"A Menina Que Só Queria Pão" Parte 5
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Mariana acordou antes das sete da manhã.
Por alguns segundos, não reconheceu o teto alto, as cortinas pesadas nem o silêncio absoluto do quarto.
Depois se lembrou.
A mansão.
Helena.
Isabela.
A pulseira.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
A noite anterior parecia um sonho ruim que ainda não tinha terminado.
Mariana se levantou.
Foi até a poltrona onde havia deixado a bolsa preta.
Parou.
O zíper estava aberto.
Ela tinha certeza de que havia fechado.
Mariana puxou a bolsa para perto.
Mexeu nas roupas.
Nos documentos.
Nas fotografias.
No pequeno estojo onde guardava remédios.
Tudo parecia estar ali.
Então seu coração acelerou.
O envelope.
Ela procurou outra vez.
Mais rápido.
Abriu todos os bolsos.
Sacudiu a bolsa sobre a cama.
Nada.
Mariana ficou imóvel.
"Não."
A voz saiu quase sem som.
Ela se ajoelhou no chão.
Olhou embaixo da cama.
Atrás da poltrona.
Dentro do armário.
No banheiro.
Nada.
Voltou para a bolsa.
Virou tudo outra vez.
A carta não estava lá.
Mariana sentiu o estômago apertar.
Aquela carta tinha ficado com ela durante sete meses.
Desde a última noite no hospital.
Laura estava fraca demais para levantar a cabeça.
A voz quase não saía.
Mesmo assim, segurou o pulso da filha com força.
"Mariana."
"Eu estou aqui."
"Promete uma coisa."
"Qualquer coisa."
Laura apontou para a pulseira.
"Se um dia alguém reconhecer isso..."
Ela precisou parar para respirar.
Mariana se inclinou.
"Reconhecer como?"
"Você vai saber."
"Mas quem?"
Laura fechou os olhos por alguns segundos.
"Se alguém reconhecer a pulseira, entrega a carta."
"Para quem?"
Laura começou a chorar.
"Para ela."
Mariana nunca conseguiu arrancar outro nome.
Horas depois, a mãe morreu.
Desde então, aquele envelope tinha permanecido intacto.
Na frente, escrito pela própria mão de Laura, estavam duas palavras.
"Para mamãe."
Mariana nunca abriu.
Nunca leu.
Nunca soube para quem era.
Agora, menos de vinte e quatro horas depois de entrar naquela mansão, a carta tinha desaparecido.
Ela se levantou de uma vez.
Abriu a porta.
Uma funcionária passava pelo corredor.
Mariana chamou.
"Por favor."
A mulher parou.
"Sim?"
"Alguém entrou no meu quarto esta noite?"
A funcionária hesitou.
"Não que eu saiba."
"Tem certeza?"
"Eu não trabalho no turno da madrugada."
"Quem trabalha?"
"Dona Neide e o segurança."
"Eu preciso falar com eles."
A mulher percebeu o nervosismo.
"Aconteceu alguma coisa?"
"Roubaram uma coisa minha."
A notícia se espalhou rápido demais.
Quando Mariana desceu para a sala principal, Helena já vinha do corredor.
"O que aconteceu?"
Mariana segurava a bolsa contra o corpo.
"Alguém entrou no meu quarto."
Helena parou.
"O quê?"
"E levou uma carta."
"Que carta?"
Mariana olhou ao redor.
Eduardo vinha do escritório.
Carolina descia a escada.
Os dois ouviram.
Mariana sentiu algo mudar dentro dela.
Pela primeira vez desde que chegara, não viu uma casa cheia de pessoas desconhecidas.
Viu possíveis culpados.
"Uma carta da minha mãe."
Helena ficou pálida.
"Isabela deixou uma carta?"
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Mariana não respondeu de imediato.
Eduardo se aproximou.
"Você tem certeza de que não perdeu?"
Mariana virou o rosto.
"Tenho."
"Talvez tenha deixado em outro lugar."
"Eu carregava essa carta há sete meses."
Eduardo levantou as mãos.
"Eu só estou tentando ajudar."
Carolina cruzou os braços.
"Isso está ficando estranho."
Helena olhou para ela.
"Stranho como?"
Carolina deu de ombros.
"Ela chega aqui com uma história impossível."
Mariana apertou a mandíbula.
"Não começa."
"Depois aparece uma carta misteriosa."
"Ela não apareceu."
Mariana deu um passo à frente.
"Ela foi roubada."
Carolina soltou uma risada curta.
"Por quem?"
"Essa é uma ótima pergunta."
O ambiente mudou.
Eduardo olhou para Mariana.
"Está acusando alguém da família?"
"Eu ainda não acusei ninguém."
"Mas está insinuando."
"Alguém entrou no meu quarto."
Helena interrompeu.
"Chega."
Todos se calaram.
Helena olhou para uma funcionária.
"Chame dona Neide."
Depois para o segurança.
"E quero saber quem circulou por este corredor durante a madrugada."
Eduardo assentiu imediatamente.
"Eu posso verificar as câmeras."
Mariana olhou para ele.
Eduardo sustentou o olhar.
"Se alguém entrou, vamos descobrir."
Ele parecia calmo.
Prestativo.
Quase ofendido por ela desconfiar.
Mas Mariana não relaxou.
Helena voltou a olhar para ela.
"O que havia nessa carta?"
"Eu não sei."
"Você nunca abriu?"
"Não."
Helena ficou surpresa.
"Por quê?"
Mariana respirou fundo.
"Porque minha mãe pediu."
"Como?"
"Ela me fez prometer que eu não abriria."
Helena se aproximou.
"Então para quem era?"
Mariana olhou diretamente para ela.
"Para a pessoa que reconhecesse a pulseira."
Helena congelou.
Eduardo também.
Carolina parou de mexer no telefone.
Mariana continuou.
"Ela disse que, se um dia alguém reconhecesse a pulseira, eu deveria entregar a carta."
Helena levou a mão ao peito.
"E o que estava escrito no envelope?"
Mariana demorou um segundo.
"Para mamãe."
Helena perdeu a cor.
"Meu Deus."
Sua voz falhou.
"Era para mim."
Mariana ficou em silêncio.
Helena começou a chorar.
"Isabela escreveu para mim."
"Talvez."
"Era para mim."
Helena repetiu, como se precisasse acreditar.
"Depois de todos esses anos, ela deixou alguma coisa."
Mariana ficou mais dura.
"E alguém nesta casa tirou isso de mim."
Eduardo interveio.
"Não sabemos se foi alguém daqui."
"Meu quarto estava trancado?"
Helena olhou para a governanta.
Dona Neide tinha acabado de chegar.
"Sim."
"Então quem tem acesso?"
A mulher hesitou.
"Algumas pessoas."
"Quem?"
"Eu."
Ela olhou para Helena.
"Dona Helena."
Depois para Eduardo.
"Seu Eduardo."
Carolina ergueu as sobrancelhas.
"E eu?"
"Também."
O silêncio ficou pesado.
Mariana olhou de um para o outro.
"Ótimo."
Helena percebeu.
"Mariana."
"Eu vou embora."
"Não."
"Sim."
Ela começou a caminhar em direção à entrada.
Helena foi atrás.
"Você não pode ir assim."
Mariana parou perto da porta.
Virou-se.
"Não posso?"
"Precisamos encontrar a carta."
"Eu precisava encontrar minha família."
A voz dela tremeu.
"Mas agora eu nem sei quem pode estar mentindo para mim."
"Eu não estou mentindo."
"Eu não sei."
Helena sentiu o golpe.
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Mariana continuou.
"Eu entrei aqui ontem sem querer nada."
"Eu sei."
"E em uma noite já roubaram a única coisa que minha mãe me mandou entregar."
Helena se aproximou.
"Eu vou encontrar."
"Você não pode prometer isso."
"Posso."
"Não."
Mariana balançou a cabeça.
"Essa casa está cheia de segredos."
Helena não respondeu.
"Minha mãe passou a vida escondendo o próprio nome."
Mariana apontou para dentro da mansão.
"E agora alguém aqui quer esconder até o que ela escreveu."
Helena segurou o braço dela.
"Fique."
Mariana puxou o braço.
"Eu não consigo."
"Por favor."
"Não."
"Você não pode desaparecer agora."
Mariana parou.
A frase atingiu as duas.
Helena percebeu imediatamente o que tinha dito.
Seus olhos encheram de lágrimas.
"Desculpe."
Mariana respirou fundo.
Helena baixou a voz.
"Eu já perdi sua mãe."
Mariana ficou imóvel.
"Não quero perder você antes de saber se..."
Ela não conseguiu terminar.
Mariana fechou os olhos.
Por alguns segundos, a raiva cedeu.
Só um pouco.
"Eu não sou Isabela."
"Eu sei."
"Então não tente me segurar por causa dela."
Helena assentiu.
"Você tem razão."
Soltou o braço de Mariana.
"Mas fique até encontrarmos a carta."
Mariana olhou para a porta.
Depois para Helena.
"Até hoje à noite."
Helena concordou.
"Até hoje à noite."
Nos fundos da mansão, Carolina fechou a porta de uma pequena sala de apoio.
Estava sozinha.
Ou acreditava estar.
Sobre a bancada havia uma pasta antiga.
Papéis amarelados.
Cópias de relatórios.
Um envelope rasgado.
Ela acendeu um fósforo.
A chama tocou a ponta de uma folha.
O fogo avançou rápido.
Carolina segurou o papel até as chamas chegarem perto dos dedos.
Depois deixou cair dentro de uma pequena lixeira metálica.
Uma folha.
Depois outra.
Mais uma.
Ela respirava rápido.
"Isso nunca deveria ter aparecido."
Do outro lado do corredor, Mariana procurava um banheiro.
Ouviu um ruído.
Parou.
Sentiu cheiro de papel queimado.
Seguiu até a sala.
Quando abriu a porta, não havia ninguém.
Carolina tinha saído por outra passagem.
Mariana olhou para a lixeira.
Ainda havia fumaça.
Ela se aproximou.
Vários papéis estavam quase totalmente destruídos.
Mariana pegou uma pequena pinça de metal sobre a bancada.
Começou a mexer nas cinzas.
Um fragmento tinha sobrevivido.
Pequeno.
Queimado nas bordas.
Ela puxou com cuidado.
Havia uma frase incompleta.
Mariana leu uma vez.
Depois outra.
"...Augusto não estava sozinho."
Seu coração acelerou.
"Augusto."
Ela saiu da sala correndo.
Encontrou Helena perto da biblioteca.
"Helena."
A mulher virou.
Mariana mostrou o papel.
"Eu achei isso."
Helena pegou.
Leu.
Seu rosto mudou.
"Where você encontrou?"
"Alguém estava queimando documentos."
Helena apertou o fragmento.
Eduardo apareceu no corredor.
"O que está acontecendo?"
Helena não respondeu.
Continuou olhando para o papel.
"...Augusto não estava sozinho."
Eduardo aproximou-se.
"Posso ver?"
Helena puxou a mão para trás.
"Não."
Eduardo parou.
"Helena?"
Ela ergueu os olhos devagar.
A lembrança de vinte e dois anos atrás começou a voltar.
Reuniões.
Documentos.
Telefonemas.
Augusto raramente fazia qualquer coisa importante sem envolver um homem.
Seu irmão mais novo.
Pai de Eduardo.
Helena olhou diretamente para o sobrinho.
"Seu pai trabalhava com Augusto naquela época."
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