"A Dor Debaixo do Cobertor Azul" Parte 2
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Rafael continuava de pé diante da porta do quarto, olhando para Teresa como se estivesse vendo a própria mãe pela primeira vez.
Atrás dele, Mariana chorava em silêncio, tentando puxar a manta azul de volta sobre as pernas.
Teresa foi a primeira a quebrar o silêncio.
"Não faça essa cara para mim."
Rafael não respondeu.
Seus olhos estavam fixos nela.
"Eu perguntei como você sabia."
Teresa respirou fundo e ergueu o queixo.
"Porque isso é óbvio."
"Óbvio?"
"Essas marcas são de produto químico."
Rafael ficou imóvel.
A frase bateu nele com mais força do que um grito.
Ele olhou para Mariana.
Depois voltou a encarar a mãe.
"Produto químico."
Teresa percebeu tarde demais o que tinha acabado de dizer.
"Sim. Qualquer pessoa consegue perceber."
"Não."
Rafael deu um passo em direção a ela.
"Eu não disse que era produto químico."
Teresa permaneceu calada.
Rafael sentiu o coração acelerar.
"Eu nem sabia o que era."
"Muito bem, então agora sabe."
"Mas você sabia antes."
"Rafael..."
"Você entrou aqui, viu as pernas dela e a primeira coisa que disse foi que isso aconteceu por causa de produto químico."
Teresa estreitou os olhos.
"Porque eu tenho experiência."
"Experiência com o quê?"
A voz de Rafael começou a subir.
"Com queimaduras?"
Teresa apertou a bolsa contra o corpo.
"Pare de fazer um espetáculo."
"Com solvente?"
"Rafael."
"Ou com o que fizeram com a minha esposa?"
Mariana fechou os olhos.
Seu corpo inteiro tremia.
Teresa lançou um olhar rápido na direção dela.
Foi apenas um segundo.
Mas Rafael viu.
E alguma coisa dentro dele se partiu.
"Você sabe."
Teresa bufou.
"Eu sei que Mariana é descuidada."
Rafael franziu a testa.
"Do que você está falando?"
"Foi um acidente."
O quarto pareceu congelar.
Mariana abriu os olhos.
Rafael ficou sem respirar.
"Que acidente?"
Teresa percebeu novamente que tinha avançado demais.
Tentou recuperar o controle.
"Ela estava limpando."
"Mariana?"
"Sim."
"Grávida de sete meses?"
"Na época estava de seis."
Rafael passou a mão pelo rosto.
"Você está me dizendo que minha esposa, grávida, estava usando produto industrial para limpeza?"
Teresa cruzou os braços.
"Ela quis ajudar."
Mariana soltou uma risada curta e desesperada.
Rafael virou imediatamente para ela.
"Mariana?"
Ela levou as mãos ao rosto.
"Eu não consigo."
Rafael voltou até a cama.
Sentou-se ao lado dela.
"Olha para mim."
Mariana não conseguiu.
"Você não precisa ter medo de mim."
Ela começou a chorar ainda mais.
"Eu não tenho medo de você."
"Então de quem você tem medo?"
Mariana permaneceu em silêncio.
Rafael segurou as mãos dela.
"Foi minha mãe?"
Mariana fechou os olhos com força.
"Mariana."
Ela tentou puxar as mãos.
Rafael não apertou.
Apenas continuou segurando.
"Eu preciso saber."
Teresa se aproximou.
"Não dê corda para isso."
Rafael se virou.
"Fica onde está."
Teresa parou.
Foi a primeira vez que o filho falou com ela daquele jeito.
"Você não vai me tratar como uma criminosa dentro de uma casa que existe por causa da nossa família."
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Rafael se levantou.
"Essa casa é minha e da Mariana."
"Você sabe muito bem quem pagou por ela."
"Eu não estou falando de dinheiro."
"Você nunca falou de dinheiro porque sempre teve."
"Chega."
Teresa abriu os braços.
"Você quer a verdade? Sua esposa se machucou porque não sabe seguir uma orientação simples."
Mariana levantou o rosto.
Os olhos estavam vermelhos.
"Isso é mentira."
Teresa endureceu.
"Mariana."
"É mentira."
Rafael olhou para a esposa.
Ela respirava com dificuldade.
"Você quer me contar?"
Mariana olhou para Teresa.
Apenas aquele olhar já dizia muito.
Teresa deu um passo à frente.
"Não invente histórias."
Rafael apontou para a porta.
"Você fica em silêncio."
Teresa arregalou os olhos.
"Nunca fale comigo assim."
"Então não me obrigue a repetir."
Mariana apertou os dedos uns contra os outros.
"Foi há pouco mais de um mês."
Rafael sentiu o estômago afundar.
Mariana respirou fundo.
"Sua mãe me ligou numa terça-feira."
Teresa fechou a mandíbula.
"Ela disse que tinha encontrado caixas antigas com coisas do seu pai."
Rafael parou.
"Do meu pai?"
Mariana assentiu.
"Ela disse que eram objetos do Augusto. Fotografias, documentos, roupas. Falou que talvez você ficasse emocionado demais se visse tudo de uma vez."
Teresa soltou um suspiro irritado.
"Isso é absurdo."
Mariana ignorou.
"Ela pediu para eu ir até aquela casa em Alto de Pinheiros."
Rafael conhecia o imóvel.
Uma residência antiga da família, quase sempre fechada desde a morte de Augusto.
"E você foi sozinha?"
Mariana assentiu.
"Eu achei que ela estava tentando se aproximar de mim."
A voz dela falhou.
"Eu fui porque queria que ela gostasse de mim."
Rafael abaixou os olhos.
A culpa começou a crescer dentro dele.
Mariana continuou.
"Quando cheguei, não tinha caixa nenhuma."
Teresa deu outro passo.
"Mariana, cuidado com o que está dizendo."
Rafael virou tão rápido que Teresa parou.
"Deixa ela falar."
Mariana secou as lágrimas.
"Ela me levou até uma área de serviço nos fundos."
"Para quê?"
"Disse que o lugar estava imundo."
Rafael franziu a testa.
"Ela queria que você limpasse?"
Mariana assentiu.
"Eu disse que não podia ficar muito tempo abaixada por causa da gravidez."
Teresa soltou uma risada seca.
"Ela está transformando tudo."
Mariana ergueu a voz pela primeira vez.
"Você trancou a porta."
Teresa ficou imóvel.
Rafael olhou para a mãe.
"O quê?"
Mariana começou a tremer.
"Ela trancou a porta por fora."
"Não."
Teresa respondeu imediatamente.
"Mentira."
"Você trancou."
Mariana chorava.
"Você disse que eu só sairia dali quando aprendesse a respeitar a família."
Rafael não conseguia acreditar.
"Continua."
Mariana respirou com dificuldade.
"Havia um galão perto do tanque."
Rafael já sabia que não queria ouvir o resto.
Mesmo assim, precisava.
"Que galão?"
"Um produto de limpeza industrial."
Teresa cruzou os braços.
"Era desengraxante."
Rafael virou lentamente.
"Você confirma?"
Teresa percebeu o erro.
"Eu só estou dizendo que havia um produto."
"Então você estava lá."
Teresa ficou em silêncio.
Mariana continuou.
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"Ela mandou que eu limpasse o chão."
Rafael sentiu as mãos fecharem em punhos.
"Você estava grávida."
"Eu disse isso."
Mariana colocou a mão sobre a barriga.
"Eu falei que estava tonta."
Teresa desviou o rosto.
"Ela disse que eu usava a gravidez como desculpa para tudo."
Rafael fechou os olhos.
Por um instante, a imagem do pai veio à sua cabeça.
Augusto sempre dizia que Teresa conseguia transformar crueldade em disciplina.
Rafael nunca quis entender o que aquilo significava.
Agora entendia.
"O que aconteceu depois?"
Mariana hesitou.
"Eu tentei sair."
Teresa ficou pálida.
"Foi aí que o galão virou."
"Virou?"
Rafael perguntou.
Mariana mordeu o lábio.
"Parte do produto caiu nas minhas pernas."
Rafael sentiu o peito apertar.
"Você pediu ajuda?"
"Eu gritei."
Teresa desviou o olhar.
Mariana passou a mão pelo rosto.
"Ela abriu a porta depois."
"Depois de quanto tempo?"
"Eu não sei."
"Cinco minutos? Dez?"
"Eu não sei, Rafael."
Ela começou a soluçar.
"Eu estava desesperada."
Rafael segurou o rosto da esposa com cuidado.
"Tudo bem."
"Eu só queria ir para um hospital."
"Por que você não foi?"
Mariana olhou para Teresa.
A resposta estava ali.
Rafael também olhou.
"O que você fez?"
Teresa respirou fundo.
"Eu não fiz nada."
Mariana balançou a cabeça.
"Você pegou meu celular."
Rafael parou.
"Ela pegou seu celular?"
"Sim."
"E depois?"
Mariana engoliu em seco.
"Ela disse que, se eu contasse alguma coisa para você, eu perderia meu filho."
Rafael ficou sem expressão.
"Como?"
"Ela disse que tinha advogados."
Teresa finalmente reagiu.
"Eu nunca disse isso."
"Disse."
"Você estava desesperada e entendeu errado."
Mariana levantou a voz.
"Você disse que faria um laudo dizendo que eu era instável."
Rafael virou para a mãe.
Teresa ficou rígida.
Mariana continuou.
"Disse que sua família conhecia médicos, advogados, gente no tribunal."
"Isso é loucura."
Teresa tentou interromper.
Mariana falou mais alto.
"Você disse que eu era pobre demais para lutar contra vocês."
Rafael sentiu um frio percorrer o corpo.
Mariana agora chorava sem conseguir parar.
"E depois você chegou perto de mim e falou..."
Ela fechou os olhos.
Rafael segurou sua mão.
"O quê?"
Mariana abriu os olhos e encarou Teresa.
"Você não sabe do que esta família é capaz."
Silêncio.
Rafael deixou a mão da esposa.
Levantou-se.
Devagar.
Teresa percebeu a mudança no rosto do filho.
"Rafael."
Ele caminhou até ela.
"Você ameaçou tirar meu filho da mãe dele?"
"Eu tentei impedir uma tragédia."
"Você ameaçou minha esposa?"
"Ela não é inocente."
"Responde."
Teresa ergueu o queixo.
"Eu fiz o que precisava fazer para proteger você."
Foi a pior resposta possível.
Rafael ficou alguns segundos sem falar.
Quando abriu a boca, sua voz estava baixa.
"Vai embora."
Teresa piscou.
"O quê?"
"Vai embora da minha casa."
"Rafael."
"Agora."
"Você está emocional."
"Eu estou olhando para uma mulher que feriu minha esposa e ameaçou meu filho."
"Eu sou sua mãe."
"Então deveria ter sido a primeira pessoa a protegê-los."
Teresa ficou vermelha.
"Você vai escolher essa mulher contra mim?"
Rafael apontou para a porta.
"Eu estou escolhendo minha família."
Teresa riu, amarga.
"Sua família?"
"Saia."
"Depois de tudo que eu fiz por você?"
"Saia."
Teresa ficou parada.
Rafael deu outro passo.
"Se você não sair, eu chamo a polícia."
A frase atingiu Teresa como um tapa.
Ela pegou a bolsa.
"Você está cometendo o maior erro da sua vida."
Rafael não respondeu.
Teresa saiu do quarto.
Os passos dela ecoaram pelo corredor.
Rafael fechou os olhos por um instante.
Atrás dele, Mariana continuava chorando.
Ele queria ir até ela.
Queria pedir perdão.
Queria levá-la imediatamente ao hospital.
Mas antes que pudesse se mover, Teresa parou na entrada da sala.
Rafael ouviu o silêncio.
Depois, a voz da mãe.
Fria.
Controlada.
"Antes de me expulsar… pergunte à sua esposa se esse filho é realmente seu."
Rafael ficou imóvel.
Mariana parou de chorar.
Teresa virou lentamente o rosto.
E sorriu.
"Pergunte a ela, Rafael."
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