"O Jogo dos Duplos: Execução em Nome do Amor" Capítulo 2
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O tilintar de talheres de prata contra a porcelana da Companhia das Índias ecoava como o tique-taque de uma bomba-relógio na vasta sala de jantar da mansão dos Silva.
Sob os prismas impiedosos dos lustres de cristal baccarat, o ar parecia denso demais para ser respirado sem queimar os pulmões.
Natália mantía as costas perfeitamente erguidas, lembrando-se de cada postura que as memórias enxertadas de Elisa exigiam daquela nova coluna vertebral.
O vestido de veludo esmeralda abraçava seu corpo como uma serpente fria, contrastando com o calor febril que pulsava em suas têmporas.
A chave que Matheus girara na fechadura da cobertura no Leblon ainda pesava imaginariamente no bolso de sua mente, um lembrete constante de que ela havia entrado voluntariamente na câmara de gás.
Naquela noite, a cela tinha o tamanho de uma mesa de jantar para vinte pessoas, cercada por abutres corporativos que usavam sorrisos de dentes brancos e abotoaduras de ouro branco.
Helena Silva, a madrasta de Matheus, ocupava a ponta oposta da mesa com uma compostura glacial que desafiava os limites da crueldade humana.
As esmeraldas pesadas no pescoço de Helena pareciam gotas de sangue coagulado sob a luz artificial, mas nada brilhava com tanta malícia quanto seus olhos cinzentos e analíticos.
Ela cortava um pedaço de cordeiro com movimentos milimetricamente calculados, sem nunca desviar o foco da suposta enteada ressuscitada.
"É fascinante como o mar devolve certas coisas quando convém aos jornais, querida Elisa", Helena começou, a voz saindo como um sussurro seco e polido que cortava o burburinho da sala.
"Cinco anos de silêncio absoluto, e você reaparece justo na véspera da votação do conselho de acionistas. Diga-nos, onde esteve esse tempo todo?"
O estômago de Natália deu um salto, mas seu rosto permaneceu uma máscara de porcelana intocável, graças aos treinos implacáveis de controle emocional que impusera a si mesma.
As sinapses implantadas pelo Protocolo Mnemosine dispararam instantaneamente em seu córtex, trazendo à tona um arquivo empoeirado da verdadeira Elisa.
Ela lembrou-se exatamente de como Helena costumava sugar o açúcar dos biscoitos de manteiga nas tardes de outono enquanto tramava a ruína dos concorrentes.
"O fundo do oceano tem uma acústica péssima para conversas fiadas, Helena", Natália respondeu com a voz de Elisa,velada em um tom de doçura venenosa que fez a taça de cristal da matriarca tremer levemente. "E quanto aos acionistas, suponho que eles estejam mais preocupados com o fato de que a minha patente original continua gerando os lucros que sustentam essas suas joias."
Um silêncio sepulcral despencou sobre a mesa, quebrando a sinfonia abafada dos garçons que serviam o vinho.
Os cantos dos lábios de Helena contraíram-se em um tique de puro ódio contido, incapaz de disfarçar o golpe certeiro. Aquela resposta não era apenas uma defesa; era a prova cabal de que a alma afiada de Elisa ainda habitava, de alguma forma inexplicável, aquele corpo recém-esculpido.
Do lado esquerdo, sentado a poucos centímetros de distância, Matheus observava a cena em total silêncio, com um meio-sorriso perigoso nos lábios.
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A mão direita dele deslizou lentamente por debaixo da extensão da mesa de mogno maciço, longe dos olhares vigilantes do resto da família. Seus dedos longos e quentes encontraram a coxa de Natália, coberta apenas pela fenda lateral do vestido de veludo.
O toque foi firme, carregado de uma possessividade animalesca que fez o sangue de Natália gelar nas veias. Ele subiu lentamente, apertando a carne dela com uma intensidade quase dolorosa, como se quisesse marcar território através do tecido.
"Minha prima sempre teve o hábito irritante de falar a verdade nas horas mais inconvenientes", interveio Sérgio Silva, o patriarca corrupto, limpando a boca com um guardanapo de linho com um sorriso de escárnio. "Embora devêssemos lembrar que os fantasmas não costumam assinar contratos de auditoria. Há detalhes de cinco anos atrás, daquela noite no iate, que ainda deixam pontas soltas na contabilidade."
A menção à palavra
iates
e
pontas soltas
fez o coração de Natália disparar contra as costelas, pois era exatamente a confissão indireta do assassinato encenado que ela precisava para esmagá-los.
A pressão da mão de Matheus em sua coxa aumentou a ponto de quase romper os capilares, enviando uma corrente de choque elétrica direto para o baixo ventre de Natália. O contraste entre a ameaça de morte velada do tio na outra ponta da mesa e a perversão tátil do herdeiro ao seu lado criava uma atmosfera de vertigem pura.
Matheus inclinou o tronco levemente na direção do ouvido dela, ignorando o protocolo social com uma audácia insolente. O hálito quente dele, misturado a notas de carvalho e tabaco, roçou a pele nua do pescoço de Natália, fazendo os pelos de seus braços se arrepiarem em um protesto involuntário.
"Não o escute,
amor
", sussurrou Matheus em um timbre grave e raspado que apenas ela podia ouvir, a proximidade sendo uma afronta direta a toda a parentela reunida. "Eles acham que controlam o tabuleiro, mas mal sabem que você trouxe o fósforo e eu estou segurando o galão de gasolina."
Natália sentiu o ar faltar em seus pulmões, dividida entre o ódio mortal que nutria pelo sobrenome dele e a atração magnética e doentia que emanava daquele corpo duro como pedra.
Ela virou o rosto minimamente para encará-lo, os olhos tingidos de azul-topázio faiscando com o reflexo dos lustres. "Você acha que pode brincar com fogo sem queimar as mãos, Matheus?", ela murmurou de volta, os lábios roçando perigosamente de leve nos dele antes de se afastarem.
"Eu prefiro virar cinzas ao seu lado do que passar mais um dia respirando o ar desta casa sem você", respondeu ele com uma sinceridade psicopática que fez o estômago de Natália dar um nó cego.
Enquanto os convidados ao redor retomavam o falatório abafado sobre cotações da bolsa e fundos de investimento offshore, a guerra particular sob a mesa atingia o ápice.
A mão de Matheus apertou a coxa de Natália com força suficiente para deixar hematomas roxos amanhã, uma declaração muda de posse absoluta.
A mente de Natália gritava para ela recuar, para lembrar-se da justiça que prometera ao túmulo de seus pais, mas as sinapses enxertadas sussurravam um vício incontrolável pela presença daquele homem.
Sabendo que precisava retomar o controle da narrativa e punir a insolência daquela intimidade forçada, Natália manteve o sorriso impecável voltado para os flashes invisíveis da alta sociedade.
Sua mão direita desceu calmamente pela aba da mesa de mogno, fingindo ajeitar o guardanapo de tecido sobre os joelhos.
Em um movimento rápido e felino, ela cravou as unhas perfeitamente manicuradas diretamente na palma da mão aberta de Matheus, afundando-as na carne com toda a força de sua raiva reprimida.
Matheus sibilou um palavrão abafado entre os dentes trincados, o corpo inteiro tencionando-se com o choque da dor repentina enquanto o sangue começava a brotar em linhas vermelhas em sua palma.
Apesar da dor excruciante, o herdeiro dos Silva não tirou a mão; pelo contrário, ele a apertou ainda mais contra as garras dela, deixando-se ferir de bom grado como quem aceita um sacrifício sagrado.
Helena levantou os olhos da taça de vinho, percebendo a rigidez repentina no maxilar do sobrinho, mas antes que pudesse formular qualquer pergunta, Natália ergueu o queixo com desdém aristocrático.
"Parece que o jantar está um pouco quente demais para alguns nesta mesa", comentou Natália com uma serenidade mortal, olhando diretamente nos olhos da matriarca.
Helena cerrou os punhos sobre a toalha de linho, percebendo que a garota que retornara do mar não era mais uma ovelha para o abate, mas sim um lobo faminto vestindo pele de cordeiro.
Sob a mesa, o sangue de Matheus escorria quente pelos dedos de Natália, unindo os dois em um pacto de dor, traição e desejo que nenhum tribunal do mundo conseguiria dissolver.
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