"O Jogo dos Duplos: Execução em Nome do Amor" Capítulo 8
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O som abafado dos brincos de diamante de Elisa afundando nas águas da Baía de Guanabara ainda ressoava na mente de Natália. Mas a realidade fria e antisséptica de uma clínica médica na zona sul de São Paulo exigia respostas imediatas.
As paredes brancas e imaculadas do laboratório de Siqueira refletiam luzes fluorescentes impiedosas. O cheiro de álcool etílico e ozônio impregnava o ar rarefeito daquela sala de exames clandestina.
Natália sentou-se na cadeira reclinável de couro sintético, com eletrodos prateados colados em suas têmporas. Fios finos conectavam seu crânio a um monitor de última geração que piscava em tons de verde e azul.
O doutor Siqueira cruzou os braços com uma expressão de sincera preocupação profissional. Ele ajustou os óculos de grau na ponta do nariz antes de encarar os gráficos instáveis na tela.
"A sua sincronia neural está colapsando de forma acelerada, Natália", Siqueira disse com a voz baixa e tensa. "O cérebro humano não foi feito para hospedar duas consciências simultaneamente."
"O que isso significa exatamente em termos práticos, doutor?", perguntou ela, sentindo um frio súbito na base da nuca.
"Significa que as lembranças da verdadeira Elisa estão consumindo o seu córtex frontal", explicou o médico, apontando para os picos vermelhos no monitor. "Se não fizermos um procedimento de reversão imediato, as suas memórias originais vão desaparecer por completo."
"Você vai esquecer quem era antes de tudo isso começar", acrescentou Siqueira com um tom de aviso solene. A enfermeira Beatriz Júnior, assistente silenciosa do laboratório, aproximou-se com uma prancheta de exames nas mãos.
Beatriz olhou para Natália com um misto de piedade e cautela profissional. "Eu vi outros pacientes tentarem jogar a roleta-russa com os próprios sinapses, senhorita Guedes", Beatriz murmurou, ajeitando a touca cirúrgica. "Nenhum deles sobreviveu com a alma inteira."
"O procedimento de limpeza vai apagar a Elisa para sempre da sua cabeça?", quis saber Natália, sentindo o coração apertar. "Vai apagar qualquer vestígio dela e devolver o seu cérebro limpo, embora com sequelas de amnésia parcial", confirmou Siqueira.
Para testar a gravidade do colapso cognitivo, Siqueira iniciou um teste rápido de resposta sináptica. Ele pediu que ela recuasse mentalmente no tempo e citasse datas importantes de sua infância antes da tragédia.
"Qual é a data exata do aniversário da sua mãe, Natália?", perguntou o médico com firmeza. Natália fechou os olhos com força, tentando puxar a imagem do rosto e da voz de sua mãe verdadeira.
Mas, para seu pavor absoluto, a mente respondeu apenas com o som de um piano de cauda e o rosto de Elisa sorrindo em Campos do Jordão. Um buraco negro de silêncio absoluto engoliu a lembrança de sua própria mãe por um segundo aterrorizante.
"Eu... eu não me lembro", sussurrou Natália, abrindo os olhos com o pânico estampado em suas pupilas. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha, traindo a fachada de gelo que sustentara por meses.
Siqueira suspirou profundamente, desligando os monitores com um toque no teclado. "Viu só? O processo de apagamento já começou de dentro para fora", advertiu o neurocirurgião.
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Do outro lado do vidro blindado que separava a sala de exames do corredor externo, uma silueta alta aguardava em silêncio. Matheus observava cada segundo daquela cena com uma dor insuportável estampada no rosto.
Ele havia entregado cada centavo de sua fortuna, dissolvido suas contas offshore e renunciado à liberdade corporativa para comprar aquela chance de recomeço. Para os promotores federais, ele assinara acordos de delação premiada que o deixavam sem um único centavo e sob vigilância constante.
Siqueira abriu a porta de vidro, permitindo que Matheus entrasse na sala de exames. O herdeiro arruinado caminhou diretamente até Natália, ajoelhando-se ao lado da cadeira em que ela estava sentada.
As mãos de Matheus seguraram as mãos trêmulas dela com uma delicadeza infinita. "Faça o procedimento", implorou ele em um sussurro rouco. "Apague essa maldita duplicidade e seja você mesma de novo."
Natália olhou nos olhos cor de uísque dele, encontrando uma devoção pura e desprovida de qualquer egoísmo. "Se eu fizer a limpeza, Matheus, eu posso esquecer o dia em que nos conhecemos", lembrou ela com a voz embargada.
"Não me importa se você esquecer o meu nome, desde que você recupere a sua vida", retrucou Matheus com convicção absoluta. Ele tirou do bolso de sua jaqueta escura um pequeno objeto metálico e o colocou na palma da mão dela.
Era um pen drive comum, sem qualquer criptografia ou marca corporativa. "O que é isso?", perguntou Natália, olhando intrigada para o pequeno dispositivo.
"É tudo o que restou do meu nome e da minha herança", explicou Matheus com um meio-sorriso triste. "Eu passei os tribunais federais para trás e assinei a transferência de todas as propriedades legítimas restantes diretamente para o seu nome real. Natália Ferreira."
Ela arregalou os olhos, encarando o pen drive como se ele pesasse toneladas. "Você não tem mais nada, Matheus. Por que fez isso?", questionou ela em choque.
"Porque eu amo a Natália, e não o fantasma de Elisa", respondeu ele sem hesitar um único segundo. "Eu não preciso de um império para merecer estar ao seu lado."
Siqueira cruzou os braços novamente, pigarreando para quebrar o silêncio carregado de emoção na sala. "A decisão é sua, senhorita Guedes. A máquina está pronta para o procedimento de reversão", lembrou o médico.
Natália olhou para o aparelho médico que prometia salvar sua identidade original. Depois, olhou para o pen drive em sua mão e para os olhos de Matheus, que aguardavam a sentença em calmo desespero.
Ela respirou fundo, sentindo o peso de todas as vidas que habitavam sua cabeça. Com um movimento firme, ela retirou os eletrodos de suas têmporas e os jogou sobre a mesa de metal.
"Eu recuso o procedimento", disse Natália com uma clareza cortante que pegou Siqueira de surpresa. "O que foi construído aqui dentro pertence a mim agora, para o bem ou para o mal."
Siqueira abriu a boca para argumentar, mas desistiu diante da dureza inabalável daquele olhar. Beatriz Júnior, a assistente, apenas acenou com a cabeça em sinal de respeito silencioso.
Natália levantou-se da cadeira, ajeitou a gola de sua roupa e caminhou em direção à saída. Matheus levantou-se rapidamente e a seguiu de perto, sem fazer mais nenhuma pergunta.
Ela empurrou a porta de vidro da clínica subterrânea e saiu para a rua. A luz forte e impiedosa da tarde paulistana atingiu seu rosto em cheio.
Natália ergueu o queixo, apertando o pen drive contra a palma da mão enquanto caminhava rumo ao sol. Ela não sabia exatamente quem seria amanhã, mas pela primeira vez em anos, o futuro pertencia inteiramente a ela.
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