dois tiros de aviso que apenas estilhaçaram o batente da porta de madeira, antes de desistir da perseguição e voltar a sua atenção para o interior da sala.
O peito de Matheus subia e descia descompassado, e uma mancha escura começava a tingir o tecido do seu ombro esquerdo, revelando que ele levara um tiro durante a aproximação. Os olhos de âmbar fixaram-se imediatamente em Inês, que ainda segurava a prensa de ferro com os braços trêmulos, apontando-a instintivamente para ele.
"Abaixe isso, miúda, a menos que queira rebentar a minha cabeça também", disse Matheus com a voz grave, respirando com dificuldade enquanto pressionava a mão ensanguentada contra o ferimento.
Inês olhou para o homem desconhecido, depois para o corpo sem vida de Álvaro, e por fim para a arma que ele empunhava com firmeza profissional. "Quem é você? Foi você quem fez isto? Foi você o responsável?", acusou ela, com a voz estrangulada pelo choro e pela fúria.
Matheus deu um passo cauteloso na direção dela, ignorando a dor no ombro e mantendo a calma absoluta. "Se eu quisesse matá-la, já o teria feito lá fora ou agora mesmo", respondeu ele com frieza, aproximando-se o suficiente para que ela pudesse ver a tensão extrema em seu rosto marcado pela chuva. "Aquele homem que fugiu agora há pouco trabalha para o mesmo grupo que quer ver você e o seu mentor enterrados a sete palmos."
Inês sentiu o corpo vacilar, a força abandonando seus braços de uma só vez. A pesada prensa de ferro escorregou de suas mãos, caindo com um estrondo abafado sobre o tapete de retalhos.
Ela cambaleou para trás, caindo de joelhos perto da cadeira onde Álvaro jazia inerte. "Eles mataram-no... mataram o meu mentor a sangue-frio...", sussurrou ela, fechando os olhos enquanto as lágrimas corriam livremente pelo seu rosto pálido.
Matheus aproximou-se rapidamente, agachando-se ao lado dela e colocando uma mão firme e pesada sobre o seu ombro trêmulo. "Não temos tempo para o luto, Inês", disse ele num tom urgente, olhando para a porta dos fundos de onde o assassino fugira. "Eles vão voltar com reforços assim que perceberem que falharam, e se você quiser continuar viva para vingar o velho, precisa de sair daqui agora mesmo."
Inês levantou a cabeça, os olhos verdes injetados de sangue cravados nos de Matheus com um desafio desesperado. "E por que razão hei de confiar num estranho armado que aparece do nada numa noite de assassinato?", perguntou ela, cuspindo as palavras com amargura.
Matheus soltou um sorriso irónico e doloroso, puxando do bolso do casaco um pequeno anel de prata queimada e colocando-o na palma da mão dela. "Porque este anel pertencia ao seu verdadeiro pai, o homem que tentou avisar o Álvaro sobre a rede de corrupção antes de desaparecer", murmurou Matheus, levantando-se com dificuldade e estendendo-lhe a mão ensanguentada. "Agora, escolhe: foges comigo ou ficas aqui à espera da próxima bala?"
Inês encarou o anel de prata por um segundo interminável, reconhecendo imediatamente o símbolo que sua mãe guardava como o único vestigio de uma família destruída antes do tempo. O som de sirenes longínquas começava a aproximar-se pelas ruas sinuosas do Bairro Alto, misturando-se ao barulho incessante da tempestade que desabava sobre Lisboa.
Com o coração a martelar no peito e as mãos ainda manchadas pelo café e pelo horror daquela noite, Inês respirou fundo e aceitou a mão firme de Matheus. O destino estava traçado, e não havia mais caminho de volta para a ilusão de segurança que ela chamara de lar.
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