"A Dor Debaixo do Cobertor Azul" Parte 5
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Carolina Montenegro saiu do quarto sem olhar para ninguém.
Os saltos ecoaram pelo corredor do hospital enquanto ela apertava a bolsa contra o corpo e caminhava depressa em direção aos elevadores.
Rafael foi atrás.
"Carolina!"
Ela não parou.
"Carolina, eu estou falando com você."
A porta do elevador abriu.
Carolina entrou.
Rafael colocou a mão entre as portas antes que se fechassem.
"Você não vai embora."
"Rafael, tire a mão."
"Seu nome está no acesso que alterou o prontuário da minha esposa."
"Eu já disse que não tenho nada a ver com isso."
"Então fica e explica."
Carolina apertou o botão do térreo.
"Não vou discutir dentro de um hospital."
"Ótimo."
Rafael entrou no elevador.
"Então vamos discutir lá fora."
Os dois desceram em silêncio.
Quando chegaram ao estacionamento, Carolina caminhou rapidamente até um SUV preto.
Rafael segurou a porta antes que ela pudesse abrir.
"Três alterações."
Carolina respirou fundo.
"Me deixa passar."
"Datas de consulta. Idade gestacional. Informações que agora minha mãe está usando para dizer que João Pedro não é meu filho."
"Eu não criei aquele relatório."
"Mas usaram uma autorização no seu nome."
"Autorizações corporativas passam pelo meu setor o tempo inteiro."
"Não mente para mim."
Carolina virou de repente.
"Você acha que tudo funciona do jeito que imagina?"
"Eu acho que alguém mexeu nos exames da Mariana."
"Baixe a voz."
"Por quê? Está com medo de alguém ouvir?"
Carolina olhou ao redor.
"Estou tentando evitar um escândalo."
Rafael riu, incrédulo.
"Minha esposa está internada com as pernas feridas e você ainda está preocupada com o sobrenome Vasconcelos."
"Você não entende o tamanho disso."
"Então me explica."
Carolina permaneceu em silêncio.
Rafael se aproximou.
"Foi Teresa?"
Ela desviou o olhar.
"Carolina."
"Eu preciso ir."
"Foi minha mãe que mandou você mexer no prontuário?"
Carolina abriu a porta do carro.
Rafael fechou novamente.
"Responde."
"Não encosta no meu carro."
"Responde!"
"Eu não posso!"
A voz dela finalmente explodiu.
Rafael ficou imóvel.
Carolina percebeu o que tinha acabado de admitir.
"Não pode ou não quer?"
Ela respirou fundo.
"Você está mexendo em coisas que começaram antes mesmo de você conhecer Mariana."
"Que coisas?"
Carolina não respondeu.
Um homem se aproximou pelo estacionamento.
Terno cinza, pasta preta, expressão séria.
"Rafael Vasconcelos?"
Rafael virou.
"Sim."
"Henrique Duarte."
O homem estendeu a mão.
"Você me ligou ontem."
Rafael apertou a mão dele.
"Obrigado por vir."
Carolina empalideceu.
"Henrique Duarte?"
Henrique olhou para ela.
"Carolina Montenegro."
"Vocês se conhecem?"
Henrique respondeu sem tirar os olhos dela.
"Conheço o trabalho do departamento jurídico dos Vasconcelos."
Carolina fechou a bolsa.
"Isso é assunto familiar."
Henrique abriu a pasta.
"Quando envolve possível adulteração de prontuário médico, ameaça e lesão, deixa de ser apenas assunto familiar."
"Você não tem procuração."
"Ainda."
Rafael respondeu imediatamente.
"Vai ter."
Carolina soltou o ar.
"Você está declarando guerra à própria família."
"Não."
Rafael apontou para o prédio do hospital.
"Minha família está lá em cima."
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Henrique se aproximou.
"Carolina, se existe uma explicação legítima para sua autorização aparecer no sistema, este é um excelente momento para apresentá-la."
Ela olhou para os dois.
"Eu não alterei pessoalmente nenhum dado."
Henrique permaneceu calmo.
"Não foi isso que eu perguntei."
Carolina fechou os olhos por um instante.
"Teresa me procurou."
Rafael sentiu o sangue gelar.
"Quando?"
"No começo da gravidez."
"Quanto tempo?"
"Poucas semanas depois que Mariana contou para a família."
Rafael deu um passo para trás.
"Então isso começou meses atrás."
Carolina assentiu.
"Ela pediu que eu verificasse alguns dados."
"Que dados?"
"Consultas. Datas. Convênio."
"Por quê?"
"Ela dizia que precisava confirmar uma suspeita."
Rafael fechou os punhos.
"Sobre a paternidade?"
Carolina não respondeu.
"Você mexeu nas datas?"
"Eu solicitei acesso administrativo."
"Isso não responde."
"Eu fiz o que Teresa pediu."
Rafael sentiu vontade de gritar.
"Você falsificou o prontuário de uma mulher grávida porque minha mãe pediu?"
"Eu não sabia o que ela pretendia fazer!"
"Mas fez."
"Naquela época eu pensei que fosse uma disputa patrimonial."
Henrique levantou o olhar.
"Patrimonial?"
Carolina percebeu novamente que havia falado demais.
Rafael se aproximou.
"Que disputa patrimonial?"
"Esquece."
"Não."
"Rafael..."
"Que patrimônio tem alguma coisa a ver com meu filho?"
Carolina ficou em silêncio.
Henrique observou atentamente.
"Talvez seja exatamente essa a pergunta que deveríamos estar fazendo."
Carolina virou para ele.
"Não se meta."
"Fui contratado para me meter."
Rafael perdeu a paciência.
"Fala logo."
Carolina encarou o primo.
"Você ainda acha que sua mãe fez tudo isso porque não gosta da Mariana?"
Rafael ficou parado.
"Do que você está falando?"
"Teresa nunca gostou dela."
"Isso eu sei."
"Não, você não sabe."
Carolina soltou uma risada amarga.
"Você passou anos achando que tudo se resumia à filha de uma costureira da Mooca não ser boa o suficiente para um Vasconcelos."
"Ela sempre deixou isso claro."
"Era conveniente deixar você acreditar nisso."
Rafael sentiu um arrepio.
"Conveniente por quê?"
Carolina olhou para Henrique.
Depois para Rafael.
"Porque o problema nunca foi apenas Mariana."
"Então qual era o problema?"
Carolina baixou a voz.
"O bebê."
Rafael ficou sem reação.
"João Pedro?"
"Sim."
"Minha mãe odeia uma criança que nem nasceu?"
"Ela não odeia seu filho."
Carolina respirou fundo.
"Ela tem medo do que acontece quando ele nascer."
Henrique fechou a pasta.
"O que acontece?"
Carolina hesitou.
"Augusto."
O nome do pai atingiu Rafael imediatamente.
"Meu pai morreu há cinco anos."
"Mas deixou documentos."
"Que documentos?"
"Alterações na estrutura patrimonial da família."
Rafael balançou a cabeça.
"Eu participei da leitura do testamento."
"Você participou da leitura do documento que Teresa decidiu apresentar."
Silêncio.
Rafael encarou Carolina.
"O que você acabou de dizer?"
Carolina parecia exausta.
"Seu pai fez mudanças meses antes de morrer."
"Eu nunca soube."
"Porque elas não interessavam à Teresa."
Henrique interveio.
"Que tipo de mudanças?"
"Augusto não confiava mais na forma como Teresa administrava as participações da família."
Carolina continuou.
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"Ele queria impedir que uma única pessoa controlasse tudo depois da morte dele."
Rafael começou a compreender.
"Meu pai queria tirar poder dela."
"Em parte."
"E onde entra meu filho?"
Carolina demorou alguns segundos.
"Augusto criou uma cláusula para a geração seguinte."
Rafael não piscava.
"Que cláusula?"
"O primeiro filho legítimo de Rafael Vasconcelos receberia, ao nascer, direitos sobre parte das ações que pertenciam ao Augusto."
Rafael ficou imóvel.
Henrique imediatamente perguntou:
"Qual percentual?"
"Eu não lembro do número exato."
"Mas é significativo?"
Carolina assentiu.
"Muito."
Rafael levou a mão à nuca.
"Não pode ser."
"Pode."
"Então quando Mariana engravidou..."
"Teresa percebeu que o prazo estava acabando."
"Prazo?"
"Enquanto não existisse um herdeiro da sua linha, ela continuava exercendo controle sobre essas participações por meio da estrutura atual."
Rafael sentiu náusea.
"Mas quando João Pedro nascer..."
Carolina completou.
"Uma parte desse controle deixa de estar nas mãos dela."
O estacionamento pareceu silencioso demais.
Rafael olhou para as janelas do hospital.
Mariana estava lá em cima.
Durante meses, todos acreditaram que Teresa a desprezava por ser pobre.
Por ser da Mooca.
Por não pertencer ao círculo social dos Vasconcelos.
Mas aquilo era apenas a superfície.
"Ela não queria assustar Mariana."
Rafael falou quase para si mesmo.
Carolina não respondeu.
"Ela queria assustá-la o suficiente para controlar a gravidez."
Henrique olhou para Carolina.
"Precisamos desse documento."
"Eu não tenho."
"Quem tem?"
"Talvez ninguém."
Rafael virou.
"Você disse que existia."
"Existia."
"Então vamos encontrar."
Henrique assentiu.
"Primeiro precisamos saber onde Augusto guardava documentos particulares."
Rafael pensou.
"Meu pai tinha um escritório na antiga casa de Alto de Pinheiros."
Carolina empalideceu.
A reação não passou despercebida.
Henrique perguntou:
"A mesma casa onde Mariana foi ferida?"
Rafael olhou para ela.
"Sim."
Os três ficaram em silêncio.
A coincidência era impossível de ignorar.
Naquela mesma tarde, Henrique solicitou cópias de registros societários antigos e começou a reconstruir as alterações feitas por Augusto nos últimos meses de vida.
Rafael voltou ao quarto.
Mariana percebeu imediatamente que ele havia descoberto alguma coisa.
"O que aconteceu?"
Rafael sentou ao lado dela.
"Eu preciso te contar uma coisa."
Mariana ouviu tudo sem interromper.
Quando ele terminou, levou a mão lentamente à barriga.
"Então era por causa dele."
Rafael abaixou os olhos.
"Talvez."
"Não."
Mariana balançou a cabeça.
"Agora faz sentido."
"Mariana..."
"Quando contei que estava grávida, Teresa não perguntou como eu estava."
Ela olhou para Rafael.
"A primeira coisa que perguntou foi se você já tinha contado para algum advogado da família."
Rafael franziu a testa.
"Você nunca me disse isso."
"Na época achei estranho."
Mariana acariciou a barriga.
"Depois ela começou a perguntar sobre meus exames."
Rafael sentiu o peito apertar.
"E semanas depois mexeram no prontuário."
"Sim."
Mariana fechou os olhos.
"Ela não estava tentando provar que João Pedro não era seu."
Rafael entendeu.
"Ela estava preparando uma forma de contestar."
Naquela noite, Henrique foi até a antiga casa de Alto de Pinheiros acompanhado de Rafael e de um representante autorizado da família.
O escritório de Augusto permanecia praticamente intacto.
Livros.
Fotografias.
Pastas antigas.
Uma escrivaninha de madeira escura.
Rafael ficou alguns segundos parado na porta.
"Eu não entro aqui desde o enterro."
Henrique começou a examinar os arquivos.
Levaram quase duas horas.
Nada.
Até Rafael encontrar uma pequena gaveta falsa na parte inferior da escrivaninha.
Dentro havia uma pasta fina.
Sem identificação.
Henrique abriu.
Documentos societários.
Anotações manuscritas.
Cópias de procurações.
E páginas arrancadas de alguma coisa maior.
"Isso aqui parece parte de um instrumento sucessório."
Rafael aproximou-se.
Henrique virou uma página.
Depois outra.
Até parar.
"Houve uma folha arrancada."
"Como sabe?"
"A numeração."
Henrique mostrou.
"Vai da página oito para a dez."
Rafael procurou dentro da pasta.
Nada.
Então percebeu um pedaço de papel preso na lateral interna.
Puxou com cuidado.
Era apenas parte de uma folha.
A borda estava rasgada.
No alto aparecia a assinatura de Augusto.
Mais abaixo, uma única frase permanecia legível.
Rafael leu em voz alta.
"Se Teresa tentar impedir o nascimento do meu primeiro neto..."
Ele parou.
Henrique tomou o papel.
O restante havia sido arrancado.
Rafael ficou olhando para aquelas palavras.
Seu pai tinha escrito aquilo antes de morrer.
Antes de Mariana.
Antes de João Pedro.
Antes de qualquer um saber que um dia existiria aquela gravidez.
Henrique virou o fragmento contra a luz.
"Tem alguma coisa no verso."
Rafael se aproximou.
Era uma anotação manuscrita.
Quase apagada.
Apenas três palavras ainda podiam ser lidas.
"Procurar gravação Augusto."
Rafael ergueu os olhos.
"Que gravação?"
Henrique olhou para a gaveta aberta.
"Essa é a pergunta."
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