"A Herança Nunca Foi Deles" Parte 2
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Na manhã seguinte, Caio Montenegro Ferraz entrou no escritório do Dr. Marcelo Almeida Siqueira usando um terno preto impecável.
Bruno vinha logo atrás, também vestido de luto.
Nenhum dos dois parecia ter passado a noite chorando.
Caio sequer se sentou direito antes de perguntar:
"Quando podemos abrir o testamento?"
Marcelo ergueu os olhos lentamente.
O escritório ficava em Itaim Bibi, em São Paulo, ocupando metade de um andar de um edifício discreto onde Augusto Montenegro resolvera durante décadas os assuntos mais delicados da família.
Naquela manhã, tudo parecia normal.
A recepcionista servira café.
Os funcionários falavam baixo.
Os carros passavam pela avenida lá embaixo.
Mas atrás de uma porta fechada, a poucos metros de Caio e Bruno, Augusto estava sentado em uma poltrona com a perna imobilizada.
O rosto ainda tinha pequenos cortes.
O ombro direito estava enfaixado.
E cada movimento provocava uma dor que o fazia cerrar os dentes.
Mesmo assim, ele não perdia uma palavra.
Marcelo manteve a expressão profissional.
"Antes de qualquer leitura formal, precisamos resolver a situação jurídica da morte."
Caio franziu a testa.
"Que situação?"
"Não há corpo."
Bruno olhou para o irmão.
Marcelo continuou:
"Enquanto a morte não for oficialmente confirmada, não existe inventário aberto."
Caio apoiou as duas mãos sobre a mesa.
"Meu avô caiu de um helicóptero no meio da Serra da Mantiqueira."
"Eu sei."
"De milhares de metros de altura."
"Também sei."
"Então o senhor realmente acha que ele está vivo?"
Atrás da porta, Augusto fechou os olhos.
Esperou.
Por um instante absurdo, ainda desejou ouvir alguma coisa humana.
Talvez medo.
Talvez culpa.
Talvez uma frase simples.
"Existe alguma chance de encontrarem meu avô com vida?"
Mas Caio não perguntou.
Marcelo respondeu:
"Não cabe a mim presumir a morte de um cliente sem documentação legal."
Caio respirou fundo, irritado.
"Quanto tempo isso pode levar?"
"Sem corpo, pode levar meses."
Bruno finalmente falou:
"Meses?"
A primeira emoção verdadeira apareceu em seu rosto.
Não era tristeza.
Era preocupação.
"Não dá para esperar tudo isso."
Marcelo inclinou a cabeça.
"Por quê?"
Bruno ficou calado.
Caio respondeu por ele:
"Porque existem empresas para administrar."
"Empresas que continuam funcionando normalmente."
"Funcionando sob comando de quem?"
"Do conselho."
Caio riu sem humor.
"Meu avô era o presidente."
"Era."
"Então agora alguém precisa assumir."
Marcelo encarou Caio por alguns segundos.
"Esse assunto não será decidido hoje."
Caio se recostou.
Seu maxilar endureceu.
Atrás da parede, Augusto observava tudo por uma pequena tela ligada à câmera interna do escritório.
Ele conhecia aquele olhar.
Caio fazia a mesma expressão desde criança quando alguém lhe dizia não.
A única diferença era que, aos nove anos, ele quebrava brinquedos.
Aos vinte e nove, destruía pessoas.
Bruno pegou o celular.
"Tem pelo menos uma estimativa do patrimônio?"
Marcelo olhou para ele.
"Você quer uma estimativa?"
"Para organização."
Augusto soltou uma risada baixa na outra sala.
Organização.
Bruno vinha retirando dinheiro da empresa havia quase dois anos e agora queria falar de organização.
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Marcelo abriu uma pasta.
"Os valores são complexos."
Caio se inclinou novamente.
"Quanto?"
"Depende do que vocês consideram patrimônio pessoal, patrimônio societário e ativos protegidos."
Caio perdeu a paciência.
"Marcelo, por favor. Quanto vale tudo?"
O advogado permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
"Em uma avaliação aproximada, Montenegro Agro, propriedades rurais, participações, galpões, imóveis comerciais e outros ativos podem ultrapassar dois bilhões e oitocentos milhões de reais."
Bruno arregalou os olhos.
Caio não demonstrou surpresa.
Ele já sabia.
Na verdade, havia calculado muito antes.
Do lado de dentro da sala secreta, Augusto sentiu um gosto amargo na boca.
Dois bilhões e oitocentos milhões.
Era assim que eles enxergavam quarenta anos de sua vida.
Como um número.
Nada sobre as madrugadas em Ribeirão Preto.
Nada sobre a primeira safra perdida.
Nada sobre os anos em que ele mesmo dirigia caminhão para evitar demitir funcionários.
Nada sobre as famílias que dependiam das fazendas.
Apenas dinheiro.
Caio abriu um sorriso pequeno.
"E a fazenda de Ribeirão Preto?"
Marcelo estreitou os olhos.
"Qual delas?"
"A principal."
Augusto se endireitou na poltrona.
Marcelo percebeu a mudança pelo monitor, mas continuou.
"A Fazenda Santa Helena?"
Caio assentiu.
"Quanto vale?"
"Não está à venda."
"Eu perguntei quanto vale."
"Algumas centenas de milhões, dependendo da avaliação."
Bruno soltou um assobio baixo.
Caio sorriu.
"Ótimo."
Marcelo apoiou os cotovelos na mesa.
"Por que ótimo?"
Caio pareceu perceber que falara demais.
"Curiosidade."
Marcelo não respondeu.
Caio então ajeitou o paletó.
"Já existem grupos interessados em propriedades daquele porte."
Atrás da parede, Augusto virou o rosto lentamente para a tela.
Marcelo perguntou:
"Vocês já estão procurando compradores?"
Caio não demonstrou vergonha.
"Estou apenas me antecipando."
"O avô de vocês desapareceu ontem."
"Eu sei."
"E hoje você já está negociando a fazenda onde ele começou a empresa."
Caio abriu os braços.
"Negócio é negócio."
Augusto ficou completamente imóvel.
A Fazenda Santa Helena não era apenas uma propriedade.
Tinha sido o primeiro pedaço de terra que comprara.
Na época, era quase tudo dívida.
Havia uma casa pequena.
Um galpão torto.
Vinte e três funcionários.
Foi ali que Helena aprendera a andar.
Foi ali que Caio e Bruno passaram férias quando crianças.
Foi ali que Augusto enterrara a esposa.
E Caio precisava de menos de vinte e quatro horas para transformá-la em dinheiro.
Bruno tentou mudar de assunto.
"Tem carro também."
Caio lançou um olhar irritado.
"Que carro?"
Bruno mostrou a tela do celular.
"Um modelo que eu vi ontem."
Marcelo ficou olhando.
Bruno sorriu.
"Já deixei uma reserva."
Augusto soltou o ar lentamente.
Marcelo perguntou:
"Reserva?"
"É."
"Antes de receber qualquer herança?"
Bruno deu de ombros.
"Quando o dinheiro chegar, eu pago."
"Se chegar."
O sorriso de Bruno desapareceu.
Caio encarou Marcelo.
"O que isso quer dizer?"
"Quer dizer que vocês estão contando com uma coisa que ainda não aconteceu."
Caio se levantou.
"Somos os netos dele."
"Sim."
"Os herdeiros mais próximos."
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"Isso não significa que vocês receberão tudo."
Caio ficou em silêncio.
Depois perguntou:
"Ele mudou o testamento?"
Atrás da parede, Augusto apertou a bengala que Marcelo havia providenciado.
A pergunta veio rápido demais.
Marcelo manteve o rosto impassível.
"Não posso discutir conteúdo testamentário neste momento."
Caio se aproximou da mesa.
"Ele mudou?"
"Caio."
"Eu só quero uma resposta."
"E eu já dei."
Bruno tocou no braço do irmão.
"Vamos embora."
Caio não se mexeu.
"Quem está controlando as contas?"
"O conselho."
"E quem está autorizando movimentações?"
"O conselho."
"Quero acesso."
"Não."
Caio bateu a mão na mesa.
"Essa empresa é da minha família!"
Marcelo levantou-se.
"Essa empresa ainda pertence ao seu avô."
Silêncio.
A frase caiu no escritório como uma pedra.
Por um segundo, Caio ficou pálido.
Depois riu.
"Meu avô está morto."
Augusto encarou a tela.
Marcelo respondeu:
"Até que a lei diga isso, não."
Caio pegou o paletó.
"Vamos ver quanto tempo essa burocracia dura."
Ele caminhou até a porta.
Bruno o seguiu.
Antes de sair, Caio virou-se.
"Quando houver qualquer mudança, qualquer documento ou qualquer informação sobre o testamento, o senhor me liga."
Marcelo não respondeu.
Caio insistiu:
"Entendeu?"
"Boa tarde, Caio."
A porta se fechou.
O silêncio voltou.
Augusto permaneceu imóvel.
Marcelo esperou alguns segundos.
Depois atravessou o corredor e abriu a porta da sala onde o velho estava escondido.
"Já foram."
Augusto olhava para a tela apagada.
"Quanto vale a fazenda."
Marcelo ficou calado.
Augusto repetiu com a voz baixa:
"Foi a primeira coisa que perguntaram."
"Augusto..."
"Nem uma vez."
Marcelo aproximou-se.
"Nem uma vez eles perguntaram se havia alguma chance de eu estar vivo."
A voz do velho falhou por um instante.
Ele desviou o rosto.
Marcelo conhecia Augusto havia mais de vinte anos.
Já o tinha visto diante de falências, processos, perdas milionárias e da morte da esposa.
Nunca o tinha visto daquela maneira.
Augusto respirou fundo.
"Eu teria dado tudo para eles."
Marcelo não disse nada.
"Se tivessem merecido, eu teria dado tudo."
O velho ergueu os olhos.
"Mas eles tentaram me matar antes mesmo de esperar."
Marcelo puxou uma cadeira.
"Agora precisamos ir à polícia."
Augusto permaneceu em silêncio.
Marcelo abriu uma pequena caixa sobre a mesa.
Dentro havia um gravador digital preto.
O mesmo dispositivo que Augusto carregava preso ao bolso interno da camisa durante compromissos importantes.
Marcelo o colocou sobre a mesa.
"Eu consegui recuperar o áudio."
Augusto olhou para o aparelho.
Ele tinha o hábito de gravar reuniões delicadas havia anos.
Contratos.
Discussões empresariais.
Negociações.
Naquela manhã, antes de embarcar no helicóptero, ativara o aparelho quando Caio começara a falar de herança.
Não imaginava o que seria registrado depois.
Marcelo apertou um botão.
O som do vento invadiu a sala.
Depois veio a voz de Caio:
"O senhor cometeu um erro, vô. Tentou tirar nossa herança."
Augusto não piscou.
A gravação continuou.
Sua própria voz:
"Eu criei vocês!"
Depois Caio:
"E nós somos seus únicos herdeiros."
Vieram ruídos.
Respiração.
Gritos.
A voz de Bruno.
A luta.
E finalmente o som do vento aumentando quando Augusto desapareceu pela porta.
Marcelo desligou.
"Isso é suficiente para abrir uma investigação criminal séria."
Augusto olhou fixamente para o gravador.
"Tem cópia?"
"Três."
"Guarde em lugares diferentes."
"Já fiz."
"Bom."
Marcelo franziu a testa.
"Então vamos à polícia."
Augusto respondeu:
"Ainda não."
"Augusto, temos a confissão praticamente gravada."
"Temos uma parte."
"Que parte está faltando?"
Augusto virou-se para ele.
"Como eles sabiam?"
Marcelo ficou em silêncio.
"Caio sabia que eu havia mudado o testamento."
"Sim."
"E aquela reunião foi confidencial."
"Foi."
"Quantas pessoas sabiam?"
Marcelo demorou a responder.
Augusto continuou:
"Eu."
"Sim."
"Você."
Marcelo assentiu.
Augusto apertou os olhos.
"E mais quem?"
O advogado se levantou lentamente.
Caminhou até a janela.
Lá embaixo, São Paulo seguia indiferente.
Carros.
Prédios.
Gente apressada.
Marcelo passou a mão pelo rosto.
"Naquele dia..."
Augusto ficou atento.
"Fale."
"Quando saímos da sala de reunião, alguém estava no corredor."
Augusto sentiu o peito apertar.
"Quem?"
Marcelo virou-se.
Por alguns segundos, pareceu procurar uma maneira menos dolorosa de dizer aquilo.
Não encontrou.
"Sua filha, Helena."
Augusto perdeu a expressão.
A mão apertou a bengala com tanta força que os dedos ficaram brancos.
"Helena?"
Marcelo assentiu.
"Ela ouviu parte da conversa."
Augusto permaneceu imóvel.
E, pela primeira vez desde que sobrevivera à queda, teve medo de descobrir que a traição podia ter começado muito antes de Caio e Bruno abrirem a porta daquele helicóptero.
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