"O Jogo dos Duplos: Execução em Nome do Amor" Capítulo 5
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A chuva incessante que havia transformado a Avenida Paulista em um cenário de caos implacável parecia agora pertencer a outro mundo, distante e irreal. Nas colinas históricas de Santa Teresa, o ar do Rio de Janeiro daquela noite trazia um calor abafado e sufocante.
O ambiente estava impregnado pelo cheiro pesado de jasmim fresco misturado a notas de dinheiro velho, charutos cubanos e perfumes importados caríssimos.
A caridade de fachada promovida pelo clã Silva exigia dissimulação suprema dos convidados, mas obrigava todos a desfilarem com máscaras de veludo e ouro.
Sob os imensos lustres de cristal que trepidavam levemente com o som de valsas antigas, a alta sociedade brasileira exibia sua opulência em meio a taças de champanhe.
Natália deslizou pelo salão principal vestindo um longo modelo de corte impecável em tom de vermelho-sangue, cujas fendas revelavam cada passo calculado.
O disfarce de Elisa Guedes nunca pareceu tão perigoso e letal quanto sob a luz difusa daquele baile de máscaras de alta costura que reunia a elite corrupta do país.
Ela mantinha um sorriso polido no rosto enquanto cumprimentava velhos conhecidos da oligarquia que juravam estar vendo um verdadeiro fantasma ressurgido do mar.
Mas, sob a seda escarlate e os bordados finos que colavam em sua pele, seus dedos ágeis operavam um minúsculo terminal de dados escondido na aba dupla de sua bolsa.
A cada valsa trocada e a cada cumprimento falso direcionado a executivos distraídos, ela se aproximava mais dos terminais executivos camuflados na ala administrativa.
Seus olhos em tom de azul-topázio vasculhavam a multidão à procura de qualquer sinal de perigo, sabendo perfeitamente que o tempo estava esgotando-se como areia.
Do outro lado do salão de baile, afastado das rodas de conversa, Matheus observava cada movimento dela com a precisão obsessiva de quem vigiava a única âncora de sua sanidade.
Ele vestia um smoking preto perfeitamente cortado, mas os nós de seus dedos estavam completamente brancos de tanto apertar o copo de uísque que segurava.
O velho Sérgio Silva, patriarca implacável do império corporativo, caminhava em direção ao filho com um sorriso que não alcançava os olhos frios.
O terno de veludo escuro do patriarca ocultava o volume inconfundível de um revólver cromo de cano curto guardado bem junto ao peito.
"É uma bela peça de teatro que você e essa impostora estão encenando sob o meu teto, meu filho", Sérgio sibilou, encostando-se ao pilar de mármore com falsa descontração.
"Mas os palhaços sempre acabam enforcados no final do espetáculo, independentemente do figurino que vestem", completou o patriarca com um tom carregado de ameaça.
Matheus nem sequer piscou diante da provocação, virando o restante da bebida de um só gole antes de encarar o pai com desprezo glacial.
"O único palhaço nesta sala é o senhor, que ainda vive na ilusão de que pode ditar as regras de um império construído sobre cadáveres podres", retrucou Matheus com firmeza.
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Sérgio deu um passo agressivo à frente, a mão enluvada tateando perigosamente o bolso interno do paletó onde a arma descansava contra o tecido.
"Cuidado com o tom e com a insolência, garoto, pois eu criei esse monstro corporativo do zero e posso reduzi-lo a cinzas com uma simples ligação", rosnou o velho.
Antes que o patriarca pudesse sacar qualquer ameaça física, Matheus ergueu a voz com uma frieza calculada que ecoou por toda a extensão da galeria principal.
"O conselho internacional de investidores está neste exato momento analisando os relatórios detalhados de auditoria que o senhor tentou enterrar no fundo da Baía de Guanabara", anunciou Matheus para todo o salão ouvir.
O burburinho constante dos convidados ricos silenciou instantaneamente, virando dezenas de rostos mascarados na direção do patriarca dos Silva com expressões de choque.
Os executivos estrangeiros que financiavam o grupo empresarial entreolharam-se atordoados diante daquela humilhação pública, irreversível e devastadora.
"Você perdeu totalmente o juízo, seu maldito ingrato", Sérgio empalideceu visivelmente sob a maquiagem leve, com a mandíbula travada de ódio puro.
"Eu apenas recuperei a dignidade e a justiça que o senhor roubou há cinco anos", retrucou Matheus com um meio-sorriso cortante, bloqueando fisicamente qualquer rota do pai.
Aproveitando-se da confusão gerada pelo escândalo que paralisara o salão, Natália conseguiu trancar-se no escritório privativo do fundo do corredor.
Seus dedos voavam com velocidade sobre o teclado embutido na maleta, transferindo os arquivos confidenciais para a rede global de jornalismo investigativo e para os promotores federais.
O progresso da barra de upload subia vertiginosamente pelas linhas de código, marcando cinquenta, setenta, oitenta e cinco por cento.
O cheiro doce da vitória parecia finalmente próximo, mas um calafrio gélido subiu pela espinha de Natália quando o sistema travou abruptamente.
A tela principal do terminal piscou em um tom vermelho-sangue agressivo, exibindo uma mensagem de erro implacável: Progresso travado em 89% por alerta de substituição de segurança em terminal desconhecido.
Alguém, operando de dentro da própria rede criptografada dos Silva, acabara de trancar o portão digital bem na cara da vitória definitiva.
"Droga, alguém trancou o acesso remoto a partir de um terminal secundário", ela sibilou em voz alta, sentindo o suor frio escorrer pelas têmporas.
O coração de Natália disparou contra as costelas enquanto ela tentava reiniciar o script de invasão manualmente, sentindo o desespero ameaçar seu autocontrole. Fora do escritório, o som de passos pesados ecoando pelo corredor escuro indicava que os guardas particulares já haviam percebido a invasão aos sistemas.
A porta de madeira nobre foi empurrada com violência, revelando a silueta alta e imponente de Matheus na penumbra vermelha das luzes estroboscópicas que começavam a piscar.
"O sistema foi bloqueado na matriz", disse Matheus sem perder um único segundo, fechando a porta do escritório e acionando a tranca interna com o próprio corpo.
"Meu pai ativou o protocolo de autodestruição dos servidores físicos no subsolo", alertou ele com a respiração acelerada. Natália ergueu o olhar da tela, a fúria e a adrenalina competindo pelo controle de suas expressões faciais recém-esculpidas.
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"Se nós não conseguirmos extrair os onze por cento restantes antes que os arquivos sejam limpos, todo o sacrifício terá sido em vão", retrucou ela, levantando-se bruscamente da cadeira. Matheus deu dois passos rápidos até ela, segurando seus ombros com uma firmeza possessiva que não admitia recuos.
"Você acha mesmo que eu deixaria essa corja vencer agora, depois de tudo o que enfrentamos?", perguntou ele em um sussurro áspero e cortante. "O terminal mestre do subsolo ainda está acessível pela central de tubulações de serviço."
"Isso é uma armadilha suicida e você sabe muito bem disso", ela rebateu, estreitando os olhos diante da audácia insana do plano dele. "Sérgio e os homens dele devem estar armados até os dentes guardando aquela ala."
"Então é bom que estejamos prontos para matar ou morrer", respondeu Matheus com um sorriso sombrio, tirando uma pistola pesada do coldre oculto e estendendo-a para ela. "Você confia em mim, Natália?"
O silêncio pesou por uma fração de segundo entre os dois, rompido apenas pelo som abafado de tiros distantes ecoando nos andares inferiores da mansão. Natália pegou a arma das mãos dele, sentindo o peso frio do metal contra seus dedos trêmulos antes de travar o gatilho com precisão mecânica.
"Eu não confio em ninguém, Matheus", disse ela com um meio-sorriso gélido nos lábios. "Mas eu odeio os Silva muito mais do que confio na minha própria sorte."
"Ótimo", murmurou ele antes de puxá-la pela cintura e selar os lábios dela em um beijo breve, feroz e carregado de eletricidade pura. "Então vamos queimar o inferno juntos."
Antes que pudesse digitar qualquer comando final, o mundo ao seu redor mergulhou em uma escuridão quase absoluta. Os lustres de cristal do casarão histórico piscaram uma única vez de forma síncrona e apagaram-se por completo.
Um segundo depois, luzes estroboscópicas de emergência em tom vermelho-sangue inundaram o piso de mármore do salão de baile e os corredores superiores, criando uma atmosfera de pesadelo distópico.
O som estridente e contínuo de sirenes automáticas cortou a noite carioca, anunciando o acionamento do protocolo de bloqueio total de emergência.
As portas de ferro maciço e as persianas blindadas de segurança caíram de uma só vez nas entradas principais com um baque ensurdecedor que abalou as paredes. O baile de caridade havia se transformado em uma tumba hermeticamente fechada.
Com um chute certeiro, Matheus arrombou a janela lateral do escritório que dava para a fachada dos fundos, abrindo o caminho para a escuridão da noite carioca.
O vento úmido e quente de Santa Teresa bateu em seus rostos enquanto eles saltavam para a cornija de pedra, prontos para dar o bote final no coração do império.
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