"A Menina Que Só Queria Pão" Parte 2
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Helena continuou olhando para Mariana como se tivesse medo de piscar e vê-la desaparecer.
Aquele nome ainda ecoava em sua cabeça.
Helena.
Durante vinte e dois anos, ela pagara investigadores, procurara em hospitais, delegacias, cartórios e até em cidades onde alguém jurava ter visto Isabela.
Agora, uma jovem desconhecida aparecia usando a pulseira da filha e dizia que a mãe chorava chamando por ela durante o sono.
Mariana recuou um passo.
"Eu preciso ir."
"Não."
A resposta de Helena saiu rápida demais.
Mariana franziu a testa.
"Como assim?"
Helena percebeu o medo no rosto dela e tentou controlar a própria voz.
"Desculpe. Eu só... quero conversar com você."
"Eu já disse tudo o que sei."
"E você ainda não comeu."
Mariana desviou os olhos para a cesta de pães que havia desaparecido na cozinha.
"Não estou mais com fome."
O estômago dela a desmentiu no mesmo instante.
O som foi baixo.
Mas Helena ouviu.
Mariana ficou vermelha de vergonha.
Helena olhou para César.
"Prepare uma refeição para ela."
O gerente hesitou.
"Claro, dona Helena. Podemos levar alguma coisa para ela na área de serviço."
Helena virou lentamente o rosto.
"Na área de serviço?"
César tentou sorrir.
"Para que ela possa comer com mais tranquilidade."
Helena ficou alguns segundos em silêncio.
Então apontou para a cadeira diante da sua.
"Ela vai comer na minha mesa."
O sorriso de César desapareceu.
Alguns clientes voltaram a olhar.
"Dona Helena, talvez seja melhor..."
"Melhor para quem?"
César não respondeu.
Helena se aproximou dele.
"Há poucos minutos, você humilhou uma jovem com fome porque ela pediu algo que seria jogado no lixo."
"Eu estava apenas preservando o ambiente do restaurante."
"Preservando de quê?"
César engoliu em seco.
Helena apontou para Mariana.
"Dela?"
"Nunca foi minha intenção..."
"Então pare de explicar."
A voz de Helena ficou ainda mais firme.
"Traga comida."
César baixou a cabeça.
"Sim, senhora."
Mariana observava tudo sem saber como reagir.
Helena puxou a cadeira.
"Sente-se."
"Eu não posso pagar."
"Eu não perguntei se pode."
"Não quero caridade."
Helena respirou fundo.
"Então não aceite como caridade."
"Como eu deveria aceitar?"
"Como um pedido de desculpas por ter sido tratada dessa maneira."
Mariana permaneceu imóvel.
Helena acrescentou:
"E como um favor que você está fazendo a uma senhora que precisa muito conversar."
Mariana finalmente sentou.
A bolsa preta permaneceu apertada contra suas pernas.
Poucos minutos depois, um garçom trouxe arroz, filé grelhado, legumes, feijão e uma cesta de pães ainda quentes.
Mariana olhou para a comida.
Seu corpo pedia que atacasse o prato.
Seu orgulho mandava levantar e sair.
Helena percebeu.
"Coma."
"Não consigo com todo mundo olhando."
Helena olhou ao redor.
Os curiosos desviaram os rostos imediatamente.
"Agora ninguém está olhando."
Mariana quase sorriu.
Pegou o garfo.
A primeira garfada foi pequena.
Depois a segunda.
Na terceira, já não conseguia esconder a fome.
Helena permaneceu em silêncio.
Não queria interrompê-la.
Só quando Mariana diminuiu o ritmo, Helena fez a primeira pergunta.
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"Sua mãe sempre usou o nome Laura Oliveira?"
"Desde que eu me lembro."
"Você nasceu em São Paulo?"
Mariana negou.
"Minha certidão é de Santos."
Helena se inclinou discretamente.
"E vocês moravam lá?"
"Por algum tempo."
"Depois?"
"Campinas. Sorocaba. São José dos Campos. Voltamos para Santos. Depois fomos para o interior de Minas por alguns anos."
"Vocês se mudavam muito."
"Minha mãe nunca gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar."
"Ela dizia por quê?"
Mariana mexeu no arroz.
"Não."
"Você nunca achou estranho?"
"Quando eu era criança, não."
Ela colocou o garfo sobre o prato.
"Depois comecei a achar."
Helena esperou.
Mariana olhou para a pulseira escondida sob a manga.
"Minha mãe parecia estar sempre esperando alguém aparecer."
"Alguém?"
"Eu não sei quem."
"Ela tinha medo?"
Mariana demorou.
"Às vezes."
Helena sentiu um aperto no peito.
"De quê?"
"Ela nunca dizia."
Mariana tomou um pouco de água.
"Quando alguém perguntava sobre a família dela, mudava de assunto. Quando eu perguntava dos meus avós, dizia que não tinha ninguém."
Helena apertou os dedos debaixo da mesa.
"E seu pai?"
"Rafael."
O nome atingiu Helena outra vez.
"Rafael o quê?"
Mariana balançou a cabeça.
"Não sei."
"Você não sabe o sobrenome do seu pai?"
"Minha mãe nunca me contou."
"Você chegou a conhecê-lo?"
"Não."
"O que ela dizia sobre ele?"
Mariana abaixou a voz.
"Que morreu antes de eu nascer."
Helena sentiu algo antigo se mover dentro da memória.
Rafael.
Isabela nunca tinha apresentado nenhum Rafael à família.
Pelo menos não oficialmente.
Mas, nos meses anteriores ao desaparecimento, a filha tinha começado a sair escondida.
Fernando descobrira que havia um rapaz.
Um jovem que ele considerava inadequado para uma Montenegro.
Helena nunca soubera todos os detalhes.
Fernando se recusava a falar sobre aquilo.
Isabela também.
"Mariana..."
"Sim?"
"Sua mãe falava esse nome enquanto dormia?"
"Às vezes."
"O que ela dizia?"
Mariana fechou os olhos, procurando uma lembrança.
"Uma vez eu acordei com ela chorando."
"E?"
"Ela dizia: 'Rafael, não vai embora'."
Helena sentiu um arrepio.
"Outra vez repetiu: 'Pai, por favor… não faça isso'."
O rosto de Helena endureceu.
Fernando.
A possibilidade surgiu imediatamente.
Ela não queria aceitá-la.
"Ela falava do pai dela?"
"Não quando estava acordada."
"E nos pesadelos?"
Mariana assentiu.
"Algumas vezes."
"O que dizia?"
Mariana tentou lembrar.
"Coisas sem sentido."
"Por favor."
Mariana percebeu que as mãos de Helena tremiam.
"Uma vez ela gritou: 'Pai, por favor… eu amo ele'."
Helena empalideceu.
Isabela tinha dito quase exatamente aquilo na última grande discussão com Fernando.
Helena estava no corredor.
Tinha ouvido os gritos através da porta do escritório.
Naquela época, não sabia quem era o rapaz.
Só lembrava da resposta do marido.
"Enquanto viver sob meu teto, vai obedecer às regras desta família."
Helena apertou os olhos.
"Minha filha também brigou com o pai por causa de um homem."
Mariana não respondeu.
"Ela tinha dezenove anos."
Helena continuou.
"E desapareceu pouco depois."
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Mariana empurrou levemente o prato.
"Talvez seja só coincidência."
"Pode ser."
"Minha mãe nunca disse que se chamava Isabela."
"Eu sei."
"Então por que continua olhando para mim desse jeito?"
Helena demorou para responder.
"Porque seus olhos me lembram alguém."
Mariana ficou desconfortável.
"Não faça isso."
"Isso o quê?"
"Não tente transformar minha mãe na pessoa que a senhora perdeu."
A frase atingiu Helena.
"Eu não quero fazer isso."
"Quer, sim."
Mariana respirou fundo.
"Eu sei como é querer alguém de volta."
Helena baixou os olhos.
"Você sente falta dela."
"Todos os dias."
A firmeza de Mariana desapareceu por alguns segundos.
"Minha mãe ficou doente por quase três anos."
Helena ergueu o rosto.
"Doente de quê?"
"Ela começou a perder peso. Depois vieram as dores, as internações..."
Mariana apertou os lábios.
"No fim, eu precisei parar de trabalhar para cuidar dela."
"Vocês não tinham ninguém?"
"Ninguém."
"E ela morreu há sete meses?"
Mariana assentiu.
"No Hospital Guilherme Álvaro, em Santos."
Helena fechou os olhos.
Sete meses.
A palavra parecia cruel.
Se Laura fosse Isabela, Helena tinha procurado a filha por vinte e dois anos e chegado apenas sete meses tarde demais.
Uma lágrima caiu sobre sua mão.
Depois outra.
Mariana percebeu.
"Senhora..."
"Eu procurei minha filha em todos os lugares."
A voz de Helena falhou.
"Todos."
Mariana permaneceu em silêncio.
"Eu contratei investigadores. Viajei atrás de pistas falsas. Reconheci corpos em hospitais porque a polícia dizia que a idade podia corresponder."
Helena respirou com dificuldade.
"Durante vinte e dois anos, toda vez que o telefone tocava de madrugada, eu pensava que finalmente alguém tinha encontrado Isabela."
Mariana baixou os olhos.
"Eu sinto muito."
Helena enxugou as lágrimas.
"Se sua mãe era minha filha..."
Ela não conseguiu terminar.
Mariana entendeu.
Helena tinha encontrado Isabela tarde demais.
As duas permaneceram em silêncio por alguns segundos.
Então Helena pareceu lembrar de algo.
Pegou o celular.
Suas mãos tremiam enquanto procurava uma pasta de fotografias antigas.
"Eu quero mostrar uma coisa."
Mariana ficou tensa.
Helena deslizou por várias imagens digitalizadas.
Aniversários.
Viagens.
Uma menina diante de uma árvore de Natal.
Uma adolescente montada em um cavalo.
Até parar em uma fotografia.
Isabela tinha dezenove anos.
Cabelos castanhos compridos.
Olhos grandes.
Um vestido branco simples.
Sorria para a câmera em um jardim.
Helena colocou o celular diante de Mariana.
"Essa era minha filha."
Mariana olhou.
Seu rosto perdeu toda a cor.
Ela não tocou no telefone.
Não piscou.
Helena percebeu imediatamente.
"Mariana?"
A jovem respirou pela boca.
"Não..."
"O que foi?"
"Não pode ser."
Helena sentiu o coração disparar.
"Você reconheceu?"
Mariana levantou tão rápido que a cadeira arrastou pelo chão.
Vários clientes olharam novamente.
Ela puxou a velha bolsa preta para cima da mesa.
Abriu o zíper.
"Mariana, o que está fazendo?"
Ela não respondeu.
Tirou uma camiseta.
Alguns documentos.
Um pequeno estojo.
Um envelope amarelado.
Até encontrar uma fotografia dobrada quatro vezes.
Mariana ficou olhando para ela antes de abrir.
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"Minha mãe carregava isso na carteira."
Colocou a fotografia ao lado do celular.
Helena parou de respirar.
A mulher da fotografia de Mariana estava mais velha.
Mais magra.
Tinha algumas linhas ao redor dos olhos e os cabelos presos de maneira simples.
Mas o formato do rosto era o mesmo.
Os olhos eram os mesmos.
Até a pequena pinta abaixo da orelha esquerda estava ali.
Helena tocou a tela do celular.
Depois tocou a fotografia.
"Isabela..."
Mariana começou a chorar.
"É ela."
Helena levantou os olhos.
"Tem certeza?"
"Eu enterrei essa mulher."
A frase destruiu qualquer dúvida que ainda restava naquele instante.
Helena levou as duas mãos ao rosto.
Vinte e dois anos.
Sua filha tinha estado viva.
Tinha criado uma menina.
Tinha adoecido.
Tinha morrido.
E Helena não estivera presente em nenhum desses momentos.
Mariana segurou a fotografia contra o peito.
"Por que ela nunca me contou?"
Helena chorava sem conseguir responder.
"Por que minha mãe mudou de nome?"
"Eu não sei."
"Por que dizia que não tinha família?"
"Eu não sei."
"Por que fugiu da senhora?"
Helena ergueu o rosto.
Dessa vez, havia medo em seus olhos.
"Talvez ela não tenha fugido de mim."
Mariana ficou imóvel.
"Como assim?"
Antes que Helena respondesse, do outro lado da rua, dentro de um sedã preto com vidros escuros, um homem abaixou a câmera do celular.
Ele havia fotografado tudo pela janela do restaurante.
Helena.
Mariana.
A pulseira.
E, principalmente, as duas fotografias sobre a mesa.
O homem selecionou a imagem mais nítida e enviou para um contato salvo apenas como Eduardo Montenegro.
Na sede do Grupo Montenegro, na região da Faria Lima, Eduardo estava no meio de uma reunião quando o celular vibrou.
Ele quase ignorou.
Então viu a fotografia.
Seu rosto mudou imediatamente.
Abriu a mensagem que acompanhava a imagem.
"A filha de Isabela apareceu."
Eduardo se levantou sem dizer nada.
"Está tudo bem, doutor Eduardo?"
Ele não respondeu.
Saiu da sala e fechou a porta atrás de si.
Ampliou a fotografia.
Primeiro olhou para Mariana.
Depois para a pulseira.
Por último, para Helena chorando diante dela.
As mãos dele ficaram frias.
Eduardo fez uma ligação.
A pessoa atendeu no segundo toque.
"Alô?"
Ele olhou novamente para a fotografia.
Quando falou, sua voz estava baixa e dura.
"Ela não pode entrar naquela casa."
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